segunda-feira, 27 de junho de 2011

MaDame Lumière, orgulho de ser blogueira cinéfila, proud of be a LAMB



Large Association of Movie Blogs





Está vendo esse cordeirinho na foto?


Essa é a MaDame Lumière em formato de membra associada da The Lamb, The Large Association of Movie Blogs. Sou a Lamb#987, marcada mais ainda pelo amor ao Cinema em 25 de Junho .





Juntei-me ao rebanho após ser escolhida pela associação e estou muito feliz pelo reconhecimento.


Essa é uma conquista não só minha, mas de várias pessoas, leitores, cinéfilos amigos e profissionais do Cinema que fazem minha vida um constante aprendizado cinematográfico movido por um compartilhar inspirador e divertido de experiências. Através do MaDame Lumière conheci pessoas maravilhosas,cinéfilos de várias partes do Brasil, isso é muito gratificante e apaixonante, me dá uma força incrível para atualizar o blog em meio à correria e trazer o melhor para o leitor.




Incentivo os blogs Brasileiros de Cinema a serem reconhecidos pelo The Lamb, assim podemos divulgar a Arte do Cinema para os falantes de língua portuguesa e outros estrangeiros que tenham interesse em conhecer a blogosfera cinéfila made in Brazil. Pode parecer algo simples e simbólico participar de uma associação, porém ela tem um valor imensurável, o de criar uma comunidade nacional e internacional de pessoas que amam a Sétima Arte e isso não tem preço.




Com esse reconhecimento, espero que mais e mais pessoas aprendam a amar o Cinema como eu também o amo.




Um grande abraço da MaDame Lumière




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O Destino Bate à Sua Porta (The Postman always rings twice) - 1981



Remake do clássico homônimo de 1946 estrelado por Lana Turner e John Garfield e baseado no romance de James Cain, O Destino bate à sua porta (1981) tem Jessica Lange e Jack Nicholson, respectivamente, como Cora Papadakis e Frank Chambers, um casal de amantes que se apaixona e vivencia uma jornada de tentativas de assassinato, mentiras, brigas e traições para ficarem juntos. Cora é a jovem esposa de Nick (John Colicos), um homem de origem grega, mais velho e dono de um restaurante de beira de estrada. Frank é um desempregado, de passado misterioso e mal resolvido que conhece o marido de Cora e recebe uma oportunidade de emprego local. Logo ao se conhecerem, Cora e Frank se sentem mutuamente atraídos com uma intensa carga de desejo e paixão, emblematicamente registrada na incendiária cena sexual na cozinha, na qual Lange e Nicholson performam uma transa muito realista e sedutora, demonstrando uma incontrolável química.



Acima, um magnífico trabalho de fotografia e direção. Posicionamento da câmera, respectivamente alta e baixa, para filmagem de planos abertos que são fantásticas paisagens rurais. Isso é Cinema!




Nessa imagem, temos um plano aberto noturno, excelente trabalho de textura de cor realizada pelo mestre da fotografia, Sven Nykvist.


O diretor Bob Rafelson realiza um filme bem diferente da versão de 1946. Ele opta por uma direção mais convencional com uso de planos bem abertos para as externas e mais fechados para os momentos domésticos, de conflito e sedução. Ele não se detém a realizar esteticamente e tematicamente uma obra noire completa, ainda que haja uma mulher sedutora e um homem decadente e de caráter duvidoso que tramam um assassinato. O cineasta enfatiza visualmente a vida rural dos Estados Unidos, o bucolismo das estradas, o comportamento rústico e brutal dos personagens e a paixão de uma homem e uma mulher que combinam um com o outro. Ele também é muito bem apoiado pela fascinante cinematografia do sueco Sven Nykvist, um dos melhores diretores de fotografia do Cinema, que trabalhou lealmente para os filmes de Ingmar Bergman, propiciando-lhes uma assinatura fotográfica muito diferenciada, atemporal. Nykvist torna o trabalho de Rafelson bem superior, considerando o nível de qualidade de sua fotografia e seu senso estético. O roteiro de David Mamet tem o seu crédito como Cinema, porém o filme agrada mais pela atuação, direção e fotografia. Até determinado avance da película quando o casal tenta matar o marido de Cora, o roteiro parece ter o seu fim e não ter mais nada a apresentar à vida desses dois amantes. Ele perde um pouco do ritmo tal que a pergunta imediata é: E agora, o que acontecerá agora com Cora e Frank? O que temos mais nessa história? O filme ainda tem algo a contar?, porém é dado uma nova reviravolta na narrativa de forma a criar mais conflitos entre o casal, assim como a chance de serem felizes.





As imagens acima são um exemplo de saturação de fotografia ao fim de uma relação sexual. Uma bela combinação de direção e fotografia com o simbólico calor de corpos que se fundem extasiados.


Jessica Lange e Jack Nicholson realizam um ótimo trabalho, principalmente porque a densidade psicológica de seus personagens tem um certo mistério que deve ser sugerido, imaginado pela audiência em meio ao óbvio de cada carater apresentado. Cora é uma mulher bonita e jovem que trabalha como uma Amélia e é tratada como uma doméstica pelo marido. Nitidamente é possível pensá-la como a mulher que casou com um homem mais velho para ter estabilidade financeira após a Depressão Americana. Ao vê-la na tela, não a imaginamos como a dona do restaurante, mas uma mulher de personalidade forte que trabalha como uma empregada: cozinha, passa e lava e que, agora, tem uma grande aventura: Frank, um homem capaz de tirá-la do anonimato e despertar o seu desejo feminino, o seu prazer afetivo e carnal. Nesse aspecto, o roteiro é muito virtuoso porque ele inclui a casca de Cora, ou seja, seu lado fêmea e seu lado doméstica, assim como a personalidade rústica e audaciosa de uma mulher que traí o marido debaixo do mesmo teto e está disposta a exterminá-lo. Por outro lado, Frank é o típico homem sedutor, pobre, desqualificado que não tem eira nem beira e pensa que a vida é fácil, mesmo que com o passar da narrativa, fique mais evidente que ele ama Cora e quer se casar com ela. O roteiro se encarrega de enfatizar Frank como aquele homem que entra(ou) na onda das atividades ilícitas: gosta de uma jogatina, inclinado a trair as pessoas, procurado por homens misteriosos que o acusam e/ou com quem ele tem contas a acertar, etc. Todos esses elementos reforçam o quanto é difícil Cora e Frank ficarem juntos e o quanto eles se apaixonaram com virtudes e defeitos. No geral, O Destino Bate à Sua Porta é um belo filme com um fundo de tragédia que aflora compaixão na audiência. É triste no desfecho. Após eles vivenciarem tantas situações, será praticamente como receber um soco do destino.




