quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Mostra 2012: La Demora (2012)



La Demora, representante Uruguaio ao Oscar e dirigido por Rodrigo Plá, é um filme realista com um excelente plot  à altura do Cinema Latino Americano de  qualidade que está acostumado a lidar com questões universais, mas que também retrata problemáticas sociais do nosso cotidiano. Sem emitir julgamentos, o longa toca em um assunto delicado: a responsabilidade dos filhos que cuidam de pais idosos e os sentimentos ambíguos que ela provoca.




Pessoas que tem ou já tiveram responsabilidades com pais que chegam à velhice e dependem de cuidados familiares conhecem  esses sentimentos. O coração de um(a) filho (a) fica dividido entre cuidar da própria vida e cuidar dos pais idosos, principalmente quando a família está inserida em um contexto de pobreza, de falta de emprego e dinheiro e os pais apresentam problemas comuns à idade como as doenças degenerativas, incluindo as relacionadas à memória e à mente.  Através desse longa, o diretor cria um espaço de reflexão sobre a velhice a ponto de tornar perceptível que não podemos  "jogar pedra" em quem já pensou em abandonar os pais, pois tal sentimento já percorreu a cabeça de muitos filhos. Poucos tem coragem de confessá-lo e se sentem culpados com a ideia cruel do abandono.


Em um bairro periférico de Montevídeo, María (Roxana Blanco) é uma mãe solteira de meia idade, que não tem emprego fixo e vive com os filhos pequenos e o pai Agustín (Carlos Vallarino). Seu pai está vivenciando as sequelas do avanço da idade: esquece das coisas, depende de cuidados básicos da filha como tomar banho e cortar a unha do pé, saí de casa e não lembra o caminho de volta, convive com a solidão. Sua sensível condição de saúde provoca uma responsabilidade redobrada para María, que também é uma mulher solitária, que tem uma casa modesta e apertada e vive de "bicos" como costureira. Embora demonstre afeto pelo pai, é nítido seu cansaço ao lidar com situações cotidianas como não ter um emprego fixo, já que o mesmo exigiria que ela ficasse ausente de casa e deixasse o pai sozinho ou pagasse por uma cuidadora de idosos, além do mais  como agravantes do contexto estão a falta de dinheiro para criar uma família de quatro dependentes e o descaso da  família, no caso a sua irmã, que não tem tempo para cuidar do próprio pai e se exime de qualquer compartihamento de responsabilidades.




Com um argumento atual e tocante,  Rodrigo Plá coloca uma filha que, cansada de cuidar do pai idoso e levada à uma atitude intempestiva, o abandona senil em uma praça; portanto o “La demora”  do título do longa é o percurso de tempo que Agustín espera o retorno de sua filha María, sem ao menos se dar conta que ela quis abandoná-lo ali. De forma muito natural, o roteiro inclue o momento acelerador da problemática no qual  Maria leva o pai à previdência social para dar início ao trâmite de ingressá-lo em uma casa de saúde para idosos.  Ela é desmotivada pelo funcionário da repartição pública que menciona que ela tem poucos recursos para colocá-lo em um asilo, mas "muitos" recursos para receber benefícios. Diante de tanto peso em responsabiliades e pouca ajuda, María saí andando pela rua até tomar a decisão limite que movimenta o restante da história.



E assim, Sr. Agustín fica aguardando a filha, sem arredar o pé do local. A partir daí, o filme nos reserva momentos muito tristes sobre a experiência de ser um idoso, abandonado e dependente da família. De certa forma, e por mais que Sr. Agustín mantém fielmente a fé de que sua filha virá buscá-lo, é humilhante ser abandonado pelo próprio sangue. Para engrandecer mais ainda a qualidade do longa e o quanto ele é bem realizado, o elenco de protagonistas faz um excelente trabalho. As atuações de Villarino e Blanco são muito realistas e maduras e capazes de comover com um olhar ou poucas palavras. Em especial, Roxana é uma ótima atriz no seu misto de responsabilidade com o pai e os sentimentos paradoxais com relação à levar este peso e não aguentar mais essa vida.
Esse filme é um exercício de reflexão e, como o bom Cinema Latino-Americano, é um Cinema de perguntas. Muitos sentimentos são despertados para quem é filho, para quem é pai e para quem chegará à velhice. Seremos abandonados pelos nossos filhos? Viveremos em um asilo ou  "de favor" na casa deles? Desejaremos viver nossas próprias vidas e abandonar nossos pais?  De fato, o filme expõe uma situação difícil pois, ao mesmo tempo que Maria ama o seu pai, ela está sozinha e merece tocar sua vida com mais liberdade. Por outro lado, a idade chega para todos e, na velhice há de ter qualidade de vida e o amor da família. 





À medida que Sr.  Agustín espera pela filha, passa frio, mija nas calças, entre outras situações angustiantes, a câmera nos conduz aos sentimentos de María, que vão da mentira ao arrependimento, passando pela culpa até a busca incansável pelo pai em albergues noturnos e assistenciais. A direção trabalha bem os close ups com mais intimidade e com uma fotografia que desfoca o fundo para trazer à frente o quão real é aquela situação, aquele sentimento. Outra escolha do diretor está em focar detalhes desse ambiente, como os pés do idoso e a dificuldade para calçar um sapato, o olhar pensativo da filha enquanto trabalha em sua máquina de costura,  a pele envelhecida e molhada durante o banho etc. 

Com éxito,  o tempo percorrido nessa demora é o tempo que o expectador tem para analisar o quão a velhice é uma realidade angustiante e é preciso olhar com carinho para esse momento. Estando vivos e por anos a fio, é uma questão de tempo, não escaparemos nem da morte e nem do envelhecimento.




