quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Clube de Compras Dallas ( Dallas Buyers Club ) - 2013






Uma das melhores demonstrações de amadurecimento de um ator no Cinema é quando ele consegue inverter a visão medíocre que as pessoas tem sobre o trabalho dele(a). Sob esse aspecto, podemos dizer que Matthew McConaughey é a grata surpresa de 2013. Após Matthew ser muito conhecido por atuações em comédias românticas como  Como perder  um homem em dez dias, Armações do amor, minhas adoráveis ex-namoradas, entre outras, agora ele é o cara da vez com atuações bem mais complexas e sólidas. Fez uma ponta avassaladora em O Lobo de Wall Street como Mark Hanna na qual bastaram alguns minutos relâmpago para brilhar ao lado de Leonardo di Caprio e atua como protagonista em Clube de Compras Dallas, drama dirigido por Jean-Marc Valléé, no qual faz o papel de Ron Woodroof, um mulherengo e homofóbico eletricista e peão dos Texas que, após ter uma vida sexual muito intensa e sem uso de preservativos, contrai o vírus do HIV e luta contra a doença. Elevando a sua sobrevivência a um nível além de si mesmo, ele começa a pesquisar sobre a AIDS e funda um Clube de Compras para ajudar outros doentes a viver, batendo de frente com autoridades médicas e legais. 



O roteiro do longa é bem original. Outros filmes já trataram da luta pela sobrevivência em tempos de Aids e, principalmente abordaram preconceitos e percalços vividos por seus protagonistas, porém o roteiro coopera para que  Matthew eleve o filme à um drama ligeiramente mais visceral, muito realista e sem muitas papas nas línguas. O ator se entrega ao seu Ron e essa dedicação o torna um monstro na atuação, muito autêntico, versátil, com ritmo na atuação e senso de humor. Embora Ron seja um homem machista e homofóbico, muito coerente com uma cultura texana de homens rústicos e àquele ambiente mais brutal no qual homens participam de rodeios, bebem e pensam em sexo, ele não esconde os seus preconceitos, o que indica uma sinceridade com o público. Se no começo do longa, isso pode chocar o expectador, por outro lado, o desenvolvimento do personagem é muito bom. Ele é real, nada mascarado e, ser assim faz parte da transformação humana que a doença lhe trará. Para ele, Aids é doença de gays e, com isso, uma das belezas do filme é que ele se aproxima exatamente de quem criticou, quebrando o paradigma e convivendo com outros homossexuais. Seu personagem é forte e decidido e tem um senso de humanidade ocultado que, à medida que ele ajuda a si mesmo e outros doentes, principalmente com sua parceria e amizade com Rayon (Jared Leto), o filme cresce junto com eles e sua humanidade vai sendo revelada. Matthew arrasa de forma tão humilde e memorável que já ganhou o Globo de Ouro e o SAG de melhor ator principal e está concorrendo ao Oscar na mesma categoria.



Ao descobrir que tem AIDS, Ron tem um insight para sobreviver. Ele se recusa a aceitar a morte em 30 dias. Sua luta pela sobrevivência o mobiliza a buscar soluções autônomas. Ele se torna um tipo de 'fora da lei', por assim dizer, ao importar medicações não legalizadas nos Estados Unidos e vendê-las como um coquetel de proteínas, vitaminas etc. Ele torna a automedicação um negócio lucrativo, mas a grana aqui é o que menos importa, o mais relevante é sua ação contra o status quo. Ao fundarem um  Clube de Compras, no qual cada doente em tratamento tem a liberdade de pagar uma adesão e receber a medicação que deseja, o filme abre uma discussão  bastante controversa sobre o uso de drogas para tratar doenças sem cura. Em alguns de seus vários subtextos, é possível refletir sobre o porquê a indústria farmacêutica  pode aprovar e comercializar remédios, a classe médica pode testá-los em cobaias humanas e o indivíduo comum não pode ter a liberdade para escolher o próprio tratamento, muitas vezes se submetendo a experimentos médicos que deixam o seu sistema imunológico devastado. O contexto do filme relata pesquisas com AZT, uma medicação para tratamento de pessoas com AIDS que ainda estava em pesquisa e debilitava o organismo. Ainda que o foco do filme não seja falar diretamente como uma crítica à indústria farmacêutica e sim focar mais na jornada de Ron e seus esforços, o longa é fantástico ao discutir o tratamento em um patamar "não políticamente correto" já que a atitude de Ron como sobrevivente é muito mais nobre do que discutir se seu negócio é ilegal e seu comportamento é ilícito.


Como uma dupla maravilhosa de atores, Matthew e Jared merecem o hype que está sendo feito na época de premiações. Tidos como bons atores, mas sempre trabalhando no geral em filmes mais medianos, eles elevam Clube de Compras a um nível dos dramas bem construídos e interpretados e que vale cada minuto de exibição. Ambos são um exemplo recente do que faz um bom drama: muito mais do que sua história e direção, é a capacidade do elenco de expressar a força dramática de seus personagens e emocionar a audiência, tornar a história um espelho de uma real vivência humana por mais dolorida e desafiadora que seja. Ron não perde sua essência como o machão texano, porém aos poucos é nítido ver o afeto que ele e Rayon desenvolvem como uma amizade. A ideia de que, no final, estamos no mesmo barco e queremos só viver é o alicerce dessa dupla ainda que tenham suas diferenças. Transformar essa sobrevivência em um business não é hipócrita e egoísta, é ter a opção de buscar saídas que não favoreçam somente um ou outro e construir a vida que a doença está negando para todos. Em uma das falas mais contundentes e belas de Ron, ele diz algo como se estivesse construindo uma vida que não será capaz de viver. Essa fala simples e profunda explica muitas coisas do filme e, em especial, que só temos uma vida, podemos decidir vivê-la  mesmo quando todos já acham que estamos mortos.