Avaliação MaDame Lumière



Título original: The Postman always rings Twice
Gênero: Drama
Roteiro: David Mamet
Direção: Rob Rafelson
Elenco: Jessica Lange, Jack Nicholson

domingo, 26 de junho de 2011

MaDame CineFotografia: Shampoo (Shampoo) - 1975, de Hal Ashby

"Uma câmera na mão e uma foto de Cinema"

por MaDame Lumière







Foto de inspiração fálica, com Warren Beatty

como o cabelereiro George Roundy






A fotografia é muito mais eficaz quando ela sugere com comicidade um apelo erótico e divertido que já faz parte da temática do filme. No caso de Shampoo, George Roundy (Warren Beatty) é um cabelereiro que saí com várias mulheres. Ele é a sensação feminina do salão. A película realiza uma sátira da política sexual em um contexto político que só serve de pano de fundo, afinal o filme ocorre em pleno final dos anos 60 e início dos 70, época da liberação sexual destacada em vários filmes.


A fotografia tem um primor criativo porque ela tem o poder da sugestão, de mover o imaginário erotizado do público a tirar suas próprias conclusões. Combina uma mulher que tem o seu cabelo secado pelo próprio George. Ele lhe aponta o secador, próximo ao pescoço (que é um zona erógena e de preliminares). O secador é um objeto que por si só já tem a ponta ereta, que pode representar o fálico. Assim também, com dupla representação do sexo, ela abaixa a cabeça como que sugerindo um ato de felação. O único detalhe que mata a foto é seguramente a cabelereira gigante do Warren Beatty, a qual não deixa de ser engraçadíssima!

Os Olhos de Julia (Los Ojos de Julia) - 2010




Não é de hoje que o excelente realizador Guillermo del Toro produz ótimos filmes que mesclam o terror moderno e o suspense de tirar o fôlego a uma sobrenatural atmosfera e um roteiro intrigante. Dentre esses, destacam-se A Espinha do Diabo, O Labirinto de Fauno e O Orfanato. Todos esses longas conduzem o público a um misterioso ambiente que causa um estranhamento nítido, ao mesmo tempo palpável e também como que pertencente a outro mundo. O horror não é espalhatafoso, óbvio. Ele é gradualmente adicionado à tensa carga dramática através de vários recursos: uma cenografia silenciosa e solitária, uma fotografia iluminada com um insight de obscuridade, diferenciados ângulos de câmera que suspendem a ação e atentam-se a enriquecedores pormenores, um talentoso elenco que mergulha nos esquisitos personagens e o abuso de assustadora trilha sonora. Os olhos de Julia, dirigido por Guillem Morales (de El Habitante Encierto) é um ótimo achado cinematográfico, produzido por El Toro e estrelado pela formidável Belén Rueda (de O Orfanato e Mar Adentro) e pelo ótimo ator Lluis Homar (de Abraços Partidos e Má Educação). A atriz, que é a protagonista, se entrega ao papel de uma forma brilhante, com a dubiedade de ser corajosa e estar vulnerável como uma mulher que sofre perdas familiares e está prestes a perder a visão por conta de uma doença degenerativa.





Julia perde a irmã Sara, que tem a mesma doença visual que ela. A irmã é encontrada morta e tudo demonstra que ela se suicidou, porém Sara não acredita em tal versão e começa a investigar quem poderia ter assassinado sua irmã. Enquanto isso, ela lida com a paulatina cegueira que domina sua visão. Surgem personagens misteriosos e mortes em seu caminho e a busca da claridade sobre a morte de Sara é uma esperança e um desafio, assim como uma forma de ver o mundo de outra forma, sentí-lo sem medo, superar-se. Julia tem que correr contra o tempo, lutar para não ser assassinada, tudo isso custa-lhe coragem e obstinação ao mergulhar nas sombras de um mundo desconhecido. O longa tem todas as virtudes para deixar o público tensamente nervoso e amedrontado até o final da projeção. A narrativa já nos apresenta uma atmosfera de cegueira, de escuridão, de mistério através da protagonista e de seu drama. Esse mistério move a ação de uma mulher que não enxerga direito, que sofre das limitações e das incertezas sobre sua visão, que é perseguida por um estranho homem, que se vê sozinha e vulnerável. Além disso, o público tem de tudo para ficar aterrorizado com os sustos provocados pelo longa. Ele é muito bem filmado, com uso contínuo de trilha sonora, que não inclue somente música mas sons de variados tipos que dão uma injeção de drama na audiência; além de ter lances de câmera bem marcantes e diferenciados como a opção de não mostrar os rostos de alguns personagens, os enquadramentos em objetos que emitem sons e ruídos, seja um telefone, uma chave, um abajur; os close-ups bem selecionados, como por exemplo, em uma das cenas com plano mais fechado que marcam os olhos de policiais, ocorrida em um momento fundamental para entender o propósito dramático e da função do olhar na sequência.