Ficha técnica no ImDb

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Mostra 2012: Liv & Ingmar: uma história de amor ( Liv og Ingmar) - 2012



Comovente é a palavra que traduz o primeiro longa-metragem de Dheeraj Akolkar, Liv & Ingmar, que fala sobre a história de amor de dois ícones do Cinema Mundial, a atriz Liv Ullmann e o cineasta Ingmar Bergman que conviveram por 42 anos em uma relação de amor, amizade e trabalho, de altos e baixos e muita emoção. Relatado sob o ponto de vista de Liv Ullmann, que expressa em tom amoroso e saudoso e, também, doloroso e bem humorado, o longa tem uma evocativa  montagem e bela cinematografia, que mescla fotografias do casal, vídeos da família, cenas de grandes filmes do diretor como Vergonha, Persona, Cenas de um casamento, momentos de backstage, cenas da autobiografia de Liv em Hollywood pós-separação e relatos emocionantes de cartas de amor de Ingmar para Liv. A direção tem o sensível trabalho de criar imagens poéticas como o pôr de sol no mar azul, a estrada que leva à praia, a câmera que percorre a casa, a atriz em uma sala de cinema que assiste sua própria história, o cineasta que dirige sua esposa e olha atento à musa de sua vida.
 
 
 
 
 
O filme é uma jornada verdadeira à história de Liv e Ingmar. É tocante. Muito da sensibilidade dele não está somente nas sublimes imagens dessa história, mas nas palavras de Liv Ullmann, que conversa delicadamente e com leve senso de humor com a câmera, expondo sua intimidade de forma gentil e respeitosa até mesmo nos momentos mais caóticos e obscuros ao lado do cineasta que era um homem grandioso mas também um ermitão egoísta e ciumento. Unidos em suas fragilidades, a atriz conta que eles foram dolorosamente ligados. De fato, eles foram conectados além da tela e do casamento; eles foram um dos casais mais marcantes da História do Cinema, uma parceria de muitos anos e emoções que conviveu com a Sétima Arte. Com uma linha narrativa que divide o relato de Liv em amor, solidão, raiva, dor, saudades, amizade etc, o público viaja por uma história de amor marcada por sentimentos tão espontâneos e paradoxais que brotaram dessa relação afetiva de amor e de muita dor. Aos poucos, Liv mostra que Ingmar a reconheceu e a amou e que, acima de tudo, eles foram muito amigos. Ela era insegura e gostava de seguí-lo. Ela acreditava que se era reconhecida por ele, ela merecia ser amada. Por outro lado e, por um considerável tempo de convívio, ele a transformou em uma mulher que era dele e para ele. Liv teve que viver  a vida isolada de Ingmar. Ela foi solitária e sentiu raiva, cercada entre as paredes de uma longíqua casa, convivendo com a solidão, a violência física e psicológica e todos os demônios do brilhante cineasta.
 
 
 
 
 
 
 
 
Ao acompanhar a sensibilidade de cada palavra de Liv, entender o contexto de cada fase do casal e ao ver cenas de filmes, nos quais constam casais em crise como Vergonha e Cenas de um Casamento, é perceptível que Ingmar transferiu para a tela a sua relação com Liv: um relacionamento passional e, muitas vezes, violento com a palavra e com as atitudes. Em um dos relatos de Liv, ela lembra da cena em que ela e Max von Sydow estavam no barco em Vergonha. Enquanto Ingmar estava bem agasalhado, o diretor deixou ela e Max por horas e muitos graus abaixo de zero no barco. Da forma de quem ri de um momento sofrido, ela relata algo como :" Ingmar queria que eu passasse por aquilo, pobre Max, não tinha nada a ver com o problema mas sofreu junto comigo." Muitos dos reflexos da relação do casal foram emulados nos longas do diretor e contaram com a atriz como sua musa inspiradora. No geral, uma das belezas do documentário é perceber que Ingmar sempre foi quem se mostrou ser: um homem introspectivo que tinha a solidão como companheira e que criou obras primas em seu isolamento. Liv não esconde o lado obscuro de Ingmar e, muito menos, que vivenciou variados sentimentos pelo cineasta, inclusive uma raiva silenciada e muitas saudades. Com tanta intimidade revelada, Liv & Ingmar emociona. Nos altos e baixos da relação é que está toda a honestidade do documentário. Eles estavam dolorosamente conectados como são as verdadeiras histórias de amor.
 
 
 
 
Ficha técnica no ImDb.
 
 

Fotos Mostra 2012: Cineasta Abbas Kiarostami recebe Prêmio Leon Cakoff



 
Das mãos de Renata Almeida, diretora da Mostra, o diretor Iraniano Abbas Kiarostami recebeu o Prêmio Leon Cakoff ontem no Cinesesc, antes da exibição do seu inédito filme Um alguém apaixonado (Like someone in love).
 
Amigo do saudoso Leon Cakoff,  Abbas é um dos expoentes do Cinema Iraniano e é figura recorrente na Mostra, que o homenageou na 28ª edição em 2004 com sua retrospectiva e lançou  em outras Mostras grandes obras como Shirin em 2008 e Cópia Fiel em 2010.
 
Confira  as fotos clicadas para não perder este grande momento da Mostra.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

domingo, 28 de outubro de 2012

Mostra 2012: O Gebo e a Sombra (Gebo et l'ombre) - 2012



Adaptado da antiga peça homônima de 1923 do jornalista e escritor português Raul Brandão e resultado de uma parceria multicultural de França-Portugal, O Gebo e a Sombra é o recente filme de Manoel Oliveira, o cineasta que é uma prova viva de vigor no auge dos seus 103 anos. Traz um elenco estelar com os maravilhosos Michael Lonsdale, Claudia Cardinale e Jeanne Moreau, que juntos atuam em um emblemático  e doloroso diálogo sobre a miserável condição humana. Manoel de Oliveira é tão generoso que , embora é sabido que Michel Piccoli, uma parceria de longa data, era sua primeira escolha para Gebo, ele ofereceu o papel para o maravilhoso Lonsdale que, por sua vez, convidou a lenda Cardinale para representar Doroteia. Já Leonor Silveira é uma excelente atriz e uma das mais solicitadas pelo cineasta.
 