Ficha técnica do ImDB

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Philomena (2013)




Stephen Frears é um ótimo cineasta britânico. Não tem como duvidar de sua virtuosa capacidade de ser prático e versátil ao filmar bons roteiros com excelentes atrizes, tanto no drama como na comédia. Em seu currículo, dirigiu Glenn Close e Michelle Pfeiffer em Ligações Perigosas, Audrey Tautou em Coisas belas e sujas, Helen Mirren em A Rainha, entre outras. No seu mais recente longa Philomena, ele nos entrega mais um exemplar de seu excelente trabalho ao dirigir uma das mulheres mais apaixonantes da Inglaterra: a magnífica Judi Dench, que interpreta Philomena, uma senhora que busca o filho perdido que lhe foi tirado há 50 anos. Para essa jornada, ela conhece o jornalista Martin Sixsmith (Steve Coogan). Considerada uma comédia dramática, o filme concorre a 4 categorias ao Oscar (melhor filme, atriz (Judi), roteiro adaptado e trilha sonora (Alexandre  Desplat)) e venceu o BAFTA de melhor roteiro adaptado.


Baseado em uma história real, Philomena é um filme singelo e igualmente poderoso. Nisso está um dos seus charmes: a capacidade de falar de uma história triste sem perder o senso de humor tipicamente britânico e a oportunidade de mostrar o moralismo religioso e social.  Stephen Frears o dirige com toda a sutilidade  que lhe é própria, porém não deixa de escancarar o quanto a sociedade é cruel nos interesses de algumas instituições como a igreja e a mídia. Embora não é o objetivo do roteiro e da direção pegar tão pesado ao falar das instituições, principalmente da igreja católica, é possível perceber como os costumes e formas de pensar rígidas  influenciaram diretamente a forma como Philomena perde o filho, a carga de pecado que ela carrega e que a silenciou por 50 anos e como ela foi punida pela rigidez de uma instituição. Sobre a mídia e a política, as menções são realizadas brevemente como, por exemplo, o interesse mais 'comercial' de uma editora na publicação da história de Philomena e o fato de um homossexual que trabalha para o partido republicano não poder divulgar abertamente sua orientação sexual. Essa forma de abordar a história com humor e drama e com um tipo de denúncia social é muito bem realizada por Stephen Frears. Ele usa seu dom de contar histórias com requinte e humanidade. Mais ao final do filme, é possível ver que tal escolha é tão elegante e permeia a história através da conduta da personagem. Philomena daria uma lição de vida até a um Santo. 


Steve Coogan é um bom ator. Seu personagem, um jornalista com experiência em jornalismo político e com o desejo de escrever um livro sobre  a História da Rússia, tem um perfil interessante para o contexto da história porque ele interpreta um homem mais racional e ferido em seu orgulho e autoestima após ser despedido da BBC .  À primeira vista, ele não deseja fazer nenhuma história de "interesse humano", chegando a ser grosseiro. Como boa parte dos jornalistas, ele é mais objetivo, focado em fazer perguntas e obter a matéria, porém com o tempo, é daqueles que ligeiramente se transformam em uma pessoa mais humanizada. Com Judi Dench, ele faz uma excelente dupla porque cada um tem o seu brilho próprio. Ele não se intimida  mediante o grandioso talento da atriz e faz a sua parte e, o melhor, Judi é uma dama tão refinada e solidária  que não ofusca Steve, que é também o produtor e o roteirista do filme.



O  que torna o longa imperdível é a atuação de Judi Dench e como ela representa a Philomena, revelando a esperança, a dor, a culpa e as dúvidas que uma mãe teria nessa situação.  Uma história, aparentemente dramática para uma mãe castigada pela ausência do filho , é muito bem humorada porque ela dá esse tom e suaviza as cenas com uma sublime simpatia. O humor de Judi é refinado e com um carisma incrível, abrindo caminho para que haja uma empatia com sua personagem e dor materna. Ela faz rir e faz chorar e nada disso se torna um dramalhão pesado. O domínio próprio dela para equilibrar tais emoções é uma habilidade somente das grandes estrelas do Cinema. O humor britânico é mais sarcástico, porém em Philomena, ele é muito bem dosado. Ele é leve e agradável porque Judi tem muita maturidade como atriz, mantém a elegância e a simplicidade, o que só ressalta como ela é uma legítima dama, dentro e fora do set. Não há como não adorá-la e, portanto, a conexão com a história de Philomena é imediata e emocionante.