Na fotografia acima, um exemplo do excelente trabalho de câmera de Morales



Imagine que Guillem Morales é um realizador jovem e talentoso que nasceu para assustar a audiência, é praticamente um excelente cineasta sádico ao conduzir sua câmera filmando uma mulher cega com ataduras no rosto, que ouve passos na casa e está próxima ao inimigo, que tem pesadelos e vê sombras em seu caminho, que vive em uma casa que tem apagões, etc. No dia seguinte, um expectador que tenha se envolvido emocionalmente com o filme, ainda sentirá a tensão à flor dos nervos e dor por todo o corpo ou certamente ficará com medo de dormir com a luz apagada já que o próprio diretor escurece a tela, apaga a iluminação, cria sombras humanas. Muito do mérito da fita é a combinação da direção, do roteiro e da magnífica atuação de Belén Rueda. A atriz engrandece o valor da fita, cria uma empatia e relação muito forte com o público, que está com ela a todo momento, torce para que ela encontre o assassino, não perca a visão, não morra. Além de bela, Belén Rueda mergulha na personagem e traz a harmonia comportamental necessária à Julia: seu ímpeto de não desistir dessa jornada (uma motivação interna, que depende dela) e sua vulnerabilidade e dor de estar sozinha na jornada, perdendo a visão (uma factibilidade externa a qual ela não pode impedir). Com todas essas qualidades, Os Olhos de Julia é um excelente entretenimento dentro do gênero de suspense com toque de horror e é claramente uma produção com a marca de Del Toro, que demonstra que ainda é possível fazer filmes desse tipo, revigorados na direção com a beleza de conduzir uma câmera que se conecta intimamente com a tensão do público.




MaDame Lumière




Título Original: Los Ojos de Julia
Gênero: Suspense, terror
Roteiro: Guillem Morales, Oriol Paulo
Direção: Guillem Morales
Elenco: Belen Rueda, Lluis Homar, Pablo Derqui

sábado, 25 de junho de 2011

MaDame Noir: Vítimas de uma Paixão (Sea of Love) - 1989



Se há um tipo de personagem ao qual o magnífico Al Pacino está destinado, esse é o de policial. Seu estilo viril, sarcástico, solitário e audacioso entrelaçado com uma boa dose de uma psicologia transtornada fazem do célebre ator um primor ao interpretar policiais dramáticos e duros na queda. Detetives como o Frank Keller (Vítimas de uma Paixão, de Harold Becker), Vincent Hanna (Fogo contra Fogo, Michael Mann, 1995) e Frank Serpico (Serpico, Sidney Lumet,1973) são o crème de la crème dos longas e colaboram para sustentar a força do conflito e da ação na narrativa e sua qualidade como Cinema. Em Vítimas de uma Paixão, Frank Keller é um detetive de Nova York que tem como desafio encontrar o assassino de uma série de homícidios de homens que têm encontros sexuais após responderem a uma coluna de correio sentimental. Ao lado do detetive Sherman (John Goodman), Frank inicia a investigação em busca da mulher misteriosa, a provável "viúva negra" que mata os machos após o coito. Ele publica um poema nos classificados de um jornal e, em um dos encontros, conhece uma das suspeitas, a loira fatal Helen Cruger (Ellen Barkin) com a qual começa uma incendiária paixão, colocando em risco a própria vida.


"Não consigo dormir na minha cama se você não está lá" (Frank)

O longa oferece uma boa interpretação anos 80 em versão colorida do Cinena Noir a partir dos elementos temáticos e estéticos. Atmosfera criminal e investigativa, um policial solitário e perturbado, uma femme fatale de personalidade ambígue e de sexualidade transgressiva e um suspense arrebatador em um submundo cínico e violento estão presentes na fita. Aqui, o assassino pode estar mais próximo do que se imagina, porém a teia de aranha é costurada de forma a propiciar tensão e dúvida no espectador, criando um clima de crescente desconfiança, de dissimulação, de obscuridade. Nesse quesito, o roteiro é muito bem articulado a partir do desenvolvimento dos personagens como o de Al Pacino e Ellen Barkin e da paixão e química sexual entre eles. Na estrutura de um clássico film noir, o detetive é um tough guy (expressão inglessa para nervosinho, esquentado), comportamento que Al Pacino tem o dom de interpretar e o faz muito bem. Normalmente, esse detetive é seduzido por uma mulher atraente e a narrativa demonstra que ele está com problemas, sejam financeiros, sejam emocionais ou de qualquer outro tipo. No caso de Frank Keller, ele foi abandonado pela esposa, que o trocou por um dos amigos dele, Gruber (Richard Jenkins), tem um pai muito idoso e carrega a solidão e a amargura de policiais que se dedicaram uma vida inteira às suas carreiras, são falidos afetivamente, sem ter procriado uma família. A atuação de Al Pacino é muito convicente sob esse aspecto e claramente demonstra que Frank Keller é moralmente problemático como boa parte dos policias em filmes, ainda que combata o crime. Ao conhecer Helen, Frank fica totalmente cego e dependente emocionalmente e sexualmente dela, o que poderá trazer consequências desastrosas à sua investigação.




O que você está procurando, hein? (Helen)


Pelo lado feminino, temos a ótima atuação de Ellen Barkin que incorpora muito bem a personalidade dissimulada e dupla da mulher noir assim como sua energia sexual borbulhante em quentes cenas de amor com Al Pacino. A mulher do Cinema Noir é o oposto da mulher doméstica e patriarcal. Ela domina sua própria sexualidade, logo Helen Cruger é um personagem construída para acender a paixão e confundir a mente e o coração de um policial, a angulação, iluminação e enquadramento em seu atuante corpo dão conta do efeito provocativo que ela tem sobre Frank Keller. É indiscutível fato de que a química do casal faz muito a diferença no longa, principalmente como ela é conduzida pela câmera de Becker, em detalhes, em um misto de romance de duas pessoas abandonadas no mundo e de sexo bem carnal de duas pessoas que só desejam transar intensamente. Ambos estão fantásticos nessa deliciosa combinação e se tornaram emblemáticos como um dos casais mais sensuais (e sexuais) do Cinema. Cria-se um clima de perigo, erotismo e dependência nessa relação, o que dá uma sensação de prazer iminente como um último gozo mortal, a fronteira entre a vida e a morte dos fervilhantes desejos, o orgasmo cinematográfico que descarrega toda tensão do suspense. Dessa forma, são incluídas no roteiro cenas nas quais Frank a procura em seu emprego, em uma loja de sapatos e em sua casa, nas quais são viciados um no outro, permanecendo na cama por horas e com a necessidade crescente de se verem, assim como cenas com brigas e mentiras. Ellen também seduz e confunde o expectador. Ela é uma mãe de família solteira, que cria a filha sozinha e foi abandonada pelo marido. Em alguns momentos, ela demonstra vulnerabilidade através do jeito de olhar, rendida pelo romance com Frank. Em outros momentos, parece ser o contrário, totalmente letal. A trilha sonora, com a adorável canção tema Sea of Love, de Robert Plant funciona como um personagem estranho e necessário nessa atmosfera obscura e solitária. Sua letra romântica são para os que carecem de amor e se apaixonam, assim como Frank e Ellen, as vítimas de uma louca paixão.