 
 
 
 
A história relata a história de Gebo (Lonsdale), um contabilista idoso que vive com a esposa amarga Doroteia (Cardinale) e a triste nora Sofia (Leonor Silveira), a  sustenta a família com esforço e honestidade em um cenário de pobreza e desesperança e tem um filho fugitivo, João (Ricardo Trêpa) que o rouba. A família é perseguida por essa sombra da miséria universal que assola o homem e se desdobra em conflitos existenciais e discussões sobre honestidade, sacríficio e pobreza.  O clímax se dá quando o violento João retorna a casa e desestabiliza uma família, provocando um desfecho dolorosamente surpreendente.
 
 
 
 
 
 
Em significativa parte de sua totalidade, o filme é realizado em internas na casa de Gebo, em torno de uma mesa da sala na qual o contabilista realiza cálculos e conversa com a esposa, nora, o filho e amigos. O texto antigo já existia em língua Francesa e Manoel planejou o filme para mantê-lo no idioma, com locações em Paris. Os diálogos são baseados em dores humanas do mundo: violência, pobreza, solidão, amargura etc., além das conversas sobre João, que ninguém sabe onde está e que faz a família sofrer; portanto é criada uma atmosfera monótona e pessimista que não apresenta uma esperança de dias melhores, embora haja ótimos momentos de humor principalmente com Moreau. As atuações dos atores são fenomenais e de muita força através da palavra e de suas fisionomias.  Lonsdale tem o carisma e a sabedoria de um homem experiente e retrata aquele pai de família que se sacrifica para não deixar seus entes queridos sofrerem mais. Silveira e Cardinale são um espetáculo à parte, respectivamente evocando, dentre outros sentimentos, a  solidão e a amargura, todas sofridas pela vida. A presença ilustre e bem humorada de Moreau, que rouba a cena em momentos muito especiais, dá graciosidade às cenas.  O espaço é bastante confinado, com profundidade através de portas e janelas, o que garante belíssimos planos como se os atores compusessem memoráveis quadros. Também outro traço de beleza é a força da palavra e sua musicalidade, bem apoiada pela trilha sonora, a ponto de expandir esse espaço e engrandecer o filme.
 
 
 
 
 
O Gebo e a Sombra, como estética cinematográfica, é um bel prazer. Segue o estilo de Manoel de Oliveira de forma muito fiel. Cada plano do longa mais parece uma pintura com uma palheta de cores que favorece o quanto o visual parece atemporal, basta observar as xícaras de café, os biscoitos, as frutas coloridas e as janelas e portas. Aqui, mais uma vez, Manoel Oliveira tem um cinema bem contemplativo que coloca a câmera de forma mais imóvel para que o público possa se deslumbrar, ouvir e refletir sobre a condição humana. O impacto é eficaz, pois abre espaço para perceber que esta miséria é a  real vida do homem. O fato de haver um elenco magnífico no qual todos tem o seu brilho próprio sem ofuscar o do outro é um excelente trabalho de direção de atores, baseado na confiança do cineasta e nos atores experientes. As atuações continuam bem teatralizados, como é comum nos filmes do realizador, mas com um elenco fascinante como esse, a emoção já começa na Cinefilia. 
 
 
 
 
 
Ficha técnica no ImDB
 
 

sábado, 27 de outubro de 2012

Mostra 2012: Reality (2012)






Reality é o novo longa de Matteo Garrone, vencedor do Grande Prêmio do Júri de Cannes em 2012 e um convite ao riso e à reflexão.  Em 2008, o diretor havia ganhado o mesmo prêmio com Gomorra, um filme mais cru sobre o crime organizado em Nápoles. Desta vez, ele retorna com o gênero comédia e apresenta um filme com referências à tradição da comédia Italiana, com personagens populares, cenografia e direção de arte do cotidiano de bairros pobres e diálogos recheados de brigas, festas, confusões, barulho e falas altas.


 
A história é uma jornada cômico dramática à indústria dos (pseudo)ídolos perecíveis mais conhecidos como Big Brothers, os  Grandes Fratellos na versão Italia, na qual o carismático e pobre Luciano (Aniello Arena), vendedor de peixes, pai de três filhos, muambeiro de robôs culinários, animador de festas e um morador da periferia de Nápoles fica alucinado para se tornar um "Grande Fratello" e entrar na casa mais espionada da Itália. Mesmo que recorra a atividades paralelas  para um dinheiro extra e tenha um negócio próprio, uma peixaria, sua situação social é humilde. Vive com a esposa, filhos e vários familiares em uma espécie de cortiço, um prédio miserável em ruínas. Toda direção de arte, figurino e atuações reforçam que esse ambiente é de pessoas pobres, em uma região periférica de Napóles, para qual a realidade Italiana não oferece nenhuma oportunidade de emancipação social, bastando a elas ficar ocupando o seu tempo com a problemática de Luciano e expondo seus autênticos comportamentos em diálogos bem humorados.






