sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Rapidinhas no MaDame: Mesmo que nada der certo ( Can a song save your life?/ Begin Again ) - 2014

Rapidinhas no MaDame:
Porque o que importa é o prazer da Cinefilia






Sobre a história:  Dan (Mark Ruffalo) é um produtor musical em decadência e Gretta(Keira Knightley) é uma jovem compositora que acabou de terminar o relacionamento com Dave Kohl (o cantor Adam Levine), um astro do rock. Desacreditados na vida e vivenciado um momento perdedor, após um encontro no  pub, Gretta e Dan iniciam uma parceria musical  assim como uma bela amizade com a  transformação de suas vidas.

Opinião Geral sobre o filme: Dirigido pelo irlandês John Carney, conhecido por Apenas uma vez (Once), o longa é uma agradável comédia que nos leva à uma viagem musical com pegada cool de cinema independente e um humor com muita leveza e frescor.  É o tipo de filme que tem um roteiro maduro e muito bem estruturado, começando pela ideia original, passando por uma gama de personagens que contribuem para uma história coesa e bacana e terminando com um desenvolvimento redondo de uma narrativa que fala com as músicas e através das experiências das mudanças das pessoas. O consistente Mark Ruffalo é o típico perdedor que a indústria musical não valoriza mais e que tem um excelente background e um tino de ver o negócio além do comercial. Separado da mulher Miriam (Catherine Keener) e distante da filha Violet (Hailee Steinfeld), seu personagem é a exata mistura do drama e da comédia. Em uma atuação perfeitamente graciosa, Keira é a alma por trás das músicas e ao sair da sombra do ex-namorado tem a chance de fazer seu som e expor seu talento. Seu amigo Steve (James Corden) é outro músico estilo loser que terá uma chance. Com esse excelente e experiente elenco em filmes com estilo independente, o longa é uma das comédias mais bacanas lançadas nos últimos tempos e nos embala como uma gostosa canção.


O desprazer:  Não há, por incrível que pareça. O filme é totalmente aderente ao que se propõe a fazer e é cativante.

Por que vale a rapidinha? Pela originalidade do roteiro, pela atmosfera mais cool e real do Cinema independente, pela química no trabalho entre Keira  Knightley e Mark Ruffalo e por não tomar um rumo óbvio no desfecho.





Ficha técnica ImDB Mesmo que nada der certo

Rapidinhas no MaDame : A minha casa caiu (Walk of Shame) - 2014

Rapidinhas no MaDame:
Porque o que importa é o prazer da Cinefilia






Sobre a história:  Meghan (Elizabeth Banks) é jornalista de uma emissora local e é uma mulher comum, de poucos amigos e dedicada aos estudos e ao noivo.  Cansada do emprego atual, sua meta é conseguir o cargo de âncora em uma grande emissora. Após um dia de decepções, cai na balada, conhece Gordon (James Marsden) e começa sua jornada como  a "garota do vestido amarelo", que trará situações divertidas e uma nova postura perante sua vida e carreira.

Opinião Geral sobre o filme:  É uma boa comédia com protagonista feminina de meia-idade e se destaca pelo roteiro ágil de ação no qual Meghan percorre a cidade em uma jornada que a ajudará a se conhecer,  livre de padrões de boa mocinha e do certo e errado. Elizabeth Banks não é mais uma jovenzinha e nem representa o papel romântico das comédias, o que torna o filme menos previsível e mais voltado a uma mulher mais vivida, em transformação. Ela atua de uma maneira leve e sem forçar ao extremo o humor, além disso é carismática.

O desprazer:  Um pouco mais de romance com o bonitão James Marsden não seria nada mau.


Por que vale a rapidinha?  Elizabeth Banks faz uma boa atuação para quem não é famosa e familiarizada com tantas comédias no currículo. Ela não é uma atriz afetada pelo glamour e fama, está em plena forma no auge dos seus 40 anos e tem uma veia cômica que já tinha sido demonstrada em Jogos Vorazes. 







Ficha técnica ImDB A minha casa caiu

Mostra 2014: A ilha dos milharais (Simindis kundzuli / Corn Island) - 2014






Nos últimos anos a produção cinematográfica internacional tem revelado bons diretores durante a Mostra que capturam um olhar cinematográfico contemplativo na direção e muito associado a uma excepcional fotografia. Andreï Konchalovsky e o seu híbrido de ficção e documentário Cartas brancas de um carteiro e George Ovashvili, a mais recente revelação da República da Geórgia com a sua lírica obra prima A ilha dos milharais (Corn Island), realizaram primorosas direções com a fotografia e a natureza como parte do ciclo da vida. Seu elenco usa poucas palavras e a magnífica narrativa visual se encarrega de contar a história. 


Ilha dos Milharais é o segundo longa metragem de Ovashvili  e chega ao público com muita sofisticação e um autêntico Cinema Arte, fazendo jus ao berço do Cinema Russo e às referências de Eisenstein na construção de uma filme como expressão artística e com essencial montagem. O minimalista longa é a representação atemporal da criação e destruição da vida, que é feita de ciclos tanto da natureza como do homem. A história ocorre no Rio Enguri, fronteira entre Geórgia e a República separatista de Abecásia. Toda primavera o Rio leva o solo fértil do Cáucaso à essa região formando pequenas ilhas. Um idoso agricultor (o ator Turco  Illyas Salman) começa a construir uma casa e cultivar milho em uma ilha. Acompanhado da jovem neta  (Mariam Buturishvili) que o ajuda e representa o despertar da juventude ,  a narrativa é toda construída visualmente com um trabalho fantástico de movimentação de câmera que flui em sua plenitude e rigor técnico, age como protagonista ora se distanciando ora se aproximando como a singela e suave natureza, desta forma, levando o público a acompanhar a criação desse lar. Muito além do que a casa construída, Ovashvili enquadra planos de uma expressiva força narrativa com uso de uma fotografia que revela um novo começo para essa família.


Por ter uma característica muito visual, o filme exige uma maturidade expressiva dos atores e, nesse aspecto, o impacto  dos personagens é  muito positivo, principalmente considerando que o primeiro diálogo se dá aos 20 minutos de projeção e o outro somente em quase 1 hora.   Um filme com alicerces em uma narrativa muito mais visual exige bons atores. Salman tem a dedicação, seriedade, as poucas palavras e as marcas do sofrimento em seu rosto. Buturishvili tem uma excelente performance porque sua beleza é virginal, intocada, prestes a despertar para a vida. Ao mesmo tempo, tem uma atuação dramática com forte expressividade na fotogenia, afinal sua juventude está ali ligada ao silêncio das águas e do próprio avó.  Olhares e gestos são absorvidos pela tela grande e a fotografia mais uma vez com a câmera a revelar seus esforços, como comem, como dormem, como se banham, a vida ali está. Apesar dos silêncios prolongados, a direção é tão competente que palavras não são necessárias e nisso está muito da beleza dessa joia rara do Cinema atual.