Avaliação MaDame Lumière





Título Original: Sea of Love
Gênero: Crime, Suspense
Roteiro: Richard Price
Direção: Harold Becker
Elenco: Al Pacino, Ellen Barkin, John Goodman

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Qualquer Gato Vira-Lata (2011)



Qualquer Gato Vira-Lata, nova comédia nacional com o trio de Globais Cleo Pires, Dudu Azevedo e Malvino Salvador é uma combinação divertida de clichês das relações amorosas modernas nas quais, muitas vezes, a mulher perde um bom tempo da sua vida com o homem errado, insegura e pegando no pé do namorado ou desesperada à procura das respostas que expliquem porque os homens agem de determinadas maneiras. Na história, Tati (Cleo Pires) é apaixonada pelo sarado Marcelo (Dudu Azevedo), um namorado egoísta, narcisista, mulherengo e completamente desprovido de qualquer conteúdo intelectual. Ela acaba levando um fora, ou melhor, um 'tempo' para a relação, debulha-se em lágrimas e vê seu mundo desabar. Ao assistir uma palestra do professor de Biologia Conrado (Malvino Salvador) a respeito da tese Darwinista de que as mulheres estão correndo atrás dos homens e agindo na contramão da teoria evolutiva dos machos, Tati se aproxima de Conrado e aceita ser de objeto de sua pesquisa. A aproximação entre eles faz com que Tati amadureça como mulher e tenha uma nova chance de encontrar a tão desejada felicidade afetiva.





Baseado na bem sucedida peça teatral Qualquer Gato Vira-Lata tem uma vida sexual mais sadia do que a nossa, de Juca de Oliveira, o longa é um entretenimento ligeiro com fórmulas que seguem o padrão das personas e da sedução desse complicado pano de fundo das relações afetivas. Esse padrão comportamental foi bem observado por Juca Oliveira que escreveu a peça após observar a vida amorosa de sua filha. Ela costumava agir como a Tati. Ligava várias vezes para o namorado e agia de uma forma mais ativa em procurá-lo do que o contrário. A peça se tornou um sucesso de público durante quatro anos com mais de milhão de expectadores e agradou ao trazer em plena contemporaneidade a discussão da teoria evolucionista de Darwin nos relacionamentos de homem e mulher. Segundo a premissa, os machos se comportam audaciosamente no mercado sexual para perpetuar a sua especie, sob o risco de extinção. A partir do momento que a mulher se coloca em uma posição de caçadora, ela está invertendo o seu papel e, o macho não a valoriza. Certamente quando o homem quer namorar uma garota e amá-la verdadeiramente, ele a procura, pelo menos, deve criar coragem para fazê-lo.






Mesmo que o argumento pareça machista ao trazer à discussão que as mulheres agem como se fossem machos agressivos no mercado sexual e por isso acabam sozinhas e inconformadas, perdidas em como lidar com os homens e perdendo a chance de encontrarem o par ideal, na verdade, o filme não está mentindo e nem é tão machista. Ele retrata uma verdade do cotidiano e não há surpresas porque, no fundo, a mulher sabe que o homem não valoriza a que pega no pé e que um desprezinho básico em homem que se acha nunca é demais. A narrativa é construída com esse padrão moderno de clichês que funcionam, são interpretados de uma forma mais caricata e exagerada e não deixam de ser honestos com o público. Basta observar como os personagens foram propositalmente construídos. Tati é a garota bonita, carismática, inteligente, sincera, que trabalha e estuda. Ela foi construída para ser a mulher bacana e apaixonada, para casar e namorar. Marcelo é o garoto sarado, bonito e burro, que vive de mesada na casa dos pais, não trabalha, tem tempo para ir à praia surfar e circular nas ruas do Rio de Janeiro em plena luz do dia, dar festinhas sacanas e traí-la. Conrado é o homem mais maduro, intelectual, tímido e de bom coração que já teve um casamento fracassado.





A direção conduz a narrativa de forma a criar essas caricaturas de forma simpática e obedecer o clássico gênero de comédia romântica, com os encontros e desencontros até o happy end. O roteiro inclue cenas clássicas como a paquera na balada, o surto da ex-namorada ciumenta, a traição do namorado mulherengo, a hesitação da declaração de amor. Marcando sua estreia em longas após convite dos produtores Pedro Rovai e Tubaldini Junior, Tomás Portella capricha mais nos enquadramentos, na edição, trilha sonora e direção de atores, essa última só funciona positivamente com Cleo Pires que dá muito mais vida e beleza à personagem e leva os filmes nas costas com o seu charme. Os desdobramentos acerca desse trio amoroso são óbvios porém são bem verossímeis com o padrão comportamental de muitas pessoas. Se uma mulher tivesse a opção de encontrar o par ideal, quem ele seria: Marcelo ou Conrado? No final das contas, o amor simplesmente acontece e sempre com aquela pessoa que o leva a sério.



MaDame Lumière






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Título Original: Qualquer Gato Vira-Lata
Gênero: Comédia Romântica
Roteirista: Claudia Levay, Julia Spadaccini.Baseado na peça de Juca de Oliveira, Qualquer Gato Vira-Lata tem uma vida mais sadia do que a nossa
Diretor: Tomás Portella
Elenco: Cleo Pires, Dudu Azevedo e Malvino Salvador

Humor do Dia: Cartaz de Harry Potter 7 - parte 2 e o feitiço na garota do mêtro






No mêtro Consolação em SP, o confronto final:

Harry Potter e a garota do mêtro.


Sem reação, a garota olha assustada enquanto Harry lança o seu feitiço.