Tudo começa quando Luciano começa a ter fascinação pela figura do ex-Big Brother Italiano, Enzo (Raffaele Ferrante), bonito, endinheirado e bem solicitado para alegrar casamentos e baladas. Ele o vê em uma festa sob aplausos e ataques de adoração de fãs e deseja fazer parte deste universo de difícil vida fácil de big brother.Além de todo o fascínio claramente evidenciado closeups de câmera que evoca  esse olhar, ingressar no Grande Fratello Italiano é uma chance de ter dinheiro para sustento da família e projeção social. Em uma oportunidade cotidiana e à pedido dos filhos, ele faz o teste para o programa e, a partir daí, fica obcecado para receber uma resposta de aprovação, passando a realizar mudanças profissionais, ter conflitos afetivos com a esposa, fantasiar que está sendo observado no seu dia a dia a mando do programa,  viver seu cotidiano em um tipo de surto surto obsessivo e depressivo. As situações são diversas e engraçadas com um elenco afiado, mas também momentos únicos de contemplação do drama pessoal de Luciano que persegue, a qualquer custo, a ilusão de ser um celebridade instantânea.



Reality é um filme muito agradável de assistir. Divertido e leve, com um mistura de ficção e realidade. A todo momento o expectador é envolvido em um cotidiano bem realista e no sonho de Luciano; nisso reside o quanto o filme é bem realizado e merecedor de ser visto. Basta atentar-se à maravilhosa trilha sonora do talentoso Alexandre Desplat, que joga o público em uma musicalidade de fábula muito bem orquestrada  e que a todo momento cria uma atmosfera estranhamente fascinante,  como se a audiência estivesse em um mundo real, porém onírico e fantasioso que conecta o expectador à vida de Luciano. Além do mais, há a junção de um tema contemporâneo, o dos ídolos comuns e  instantâneos, com o passado de referências claras ao Cinema Italiano. Sua riqueza moderna e cinematográfica é evidente através de uma moderna estética de influênca neorealista com ótima fotografia, da atmosfera de sonho fábula Felliniana e uso de personagens com carisma popular.




Além da excelente  atuação de Aniello Arena, um dos pontos mais diferenciados do longa que  desperta empatia, humildade, obsessão, bom humor, outro dos  acertos imperdíveis de Reality é a direção de Garrone, um prazer aos olhos como trabalho de direção coerente com  a proposta. Ele inclue belos planos sequência que nos jogam nesse microuniverso existencial de Luciano e que, facilmente, pode ser reproduzido em qualquer realidade em tempos de Big Brother, como no início do filme no qual a carruagem de noivos é filmada a partir de um ponto alto e distante da cidade e  é acompanhada pela câmera, que vai fechando até chegar a um hotel no qual está sendo realizado o casamento e  são apresentados Luciano e sua família. Mais adiante, outro plano sequência mostra  a  família que chega após a festa em um maravilhoso trabalho de introduzir o público no cotidiano dessas pessoas. Cada personagem, a seu modo, é foco da câmera passageira, seja despindo a roupa, seja tirando a maquiagem, seja comendo algo na cozinha, até uma finalização em grande estilo no personagem central. Com habilidade, Garrone trabalha enquadramentos bem articulados com a atuação de Aniello Arena, resultando em closeups de intensa sensibilidade, que mesclam a comédia e o drama e provocam o riso e a piedade. Com um final enigmático, que retoma a ficção x realidade e influencia o expectador a permanecer pensando no que terá acontecido com Luciano, a câmera usa o mesmo recurso do começo do filme de forma belíssima para encerrá-lo. Ela se afasta desse microuniverso e resta ao público pensar na triste realidade da existência contemporânea.
 




Ficha técnica no ImDB
 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Os Intocáveis (Intouchables) - 2011







 
Intocáveis é a comédia dramática Francesa que se tornou o maior fenômeno de bilheteria em seu país, com mais de 43 milhões de espectadores em todo o mundo, representante da França para o Oscar 2013 de melhor filme estrangeiro e que foi bem recebida no Brasil como um dos mais esperados filmes do Festival Varilux, ocorrido em último Agosto. O roteiro é uma adaptação da história veridíca de Philippe Pozzo Di Borgo no livro O Segundo Suspiro (Le second soufflé), sobre um rico executivo, Philippe (Olivier Cluzet) que sofreu um acidente de parapente nos Alpes em 1993 e se tornou tetraplégico. Ele contrata Driss (Omar Sy)  como motorista, um jovem rapaz Senegalês, pobre e ex-presidiário para cuidar dele. A partir daí, uma comovente amizade, de companheirismo, respeito,  amor e de segundas chances nasce entre os dois. Sob a batuta de Olivier Nakache e Eric Toledano e com o carisma de Cluzet e Sy, Intocáveis é espontaneamente bonito e delicioso de assistir ao trazer, de forma muito leve e divertida, a construção de uma relação de amizade entre pessoas de mundos muito diferentes mas conectados por dramas pessoais nos quais ainda é possível encarar a vida de uma forma melhor para reaprender a viver e ser feliz. O bom humor Francês, suavemente direto, irônico e piadista,  faz toda a diferença em situações nas quais as pessoas normalmente não se  permitiriam rir.
 