Ficha técnica  no ImDB





sábado, 22 de fevereiro de 2014

Trapaça ( American Hustle) - 2013




Quando se fala em direção de Cinema, cineastas têm a influência de outros diretores em sua formação e experiência desde os anos de faculdade e/ou no início de suas Cinefilias. Se por um lado, inspirar-se no estilo de um aclamado diretor ao fazer um filme é uma escolha admirável que pode ser interpretada como uma homenagem ou um desafio pessoal, por outro lado é uma escolha arriscada que pode criar lacunas na direção, comparação entre os diretores  e uma impressão de que o filme poderia ser bem melhor e  merecia ter um estilo próprio de direção. Esse é o caso de Trapaça (American Hustle), de David O Russell, um dos concorrentes ao Oscar de melhor filme e melhor diretor e uma evidente demonstração de uma tentativa de fazer um filme Scorsesiano. Nisso reside a "faça de dois gumes" de imitar o estilo de um grande diretor, o filme é bom, bem humorado, estiloso e  David  foi corajoso, porém em comparação aos seus outros filmes e analisando o histórico de sua direção, fica a incógnita: Qual é o estilo próprio de David O Russell? Ele ainda não tem um estilo como marca pessoal do seu Cinema. Ter emulado o Cinema de Scorsese só ajudou a não dar essa resposta.


Trapaça fala sobre sobrevivência na década de 70, mas o roteiro é tão atual com relação à corrupção como ganho de propinas entre políticos e mafiosos e golpes financeiros em gente endividada, que essa é uma história contemporânea e atrativa por caber em muitos contextos. Para sobreviver, trapaças são necessárias ou não, depende de quem entra no jogo e até quando se deseja jogar.  No longa, Irving Rosenfeld (Christian Bale), casado com Rosalyn (Jennifer Lawrence), é um golpista influente que ganha direito fácil com sua charmosa e perspicaz amante Sydney Prosser (Amy Adams). Ambos vendem obras de arte falsificadas e tem um escritório de concessão de falsos empréstimos. De golpe em golpe, Irving e Sydney sobrevivem como almas gêmeas até que são pegos pelo agente do FBI, Richie DiMaso (Bradley Cooper) e são forçados a ajudá-los em ações para flagrar políticos corruptos e a  máfia em esquemas de favores políticos e ganho de propinas, um desses políticos é o prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner) .A dinâmica do filme é toda elaborada para mostrar a reviravolta que a chegada de Richie significa: de um lado, o agente do FBI tem um ego bem inflado, deseja pegar os peixes graúdos e tem certa admiração pela dupla. Richie também quer sobreviver. Por outro lado, Irving e Sydney não tem saída e vê o relacionamento amoroso abalado. Acabou-se o sossego de pequenos golpes e a bola da vez é entrar nos planos do FBI e se arriscar.


Trapaça tem o seu charme e isso é um fato que deve ser reconhecido. Além de um roteiro sobre sobrevivência e todos precisam sobreviver em um mundo cada vez mais incontrolável e corrupto, tanto que concorre ao Oscar de melhor roteiro original, muito do charme é ser influenciado pelo Cinema de Martin Scorsese e pelo bom gosto de David O Russell que soube fazer boas escolhas na direção de Arte e na trilha sonora. Com excelentes direção de Arte e o Figurino, categorias pelas quais o filme também concorre ao Oscar, Trapaça tem uma pegada irreverente e pop que possibilitam que o expectador seja transportado para os anos 70 e queira vivenciar essa icônica moda. Na trilha sonora, assim como Scorsese, ele usa bastante recursos musicais para criar uma conexão emotiva do público com os personagens em momentos mais pessoais e emblemáticos nos quais a música é o próprio personagem e tem uma função narrativa relevante, tanto que há dois em especial com o uso de grandes clássicos de Bee Gees e Wings, respectivamente, quando Jennifer Lawrence chora ao som de "How can you mend a broken heart" e limpa a cozinha ao som de "Live and let die". 


Existe outro aspecto virtuoso em Trapaça que está diretamente relacionado ao elenco de grandes estrelas,  virtude que assegura a salvação de boa parte do longa e, muito provavelmente, ajudou o cineasta a cumprir sua visão. Esses atores são fetiches de David O. Russell e já trabalharam anteriormente com ele em filmes com O Lado Bom da Vida (Robert de Niro, Bradley Cooper e Jennifer Lawrence) e O Vencedor (Christian Bale e Amy Adams). Se por um lado, as atuações são boas, com destaque para  o amadurecimento de Amy Adams,  naturalmente deslumbrante a cada cena com seu cabelo de leoa e seus seios quase à mostra,  por outro lado o mérito das atuações são mais dos atores e do quanto eles já estão acostumados a trabalhar juntos do que do diretor. Esse é um outro aspecto da "faça de dois gumes" em se trabalhar com atores em sistema de parceria porque questiona-se até que ponto o mérito é do ator ou do diretor. Aqui, é mais das atrizes que sustentam a narrativa.



É bastante  perceptível que David O . Russell poderia ter feito um trabalho excepcional de direção de atores e desenvolvido melhor os personagens. Ainda são um pouco rasos para um filme inspirado pelo estilo de Scorsese. Por mais que haja um ingrediente cômico em cada figura, o resultado das interpretações é mais de entretenimento e muito pouco dramático. De certa forma, o que frusta os mais atentos é que esses personagens tinham riqueza  e complexidade dramática para explorar suas tragédias pessoais, ainda que de forma mais bem humorada. Faltou mais de Scorsese nesse aspecto. Quando se pensa no Cinema Scorsesiano, há muito mais habilidade de direção de atores para equilibrar o cômico e o trágico, basta lembrar do Tommy Devito (Joe Pesci) em Os Bons Companheiros ou Rupert Pupkin (Robert de Niro) em O Rei da Comédia. Todos complexos e acessíveis. A Rosalyn de Jennifer Lawrence tem um pouco mais de drama cômico, seu personagem é muito interessante como uma mãe solteira, jovem e instável emocionalmente, o que a torna uma coadjuvante essencial para o crescimento da narrativa e explica o porquê ela tem sido elogiada pelo trabalho. Rosalyn dá um rumo diferente aos fatos e é a que mais se desenvolve em sua condição. Sem ela, não seria possível dinamizar e evoluir a narrativa a partir de certo ponto da fita. Com muita habilidade da atriz, há um senso de frágil humanidade em Rosalyn que a torna mais próxima do público e, portanto, fundamental à trama. Entre as melhores contribuições estão as de sua personagem e, no geral, ela e Amy Adams são as estrelas do filme.