O que terá dito Harry Potter?


Petrificus totalus?


Expelliarmus?


Engordio?


Pela cara da garota, pode ser tudo isso de uma única vez!




Hahahahahahaha!








Foto legítima, sem montagem, tirada no metro Consolação em SP para a alegria geral dos Harry Potterianos.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Festival Varilux de Cinema Francês 2011: Os Nomes do Amor (Les Noms des Gens) - 2010




Uma das virtudes mais refrescantes do Cinema Francês é usar o humor com inteligência. Quando o cômico se mistura ao contexto histórico, político e social da França em um roteiro que tem algo a mais a acrescentar à experiência cinematográfica, temos o casamento perfeito. Em Os Nomes do Amor, comédia de Michel Leclerc, a questão da identidade em uma França povoada por imigrantes estrangeiros e com tensões étnicas é o diferencial da narrativa, que também se desenvolve com romance e drama. O casal de protagonistas são filhos de imigrantes e são bem diferentes um do outro. Bahia Benmahmoud (Sara Forestier, excelente e vencedora do Cesar, O Oscar Francês) é uma expansiva jovem, filha de um argelino com uma hippie. Liberal, sexualmente ativa e partidária de esquerda que pratica o lema "Faça amor ao invés de guerra", Bahia tem um estilo de vida bem peculiar: para influenciar os homens de direita, que ela nomeia como Facistas, ela transa com eles na tentativa de convertê-los a uma diferente visão política. Por outro lado, Arthur Martin (Jacques Gamblin) é um homem mais maduro, solteirão na faixa dos 40 anos e convencional, além de ter pais metódicos e conservadores. A partir do encontro entre Bahia e Arthur e o despertar do romance, desdobramentos relacionados à questão da identidade começam a acontecer, harmonizando o cômico e o conflitivo na narrativa.




Para compreender Os Nomes do Amor e desfrutá-lo com prazer, ao longo do filme, fica bem perceptível que é preciso compreender um pouco da realidade sócio-política Francesa e as próprias cicatrizes de fatos da História como a intolerância racial e o genocídio contra judeus na Segunda Guerra Mundial, o preconceito étnico contra povos de origem árabe na França, o espírito xenófobo que se alastrou pela Europa, as sequelas do colonialismo e o problema da identidade em um país habitado por diferentes culturas. Tudo isso forma uma rica miscelânea de referências que são inseridas nos diálogos dos personagens, contribuem para suas opiniões, movimentam suas ações e afetam seus conflitos pessoais, além disso o roteiro se preocupa em marcar a diferença entre os protagonistas e desenvolver os personagens reforçando quem são, o que agrega valor ao roteiro. Bahia é um exemplo evidente de liberdade a qualquer custo. Desbocada, jovial, carismática e enérgica, ela traja roupas curtas, deixa seios e bunda à mostra, aborda outros homens na frente de Arthur para continuar a missão contra os "facistas". Já Arthur se vê mais solto ao se envolver com Bahia, mas ainda tendo que lidar (e fingir que concorda) com o conservadorismo dos pais e com o seu próprio jeito travado de ser.


A comédia é divertida e inteligente por excelência. Ainda que o roteiro mude o tom cômico em determinado ponto do roteiro e que as referências políticas sejam diversas e possam dificultar o entendimento das engraçadas tiradas, a atuação de Sara e Jacques é envolvente, bem humorada e cria uma empatia com o público. A direção insere algumas técnicas narrativas a la Woody Allen, na maioria esses recursos são usados com o personagem de Jacques Gamblin, como por exemplo: a narração em off, o diálogo direto com a platéia (quando o personagem fala com a câmera e começa uma interação com o expectador) e a inclusão de si mesmo em cena, ou seja, um alter ego ou uma terceira pessoa, no caso, Arthur aparece mais jovem contracenando com ele mesmo mais velho. Além disso, o longa é bem interessante sob o ponto de vista da relação de respeito familiar, o dos filhos para com os país. Bahia tem grande carinho pelo pai, um homem talentoso, pintor nato que vive fazendo favores para os outros e não prioriza a si mesmo, assim como Arthur é um homem que tem um cuidado com os pais, respeitando suas convencões e excentricidades. Em comum, o pai de Bahia tem seus silêncios com a filha assim como a mãe de Arthur tem os seus com o filho.





Há uma mudança comportamental em Bahia e Arthur que é acelerada pelo amor, respeito e carinho que passam a sentir um pelo outro, mas também pela aceitação de que têm diferentes personalidades e que podem se acertar, com um pouco de flexibilidade e mudança. Com isso, eles podem ajudar outras pessoas a aceitarem a diferença de outros em um país cheio de diversidade. O grande mérito de Os Nomes do Amor, que é melhor compreensível com sua tradução literal, Os Nomes das Pessoas, é que não importa tanto a origem do nome de alguém, seja ela um Argelino ou um Judeu na França, seja ela um Francês, mesmo que o sobrenome seja um legado e uma marca expositiva de onde viemos para a sociedade. O mais importante é a identidade que é construída e aceita pelo indivíduo, que o caracteriza em sua essência; uma identidade que cada um tem que assumir para promover a mudança pessoal e social.



Avaliação MaDame Lumière



Título original : Les Noms des Gens
Gênero: Comédia Dramática
Diretor : Michel Leclerc
Roteirista: Michel Leclerc, Baya Kasmi
Elenco: Sara Forestier, Jacques Gamblin, Zinedine Soualem

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Cinema e Erotismo: Bela da Tarde e o sonho pela realização do desejo






O Cinema em sua essência é uma Arte Fetichista. A câmera é uma entidade erotizada. Ela é o voyeur. Ela é a que tudo observa, explora, registra como em um ato de despir o personagem e mover a ação a um clímax. Ela realiza tentativas para um melhor enquadramento ou tomada como corpos fílmico e cênico que tentam se encaixar perfeitamente. Ela testemunha a emoção da narração, envolve-se com o ato para chegar ao prazer e intenção da mensagem transmitida. Ela existe para convidar o público a uma jornada libertária de observação e identificação mimética, para propiciá-lo o gozo cinematográfico. Observamos olhares, peles, toques, silêncios, intenções. Observamos a nós mesmos a partir do outro.

















