terça-feira, 31 de maio de 2011

Vencedores do 10º Grande Prêmio do Cinema Brasileiro





Em cerimônia ocorrida nessa terça-feira no Teatro João Caetano no Rio de Janeiro, o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em sua 10ª edição reconheceu grandes filmes do Cinema Nacional como Tropa de Elite 2, destaque da noite, que levou o maior número de premiações (9 no total), incluíndo os de melhor diretor para José Padilha, melhor ator para Wagner Moura e melhor longa metragem de ficção (tanto no voto do júri como do público). O reconhecimento do voto popular para Tropa de Elite 2 e para o documentário Dzi Croquettes também comprova que o Cinema Brasileiro bem realizado tem se firmado favoravelmente perante a opinião pública, que acompanha as produções nacionais e reconhece esses excepcionais trabalhos.



Excelente iniciativa, parabéns à Academia Brasileira de Cinema assim como a todos os profissionais de Cinema envolvidos em mais essas vitórias da Sétima Arte no Brasil.



Melhor longa-metragem:
- "Tropa de Elite 2"
Voto popular - "Tropa de Elite 2"

Melhor documentário:
- "O Homem que Engarrafava Nuvens"
Voto popular - "Dzi Croquettes"

Melhor direção:
- José Padilha - "Tropa de Elite 2"

Melhor atriz:
- Glória Pires - "Lula, o Filho do Brasil"

Melhor ator:
- Wagner Moura - "Tropa de Elite 2"

Melhor atriz coadjuvante:
- Cássia Kiss - "Chico Xavier"

Melhor ator coadjuvante:
- André Mattos - "Tropa de Elite 2" e Caio Blat - "As Melhores Coisas do Mundo"

Melhor longa-metragem infantil:
- "Eu e meu Guarda-Chuva"

Melhor direção de fotografia:
- Lula Carvalho por "Tropa de Elite 2"

Melhor direção de arte:
- Adriam Cooper por "Quincas Berro D`Água"

Melhor figurino:
- Kika Lopes por "Quincas Berro D`Água"

Melhor maquiagem:
- Rose Verçosa por "Chico Xavier"

Melhor efeitos visuais:
- Darren Bell, Geoff D. Scott e Renato Tilhe por "Nosso Lar"

Melhor montagem ficção:
- Daniel Rezende por "Tropa de Elite 2"

Melhor montagem documentário:
- Raphael Alvarez por "Dzi Croquettes"

Melhor som:
- Alessandro Laroca, Armando Torres Jr. e Leandro Lima por 'Tropa de Elite 2"

Melhor trilha sonora:
- Guto Graça Mello por "O Homem que Engarrafava Nuvens"

Melhor trilha sonora original:
- Jaques Morelenbaum por "Olhos Azuis"

Melhor curta-metragem ficção:
- "Recife Frio" dirigido por Kleber Mendonça Filho

Melhor curta-metragem documentário:
- "Geral" dirigido por Anna Azevedo

Melhor curta-metragem animação:
- "Tempestade" dirigido por Cesar Cabral

Melhor roteiro original:
- Braulio Mantovani e José Padilha - "Tropa de elite 2"

Melhor roteiro adaptado:
- Marcos Bernstein - "Chico Xavier"

Melhor longa-metragem estrangeiro:
- "O Segredo dos seus Olhos" (Argentina / Espanha), de Juan José Campanella


Voto Popular - A Rede Social, de David Fincher

domingo, 29 de maio de 2011

Metalinguagem no Cinema: Bande à Part (1964) e Os Sonhadores (2003)

A Sétima Arte pela Sétima Arte




Se há um filme no Cinema Contemporâneo que celebra a Sétima Arte através da Sétima Arte, esse é Os Sonhadores (The Dreamers), dirigido por Bernardo Bertolucci. Em um filme de efervescentes descobertas e questionamentos de três belos jovens na Paris de 1968, interpretados por Theo (Louis Garrel), Matthew (Michael Pitt) e Isabelle (Eva Green), o cineasta realiza diálogos metalinguísticos memoráveis com referências a filmes icônicos, entre elas a de O Anjo Azul, de Josef von Sternberg e a foto de Lola Lola (Marlene Dietrich) como musa inspiradora de um momento masturbatório de Theo. Em momento de fervorosa inspiração na Nouvelle Vague, nascida no berço Francês de um grupo de críticos da Cahiers du Cinema, Bertolucci usa a liberdade narrativa e referencial de seu cinema provocativo e de estilo autoral ímpar e homenageia grandes diretores desse movimento estético, como François Truffaut e sua clássica sugestão do mènage a trois de Jules et Jim , assim como Jean-Luc-Godard e a emblemática cena do Louvre em Bande à Part, na qual Anna Karina, Sami Frey e Claude Brasseur apostam uma corrida no museu. Em Os Sonhadores, Bertolucci recria a cena do Louvre com perfeição e nos leva a ser também Os Sonhadores, aqueles que vivem o sonho de relembrar o Cinema pelo Cinema.




















quinta-feira, 26 de maio de 2011

Humor do Dia: Jack Nicholson e Shirley MacLaine em Laços de Ternura (Terms of Endearment) - 1983



Garrett Breedlove:


You're just gonna have to trust me about this one thing. You need a lot of drinks/ Uma coisa eu sei. Você precisa encher a cara.