Trapaça é bom e é uma bela homenagem à Scorsese. David O . Russell não perdeu a oportunidade de abusar da música, dos típicos movimentos de câmera e da narração em off. Ele não deixou de usar hábitos de direção de Scorsese como close ups em objetos, cena em bar na qual a câmera vai apresentando vários tipos com cortes para várias direções e falas e aquela gritaria comum que só os Scorsesianos entendem, porém, doa a quem doer, ainda está longe de ser um filme de Scorsese. Ainda que talvez essa não tenha sido a intenção do diretor, mais importante do que ser influenciado por um mestre na direção é ter o próprio estilo. David O Russell é muito competente e talentoso mas sem uma marca particular na direção, falta-lhe algo que é sua voz particular como cineasta, aquela voz que é capaz de ser reconhecida de forma atemporal e pelos que o seguem em seus filmes. Nesse aspecto, ele continua sendo uma incógnita e, portanto, deve procurar sua missão no Cinema.






Ficha no ImDB

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O Lobo de Wall Street ( The Wolf of Wall Street) - 2013




Em mais uma excepcional parceria do diretor Martin Scorsese com o seu pupilo Leonardo diCaprio, ambos também produtores do filme,  O Lobo de Wall Street é um exemplo de que não importa se a mesma história de um homem pobre que se transformou em um endinheirado corrupto se repete em Hollywood, o mais importante são as mentes brilhantes que tornam a história um novo filme que dá prazer de assistir. É o que acontece com esse, um dos concorrentes ao Oscar como melhor filme, O Lobo de Wall Street é baseado na biografia de Jordan Belfort (Leonardo diCaprio), um corretor de valores empreendedor e especulador que abriu a própria empresa em Wall Street, reuniu uma equipe interessada por dinheiro fácil e construiu seu império milionário com base em fraudes de ações. Enganou muita gente, ficou no radar do FBI e torrou muita grana com seu vício em drogas e sexo, ou seja, viveu La vida loca. Com a incrível habilidade de Scorsese como um exímio contador de histórias e a competente e madura atuação de Leonardo diCaprio, o longa é uma comédia obrigatória para quem deseja apreciar quanto talento há nessa parceria e como ainda é possível filmar uma comédia com qualidade.


Com duração de 3 horas, o que seria um problema de montagem ou de objetividade nas escolhas da direção, não é. De forma impressionante, o expectador se envolve com as três horas sem notar que o tempo passou. Embora fosse possível diminuir a projeção em meia hora, Scorsese tem um dom  muito positivo de entreter o público com personagens deslocados que tentam ganhar a vida de alguma forma e que carregam um misto de humor com violência e tragédia pessoal; portanto a figura de Jordan é uma ótima experiência para compreender o Cinema de Scorsese e, principalmente, para entender o tato que o diretor tem para fazer comédias de personagens complexos que vivem como se não houvessem arrependimentos e nem conflitos morais. A biografia do ex-corretor de valores é uma comédia de um homem ambicioso e perturbado e, como boa parte dos anti-heróis de Scorsese, o público tende a simpatizar com Jordan Belfort. Ele é um cara inspirador e engraçado que poderia ser perdoado e Leonardo diCaprio é responsável por isso através de uma atuação verosssímil, com muito vigor e necessários excessos. Sua sólida interpretação segura o filme por 3 horas, digna do tão esperado Oscar de melhor ator, DiCaprio dá conta do recado com muito fôlego. Essa é uma das virtudes do filme não ser cansativo e aborrecedor.


À medida que o roteiro evolui, há uma curiosidade natural por quem é Jordan Belfort e porquê ele é tão influente, tão carismático e um exemplo de babaca doidão. Sua vida é cheia de exageros como transar com muitas prostitutas, cheirar muito pó e gastar muito dinheiro com noitadas, porém a questão não é só essa. Ainda que haja muito sexo, drogas e palavrões no filme, o exagero nessa linguagem é intencional e a super exposição desses elementos é uma forma de expor  o comportamento extremo no personagem, levando o público a ingressar naquele mundo de excessos. Nada é suficiente para Jordan Belfort, o que é natural vindo de um homem compulsivo. Nem a bela esposa Naomi (Margot Robbie), uma loira que parece uma coelhinha da Playboy , nem os conselhos do seu pai, Max Belfort (Rob  Reiner) lhe são suficientes para ficar satisfeito com o que já tem. Quando se assiste às cenas na qual Jordan Belfort permite a mesma libertinagem sexual no escritório e incentiva os funcionários a transarem no trabalho como se estivessem entre amigos em uma despedida de solteiro, tal excesso atiça a curiosidade do expectador por quem é ele. Seu vício em sexo e em drogas chega a um limite que experimentar a droga mais pesada ou uma droga com validade expirada é como tomar uma cerveja. O absurdo chega ao cúmulo de situações bem cômicas como desejar tomar suas drogas quando seu barco está sendo destroçado por ondas na Europa ou dirigir irresponsavelmente com uma crise de paralisia no corpo, momentos hilários e imperdíveis. Desta forma, não há como não se perguntar: "Quem é esse maluco?  Por que ele age assim? Ele existe mesmo?" No geral, não há ênfase na violência física, um dos traços da filmografia de Scorsese, mas a violência se manifesta exatamente nisso: muita droga, sexo e dinheiro não deixa de ser uma forma de violência. O excesso é uma autoviolência e traz consequências, inclusive alguma redenção. 