O Cinema é como viver um sonho, é como realizar o desejo pela autodescoberta, é como encontrar repostas à existência que geram outras perguntas. As pessoas não vão ao Cinema para assistir a um filme, elas vão ao Cinema para sonhar, para acordar por dentro, para reconhecer-se através da narrativa e do personagem. Bela da Tarde, obra prima surrealista de Luis Buñuel é um sonho erótico em forma de palpável película. Não sabemos se tudo é um sonho ou é real, mas o mais importante é que a fantasia do desejo sexual é realizada, mesmo que seja em um sonho ou em uma realidade. A bela Sèverine (Catherine Deneuve) é uma dama bem abastada, de finas roupas e com um casamento convencional. Nada disso a satisfaz, ela deseja ser uma prostituta de luxo, transar com homens desconhecidos, concretizar suas fantasias eróticas, sair do aborrecedor anonimato. Dessa maneira, o Cinema é o campo fértil para que sejamos voyeurs da realização do desejo de Sèverine e, a cada cena, possamos criar um vínculo de identificação com os personagens e com esses sensuais desejos.
















Bela da Tarde é um dos filmes mais elegantes na Arte do Drama Surrealista com elementos eróticos. O sonho é um espaço perfeito para vivenciar os mais obscuros e ardentes desejos, assim como o Cinema também é um espaço perfeito para transpor e materializar o desejo em imagens, em todas as suas mais variadas formas e referências. Na foto acima, podemos ver Buñuel trabalhando nos detalhes de como os lábios do homem desconhecido beijam a pele de Severine enquanto ela está imóvel, amarrada, entregue à descoberta do prazer Fetichista. Podemos ver a preparação de uma cena antológica e fetichista de submissão erótica na qual Sèverine se mantém amarrada e é coberta por uma sujeira jogada sobre o seu corpo. Nos bastidores, isso não passava de alguma mistura de chocolate, mas a intenção era simular os mais excêntricos desejos sexuais do outro que colocam o parceiro em uma posição vulnerável, de total entrega à humilhação masoquista. Buñuel foi um cineasta exemplar ao tratar o fetiche com refinamento em um universo surrealista. Ele também soube como realizar uma excelente direção de atores, considerando que Catherine Deneuve está magnífica e consagrada com uma personagem icônica: Sèverine é uma das libertinas mais sofisticadas e misteriosas da História do Cinema.





Fotos extraídas de Luis Buñuel, Filmografia Completa, Editora Taschen.

domingo, 19 de junho de 2011

Festival Varilux de Cinema Francês 2011: Lobo (Loup) - 2009






Desde os primórdios da visão psicanalítica Junguiana sobre os arquétipos humanos, a experiência primitiva é considerada uma dádiva libertadora para o homem. É o encontro consciente e inconsciente com ele mesmo e todos os desdobramentos psíquicos e vivenciais de suas escolhas, desejos, medos, etc. Encontrar a harmonia do eu em contato com todo o primitivo ecossistema é encontrar o próprio espelho da natureza humana e seus instintos, portanto, é encontrar o ponto de equilíbrio entre o ser humano e a sua natureza animal, assim como o convívio com outras especies. Partindo desse ponto de vista após a experiência cinematográfica com Lobo (Loup), realização do cineasta Nicolas Vanier, podemos dizer que o filme é muito mais do que uma produção visualmente contemplativa com sublimes e bem fotografados planos abertos das sazonais paisagens do Norte da Sibéria. Lobo é um longa para refletir sobre o início da convivência e o desenvolvimento da amizade do jovem nômade Sergei (Nicolas Brioudes) e um grupo de lobos, e o quanto nesse argumento há uma narrativa libertária que demonstra o rito de passagem de um jovem garoto, em linha com os ritos de amadurecimento pessoal. Sergei conhece os lobos, lida com um conflito pessoal, se torna um jovem mais adulto, se une à sua amada Nastasya (Pom Klementieff). Nesse aspecto, a escolha da figura do lobo é primordial, pois é um dos animais mais representativos do selvagem familiar na Psicanálise, aquele que ama e cuida da matilha, que tem virtudes comportamentais por trás do mortal predadorismo.





O início da narrativa contextualiza o público sobre aquele tradicional ambiente nômade e porquê lobos são considerados inimigos da família de Sergei. O jovem é filho de Nikolai (Min Man Ma), o patriarca que cria e cuida do rebanho de renas, atividade principal do clã dos Batagi. Como é próprio do instinto de sobrevivência animal, principalmente no inverno, os lobos têm que saciar sua fome e as renas são o alvo alimentar. Para proteger as renas, o pai de Sergei mata os lobos, se necessário for, e o filho deve fazer o mesmo. Após chegar a certa idade, Sergei é destinado a cuidar do rebanho de renas, fato que é considerado motivo de celebração familiar segundo as tradições. Ele se retira do acampanhamento e transita em paisagens longíquas, dentre as quais, encontra uma loba e seus recém nascidos. Ao invés de matá-los, ele se encanta com aquela família de lobos e começa a conviver com eles, conquistando sua confiança e afeto. Por outro lado, ele oculta tal acontecimento de seus pais, o que posteriormente gera conflitos, a necessidade de enfrentamento com as convenções do clã e o amadurecimento como homem.




Nicolas Vanier




Lobo é concebido como um mergulho ao convívio com Sergei e os lobos, com um verossímil trabalho de fotografia, direção de arte e figurino de uma região tão bela e inóspita. As imagens fílmicas de um ambiente frio e nômade é o grande diferencial do longa, muito mais do que a história e a direção de atores. A fotografia é de uma beleza ímpar. Em sua maioria, os planos médios e altos são realizados para levar o público àquela região, observar como os lobos interagem com sua matilha, como atacam suas presas, como deixam Sergei se aproximar e aprendem a conviver com ele, como são temidos e caçados. As sequências chegam a ser como um documentário da Natural Geographics com o híbrido ficcional dado o realismo da paisagem e do cotidiano, além do mais contam com o olhar experiente de Nicolas Vanier. O cineasta e roteirista é um confesso apaixonado por lobos, aventureiro que viaja para o Ártico e explora paisagens Siberianas e quem tem no background filmes como Au Nord de L'Hiver e Le Dernier Trappeur. Ao assistir a Loup, fica bem evidente que sua vivência em viagens exploratórias coopera muito para a bela fotografia do filme, assim como o realismo dramático de algumas cenas como quando o lobo cai em um buraco de gelo e uma matilha de lobos persegue um rebanho de renas. A trilha sonora composta por Krishna Levy, músico que já havia trabalhado com Vanier, é um espetáculo instrumental à parte e combina muito bem com o espírito primitivo do filme.