O diretor também assina o roteiro e agrega ao longa a tensão histórica da região de forma muito inteligente e perspicaz sem afastar a narrativa de seu efeito contemplativo e sereno. Abecásia declarou independência após a guerra civil (1992-1993) e no longa surgem manifestações desse conflito. Personagens coadjuvantes aparecem como uma forma de indicar ao público que ali há uma referência histórica e levar à reflexão do porquê construir uma casa em uma zona de conflito, em uma terra sem documento, em transição e dividida entre inimigos.  Essa metáfora da construção de um lar por um velho e uma jovem nessa região é genial e coopera para refletir sobre a transitoriedade das coisas, dos direitos à terra e finalmente sobre o ciclo da vida. O velho homem e sua jovem neta vivem como se estivessem em um território neutro, abertos a dar atenção a Georgianos e Abecásianos, tornando tudo mais belo na proposta. Mais ao final, em um dos momentos mais brilhantes e sensíveis do filme, o diretor cria uma metáfora incrível sobre esse processo unindo os protagonistas e  toda a natureza circundante em uma poderosa representação poética da força da imagem cinematográfica e sua magnífica capacidade de conexão com o homem. Sublime!




Ficha técnica do filme ImDB A ilha dos milharais


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Mostra 2014 : A Luneta do Tempo (2014)







O cantor e compositor Alceu Valença estreia na direção de Cinema com A Luneta do Tempo, um drama musical com diversas referências culturais Brasileiras como o cangaço, a literatura de cordel,  a música nordestina, o circo itinerante etc. Filmado no Agreste Pernambucano, o longa traz  Irandhir Santos e Hermila Guedes, dois dos melhores atores da atual safra do Cinema Brasileiro como o casal icônico de cangaceiros  Lampião Virgulino e Maria Bonita e agrega um elenco bastante regional com atores e figurantes locais que contribuem para compor uma bela e autêntica homenagem ao Nordeste e sua importância cultural para o Brasil.


A narrativa ocorre em uma cidadezinha chamada São Bento e seus arredores com estradinhas de terra e vegetação seca, típicas da região. Ela tem diferentes tempos narrativos, mesclando passado, presente e  um tipo de purgatório  que juntos nos levam a essa atmosfera onírica. Seu início indica que assisti-lo será como  ler um fábula, um livro de ficção ou histórias com poesia e cordel. No roteiro, a história não é centrada em Lampião e Maria Bonita embora beba da fonte da sua influência. Com diferentes planos que misturam a rixa entre a polícia do General Antero e os cangaceiros liderados por Lampião e seu amigo Severino Brilhante (Evair Bahia), a narrativa cria uma especie de faroeste do Cangaço no qual essa tensão permeia os outros conflitos e desdobramentos da história e inclui um elenco  grande com destaque para o ator coadjuvante Tito Lívio (como poeta Severino Castilho) e a especial participação de Alceu Valença como o palhaço Véio Quiabo que ilumina a tela com sua maravilhosa presença no circo.


O projeto cinematográfico de Alceu Valença demorou bastante para ser realizado e o resultado é positivo considerando sua ousadia autoral, o tipo de narrativa selecionada e os desafios para a montagem, a mistura das linguagens da imagem com a música e a Literatura de cordel e principalmente a sua falta de experiência. Ele se saiu bem e nos entrega um trabalho com lirismo e expressiva riqueza linguística, principalmente com o uso marcante do cordel que traz emoção e lirismo à narrativa. Nesse sentido, seu filme deve ser prestigiado pelos seus aspectos de subversão às narrativas mais padronizadas do Cinema e a utilização de poesia rimada e música regional. Também é uma boa oportunidade para ver a versatilidade do ator Irandhir Santos. 



Por outro lado, o expectador mais experiente e exigente  estranhará como a narrativa foi dirigida e todas as dificuldades de direção e montagem que ela traz, principalmente o uso exagerado de fade outs que  impactam na qualidade final da transição entre planos. Há situações nas quais um roteiro mais convencional, uma montagem mais fluída ou uma acentuada virada dramática seria a saída mais fácil para um diretor experiente. No geral, Alceu pode ser considerado como um diretor e roteirista muito corajoso em sua primeira aventura na direção cinematográfica, exatamente por causa do roteiro e da edição assim como na escolha por uma narrativa audaciosa impregnada de fusões linguísticas com música, teatro, poesia, ficção etc. Todos esses aspectos técnicos e desafios narrativos provocam vulnerabilidades ao longo do longa.


Não podemos esquecer que Alceu é um grande poeta e entende de sua cultura, certamente isso o ajudou na escolha por um drama musical apoiado na música e poesia. Ele é uma artista completo e autêntico, logo seu filme é como um presente  para o público sem aquela pretensão de ser o cineasta, além disso quem tiver origem ou família nordestina ou admirar essa cultura tão linda se identificará bastante com o lugarejo, o sotaque e todas as delícias de amar o Nordeste.  A Luneta do Tempo tem uma característica muito regional e lírica de valorização dessas referências e vai além dos personagens de Lampião e Maria Bonita, trabalhando com planos que expõem comportamentos enraizados que ajudam a dar leveza e humor ao longa como os amores, os ciúmes, as traições, a vingança, o linguajar espontâneo, as artes circenses, a religiosidade e a simplicidade do povo. Esses traços marcantes do filme o tornam uma experiência única e uma celebração ao trabalho de Alceu Valença e sua essencial contribuição à Cultura Brasileira. 












Mostra 2014: Snow in Paradise ( 2014)








Baseado em história verídica de Martin Askew, um  delinquente viciado e envolvido em tráfico de drogas que cresceu nas ruas de Londres, Snow in Paradise é o primeiro longa de Andrew Hulme, conhecido como montador de filmes como Xeque-Mate e Um homem misterioso. Desta vez ele decidiu se arriscar em um drama sobre  redenção e assina o roteiro com Martin Askew. Dave (Frederick Schmidt) é um homem solitário que trabalha para o crime organizado. Orfão de pai e sem estrutura familiar, ele é tratado como uma propriedade pelo Tio Jimmy, o brutal chefão do narcotráfico interpretado  por Martin Askew.  O único e mais verdadeiro vínculo de Dave é seu amigo paquistanês Tariq (Aymen Hamdouchi), um rapper e seguidor do Islã.