 
 
 
Ao retratar minorias que sofrem preconceitos sociais como um homem negro com antecedentes criminais e um homem  isolado com uma deficiência física, uma parte do público considerou o filme muito sentimentalista e adaptado de forma a emocionar através dos que sofrem à margem do que a sociedade encara como uma pessoa bem sucedida: rica, bonita e saudável. No entanto, acreditar que o filme é isso, é pensar pequeno demais. Intocáveis é precioso ao tratar com natural beleza e senso de humor o que a sociedade trata com desdém, com preconceito e  pena. Ele tira sarro do politicamente correto nas condições desérticas da vida.  Com uma pitada de bom humor e sensibilidade, é possível notar que rir do próprio infortúnio é legítimo e bem vindo. Cada um já teve um momento árido na existência e leva sequelas, sejam físicas e emocionais, com as quais tem que conviver. No mais, as pessoas tem que ser tratadas de igual para igual, independente da cor da pele, da condição social, de sua aparência física. Philippe e Driss são  os "excluídos sociais" que, em um cenário de comunidade européia e, especialmente, Francesa mimetizam esses atores sociais: Philippe  é o milionário solitário que só consegue mover a cabeça em uma sociedade que valoriza o usufruto da riqueza, o glamour, o romance e a beleza. Driss  carrega o peso do imigrante negro em uma França de contrastes étnico-sociais, porém isso não os torna menores, eles estão acima do que a sociedade os intitula. O roteiro é construído de forma a incluir cenas que mostram suas fragilidades com espontaneidade, mas muito mais suas nobres virtudes.  Eles até brincam com os preconceitos e questões tidas como sérias como Driss se recusar a limpar o traseiro de Philippe , jogar água quente na perna de Philippe para ver se ele sente algo etc. A  cena na qual Driss barbeia o patrão é hilária e nem Hitler escapou de ser alvo de piadas. É nessas brincadeiras, que os mais moralistas tratariam como uma ofensa, que está a humanidade da história.
 
 
 
 
Com destaque para os bons roteiro e montagem, muito do sucesso do longa é a excelente vibe do humor e a sensível  e bela amizade, tudo com o estilo da comédia afrancesada a um nível universal do que esperamos de uma relação verdadeira entre duas pessoas, além da ótima sacada de tirar um sarro de situações cujo comportamento "ideal" seria ser politicamente correto. A relação de empregado e empregador fica em segundo plano pois os sentimentos afetivos dessa relação estão acima de questões laborais. É um filme cheio de sutis nuances de um companheirismo que também tem momentos muito tristes como o abandono, a insegurança, o medo, a baixa autoestima, a violência, portanto, a carga de humanidade do filme é inspiradora e transformadora. Ela muda os personagens e suas vidas, mas também transforma o público que, claramente, se rendeu de amores ao longa. De forma bem substancial, a escolha dos protagonistas é bem acertada. A atuação de Cluzet é excepcional dada às limitações físicas de seu próprio personagem, além do ator ter um sorriso que ilumina a tela e interpretar Philippe com muita maturidade, dignidade  e nobreza. Omar Sy, que levou o César - Oscar Francês por essa atuação, é um ator jovem bonito, forte, cheio de energia e carisma. Seu personagem Driss tem uma verve bem humorada e sedutora, somada ao drama pessoal de uma vida deliquente e pobre. Por outro lado,  ambos os atores carregam em si não somente o que é virtuoso no desenvolvimento da amizade, mas seus maus humores e ligeira agressividade, que estão impressos em algumas cenas de relevância mais dramática.
 
 
 
 
 
 
De uma maneira catártica, o final é tocante e surpreendente e todo o filme merece ser visto e revisto.  Intocáveis nos ensina não somente a cultivar as amizades  e rir do politicamente correto mas, principalmente, a nos dar uma segunda chance.  Nem tudo está perdido e nem precisa ser sério demais pois nossa capacidade de se transformar e de rir é intocável.
 
 
 
 
 
Ficha técnica no ImDB
 
 
 
 

domingo, 21 de outubro de 2012

Os Infratores (Lawless) - 2012




Na América rústica, a Virgínia de 1931, os irmãos Bondurant Jack (Shia Labeouf), Forrest (Tom Hardy) e Howard (Jason Clarke) vivem em Franklin County e são uma gangue conhecida de infratores  que produz e comercializa bebidas alcóolicas no período da Lei Seca. Sua legendária indestrutibilidade, violência e tino para os negócios ilegais os tornaram temidos e com variados inimigos, muitos dos quais interessados em obter parte de seus lucros. O  belo roteiro do novo filme dirigido por John Hillcoat e inspirado no romance "The Wettest County in the World", de Matt Bondurant e roteiro de  Nick Cave é uma jornada à vida fora da lei desses três irmãos, unidos pelo amor e a lealdade, além da liberdade de se levar o próprio negócio sem intervenções das autoridades interesseiras e corruptas.



 
 
Sob a liderança de Forrest, representado magnificamente por Tom Hardy, que merece uma indicação ao Oscar por essa atuação, os irmãos Bondurant  são como os bons infratores que criam a empatia com o público e pelo qual se torce para que nada de mal lhes aconteça. Muito da qualidade do filme está em  adicionar um componente emocional, a  família,  que sobrevive com a violência no seu ouvido, em um ambiente hostil de homens brutos e homicidas, mas que também precisa se defender com violência para se manter unida e sobreviver financeiramente. Os irmãos Bondurant são trabalhadores, leais e protetores entre si, humildes e tem senso de humor, além disso o longa desenvolve bem os personagens dos irmãos à medida que demonstra que cada um tem uma característica que contribui para  a dinâmica e a densidade psicológica da narrativa, assim como para o desenrolar do fatos. Forrest é o líder de poucas palavras e valente, que emula a sensibilidade por trás de seu jeito bronco. Howard é o executor braçal, o lobo solitário e introspectivo que bebe e que protege  a família. Jack é o caçula frágil, imaturo e amoroso, que não tem competência para a violência, o que acaba por ser seu conflito pessoal, mas que é visionário para o crescimento dos negócios. Além deles, temos um elenco muito atrativo com a presença de Guy Pearce como Charles Rakes, o vilão da história em uma caricatura grotesca da autoridade engomadinha, homicida e corrupta;  Jessica Chanstain como Maggie Beauford, a bela ex-dançarina de Chicago que deseja uma segunda chance na vida e  que, em meio à uma região violenta, encontra o seu amor; Mia Wasikowska, como Bertha Minnix, que traz a figura da jovem virginal e religiosa pela qual Jack se apaixona e, para completar o elenco em grande estilo, o fascinante Gary Oldman no papel do gângster Floyd Banner, com uma entrada meteórica e estelar e uma piscadinha memorável.
 