Aurora Greenway:


To break the ice?/ Para quebrar o gelo?



Garrett Breedlove:


To kill the bug that you have up your ass!/ Não, para ver se a sua cara melhora!




Garrett Breedlove (Jack Nicholson) e Aurora Greenway (Shirley McLaine) em seu primeiro almoço e encontro juntos. Ambos são vizinhos há anos. Ela, uma mãe viúva de 52 anos. Ele, um astronauta mulherengo e beberrão. Jack e Shirley ganharam, respectivamente, o Oscar de melhor ator coadjuvante e melhor atriz nesse incrívelb clássico de James Brooks, também ganhador do Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado.





*tradução em português retirada do próprio DVD original

segunda-feira, 23 de maio de 2011

MaDame Noir: Alma em Suplício (Mildred Pierce) - 1945

MaDame Noir:
O melhor do Film Noir
por MaDame Lumière





O filme que deu à Joan Crawford o Oscar de melhor atriz é uma magnífica combinação híbrida de film noir com melodrama tanto em termos estéticos como narrativos. Pode-se afirmar que o clássico dirigido por Michael Curtiz (do icônico Casablanca) é esteticamente noir com uma atmosfera de ação criminal em preto e branco e um contrastante e formidável jogo expressionista de sombras com iluminação low-key e, é mais inclinado ao desenvolvimento de uma narrativa que enfoca temáticas bem típicas do melodrama de mulheres fortes e que passam por provações emocionais, financeiras e sociais. Elas sofrem com as mazelas cotidianas como crises em casamento e toda o drama de problemas familiares como separações, adultérios, romances não correspondidos, abandono, perdas, rejeição pelos filhos, etc. Joan Crawford interpreta Mildred Pierce, uma heroína bem marcante na tradição cinematográfica do melodrama. Ela é uma mulher divorciada, que ao se separar do marido Bert (Bruce Bennett), tem que criar as duas filhas sozinhas Kay e Veda (Ann Blyth). O ex marido não facilita a separação, ela começa a trabalhar modestamente como garçonete, tendo que lidar com o preconceito da filha mimada Veda, que é materialista, tem vergonha do ofício da mãe é e insuportavelmente falsa, de má índole.







O intrigante início da narrativa é dado com o misterioso assassinato do atual marido de Mildred, o oportunista e apreciador da boa vida, Monte Beragon (Zachary Scott). Ouvem-se os tiros na casa de praia do casal e surge Zachary, ferido e prestes a cair no chão, morto. A partir de então, o desenvolvimento da história intercala o depoimento de Mildred, suspeita do crime, com os flashbacks de sua jornada, que resgatam sua separação de Bert, sua evolução como empresária de uma rede de restaurantes, seu amor incondicional por Veda e sua dedicação a prover do bom e do melhor à filha, sua amizade com Wally Fay (Jack Carson) e o seu casamento com Beragon. Durante a narrativa, é perceptível avaliar que Mildred é uma personagem sofrida e de inabalável atitude resiliente, que tudo suporta e tudo enfrenta e, mesmo assim, é enganada por aqueles que mais deveriam amá-la, assim Mildred Pierce é uma icônica heroína do melodrama Hollywoodiano, que atualmente é base de inspiração para a série de TV Mildred Pierce, estrelada por Kate Winslet em moderna revisitação da personagem. A boa vontade de Mildred é demasiadamente grande em favor da sacana e ambiciosa filha e ela tem um casamento de fachada, com um homem de caráter duvidoso, o que reforça a crueldade imposta às mães de família, desprezadas por filhos e maridos, vítimas da hipocrisia social.













Em termos técnicos, Alma em Suplício tem a primorosa direção de Michael Curtiz, que sabe impor uma excelente direção de atores, principalmente em Joan Crawford e Ann Blyth, fascinantes em suas atuações. A primeira, como uma mãe zelosa, disposta a perdoar a filha e sacrificar a si própria. A interpretação de Joan Crawford é incrível porque ela incorpora muito bem a miopia de uma mãe, incapaz de enxergar direito quem é a demoníaca filha que se esconde por trás de um dócil rostinho. Ann Blyth é uma das mais convincentes e jovens vilãs em filmes clássicos e consegue ser odiável. É uma garota muito bonita, mimada, sofisticada e que deseja ascensão social e dinheiro a qualquer custo, além disso, o seu sorriso pseudosimpático oculta uma mulher muito perigosa e cínica, trazendo à tona a ambiguidade e amoralidade da femme fatale do Cinema Noir. O bom ritmo, excelente fotografia e a concisa montagem do longa equilibram uma ótima harmonia entre o noir e o melodrama, com o uso de estética expressionista e de técnica de flashbacks. A atmosfera de mistério é refletida também pela presença coadjuvante do detetive particular que interroga Mildred, pelo suspense da trama criminal rumo à descoberta do verdadeiro assassino e pelo belo clima fantasmagórico com utilização constante de sombras no chiaroscuro, que lembram os ângulos Caligaristas criados com iluminação artificial. Alma em Suplício é um clássico obrigatório, um maravilhoso encontro do film noir com o melodrama que atravessa as fronteiras entre gêneros e legitima que o Cinema é uma Arte ilimitada, que está além de classificações comerciais.