Dave é o típico cara louco que poderia estar em  melhor situação mas que tomou o rumo do crime organizado. Tem um comportamento muito fechado em si e viciado em muita droga. Sua rotina é cheirar muito pó e fumar entorpecentes pesados. Mesmo sendo bonito, ele é um solitário e se envolve friamente com Therese (Claire-Louise Cordwell), uma mulher vulgar e sem atrativos. Toda essa composição do personagem o torna um homem perturbado e com uma vida encarcerada pela autoridade e chantagens do Tio Jimmy. Até mesmo o amigo do seu pai, Micky (David Spinx) tenta persuadí-lo a mudar de lado, logo Dave tem uma vida de cão, enclausurada no submundo do crime com essas influências de homens poderosos.  Sua jornada começa a ficar dramática quando ele perde o seu amigo Tariq em circunstâncias misteriosas e é lançado em em uma espiral de decadência física e moral com muito arrependimento.


O filme é bem intencionado ao abordar uma jornada autodestrutiva  e criar uma atmosfera obscura e claustrofóbica e um personagem obscuro e desprovido de valores familiares. De cara, é possível perceber que o diretor quis criar essa narrativa perturbadora de quem se destrói pouco a pouco. A direção preocupa-se  em não dar tanta linearidade à narrativa  e intercalar diálogos entre personagens com a colagem de planos com Dave sob efeito de drogas, incluindo nela momentos de delírio, sonho, pesadelo. Apesar dessas escolhas e de ter um protagonista com potencial para aprofundamento do personagem, o filme não tem um bom roteiro a ponto de apreender a atenção e/ou comover pela redenção. Frederick Schmidt faz um bom trabalho dentro do possível, dando a impressão que poderia ser melhor dirigido.  Quem melhor contracena com ele é David Spinx que é um personagem fundamental para a catarse do protagonista. Também faltou explorar melhor os personagens coadjuvantes que poderiam tornar a narrativa mais dinâmica e contribuir para que o protagonista pudesse crescer mais na história. Considerando que essa é a primeira experiência de Andrew Hulme como diretor de longas, é natural que haja lacunas de direção e roteiro e que elas sejam sanadas com as novas produções.


Snow in Paradise é como um filme de um homem só que não age e não se posiciona em boa parte da projeção. Dave é um jovem anestesiado pelos entorpecentes e controlado pelo crime organizado. A catarse leva tempo.  Quando ele chega ao limite, o roteiro fica mais interessante. A história somente começa a fazer mais sentido quando ele visita uma mesquita e encontra alguma paz. A religião não é imposta e serve como uma reflexão rumo à redenção, fechando com um belo plano final que é a melhor parte do longa como metáfora dessa libertação. 




Ficha  técnica do filme ImDB Snow in paradise



quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Mostra 2014 : As maravilhas ( LE MERAVIGLIE / The Wonders ) - 2014







Vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes, As maravilhas é o segundo longa de ficção de Alice Rohrwacher em uma colaboração com produtores da Itália, Suiça e  Alemanha e resgata a tradição das famílias de fazendeiros locais da Itália e a cultura Etrusca. A narrativa tem uma mistura de fábula com realismo e apresenta a história de uma família de apicultores  que convive com a forma tradicional  do estilo de vida local x as novas possibilidades de vivenciar as experiências mais  contemporâneas como ganhar um prêmio em um programa de TV, realizar uma viagem e aproveitar chances de ganhar dinheiro mais fácil. É uma família peculiar com características disfuncionais, composta pelo rígido pai de origem alemã ( Sam Louwyck), a mãe Angélica (Alba Rohrwacher), a filha primogênita Gelsomina  (Maria Alexandra Lungu), a filha do meio Marinella (Agnese Graziani), duas filhas menores e a tia Cocò (Sabine Timoteo). 


O longa expõe os esforços da família para trabalhar e sobreviver com a produção de mel e é muito realista na maneira como foi dirigido. É como pegar a câmera, tornar o roteiro o menos planejado possível e observar a rigidez do pai ao colocar todas as filhas para trabalhar, principalmente Gelsomina que é a cabeça da casa apesar da pouca idade. Ela é a representação da jovem que não teve a infância desejada. Ela continua trabalhando na adolescência em um esforço arriscado e duro como o de trabalhar no meio de abelhas e ser picada a qualquer momento. Com a ótima atuação de Louwyck, seu pai é um homem trabalhador para o qual o trabalho é a prioridade número 1. Ele confia integralmente em Gesolmina o que evidencia o peso da responsabilidade imposto sob ela. Ele também tem dificuldades de comunicação adequada com os filhos, tanto que em uma das cenas mais interessantes e na qual ele tem uma exposição midiática, fica evidente seu próprio drama pessoal de ser um homem das antigas, não acostumado à nova postura exigida pelo mundo contemporâneo.   





O contraponto entre  Gesolmina que desperta em si o desejo de realizar suas próprias vontades  e o seu tradicional pai  aprofunda um pouco mais a história e a dramaturgia dos personagens. Consequentemente, esse filme é muito bonito na proposta da jovem protagonista. Ela é como uma heroína juvenil que precisa ter um sonho, tentar realizá-lo e voltar as origens. O longa revela como ela é uma garota comum e mais tímida, mas capaz de liderar o negócio da família e ser confiável. Em  muitas cenas, ela é solicitada como uma pessoa que decide e com a qual o pai se importa. A inclusão de um prêmio de TV chamado "País das maravilhas" traz mais dinamismo à narrativa e tira Gesolmina de sua zona de conforto. É possível sonhar ao ver os cabelos de fada e beleza da apresentadora Milly (Monica Belucci). É possível sonhar ao arriscar-se em uma premiação que pode tirá-la dali. É possível sonhar ao  ver uma chance de ganhar um dinheiro adicional e melhorar o negócio da família. 



Apesar de que há uma atmosfera triste, quase trágica em seu dia a dia pois revela a sua juventude solitária sob as rédeas de muito trabalho e responsabilidades,  Gesolmina é uma protagonista que reacende o sonho e as metáforas emblemáticas em cena como, por exemplo,  a sua relação com as abelhas capazes de dar-lhe o sustento, de picá-la e de caminhar em seu rosto como uma poesia visual. Assim, o filme nos apresenta essa fábula interiorana com seus momentos líricos e realistas, com uma jovem que tem nome nascido no Cinema Italiano da saudosa Giulietta Masiva. As cenas são possibilidades de entrar no mundo de Gesolmina e se perguntar : será que existe um país das maravilhas? Onde estão nossas verdadeiras maravilhas?