 
 
 
Ao serem tão diferentes, os irmãos Bondurant tornam o filme mais bem realizado nos aspectos de desenvolvimento de personagens que apresentam essa América: um mundo no qual o mais fraco, Jack,  tem que  sobreviver e amadurecer em um ambiente hostil. Por outro lado, Jack não perde sua essência que é a metáfora do sonho, da inocência e do amor. Sua docilidade é, por excelência, o escapismo dessa história violenta e a visão otimista da vida. Ainda que pareça , em um primeiro olhar, o comportamento de um covarde, Jack torna o filme mais leve. É através dele que se criam vínculos mais emocionais na narrativa como: a alegria ao ganhar o primeiro grande dinheiro, ao vestir um bom terno e comprar um belo carro, a fascinação ao ver um famoso e corajoso gangster, a delicadeza do primeiro amor, a tristeza pela perda de um amigo; portanto, embora o personagem de Shia Labeouf incomode ao levar uma baita surra e ser ingênuo em algumas tomadas, o seu Jack é um contraponto da violência da história. Ele se mantém puro por boa parte da história, até precisar crescer, ainda que inconsequentemente e aflorado pelas perdas emocionais. Já Tom Hardy é um esplendor à parte tamanho o seu talento para representar  Forrest. É um homem de personalidade viril e forte, que conversa com o olhar, que observa e está atento aos movimentos e à defesa do seu negócio e de sua família, mas que também tem uma sensibilidade que é desenvolvida tenuamente. Ainda que a casca de sua pessoa seja brutal, à medida que o filme se desenvolve, ele também tem momentos de fragilidade como o de ser ferido e o de se apaixonar por uma mulher. Com uma excelente atuação, Tom Hardy demonstrou bastante maturidade e ser um dos melhores atores de sua geração, crescendo a cada papel e fazendo boas escolhas. Do lado da vilania, pode se dizer que Guy Pearce tem uma  ótima, caricata e necessária atuação para expor o quanto o seu personagem, um mero "assistente "de autoridade, é a infâmia da civilização: é um homem amoral, que mata mais por prazer e de forma gratuita, que comanda para obter lucros próprios e posar na foto com sua ridícula gravata borboleta. Guy Pearce o faz tão bem que chega ser odiável, pois é claramente um personagem sádico e desprovido de digno carater.





No geral, o filme é bem realizado ao contar um história simples e que tem um pano de fundo da História da América. É claro que  houve uma lacuna qualitativa ao tentar equilibrar o seu conteúdo familiar e afetivo com interesses alheios corruptos e violentos, com idílio, ação e suspense, tudo misturado, porém o longa vence pelas atuações e deve ser valorizado mais pelo elenco e pela reflexão sobre a violência. Ao mesmo tempo que traz um elemento biográfico  muito específico e o gênero gângster reinventado, ele está muito coerente com o background de filmes que fazem a diferença ao expor nuances do legado do interior rústico Americano e seus dramas familiares, de natureza violenta, tais como Inverno da Alma, de Debra Granik,  e Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson. Os filmes anteriores de Hillcoat, com A Proposta e A Estrada tem a fotografia e a direção de Arte bem apoiadas em construir naturalmente um retrato de ambientações longíquas, idílicas e hostis. Além do mais, o longa tem um registro interessante no legado cinematográfico sobre gângsters. Enquanto que Jack está em planos nos quais ele resgata as referências mais tradicionais de gângsters através do encontro com Floyd Banner, o vestuário, o carro, as armas etc mais semelhantes as usadas em outros filmes do gênero, o ser fora da lei em Os Infratores não tem todo esse glamour porque não é a base da narrativa glamourizar o gênero. O longa é mais humano, mais real em sua proposta. Forrest não tem vaidade, nem tampouco Howard. Eles dirigem uma caminhonete simples, moram em uma casa de beira de estrada, mal trocam de roupa e sujam a própria mão de sangue usando objetos  mais grosseiros como faca e soco inglês, portanto o longa é muito mais do que retratar homens fora da lei com ou sem glamour;  o que mais importa aqui é refletir sobre o homem e sua relação com a violência,  afinal  como bem dito por Forrest à Jack : "Não é a violência que diferencia os homens, é até onde eles estão disposto a ir."



 
 
 Ficha técnica no ImDB

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Busca Implacável 2 (Taken 2) - 2012






Na sequência da franquia de Taken,  a família do aposentado agente da Cia Bryan Mills (Liam Neeson) está em perigo novamente. Desta vez, ele e a ex-esposa Lenore (Famke Janssen) são sequestrados em um plano de vingança contra Bryan, que também ameaça a segurança de sua filha Kim (Maggie Grace).  Tudo isso porque, após ter assassinado no primeiro filme um dos filhos de um perigoso criminoso, que sequestrou sua filha e a queria vender como prostituta barata, agora Bryan não ficará em paz.  Sob a batuta de Olivier Megaton e roteiro dos experientes Luc Besson e Robert Mark Kamen, todos com background em filmes de ação e trabalho em equipe em Colombiana e Carga Explosiva 3, o veterano Liam Neeson está de volta, mais nervoso e mortal do que nunca. 