De maneira geral, o roteiro não tem sua força em uma dramática tensão, o que torna a experiência com o filme muito mais contemplativa mas de maneira alguma menos emotiva. É um filme visualmente bonito, para quem gosta de lobos, da convivência com a natureza e do valor da amizade e lealdade. Na maioria das vezes, somente a imagem afetiva entre o jovem e os lobos é suficiente para criar uma conexão do público com a escolha de Sergei. Ele é um jovem cobrado socialmente a ter uma determinada conduta: matar os lobos, afastá-los das renas. No entanto, Sergei desenvolve um espírito familiar com eles e é capaz de enxergá-los além dos estereotipos de bem e mal, de bondade e crueldade, aí está a riqueza do filme: descobrir a essência do lobo, amá-lo da forma que ele é, independente de convenções sociais. A beleza da amizade está em seu poder de transformação sem invadir a natureza do homem e do lobo. A harmonia e o respeito encontram o seu habitat natural.










Avaliação MaDame Lumière



Título Original: Loup
Gênero: Drama
Direção: Nicolas Vanier
Roteiro: Nicolas Vanier , Ariane Fert
Elenco: Nicolas Brioudes, Pom Klementieff, Min Man Ma

sábado, 18 de junho de 2011

MaDame DivaDame: Greta Garbo

MaDame DivaDame:
Uma homenagem para as Divas do Cinema

Eu nunca disse "Eu quero ficar sozinha". Eu somente disse que "eu quero que me deixem sozinha" Existe toda uma diferença!"



Greta Garbo é uma legendária diva do Cinema. Seu olhar é um mistério convertido em lenda, é uma janela que desperta os mais profundos e intrigantes desejos, assim como sua escolha pela reclusão é mais um mistério que, no íntimo, é compreensível. Divas precisam de uma vida que não seja somente a sufocante Hollywoodiana, impregnada de aparências e cobranças. Elas precisam dessa humanidade que advém da normalidade de ser uma anônima, mesmo que esse anonimato seja vivenciado entre as quatro paredes de um solitário quarto, com um cigarro ou uma bebida na mão, um diário íntimo como companheiro ou uma fragilidade que lhes tira o vigor da beleza.




"Há muitas coisas no seu coração que você não deve contar a ninguém"




Do contrário de Elizabeth Taylor que ganhou o coração dos estúdios desde criança, tinha a carreira controlada pela mãe e já nasceu como uma estrela bonita aos olhos dos executivos da MGM, Greta Garbo era uma atriz estrangeira, de nacionalidade sueca e em solo Americano. Ela era cheia de imperfeições diante dos exigentes critérios de Hollywoody. Não falava inglês direito, não tinha o corpo esguio, não tinha o rosto perfeito. Passou por um tratamento estético e por ser privilegiada por um olhar exótico e expressivo ganhou território no Cinema Mudo, destacando-se como uma icônica estrela nessa seara cinematográfica. Sua beleza era arrebatadoramente perfeita que nem mesmo um som poderia fazer o expectador distrair-se e tirar os olhos dela. Seu olhar feminino era capaz de despertar não somente o desejo de homens, mas também de mulheres que se extasiam com olhos tão sensuais. Eram olhos como que nascidos para serem transgêneros e guardiões de doces e contraditórios segredos. Eram olhos universalmente e atemporalmente desejáveis, assim como Greta Garbo.




"A vida poderia ser maravilhosa se soubéssemos o que fazer com ela"



Ela foi uma dessas divas que tomou uma decisão na contramão do sucesso alimentado pelos holofotes. Ela escolheu ser ela mesma e retirar-se do comando dos grandes estúdios do Cinema Americano cujos ideais de perfeição e de constantes exigências criou divas e musos, assim como também colaborou para que muitos delas (es) entrassem na melancólica e inevitável autodestruição. Após mais de uma década de sucesso em filmes como Grande Hotel, Ninotchka, Rainha Cristina, Anna Karenina e Dama das Camélias e de ter sido um icône do Cinema Mudo com sua singular expressividade que dispensava palavras, Greta Garbo escolheu a solidão, que é um luxo intrisecamente paradoxal. Ela traz o sereno, o tempo a si mesma, porém traz o doloroso, o pesar das silenciosas e extensas horas, a indignação e o murmúrio das pessoas que especulam os porquês e criticam a reclusão.



A atitude da diva é tão clara como o sucesso de grandes celebridades do Cinema. Assim como há o ápice do reconhecimento e seu glamour, há o tempo de escolher entre ser excluída por Hollywoody (fato que ocorreu com outros nomes) ou excluir Hollywoody. A escolha de Greta Garbo não foi uma afronta contra os estúdios e a Sétima Arte, mas uma espontânea opção de seguir a própria vida e dar continuidade a algo que ela precisava e tinha como traço de sua personalidade: a privacidade. Garbo precisava sair das sombras e da luz do Cinema em direção à luz e as sombras da solidão. Provavelmente ela sabia que era melhor ser inteira fora das telas do que ser pela metade dentro das telas e isso é uma evidência de que ela respeitou o seu público, de que ela é uma DivaDame.








Fotos de livro foram tiradas de Greta Garbo, de Mystery of Style

sexta-feira, 17 de junho de 2011

MaDame CineFotografia: Acossado (À bout de souffle) - 1960, de Jean-Luc Godard




"Uma câmera na mão e uma foto de Cinema"


por MaDame Lumière




Foto emblemática dos belos Jean Seberg e Jean-Paul-Belmondo.