Ficha técnica do filme ImDB As Maravilhas




Mostra 2014 : Retorno a Ítaca ( Return to Ithaca ) - 2014









Um dos melhores filme da Mostra é  Retorno a Ítaca do diretor Laurent Cantet, ganhador da Palma de Ouro em Cannes com Entre os Muros da Escola. O longa é narrado em espanhol e é realizado em Cuba quando um grupo de antigos amigos se reúne após o retorno do exílio de Amadeo (Néstor Jiménez), que viveu 16 anos na Espanha. Com uma narrativa baseada em um longo bate papo que se desenvolve entre a comédia e o drama, a história reacende memórias dolorosas, frustrações e realidades da atual Cuba. O roteiro destaca um excelente texto que mimetiza as experiências nostálgicas e a desilusão da geração Cubana dos anos 60 a 70.



O longa é um precioso achado que entrelaça como as individualidades e a história política e social de Cuba se aproximam e se rechaçam, porém não é um filme político e está longe de levantar bandeiras. Acima de tudo, esse filme é muito pessoal sob a perspectiva de que a desilusão é evidente e os rumos dos amigos foram diferentes. Eles seguiram vivendo com as dores e os amores de estar em Cuba ou estar em um exílio. Apesar das frustrações e das dificuldades, há uma energia que os une nesse encontro e que simboliza a experiência de vivenciar Cuba na qual os laços entre os amigos foram mantidos. Esse approach do filme não o torna um filme pessimista; ainda que as histórias sejam tristes e frustrantes, elas são contadas com uma leveza cômica e também dramática. O roteiro é envolvente e os atores têm o talento de atuar como homens e mulheres comuns, podendo representar qualquer um de sua geração.


O longa é uma bela, comovente e espontânea conversa entre amigos e tem o primor da direção  objetiva de Laurent Cantet que filma em um tempo narrativo muito bem articulado entre as longas tomadas e os cortes, inclusive usando um trabalho excepcional de duas câmeras, uma montagem coesa e um competente bom senso de dirigir atores locais e experientes sem intervir muito na naturalidade das emoções. Outro destaque é a escolha de locação e planos da periferia de Cuba. Mesmo que a narrativa não circule muito no espaço, a escolha ressalta o aspecto de pobreza e decadência do país.






Com relação ao elenco, ele é fantástico. São atores que transitam muito bem entre o drama e a comédia das experiências vividas, com destaque para Isabel Santos que é uma médica frustrada e solitária, que vive distante dos filhos. Em uma das cenas mais sensíveis, ao falar sobre os filhos, fica claro que ela é uma excelente atriz e foi fundamental para dar um toque diferenciado de uma personagem feminina entre amigos homens. Não menos importantes são as atuações masculinas que evidenciam que há uma trabalho de desenvolvimento de personagens muito claro  e crível. Cada um tem um drama que destaca um aspecto da antiga e atual Cuba: Amadeo ( Nestor Jimenez) voltou do exílio, era um escritor e teve que lidar com as escolhas e as perdas, Eddy (Jorge Perugorría, em excelente atuação) é  o sujeito bem vestido, com  Iphone e viajado, tem  um trabalho duvidoso, provavelmente corrupto mas é  o cara divertido, legal, Aldo (Pedro Julio Díaz Ferran) é um engenheiro negro que hoje vive de trabalho clandestino e tem um filho adolescente, Rafa (Fernando Hechevarria) é o pintor ex-alcoólatra que não conseguiu desenvolver mais seus trabalhos. Através deles e de suas particularidades, o longa é um primoroso trabalho em como desenvolver personagens em um roteiro ágil e bem estruturado.



Com todos esses bons predicativos e  roteiro assinado pelo ótimo romancista Leonardo Padura, o longa representa como fazer cinema na maneira mais espontânea e sincera que há: contar histórias verdadeiras sobre pessoas e como essas histórias ficam na memória de quem conta e de quem ouve e vê. Ao acompanhar a conversa entre os amigos, a melhor memória será a de que a vida segue apesar de todas as desilusões.






Ficha técnica do filme  IMDB Retorno a Ítaca

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Mostra 2014 : Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência (A Pigeon sat on a branch reflecting on existence ) - 2014







Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, o filme de Roy Andersson tem um nome estranho assim como estranha é a vida do ser humano e suas contradições. Com uma narrativa composta por fragmentos que narram cenas cômicas e excêntricas, o filme é realizado com um apelo de sonho e fantasia, tem personagens esquisitos com um abordagem de non sense nos diálogos.  O longa é como rir do nosso próprio drama, da arrogância à solidão os fragmentos formam uma estranha dramédia que mostra os dramas da condição humana.


Como personagens principais há dois vendedores de artigos engraçados como dentes de vampiro, saco de risada etc . Eles permanecem com  a mesma expressão como estatuas falantes e comediantes ligados no piloto automático. Eles aparecem várias vezes em cena com os mesmos objetivos: vender os artefato,  receber o dinheiro devido e fazer as pessoas rir.  Todo esse processo na construção dos personagens é muito interessante ao evocar a apatia e a repetição do ato de vender e pode ser facilmente relacionado à rotina diária,  a frustração com o trabalho, a falta de dinheiro e como tudo isso tem a grande capacidade de cansar o mais bem intencionado dos indivíduos .  Os personagens transmitem o lado cômico e trágico de quão cansados, desesperançados e apáticos também podemos ser. 


O filme tem um visual peculiar que lembra vagamente os filmes de Wes Anderson, porém com uma palheta de cores mais fria que dá uma sensação melancólica. A narrativa começa muito bem com situações que provocam mais o riso e despertam mais os ânimos, porém tende a falhar  ao perder esse ritmo cômico e o tempo da narrativa é comprometido com uma extensão de duração sem qualquer necessidade e com menos criatividade. Com relação ao humor, ele é catalisado de uma maneira indireta com sugestões engraçadas que chegam a ser absurdas.  Essa técnica do absurdo é  uma estratégia narrativa que permeia todo o filme e gera o riso e a pena. Com isso o diretor nos apresenta um mundo que funde presente, passado e futuro e nossas banalidades cotidianas. 

Em linhas gerais, o longa é polarizante e não agradará a todos mas, com certeza, é original em comparação às demais produções e, portanto, merece ser encarado como uma experiência cinematográfica excêntrica. 