Para a experiência narrativa do Cinema,  a característica mais interessante nesse protagonista é que Jordan Belfort age como se vivesse em um mundo muito próprio que é apresentado em 3 horas. Idealmente, o público deveria ser colocado em um dilema moral, porém ao invés de se preocupar com o que é o certo e o que é errado na conduta de Jordan e sua equipe, é mais agradável rir e conhecê-lo melhor para ver qual será o desfecho, afinal, eles são simpáticos e malucos, preocupar-se com questões morais seria perder a parte do show e nem esse é o objetivo mais importante.  Assistir Scorsese já é um exercício de Cinema e, portanto, esse é o objetivo mais relevante. Como uma boa enciclopédia humana da Sétima Arte, ele usa seu estilo com referências metalinguísticas: por exemplo, citou Gordon Gekko de Wall Street de Oliver Stone, assim como utiliza uma câmera que explora bem objetos e apresenta muitos personagens.  Além da atuação de Leonardo DiCaprio, o elenco de coadjuvantes tem tipos muito engraçados e que ganham simpatia pela excentricidade, com destaque  para o ótimo Jonah Hill no papel de Donnie Azoff, amigo e um dos sócios da corretora, o Francês Jean Dujardin como Jean Jacques, outro corrupto e gerente de banco suiço, e para  a participação relâmpago de Matthew  McConaughey como o mentor Mark Hannah em um excelente momento, digno de palmas e para rir na cara de Wall Street, cheio de masturbadores e drogados. Bastaram alguns minutos para Matthew imortalizar como Jordan Belfort seria no futuro: um homem viciado em drogas, sexo, muito dinheiro e ambição. Sob a perspectiva do desempenho do elenco,  Scorsese demonstra que é muito bom na direção de atores, outra excepcional virtude do cineasta. Considerando o número de atores coadjuvantes, a sinergia e energia que o elenco apresenta e a agilidade na participação deles a cada corte, Martin Scorsese é um Lobo na direção e, com Leonardo DiCaprio, outro Lobo na atuação, resta ao público unir-se a essa maravilhosa matilha como um bom e leal expectador.





Ficha técnica no ImDB

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Gravidade (Gravity) - 2013



Gravidade é uma ficção científica que aborda basicamente a questão da sobrevivência, porém não é qualquer filme. Ocorre no espaço sideral com a direção precisa de Alfonso Cuarón, que também assina o roteiro e tem a participação de George Clooney e Sandra Bullock, respectivamente como o tenente Matt Kowalsky e  a engenheira e Dra Ryan Stone. Ele é um veterano astronauta e pretende se aposentar após essa missão. Ela é novata e está em sua primeira missão no ônibus espacial Explorer. Precisam sobreviver após a nave ser danificada por detritos espaciais, o que os coloca em grave risco de vida, com pouco oxigênio e sem recursos no espaço. Caberá a Ryan Stone a esperança e os esforços de sobrevivência em excelente atuação e preparo físico de Sandra Bullock, que teve a forte responsabilidade de levar o filme nas costas e que deu a ela a oportunidade de concorrer ao Oscar 2014 como melhor atriz.


Vencedor do Globo de Ouro e do BAFTA como melhor diretor, Alfonso Cuarón fez um filme de muitos predicados que não necessariamente estão relacionados ao roteiro, mas muito mais em seu vigor técnico e precisão na direção. Considerando ser o típico filme de um personagem só e que está fincado a uma situação de desespero e sobrevivência na qual a esperança é essencial, ter o controle sob essa direção era fundamental para criar a tensão e o elo emocional com o público. A direção e edição trabalham juntas e o resultado é favorável em criar um clima de suspense em cortes certeiros, praticamente arrebatador no qual o público tem dificuldades de piscar os olhos diante da tela. A plasticidade do espaço é impecável e contribui muito para a sua qualidade visual, tanto que lhe rendeu 10 indicações ao Oscar, boa parte em categorias técnicas.


Em comparação aos seus concorrentes ao Oscar, Gravidade não é o melhor conjunto da obra, porém a direção faz a diferença substancialmente enquanto orquestrador do filme pois, a cada cena, o impecável controle criativo do cineasta é evidente. No geral, o encontro da direção, todos os aspectos técnicos e a narrativa da sobrevivência converge para uma maravilhosa experiência cinematográfica  porque, no final, o grande ganho do filme é que a missão de Ryan Stone se torna a missão de qualquer um de nós. Ela evoca, em um lugar distante da Terra, que não importa onde estamos e qual a situação, a sobrevivência é uma necessidade diária e é um esforço muito mais individual e solitário. Não se escapa da solidão no infinito das muitas coisas e, portanto, estar sozinho no espaço é como estar sozinho na casa ou no trabalho, só muda o referencial geográfico. 