O filme segue um roteiro bem didático para explicar o porquê da vingança, recorrendo a flashbacks do primeiro longa e criando uma atmosfera de proximidade entre Bryan e sua ex-mulher Lenore, tudo com a intenção de mostrar ao público que ele terá mais e mais motivos de proteger sua esposa, pela qual ainda sente uma atração e carinho. No início do filme, foi dada a importância a criar um motivo para que viajem juntos e reacendam as velhas emoções guardadas após a separação. Nada melhor do que ir a um lugar exótico como Istambul e ter a oportunidade de reviver bons momentos. O que seria uma viagem familiar, torna-se um pesadelo e esse é o entretenimento e o  sucesso da franquia de Taken: ver um pai de família bravo e letal para exterminar todos que escolhem o cara errado e incomodam sua família.  Nesse aspecto, o de preparar muito o terreno afetivo antes de iniciar os tiros e porradas de Bryan, Busca Implacável 2 é mais irregular  em seu roteiro e não tem o mesmo vigor que o excepcional antecessor, que é, sem delongas, mais objetivo, ágil e racional como filme de ação. 







No início do filme, o roteiro é didaticamente seguido para mostrar ao público a construção da conexão emocional entre Lenore e Bryan. Ele visita a filha, encontra a esposa que, por coincidência, está em crise com o atual marido. Se essa parte fosse descartada, não faria a menor diferença ao melhor do filme, que ainda é Bryan em ação. Por outro lado,  é  até aceitável o elemento efetivo mais bem construído para reforçar o quanto está família está mais ligada emocionalmente. De fato, essa preocupação dos roteiristas não deve ser rejeitada pelo público e é bem destacada no filme em comparação ao antecessor. Mesmo que pareça muito estruturado e canse no começo como uma enrolação desnecessária, a família se apresenta como mais íntima. O pai continua super protetor e se preocupando com o bem estar da filha. A ex-esposa tem problemas com o esposo e vê em Bryan um conforto e um amigo. Através da atuação, desde falas a olhares tocantes, é perceptível que o que sustenta toda a violência do longa é manter a família segura, para tal o espírito de pai, marido e protetor de Bryan é atrativo e muito eficaz.




Liam Neeson, um ator carismático e maduro com o seu Bryan Mills, se torna o herói para o qual não há limites: a família está em primeiro lugar, não mexam com ela, portanto é inevitável não simpatizar com Liam Neeson, sexagenário como outros  velhacos queridos e duros na queda como Stallone e seu Mercenários.  Chega a ser divertido vê-lo deixando os inimigos  no chão, praticamente invencível no auge dos seus 60 anos, portanto, para isso também serve o filme:  para legitimá-lo como implacável e fazer o expectador rir com tudo isso. Certamente, como nem tudo é explicável em filmes de ação, há cenas que são forçadas e não tão coerentes com o que seria mais realístico como deixar a ex-esposa desacordada e presa no cativeiro e correr para uma perseguição para salvar  a filha; provavelmente na vida real, Lenore já teria sido assassinado pelos bandidos, além de Kim, que mal tirou a carteira de motorista, dirigir um táxi convencional e conseguir escapar de uma perseguição perigosa e explosiva, adentrando a Embaixada dos USA sem ser alvejada. A filha do ex-agente da Cia também responde por boa parte do heroísmo no filme, como se a habilidade contra criminosos estivesse no DNA da garota, algo que é muito superestimado no roteiro do longa. No geral, Busca Implacável 2 é uma excelente diversão para quem aprecia a franquia, basta se render às habilidades de combate de Bryan Mills e se sensibilizar de que todo mundo gostaria de tê-lo como protetor. Afinal, o grande prazer é  Liam Neeson, sempre com sua energia e estilo de bom homem. Não há nada melhor do que ver a velha guarda nervosa e com uma arma na mão.




Rendimento: 
Ficha técnica no ImDb

domingo, 14 de outubro de 2012

MaDame Teen: Gatinhas e Gatões (Sixteen Candles) - 1984


MaDame Teen:
Coletânea de filmes dos anos 80
que marcaram minha (pré)adolescência





Gatinhas e Gatões é um dos primeiros filmes de John Hughes, antes do sucesso de outros longas com temática sobre o universo adolescente como os excelentes e nostálgicos Clube dos Cinco (1985), A garota de rosa shocking (1986), Curtindo a vida adoidado (1986) e Alguém muito especial (1987), alguns em parceria com Howard Deutch. A partir de 1984, Gatinhas e Gatões é  um filme 'abre alas' do diretor que passou a trabalhar com alguns talentos da época: Molly Ringwald, atriz diva e heroína adolescente, que normalmente faz o papel de garota comum que se apaixona pelo rapaz mais bonito e rico da escola e que, em Clube dos Cinco, fará o papel da menina de elite; Anthony Michael Hall, que faz o papel de geek virgem e que demonstraria um ótimo tino cômico como o nerd em outros longas do diretor como Clube dos Cinco e Mulher Nota Mil. O filme também abre espaço narrativo para contar sobre os dramas comuns de adolescentes como a primeira transa, o primeiro beijo , o amor juvenil,  o baile de formatura, o universo colegial, a virgindade e as diferenças sociais, temáticas que são recorrentes em boa parte dos roteiros de Hughes nos anos 80.