Mostra 2014 : Dois dias, uma noite (Deux jours, une nuit ) - 2014







Os irmãos Dardenne estão de volta  com mais um drama social, Dois dias uma noite (Two days one night) , estrelado pela competente Marion Cotillard , um dos filmes indicados à Palma de Ouro no Festival de Cannes e vencedor do Grand Prix  do ICS de Cannes. Os diretores são bem conhecidos e  aclamados em Cannes e ganharam o mesmo prêmio com outra crônica dramática, o Garoto da Bicicleta (2011).  Nesse novo filme,  uma delicada temática  sobre trabalho relacionada a conflitos de interesses, desemprego, depressão e diferentes escolhas está posta em jogo e confere ao drama um clima de incômodo geral na atual situação de Sandra (Cotillard), mãe de família e principal arrimo de casa. Após ter uma depressão severa, ela deseja voltar ao trabalho, porém o seu chefe opta por propor o seguinte: para ela voltar, terá que haver uma votação entre os colegas de trabalho no qual decidirão se preferem ganhar o bônus ou  dispensar Sandra. Não é possível reintegrá-la ao quadro de funcionários e também dar bônus à equipe.



Essa escolha do roteiro é muito atual e pertinente para acender a pólvora da bomba das relações de trabalho na Europa. Ele tem a complexidade de colocar as pessoas em conflitos de interesses nevrálgicos, afinal todos precisam de dinheiro para sobreviver. Como sempre, os Dardenne sabem articular um argumento e uma direção muito realista, dramática e comovente sem cair na caricatura ou no exagero sentimental. Todo o roteiro se desenrola de uma maneira natural à medida que Sandra praticamente bate de porta em porta para influenciar os colegas a votar favoravelmente nela na segunda e última votação. Essa personagem tão vulnerável tem o desafio de abrir mão do seu orgulho e sentimento de humilhação e baixa autoestima, ainda que os sinta, além disso tem que lidar com suas recaídas diárias e dependência de antidepressivos para aguentar o peso psicológico da pressão. A situação dela é muito complicada e ela foi jogada na  votação imposta pelo empregador: a de ser como uma réu a ser sentenciada, além do mais tem que lidar com um inimigo muito maior: o dinheiro no bolso dos colegas.


Na verdade,  o longa detona uma profunda análise sobre o desemprego sem precisar detalhar uma narrativa com várias situações pois basta observar como os colegas de trabalho de Sandra reagem à problemática. Aqui está em jogo como o ser humano reage à um conflito de interesse e o dinheiro é um fator que pesa porque as pessoas gostam de dinheiro e precisam dele. Por outro lado, é enriquecedor perceber que haverá pessoas que serão solidárias, outras nem tanto e outras que realmente não podem abrir mão do bônus. O expectador testemunha essa jornada de Sandra e é inevitável não sentir na pele o drama da protagonista pois a realidade de um mercado de trabalho competitivo e que descarta pessoas sempre que necessário está aí para contar a história.


É um filme que merece ser assistido como um experimento social. É  como um laboratório do cotidiano, na qual Marion tem uma grande responsabilidade de humanizar essa personagem e fazê-la lutar por um emprego da pior forma possível: seu emprego em troca de um bônus para terceiros, além disso ela tem que transmitir que está curada e é capaz de ter uma segunda chance. A problemática chega a ser inusitada e humilhante, porém na prática ela evoca que os empregadores também têm escolhas similares e realizam desligamentos ou movimentações de pessoal por questões que esbarram no financeiro. Eles são racionais e ponto. Até mesmo o expectador ficaria em dúvida se votaria favorável ou não à Sandra. É como se todos estivessem no mesmo barco e o empregador somente jogou a decisão final para terceiros.


Marion Cottilard realiza um trabalho de atuação consistente e maduro e é a prova de uma das melhores atrizes europeias para dramas contemporâneos. Seu trabalho é uma evolução da qualidade dramática que ela já apresentou em Ferrugem e Osso (2012) de Jacques Audiard. Visitar cada um dos colegas e lidar com agressividade, descaso, solidariedade e outros comportamentos foi o melhor desafio de seu personagem pois a atriz tinha que manter uma coerência entre a vulnerabilidade de Sandra e sua força de recomeçar a vida após episódios depressivos. Convém mencionar que, normalmente há um preconceito velado no mercado de trabalho (e entre colegas) sobre funcionários que sofreram problemas psiquiátricos e precisam dar continuidade às suas carreiras. Nem todos expressam isso mas ela existe porque a sociedade não está preparada para entender e lidar com a depressão. Nesse filme, isso não é tão visivelmente retratado mas é inferido em como Sandra tem que fazer valer que é a melhor opção, não por piedade mas porque é competente e é capaz de dar a volta por cima.   


Com todo esse retrato do desemprego e da necessidade financeira das famílias na Europa, o longa se destaca entre uma das melhores produções contemporâneas sobre os efeitos colaterais da crise do trabalho e, portanto, mostra um Cinema Dardenniano engajado em crônicas sociais de qualidade sobre a condição humana. 



Ficha técnica do filme ImDB Dois dias, uma noite







Mostra 2014: Queen and Country (2014)





Queen & Country é  a sequência de Esperança e Glória (1987), ambos de John Boorman. No novo filme, Bill Roham  (Callum Turner) e seu amigo Percy HapGood (Caleb Landry Jones) ingressam no exército no florescer de suas juventudes e em uma época na qual os soldados estão sendo preparados e convocados para a Guerra da Coréia. Esse novo cenário histórico e a rigidez imposta pelo exército entram em choque com o despertar dos desejos e esperanças e as possibilidades de ter uma vida mais próxima à família e ao amor.


Por trás das formalidades do exército, Bill e Percy representam a lealdade e a amizade e também a imaturidade e a ingenuidade dos jovens recém recrutados para um treinamento de guerra. O propósito do filme não é explorar o lado denso, obscuro e visivelmente pesado da guerra mas trabalhar nas entrelinhas e ser mais bem sucedido em criar uma narrativa bem humorada com toques de dramédia, trabalhando  com subtemas que envolvem a juventude dos soldados e como ela é interrompida com as obrigações de guerra. O público poderá observar questões como  amores e experiências sexuais, desilusões e rejeições amorosas, impulsividade e pequenos delitos, não aceitação de regras rígidas e   de  comportamentos arrogantes de chefes, entre outros.  No roteiro, as situações se alternam entre o drama e a comédia, chegando a ter momentos de ridicularização como o roubo de um objeto que trará consequências diretas e indiretas para os dois jovens. 