Ficha técnica no Imdb

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Filho biológico ou filho adotivo? Um nevrálgico dilema em Pais e Filhos



Um dos filmes de destaque da última Mostra de Cinema Internacional em São Paulo é  Pais e Filhos (Soschite chichi ni naru, 2013), do diretor e roteirista japonês Hirokazu Koreeda,  vencedor do melhor prêmio do Júri em Cannes. O delicado drama aborda a troca de bebês e a controversa decisão da troca das crianças biológicas, o que impacta a vida de duas famílias. Nesse roteiro, o conflito central se torna mais nevrálgico porque a troca de bebês aconteceu há 6 anos atrás por um equívoco do hospital. Pais e filhos já se adaptaram às suas famílias e já tem hábitos e rotinas bem diferentes. O mais doloroso é que o vínculo afetivo já foi desenvolvido, logo, após receber um telefonema do hospital, o choque: o filho que você criou há anos não é seu filho biológico! Como enfrentar essa situação?


O cineasta insere na narrativa famílias bem diferentes, tanto do ponto de vista comportamental como o econômico - social e constrói o filme com locações e características cenográficas que marcam o mundo particular de cada família, o que mais adiante demonstra que dinheiro e educação não é tudo quando o assunto é  Amor. De um lado,  Ryota Nonomiya  (Masaharu Fukuyama), casado com Midori (Machiko Ono) e pai de Keita (Keita Ninomiya), é um bem sucedido executivo, um homem mais racional. Ele teve uma relação distante com o pai e não é capaz de fazer grandes demonstrações de afeto. Ambos vivem em um apartamento mais impessoal que parece um quarto de hotel. Do outro lado, Yudai Saiki (Rirî Furankî) tem como esposa Yukari (Yôko Maki), é um homem mais rústico e engraçado. Eles vivem na periferia em uma minúscula e bagunçada casa na qual ele mantém sua própria oficina  e tem como filho Ryusei (Shôgen  Hwang) e mais duas crianças. É uma família mais informal, alegre. A partir desse antagonismo, o expectador já nota que há um conflito de adaptação, porém com a sensibilidade e habilidades técnica e narrativa de Hirokazu para contar histórias sobre relações humanas, o filme é fascinante. Pais e Filhos é singular pois o diretor toca nas emoções sem dilacerar as feridas e aumentar os sangramentos. 


É um filme muito bonito, profundo e, o melhor, singelo. Tecnicamente, é também interessante no roteiro e na direção de atores e comprova que o cineasta é um expert e estudioso do universo familiar e infantil. O elenco tem performances de excepcional realismo e entregam na medida certa o respeito, compaixão e fraternidade necessárias. Ainda que o dilema seja polêmico, o expectador não é bombardeado com um drama agressivo, com discussões e brigas danosas  entre as famílias. Fazer isso seria o lugar comum em um roteiro mais ocidental, porém, felizmente, o espírito da cultura japonesa tem uma profundidade mais emotiva. Mesmo quando as emoções parecem tão contidas, elas estão lá. Existe a dor da descoberta e da adaptação, mas ela é compartilhada com o público de uma forma fraterna, portanto, é natural o dilema ser delicado porque ambas as famílias se respeitam e conquistam a empatia do público.  Um traço da qualidade da direção de Hirokazu nesse longa é a sua impressionante capacidade de entender de relações humanas, conduzir o expectador para o cotidiano dessas famílias e colocar um elemento primoroso e intangível que é a solidariedade entre elas. Há situações bem humoradas e mais introspectivas que tornam o drama mais espontâneo e, mesmo nas cenas de maior embate, é recorrente o clima  de empatia entre as famílias, afinal, a dor não é só de uma delas, a dor é de ambas. 


Desde que eles sabem da notícia de que Keita é filho biológico dos Saiki e Ryusei dos  Nonomiyas, há uma troca temporária de filhos para que possam tomar uma decisão do futuro das crianças. Embora desenvolva o filme com o dia a dia das famílias, o diretor foca mais em uma camada: como Ryota lida com o conflito, o que representa uma excelente escolha narrativa. Era necessário desenvolver mais esse personagem para que o filme contasse a melhor parte história: a da relação entre pais e filhos e o que é relevante independente das circunstâncias. Ryota é o típico executivo que não teve uma boa relação com o pai e se esforçou muito para provar a si mesmo ser capaz de ser um bom pai e provedor financeiro para a sua família. Receber a notícia de que Keita não é seu filho biológico desestrutura o seu mundo formal e estruturado, além de ir contra o seu perfil mais normativo e individualista; com isso, ele terá  uma jornada de transformação como pai, que garante momentos tocantes e inesquecíveis para o público. Exemplos como este evidenciam que o cineasta fez um belo trabalho de drama familiar. Como um mágico que vai sacando uma surpresa da cartola,  Hirokazu mostra que a  magia do Cinema está no cotidiano de tantas pessoas e histórias.






Ficha técnica no Imdb

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Deboche, sexo desenfreado e vazio existencial em Ninfomaníaca - parte I







Filmes sobre viciados em sexo são um instigante laboratório antropológico para analisar como funciona essas pessoas e demonstram como transas desenfreadas são um hábito masoquista sem necessariamente ter sexo sadomasoquista. É interessante notar que o sexo tem esse poder de dar prazer e dor ao mesmo tempo, dependendo de como funciona a mente de quem o faz. Boa parte da cinematografia sobre erotismo tem no sexo um analgésico contra a dor existencial e, principalmente, para celebrar o amor e  o prazer, mas  quando se fala em Ninfomaníaca - parte 1, de Lars von Trier, não estamos falando de erotismo e sim de um drama no qual o sexo é debochado, seco, sem limites. Embora seja tão importante como "personagem", o sexo não tem uma função tão nobre nesses filmes pois ele só ressalta que o vazio existencial ainda continuará lá, mesmo após participar de um bacanal e destruir um casamento. Não há sentimento mútuo e o que importa é o "vamos transar. Você não precisa me dizer mais nada".