John Hughes: Nostalgia teen pura


Na história, Samantha (Molly) é uma adolescente de origem modesta, que mora com os pais, irmãos e avós e vivencia o cômico drama de fazer aniversário de 16 anos às vésperas do casamento da irmã mais velha. Ninguém se lembra de seu aniversário e ela vive essa pequena e engraçada tragédia particular de se sentir a última das adolescentes. Apaixonada pelo veterano, rico e belo aluno Jake Ryan (Michael Schoeffling) e perseguida pelo The Geek (Anthony), um nerd muito falador, Samantha é uma protagonista construída para evocar a simbologia da  garota que vivencia situações comuns ao universo da adolescente como: morar com uma família grande, incluindo os excêntricos avós e perder liberdade em seu próprio espaço, como por exemplo: ceder a cama a  um estrangeiro e dormir no sofá; a que tem um irmão menor, que a despreza e faz piadinhas sarcásticas; a que é ignorada pelos pais nos momentos mais importantes; a que tem uma irmã, mais bonita,  antipática, fútil e popular que está prestes a se casar; a que está apaixonada pelo homem mais bonito e rico do campus que  tem uma namorada loira, arrogante e interesseira, a que recebe flertes insistentes do nerd mais popular da escola; a que tem uma baixa autoestima que faz o contraponto com uma madura personalidade adolescente; a que vai ao baile com uma companhia com a qual não desejaria estar etc. Apesar de todos esses  padrões mais clichês usados por Hughes, o filme tem um registro bem linear e fluído no qual se acompanham as cenas que reforçam essas características, mas que também não menospreza a espontaneidade desse universo da heroína Samantha, afinal John Hughes é um cineasta habilidoso em crônicas juvenis.



Michael Schoeffling como Jake Ryan
O sonho adolescente: bonito, rico e apaixonado por garota pobre


Através da ótima interpretação de Molly Ringwald para os personagens de John Hughes, Samantha é naturalmente uma boa garota e cria uma empática conexão. Embora pareça uma protagonista fraca, há uma força personificada nas heroínas de Hughes, que é a força da espontaneidade da jovem mulher, com todas suas virtudes e inseguranças. Molly é muito honesta com o público e isso a torna muito saudosa como atriz. John Hughes era muito bom em dirigir jovens atores como ela, e colocar para fora esse talento dos dramas de um adolescente, principalmente em tornar isso hilário sem esconder a relevância do drama. É possível se colocar no lugar de Samantha e imaginar o que se passa no dia de seu aniversário. O expectador torce para que ela tenha um final feliz pois ela é comum e emula exatamente vivências que qualquer um já tenha passado na adolescência como a rejeição, a solidão e a baixa autoestima. Ela se sente sozinha e está apaixonada.  Ela se sente insegura mas, nem por isso, se relaciona com o influente nerd que a paquera ou, desesperadamente, se joga nos braços de Jake. No dia que seria um dos mais importantes, como um divisor de águas para uma fase mais madura dessa juventude, ela deixa de ser importante até pela própria família. O que seria um trauma se transforma na principal  beleza do filme e, nisto reside o quanto deixar Samantha à margem em seu aniversário torna o filme mais encantador. Mais adiante, ela terá o aniversário que merece e apagará as velinhas como em um  romântico sonho adolescente. 



Destaque na atuação cômica de Anthony Michael Hall, ícone Nerd.


A jornada de Samantha é acompanhada de perto e com torcida, sem enfocá-la somente como a principal figura adolescente de importância. John Hughes usa outros personagens para demonstrar todo o repertório dos filmes jovens e estes são igualmente relevantes para o sucesso de Gatinhas e Gatões. The Geek, interpretado com louvores por Anthony Michael Hall que rouba a cena, é o nerd que nunca teve a primeira transa e precisa se reafirmar perante os amigos que o consideram um líder modelo e pegador. Ele nem tem um nome e aparece como a entidade GEEK, uma referência bem pop anos 80 de culto aos nerds. Acaba se dando bem através das suas peripécias, recebendo um prêmio que não é o de física, química ou outras disciplinas para mentes brilhantes, e que normalmente é dado aos garotos bonitos, atletas e endinheirados da escola. Dentre os amigos do Geek está Bryce, interpretado por Joan Cusack que, mal abre a boca, mas que já demonstra que o diretor descobria novos talentos, além de ser engraçado vê-lo como um nerd em pleno anos 80. Long Duk Dong (Gedde Watanabe) é o Chinaman em intercâmbio nos USA que  agrega muito humor à película indo totalmente ao desencontro do perfil discreto dos orientais, ele apronta horrores  com um elemento de maluquices e confusões que dão muito ritmo cômico ao longa. Jake Ryan é o típico garoto rico, íntegro e acessível, para o qual ter dinheiro e namorar a loira mais desejada da escola não lhe completa. Assim como o Blane, interpretado por Andrew McCarthy em A garota de Rosa Shocking, ele é o objeto de amor e desejo platônico da garota pobre e, como todo Santo de fillme ajuda, ele também gosta dela, o que arranca suspiros da plateia feminina que sonha com um Jake Ryan na vida.



Molly Ringwald: a pobre heroína adolescente. 



Ao unir as duas pontas de uma sociedade Americana dividida entre pobres e ricos, John Hughes torna eterno o drama afetivo do amor entre diferenças classes sociais, entre outros preconceitos existentes, no Cinema dos anos 80, mas também um amor romântico factível de ser vivenciado.  Nos filmes vindouros ele tornaria essa temática mais dramática nos roteiros, deixando mais evidente  em seus planos e toda a direção, com suas boas escolhas cenográficas, de vestuário e de diálogos o muro que separa jovens de diferentes estratos sociais que se apaixonam. Em Gatinhas e Gatões,  sob essa perspectiva, o roteiro não foi  construído de forma a transformar as cenas em mais dramáticas como as que vemos em Clube dos Cinco, a Garota de Rosa Shocking e Alguém muito especial, longas que exigem mais do jovem ator explorar e catalisar a sua condição social através de uma atuação mais convincente e dramática. No geral e para re(começar) uma visitação às produções de John  Hughes,  Gatinhas e Gatões é um nostálgico e excelente entretenimento para celebrar o legado do diretor que  saudades que deixou.





Ficha técnica no ImDB