Mesmo que seja um filme masculino com boas aparições de David Thewlis, Richard Grant, Bryan O'Byrne e  David Hayman, que atuam em personagens patriarcais ou de poder  e autoridade, um dos aspectos de destaque é observar que as mulheres do longa têm uma função narrativa muito válida em momentos dramáticos, compõem tipos de mulheres bem diferentes que giram em torno dos jovens, entrelaçam a eles os papeis que elas têm ou terão em suas vidas e suavizam mais o filme com esse toque feminino . A começar pela bela e trágica Ophelia (Tamsin Egerton) por quem Bill se apaixona. Depois temos Dawn (Vanessa Kirby), a  irmã de Bill, espontânea e de espírito livre e Grace, a mãe de Bill (Sinéad Cusack) que tem um segredo no passado e Sophie, a enfermeira divertida e liberal (Aimee F Edwards). Todas elas representam essas mulheres de verdade e cada uma se relaciona com o amor de uma forma assim como com a desilusão e a esperança.


Queen and country é um filme tradicionalmente britânico com um ótima direção de arte e fotografia, além de um humor sarcástico. O roteiro é arriscado pois não é integralmente dramático e ainda assim sugere o drama dos jovens. É um filme bem feito mas que não tem uma narrativa envolvente; salvo os aspectos técnicos mencionados e o bom elenco, com destaque para Caleb Landry Jones, é preciso desvendá-lo, tirar proveito do que for mais válido na experiência com ele e, se for possível, ver ou rever Esperança e Glória. No geral, dá para perceber (ou no mínimo imaginar) que por trás de cada riso e de cada ato de autoritarismo, há um fundo de tragédia particular em jovens e veteranos de uma Guerra.





Ficha técnica do filme ImDB Queen e Country

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Mostra 2014: Casa Grande (2014)









Entre o primeiro plano e o último plano de Casa Grande, primeiro longa de Fellipe Barbosa, somos convidados à jornada de amadurecimento de Jean (Thales Cavalcanti), adolescente superprotegido pelos pais e que pertence a uma família de  classe média carioca com sérias dificuldades financeiras e queda do padrão de vida.  O filme é recheado de boas referências da realidade do Brasil como a diferença entre classes e a decadência  financeira  e moral de famílias de classe média que se esforçam para manter as aparências e que estão enraizados em pensamentos ultrapassados, como demonstrado pelo ótimo personagem de Marcello que interpreta Hugo, rígido e arrogante pai de Jean e marido de Sônia (Suzana Pires). 


O filme é divertido e muito acessível às plateias mas não é uma produção pasteurizada como as comédias brasileiras  produzidas no circuito comercial. Ele tem uma originalidade, a começar pela contemporaneidade do tema que une uma situação muito delicada de decadência no padrão de vida, um jovem que precisa amadurecer e questões sociais e étnicas no Brasil, portanto o filme é um achado surpreendente e muito bem dirigido. Ele acerta em como catalisa o humor das situações e a espontaneidade do cotidiano de Jean e de suas relações com a família, com os empregados e os amigos, principalmente porque o longa trabalha com um bom  e talentoso elenco, que se divide entre meninos do tradicional Colégio São Bento e atores experientes. A direção de atores se destaca como ponto forte pois equilibra essa naturalidade de intervir o menos possível em atores que não são experientes mas também dar-lhes um norte, uma direção que estabelece uma coerência com o propósito e o clima da narrativa. Cada ator tem seu próprio brilho, com destaque para a revelação Clarissa Pinheiro, que interpreta uma das empregadas.


Pode-se dizer que esse filme tem uma perspectiva de  uma moderna Casa Grande (em referência às casas grandes da história do Brasil ), não propriamente focada só em questões raciais, mas muito mais em uma mentalidade antiga de muitas pessoas da classe média alta, por exemplo, como manter as aparências e não abrir mão do poder financeiro e social.  Essa foi uma grande sacada do diretor e roteirista e, principalmente, como ele faz isso de uma forma muito leve, descontraída, divertida. Certamente, o filme tem um tom provocativo por duas questões: a primeira é porque Jean desperta para as realidades e é necessário que ele, como parte da juventude Brasileira, cresça e seja ele mesmo.  Ele começa a ter várias atitudes que demonstram que ele não pode ser mais um rapaz superprotegido, como a de namorar uma garota da periferia interpretada por Bruna Amaya e ter coragem para descobrir uma realidade diferente da sua. A segunda questão que permeia todo o filme é a decadência da família elitista. Aos poucos, a Casa Grande afunda e os vínculos e relações esmorecem. Mesmo assim, Hugo não perde a pose e nem o orgulho. Marcello Novaes faz uma excelente atuação. Para quem está acostumado com tomadas curtas da TV, no longa ele não perde o ritmo e coesão do personagem.



Casa Grande é um filme bem completo: excelente direção, roteiro e elenco e o primeiro e último planos revelam como a  imagem é poderosamente narrativa e reflexiva. O melhor dele é sua capacidade de oxigenar o Cinema Brasileiro com uma veia cômica inteligente que não deixa de falar sobre questões atuais e sérias que ocorrem no país e de inserir o público em um contexto individual e familiar. Ele é um dos melhores filmes Brasileiros produzidos nos últimos anos e demonstra que é possível expressar-se no Cinema unindo o cotidiano do Brasileiro e  uma forma de fazer cinema com frescor.




















Mostra 2014 : Sangue Azul (2014)






Sangue Azul é uma história de amor proibido, dirigido por Lírio Ferreira e filmado todo na Ilha de Fernando de Noronha. Narrado por capítulos e um epílogo e com uma forte atmosfera de lirismo e sonho, o longa é um sedutor trabalho de direção que mistura o primor técnico da fotografia de Mauro Pinheiro Jr,  a viril juventude de um nativo que retorna à sua origem (Daniel Oliveira, em boa forma física e atuação), o universo do circo e sua marcante regionalidade próxima ao povo e as belezas naturais do Nordeste.  O filme ganhou o festival do Rio como melhor filme, melhor diretor e melhor ator coadjuvante para Rômulo Braga e ganhou a melhor fotografia no Festival de Paulínia. 


A história conta sobre Pedro, agora conhecido como Zolah, o homem- bala (Daniel Oliveira) que trabalha no Circo Netuno e retorna à ilha após sua mãe (Sandra Coverloni) tê-lo entregue  quando criança aos cuidados do ilusionista Caleb (Paulo Cesar Pereio). O motivo do afastamento  foi o medo  do incesto entre Zolah e sua irmã Raquel (Caroline Abras) na infância. Com o retorno  de Zolah, o passado é vivenciado e gera efeitos dramáticos no presente. Raquel tem um companheiro, Cangulo (Rômulo Braga) e Pedro tem uma relação com Teorema (a bela Laura Ramos) além de outras escapas sexuais. 