Dentre filmes que abordam viciados em sexo, um dos melhores é Shame, de Steve Mcqueen, no qual Michael Fassbender interpreta um homem viciado em sexo.  Ainda que ele seja bem mais dramático e realista do que Ninfomaníaca - parte 1 e eles tenham estruturas narrativas bem distintas, ambos tratam do dramas dos viciados em sexo. A trágica realidade dos filmes é que abordam muita luxúria e sexo livre e mecânico para não chegar a lugar algum, a diferença é que Lars von Trier se divertiu bem mais ao dirigir seu polêmico filme. Ele debocha e faz um humor ácido em meio à tragédia de Joe (Charlotte Gainsbourg e Stacy Martin) que conta sua trajetória sexual à Seligman (Stellan Skargard) desde que ela começou as primeiras brincadeiras como criança e perdeu a virgindade com Jerôme (Shia LaBeouf), seu primeiro amor. Com uma narrativa dividida em capítulos e típicas "viagens" do diretor que usa um roteiro com elementos como música e pescaria, Lars faz um filme razoável com cenas de sexo bem montadas e excelentes atuações de Uma Thurman, Shia LaBeouf e Stacy Martin , mas não tão polêmico como os ruídos antes de sua estreia. Além de apresentar alguns problemas de fluidez na montagem e pouco desenvolvimento na personagem principal, provavelmente a melhor parte está por vir na sua sequência. Pelo menos, o desfecho do primeiro fragmento foi tão tragicômico que a curiosidade é recorrente.

O sexo pelo sexo não é uma novidade. É um transtorno psiquiátrico como tantos outros que existem e talvez muitas mulheres tenha fases temporárias de ninfomania trocando somente o objeto de sua compulsão, outras devem ser viciadas em sexo e não tenham se dado conta pois não se reconhecem como tal, por desconhecimento, vergonha ou questões morais. Em algum momento, o mote "Esqueça o amor" tenha feito parte da vida de alguém e é muito fácil se tornar uma pessoa vazia após muitas transas livres e visando somente a sustentação do vício. Talvez a decepção , como a que Joe teve com Jerôme, seja o catalisador de tanto sexo desenfreado já que muitas mulheres buscam uma satisfação sexual em vários parceiros e que nem sempre é atendida. Quem nunca teve vontade de transar livremente após levar um fôra ou após o rompimento de uma relacionamento e quando se deu conta, já tinha vários parceiros sexuais? Quem nunca teve vontade de não ter compromisso com o amor e ter sexo com várias pessoas diferentes? Quem nunca quis esquecer o amor? Quem nunca se decepcionou após ser tratado em uma transa como um pedaço de carne? Essas perguntas são naturais ao assistir Ninfomaníaca, principalmente para mulheres que possam vir a criar um processo de identificação com Joe na busca compulsiva por prazer. É provável que vivamos em um mundo no qual ser viciado em sexo não é mais tão polêmico assim, então por que não ver o riso e a tragédia no filme? No final, muitos continuam  sozinhos em uma cama em troca de orgasmos que nem sempre acontecem.

O que vale no longa é analisar que a ninfomaníaca não tem controle sobre si mesma e pensa que é uma pecadora por causa do seu vício, o que a leva a desabafar ou procurar ajuda, portanto, não é uma pessoa má, é uma pessoa doente. Mulheres podem ficar psicologicamente enfermas de uma hora  para outra quando o sexo sem afeto passa a ocupar integralmente a sua vida como uma compulsão. Outras já são viciadas em sexo desde as primeiras experiências com impulsos compulsivos.  Em uma das cenas do trem, no qual Joe sabe da importância de um homem não gozar naquele momento, ela continua na sua missão de transar com ele em troca de uma aposta com uma amiga. Aquela cena dá uma dimensão exata de que  não importa de quem seja o pênis, Joe não abre mão de uma presa. É algo natural e incontrolável para ela como uma adolescente que deseja seguir uma atitude destrutiva. Mais adiante, com o desenvolvimento do diálogo entre Seligman e Joe, fica evidente de que, ainda que ela não tenha tanta consciência de sua humanidade, ela já teve sentimentos amorosos, um sentimento por Jerôme que poderia ser a cura mas que, como toda faca de dois gumes, pode reforçar o vazio existencial assim como foi a sua perda de virgindade, que aconteceu como se ela fosse um nada como mulher.

O filme diz: "O ingrediente secreto do sexo é o amor" mas não se esquiva do "Esqueça o amor", como se o sexo e o amor fossem irreconciliáveis para um compulsivo por sexo. De fato, talvez seja até que uma cura seja possível. Daí vêm as várias indagações que cercam a curiosidade sobre uma ninfomania:  A ausência do amor cria novas viciadas em sexo? Se o amor é o sentido de uma relação a dois,  a falta dele traz o mesmo vazio que transar livremente e sem compromisso? Uma adicta por sexo pode amar e continuar sua compulsão em uma relação aberta? Uma viciada em sexo pode ter uma existência menos trágica? Ninfas modernas estão encarceradas em seu vício sexual para sempre? Com a bela cena final de sexo entre Jerôme e Joe e as últimas palavras da ninfomaníaca, tudo é possível na parte 2.