São raros os casais de Cinema que são tão bonitos, estilosos, inesquecíveis e desejáveis. Cercados de uma aura cult e sensual, com uma química irresistível que até hoje ronda o imaginário cinéfilo com desejo e fantasia, Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo eram a cara sedutora da França, de uma nova ordem do Cinema da Nouvelle Vague, da liberdade a qualquer custo. E há melhor sedutora liberdade do que contemplar dois corpos que se entendem em uma bela Paris ?



(Foto tirada do livro Nouvelle Vague, portrait d'une jeunesse, de Antoine Baecque , Editora Flammarion)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Festival Varilux de Cinema Francês 2011: Xeque-Mate (Joueuse) - 2009






Para alcançar uma realização pesssoal, é preciso jogar com a vida como em um jogo de xadrez. Arriscar-se em um tabuleiro humano no qual as peças se movem e nem sempre é possível estar na dianteira e ser a peça mais importante do xadrez. Requer vontade, concentração, estratégia e resiliência. Muitas vezes, é preciso vencer o medo, a baixa autoestima, o preconceito. É necessário vencer não só o adversário com o qual se joga, mas o pior adversário: o sentimento de que se é inferior do que o outro e de que nada mudará. Certamente quem tem talento e atitude, pode ganhar esse difícil jogo. Com realização de Caroline Bottaro e um duo magnífico no elenco, Sandrine Bonnaire e Kevin Kline, Xeque-Mate narra a história de transformação de uma mulher através do xadrez. Hèlène (Bonnaire) é um mulher modesta, de vida humilde e proletária, que trabalha como faxineira em um hotel em Corsica e realiza trabalhos como diarista na limpeza da casa do recluso Doutor Kröger (Kline). Casada com um homem bonito e rústico, Ange (Francis Renaud) e mãe de uma adolescente, Hèlène é uma mulher dedicada ao trabalho e à família e não tem uma vida regrada. Não se dedica a ela mesma. Na paisagem idílica da cidade ela segue uma rotina: Vai ao trabalho de bicicleta, cozinha e faxina, e nem mesmo o seu marido, que tem um trabalho braçal e um comportamento mais ignorante, não demonstra um afeto mais caloroso, um desejo sexual arrebatador, logo, a vida de Hèlène é entediada. Após ver um casal americano (Jennifer Beals e Dominic Gould) jogando xadrez no hotel e trocando carinhos, sorrisos e beijos, Hèlène fica fascinada pela imagem, se interessa pelo jogo e começa a aprender a jogá-lo. Mais adiante na narrativa, ela convence Kröger a jogar xadrez com ela e ensiná-la sobre essa Arte.














Xeque-Mate é um belo, otimista e inspirador filme sobre mudança pessoal. Pode ser considerado como um tipo de filme metáfora que funciona bem em qualquer situação nova que um indivíduo se dispõe a vivenciar e se superar. É sobre dar o xeque-mate da vitória após ingressar em um novo jogo da vida. Sua máxima beleza está em narrar uma história simples de uma mulher que dá o primeiro passo para aprender algo de que gosta e conquista novas possibilidades de ser reconhecida e feliz. A personagem Hèlène é construída de uma forma tão cuidadosa e nobre que ela mesma não tem aquela voracidade tão própria da ambição humana. Ela simplesmente deseja jogar xadrez, fazer algo de bom por ela mesma e, com isso, ela consegue mover Kröger, um homem mal-humorado e arisco a alcançar também uma mudança pessoal. Hèlène passa a sorrir mais e sinergiza a família com o simples ato de dedicação ao jogo: Consegue fazer com que a filha, uma garota que tem vergonha de ser pobre, passe a incentivá-la no xadrez e com que o rústico marido respeite a vontade dela de aprender tal jogo e aceite suas aulas com outro homem. Com a interpretação madura e fascinante de Sandrine Bonnaire, que se consagra mais uma vez como uma das melhores atrizes Francesas, e Kevin Kline em sua primeira interpretação em lingua Francesa, o longa metragem é agradabilíssimo na contemplação da direção, do elenco e da fotografia.











Há uma atmosfera bem idílica na qual a paisagem e a rotina de Hèlène colaboram para que conheçamos e acompanhamos seu cotidiano, assim como entendamos que ela está tomando um rumo que a libertará desse lugar-comum. Suas idas e vindas de trabalho, suas noites mal dormidas, suas faxinas no hotel e na casa de Kröger, suas partidas de jogo com o Doutor, seus momentos de silêncio e concentração, etc. Absolutamente tudo está lá com um propósito: o de mostrar quão interessante é a transformação (e libertação) de uma mulher pobre através de um jogo elitizado como o xadrez. O roteiro e a cenografia são construídos com uma coerência para evocar que Hèlène tem uma vida provinciana e que ela pode ganhar o mundo à medida que sua habilidade com o xadrez lhe proporcionar reconhecimentos em diferentes contextos, seja em sua casa, na do Doutor ou em um torneio, Essa dicotomia de colocar uma mulher singela que se valoriza a partir de um complexo jogo não fortalece os preconceitos, pelo contrário, é uma forma de reforçar que o talento não escolhe condição social e que todos têm condições de aprender algo, independente de vitórias ou derrotas, independente de rótulos estereotipados. Há algumas características no roteiro, as ditas simples e belas sacadas, que tornam o desenvolvimento da narrativa mais envolvente, como por exemplo: o chão do hotel parecido com um tabuleiro e Hèlene se movendo como uma peça, e as narrações em off de Kröger que trazem ensinamentos sobre como jogar xadrez com sabedoria e que são aplicáveis a outras vivências. O filme é bem dirigido com uma alternância dos planos abertos, de formidáveis paisagens, até os precisos closes em Bonnaire, uma atriz sólida e autoconfiante que flerta muito bem com a câmera. Mais um exemplar do Cinema Francês que ganha poder na Tela Grande através da força interpretativa de suas divinas atrizes.








Avaliação MaDame Lumière













Título Original : Joueuse





Diretor: Caroline Bottaro





Roteiro: Caroline Bottaro





Elenco: Sandrine Bonnaire, Kevin Kline