Esse é um filme que se destaca por ter uma energia de fábula, de história contada como se fosse uma lenda pecaminosa, uma história de amor e desejo proibido. Tudo isso fica mais intenso à medida que o lugar, tão próximo à natureza selvagem e ao mar sereno e também furioso desperta essa possibilidade de viver o prazer sem muitos entraves morais, inclusive o do amor e do sexo livre.  Zolah é um jovem atrativo, de força física e corpo bonito e é capaz de facilmente despertar o desejo nas mulheres. Daniel Oliveira encarna o jovem que faria até mesmo a irmã fornicar com ele. Ele vive intensamente o prazer carnal mas, por uma grande ironia da situação, ele não pode consumir o ato sexual com a irmã.  Todo o roteiro é construído para deixar em suspenso que Zolah tem um desejo guardado e os fantasmas do passado voltam a assombrá-lo.


É um belo filme em sua essência audiovisual e como ele foi dirigido, principalmente quando Zolah se aproxima do mundo aquático de Raquel, que é mergulhadora e vive mais no mar que na terra. Essa aproximação é um dos momentos mais líricos do longa. Ter escolhido o paraíso Fernando de Noronha fez a diferença mas evocar essa liberdade do circo, do povo da região, do amor e do sonho é muito mais atraente porque o público não precisa ser moralista, por exemplo. Potencialmente o público é envolvido e pode se sensibilizar com o drama de Zolah e Raquel. O trabalho de direção é muito fundamental e bem combinado com a fotografia para sustentar a qualidade desse filme. O diretor tem um olhar bastante cinematográfico ao extrair muito mais dos enquadramentos de câmera e composição dos planos e, por isso, o roteiro dá um norte mas não é o fator essencial do filme. Além da direção, o que vale muito mais na história é o gosto pelo proibido, o sofrimento aparente, as reticências e silêncios, o amor que está acima de laços sanguíneos e suas regras. O diferencial da experiência é observar como quem ama também sofre ao não poder tocar a pele e consumir o seu amor e desejo.











Mostra 2014 : Permanência ( 2014 )






O primeiro longa de Leonardo Lacca traz a força do Cinema Pernambucano e sua ousadia em trabalhar a linguagem cinematográfica com uma forte presença da imagem que substitui as palavras, inovando mais o cenário contemporâneo do audiovisual brasileiro. Esse trabalho é como uma continuidade do curta-metragem Décimo segundo (2007) e  tem a sutileza dos silêncios, gestos e frases não ditas através de uma história bem interessante que aborda a transitoriedade das relações, sejam elas fugazes ou de longa data. O fotógrafo Ivo (Irandhir Santos)  chega à São Paulo para realizar uma exposição e se hospeda na casa da ex-namorada interpretada por Rita Carelli e que está casada com outro homem, Mauro (Silvio Restiffe). A situação é tão estranha que abala o clima e há momentos de tensão e incógnitas, desta forma, o público é convidado a observar como eles agem, como verbalizam, como se olham, entre outros.



A ideia é, no mínimo, original para o Cinema Nacional. Colocar ex-namorados e o atual marido em um mesmo plano causaria um mal estar até nas melhores famílias; porém o mais importante nesse filme é observar como as pessoas reagem através de seus silêncios e como que, de certa forma, Ivo e Rita lidam com sentimentos que deixaram um rastro de permanência que, na prática, já passou. A comunicação entre personagens do filme é muito mais dirigida através dos olhares, dos toques e dos rastros de memórias e relações não resolvidas, inclusive é muito bem acertado como o diretor seleciona bem os planos mais fechados e  outros recursos como incluir a fotografia que substituiu a narração falada quando as pessoas já não são mais capazes de dizer o que pensam e sentem, a inclusão do sexo casual e da traição como aspectos da fugacidade de momentos e também o uso de boa trilha sonora dramática que preenche os espaços quando as pessoas não conseguem se expressar ou sabem que não é possível concretizar desejos e vontades. Dentre os recursos, a trilha e o som foram excelentes escolhas e sustentam bem o efeito dramático do filme quando aparecem.





Além da sempre ótima presença de cena de Irandhir Santos,  a escolha dos atores Rita e Silvio foram boas porque ela tem o jeito de ex-namorada que se tornou amiga e não trairá o marido, por mais que demonstre vontade e seja capaz de deixar o ex abraça-la e tocá-la. É o tipo de mulher dividida que prefere segurar o desejo e essa característica de Rita dá tensão à narrativa pois a pergunta é: Quem é ela de verdade? Ela terá coragem de trair o marido ? Por que teve coragem de hospedar o ex-namorado na frente do esposo? No mínimo, ela é esquisita ou mudou muito e já não é a mesma mulher radiante da juventude. Silvio Restiffe atua com um jeito de marido sem graça, sem sex appeal, sem emoção e que, mesmo sendo boa pessoa, ele deixaria qualquer mulher entendiada no casamento. Ele é o oposto de Ivo que já tem um carga de masculinidade e safadeza implícita. 



Permanência é um filme de difícil realização por conta de que há uma complexidade dramatúrgica nos personagens que é mostrada na imagem e silenciada nos diálogos, além de trazer um tema mais universal que, com isso, enfatiza que Leonardo Lacca tem potencial para trabalhar temas da condição humana.  Após a experiência com o filme, a impressão que dá é que poderia ter havido um melhor equilíbrio no desenvolvimento dos personagens com um roteiro mais falado ou com situações mais marcantes. Por outro lado, a característica autoral do diretor e sua coragem em desenvolver um filme com essa característica agrega muito valor à plateia, que poderá perceber que  o filme é muito verdadeiro em como reagimos em situações como encontrar um ex-amor ou ter uma relação sexual sem compromisso, em como lidar com nossas memórias, emoções e contradições.  Nada é permanente e nem tudo precisa ser dito, basta a cada um de nós as lembranças e os silêncios das experiências vividas.










domingo, 26 de outubro de 2014

Mostra 2014 : As noites brancas do carteiro ( BELYE NOCHI POCHTALONA / The Postman's white nights) - 2014








Ganhador do prêmio de direção do Festival de Veneza para Andreï Konchalovsky, As noites brancas do carteiro é filmado com uma mistura de ficção com documentário e tem um carater muito peculiar e naturalista na sua produção. Relata o dia a dia do carteiro de um vilarejo no Norte da Rússia e da interação com a comunidade. O carteiro é solteiro e vive sozinho, praticamente é um ser solitário no mundo mas que, por outro lado, é a conexão do mundo com a comunidade, estabelecendo uma cordial relação com os habitantes locais.