Ficha técnica no Imdb

domingo, 16 de fevereiro de 2014

A dualidade entre natureza e graça no filme " A Árvore da Vida"




"Os homens ensinaram que a vida segue dois caminhos: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você tem que escolher qual dos dois irá seguir"
(Árvore da vida)




Terrence Malick dirigiu um dos mais sensoriais e oníricos filmes dos últimos tempos, A árvore da vida, uma obra de arte metafísica e poética sobre a origem da vida, da criação do mundo ao drama da família O'Brien após a perda do filho. Além do primor estético e de apurada montagem, o diretor revela um filme universal com um sensível carater autoral. O resultado é muito mais do que imagens com elementos religiosos, é a sua capacidade de levar o público à uma profunda reflexão intimista e existencial, podendo expandi-la para questões espirituais e filosóficas. O filme é como a criação do universo, não há limites para interpretações, sendo essa, um breve recorte pessoal.

Embora beba da fonte do Cristianismo e da criação da vida e abra o filme com a citação bíblica 38:4-7 de Jó, Malick nos entrega um primoroso longa universal. A partir de uma dolorosa perda em uma família do Texas nos anos 50: a morte do filho do casal O'Brien (Brad Pitt e Jessica Chastain), o filme  evolui para uma narrativa não linear  sobre esse ciclo da vida, inclusive a familiar com questionamentos tão naturais à  existência e à fé, assim como conflitos entre a natureza e graça e imagens da formação do mundo. No longa, Jack (Sean Penn) lembra do irmão falecido aos 19 anos, da sua infância rígida, da relação com a autoridade do seu pai e o afeto de sua mãe. 

Independente de religião, a universalidade do filme está na existência da vida, e portanto, de nós mesmos, na qual como seres humanos frágeis tentamos nos apegar no que é a nossa existência tão complexa e perene; afinal "Por que estamos aqui, passamos algumas situações e suportamos tantas"?. Isso pode explicar porque o filme é tão sensorial que perguntas não precisam ser respondidas e nem muitas palavras são necessárias. Na vida real é assim: no silêncio há gritos, no sermão, sussurros. Cada um ouve a resposta de uma forma.


É da natureza humana ser dual e lidar com o conflito entre seguir a graça, o amor, o perdão, o sacrifício e/ou seguir a natureza egoísta, orgulhosa, individualista e ingrata. Ainda que essa dualidade seja uma das bases que sustenta grande parte das religiões quando o assunto é "o certo e o errado", o filme só pode ser apreciado de forma mais expansiva e madura se o público pensar na condição humana.  O homem pode escolher ou inclinar-se mais a um dos lados mas, ainda assim, tem que conciliar os dramas de sua própria existência, assim como o jovem Jack ao lidar com um pai autoritário e uma mãe amorosa, ouvir um sermão na igreja e sofrer a ausência do irmão. Alcançar a graça também passa por lidar com a figura paterna, que pode ser repressora para uns e afetuosa para outros.  Dependerá da perspectiva de cada espectador, assim como para alguns Deus é opressor, para outros, ele é o pleno Amor.


Ao lançar dramática e poeticamente a perda de um filho, Malick desestrutura uma família para que as perguntas possam ser feitas e o público acompanhe as imagens oníricas no seio familiar: nascimento, infância, vida adulta, abrindo um ciclo que é o da própria vida. Ela não é perfeita e, para que haja uma maturidade,  a vida passa por algumas perdas , seguidas de perguntas sobre o porquê. Basta lembrar as de Jó, um homem tão temente e próximo a Deus, perdeu tudo e restaram-lhe dúvidas e perguntas, tampouco respondidas assim como as do filme. 

Após a morte de um ente querido, é natural perguntar mais pelos porquês. Aquela voz que pergunta pela perda do filho é de romper o coração pois podemos nos reconhecer nela também. É da nossa humanidade, em momentos de perdas, questionar mais se vale a pena optar pela graça do que pela natureza:  "por que aconteceu isso? Por que com ele(a)? Por que estou aqui? Por que você não estava aqui? Por que acreditei em você? Por que mereço isso?". Podemos  maldizer e até amaldiçoar a graça quando algo nos falta, mas também podemos nos ajoelhar, orar e ter a esperança fortalecida. Os porquês são muitos e surgem ora verbalizados ora silenciados. Há religiões que condenam os  porquês, afinal, como perguntar a poderoso(s) Deus(es) o porquê de suas escolhas?, mas questionamentos estão na essência da humanidade e nos aproximam de qual caminho seguir. No final, o livre arbítrio é de cada um e, ironicamente, não temos todo o controle da vida.


Uma das belezas do filme são as variadas interrogações. Perguntas que não são das personagens, são perguntas que podem sair da boca de qualquer um de nós. Essas incógnitas fazem parte da nossa condição humana que chegam a emocionar, podendo lançar-nos ao alto ou ao fundo do poço durante a projeção do filme. Se não fossemos tão grandiosos e, ao mesmo tempo, tão pequenos, não teríamos essa crescente insegurança e a necessidade de perguntar a algo superior à nossa fragilidade. Assim é a origem da vida e sua evolução, cheia de dúvidas e mistérios, no qual nos equilibramos entre alcançar a graça ou seguir a nossa natureza destrutiva.