O longa é realizado com habitantes locais e não tem um roteiro estruturado, o que lhe dá uma característica mais documental  do que ficcional. É um belo trabalho cinematográfico ao mostrar a vida de uma maneira não planejada, apenas como ela deveria ser: leve. Aqui interessa muito mais como o diretor quis enquadrar o cotidiano dos simples moradores: a mãe solteira e sua criança, o manguaça, os vizinhos, os trabalhadores do comércio. Com o carteiro, temos acesso a eles e suas rotinas. O protagonista também faz a diferença porque é um homem comum. Ele foi uma boa escolha do elenco porque é um homem simples, que parece guardar em si o ato de ajudar os outros e ser confiável. Ele chega a ser engraçado e triste e poderia ser qualquer ser humano que tem que lidar com o tédio diário, portanto o protagonista sustenta bem o filme e, sem ele, a proposta não teria o mesmo efeito. Em um dos planos mais recorrentes, ele acorda e olha para os seus chinelos. Percebe-se que esse é um ato que fazemos muitas vezes como se perguntássemos: mais um dia, o que farei  hoje?


Os planos têm a beleza da natureza bucólica, intocada e silenciosa. A qualidade da direção tem um ótimo trabalho de fotografia da natureza, principalmente quando o carteiro faz cenas em contato com o rio, nas quais é possível ver a fascinante graduação das cores e de seu efeito no audiovisual. Essa natureza testemunha esse cotidiano de solidão e ofício do carteiro mas também é a sua companheira. Tanto que, em uma das tentativas de sair do vilarejo, o carteiro retorna sem grandes motivos e sua amiga de infância Irina não se identifica mais com o local. Como uma das interpretações possíveis, o filme retrata o hábito de permanecer em uma tranquila vida em um mundo que é cada vez mais caótico e ambicioso. Estar em contato com a singela natureza do hábito, da vida em sua essência mais bruta regada a conversas descontraídas com habitantes do local  e sem os efeitos nocivos do mundo cosmopolita é um dos presentes dessa bela obra do Cinema Russo.






Ficha técnica filme ImDB As noites brancas do carteiro

Mostra 2014 : Que horas são no seu mundo? ( DAR DONYAYE TO SA’AT CHAND AST? / What's the Time in Your World?) - 2014









O Cinema Iraniano tem sido um excelente laboratório da dramaturgia audiovisual para analisar como fazer cinema de qualidade apesar da repressão à liberdade de pensamento imposta pelo regime do país.   Depois do aclamado, Uma Separação, de Asghar Farhadi, novos diretores têm se empenhado em lançar seus filmes, criando metáforas e analogias para levar o público à uma reflexão e testemunhar realidades do Irã que se refletem na vida das pessoas.


Na nova leva de diretores está Safi Yazdanian, que lança seu primeiro longa metragem Que horas são no seu mundo? e traz dois conhecidos atores do Cinema do país e que já trabalharam com Asghar Farhadi: Leila Hatami, a consagrada atriz de A Separação, e Ali  Mosaffa que atuou em O passado. Na história, ela é Goli que retorna ao Irã após viver 20 anos na França. Ele é Fahrad, um velho amigo que tem uma loja de molduras. Ela não o reconhece mas ele parece conhecê-la bem. Todo o filme trabalha com as memórias de uma mulher que deixou o Irã e retorna como se fosse uma estranha. Ela tem que lidar com a questão da identidade e, para tornar o roteiro mais interessante, Fahrad é esse homem que nunca se esqueceu dela, fato que garante belos momentos mais ao final.  Com a experiente atuação de Leila e Ali, o filme é mais uma opção para conferir como esses atores  transmitem  credibilidade e segurança ao atuar no Cinema de um país tradicional e como estão ficando mais próximos do público a cada novo longa.






Como a maioria dos filmes Iranianos que abordam o indivíduo versus sua cultura, tradição e costumes, esse é um longa que não é fácil de identificar as motivações do seu diretor principalmente na escolha de certos planos que não são lineares e parecem metáforas mais profundas sobre um tipo de Cinema que não pode dizer tudo abertamente; se por um lado, isso parece difícil para um público ocidental, por outro lado, acompanhar a trajetória de Goli é como se colocar na situação dela e analisar até que ponto o Irã simbolizaria a sua identidade atual. O desafio não é só reavivar a memória mas constituí-la com a reformulação da própria identidade com o local. Nesse aspecto, há planos que são realizados para recordar a mãe falecida, o amigo da infância, os amigos. Em alguns momentos, ela entra em choque com o que os conhecidos falam; em outros momentos, ela mesma se incomoda com lembranças das perdas ou de simplesmente ter certa obrigação de lembrar de coisas há muito tempo esquecidas.


Diferente de outros filmes de produção Iraniana com narrativa mais dramática e diálogos mais claros e de embate, esse é um filme mais contemplativo e que exige um expectador mais observador por duas razões: a primeira é a função dramatúrgica de Goli, que não deixa de ser uma mulher misteriosa para o público. Quem é essa mulher? Como foi o seu passado? O que ela pensa sobre seu país agora? São perguntas comuns a se fazer durante a projeção. Fahrad nos ajuda a compreendê-la um pouco mais e, mesmo assim, ele é um homem estranho, contido, acanhado e tem sentimentos de afeto por ela, o que também dificulta a análise. A segunda razão é a fotografia magnífica do Cinema Iraniano e como ela é composta na elaboração dos planos . Há planos que a imagem é construída de uma forma muito original e primorosa, com um trabalho de luz muito bem aplicado e uso sofisticado de duas ou mais câmeras, como por exemplo: uma cena em que está chovendo e Goli está dentro do carro conversando com outra pessoa.  




Exemplos como o mencionado  afirmam que uma das belezas desse Cinema é a utilização de locações e fotografia bem originais que levam o público ao tempo e ao espaço da narrativa com uma experiência completamente diferente. Assim como Abbas Kiarostami em Gosto de Cereja, Safi Yazdanian utilizou como diretor de fotografia Homayoun Payvar, que fez um fascinante trabalho. Quando diretores do Cinema Iraniano não podem falar tudo o que pensam, eles usam a imagem de uma forma muito mais expressiva e poderosa.





Ficha técnica do filme ImDB Que horas são no seu mundo?