Avaliação MaDame Lumière





Título original: Mildred Pierce
Origem: EUA
Gênero: Suspense, Thriller, Crime, Melodrama, Noir
Duração: 111min
Diretor(a): Michael Curtiz
Roteirista(s): Ranald MacDougall, baseado no romance de James M. Cain.
Elenco: Joan Crawford, Ann Blyth, Zachary Scott, Jack Carson, etc.

domingo, 22 de maio de 2011

Disque M para Matar (Dial M for Murder) - 1954




François Truffaut foi um dos grandes admiradores de Alfred Hitchcock. Em entrevistas de 1962 com o mestre do suspense, lançadas no recomendado livro Hitchcock/Truffaut, o cineasta Francês lançou a seguinte afirmação: Estamos em 1953, com Disque M para Matar... A resposta de Hitchcock foi direta, simples e sincera - Sobre o qual podemos passar rapidamente pois não temos muito a dizer. Disque M para Matar é conhecido como um filme que não entusiasmou muito Alfred Hitchcock, ele não tinha tanto orgulho de tê-lo dirigido e não o achava uma de suas melhores obras, contudo, Disque M para Matar é mais um suspense perfeito, muito bem elaborado com o requinte, a maestria e a técnica do cineasta e está muito em linha com os principais códigos de linguagem que fazem parte do estilo único Hitchcockiano. A fita continua sendo um primor atemporal que ressalta o completo controle do processo cinematográfico do diretor, com destaque especial para a concentração de lugar, a extensão do tempo, os planos fechados, a composição do roteiro, a escolha e direção de elenco, a fotografia e trilha sonora.



Baseado na peça teatral, Dial M for Murder, de Frederick Knott, a gênese da realização do filme começou porque a Warner Bros havia comprado os direitos da peça. Hitchcock já tinha uma experiência significativa e uma relação íntima com o teatro desde o início da carreira no Cinema Mudo e resolveu dirigí-la. A película gira em torno de um triângulo amoroso formado por Margot Mary Wendice (Grace Kelly, esplêndida), seu marido Tony Wendice (Ray Milland, em magnifíca e sofisticada vilania) e o amante, o escritor Mark Halliday (Robert Cummings). Tony é ex-tenista e o vilão da história que vive muito mais às custas da mulher abastada. Ele elabora um plano maquiávelico para assassiná-la. Para isso, não sujará as próprias mãos de sangue e chantageia o ex colega de estudos, Capitão Lesgate (Anthony Dawson, excelente coadjuvante) para dar o golpe mortal em Margot Wendice. Nem tudo saí como o planejado e entra em ação o policial chefe Hubbard (John Williams) para investigar a trama. O espectador é convidado a adentrar o voyeurista mundo do suspense Hitchcockiano para acompanhar os desdobramentos de uma tensa narrativa, recheada de excelentes diálogos e uma direção impecável com excelente domínio cinematográfico.



O roteiro é construído com um toque argumentista bem característico do diretor: A descoberta do vilão. Hitchcock não engana o público e convida-o a observar a psicologia dos personagens, na maioria das vezes, lançada a partir de closes de câmera. No início da trama já sabemos de todas as más intenções de Tony, já sabemos que Mary é uma adultéra discreta e com ares de boa esposa, já sabemos que Lesgate é um mentiroso oportunista que topa qualquer má conduta por dinheiro, já sabemos que Mark é genuinamente apaixonado pela amante. O adultério é claramente mostrado e Mary age como se não estivesse traindo o marido, convivendo bem com ambos a ponto de conversarem e rirem juntos. Tony e Mark também interagem dissimuladamente e chegam a sair para um evento. Em uma cena Mary está beijando o amante trajada de figurino vermelho passional. Em outra, está à mesa com o marido trajada de figurino branco matrimonial, desfrutando de um momento conjugal no cotidiano casamento. Essa alternância de figurino, do vivo ao casto e, depois, ao sombrio é como um termômetro emocional e foi propositalmente planejada por Hitchcock.




Mais uma vez e, de forma magnífica em condução de direção, Hitchcock realiza um filme com raríssimas externas e com fascinantes posicionamentos de câmera meticulosamente colocados. Em grande parte da fita, a ação é realizada na sala do apartamento dos Wendice. É impressionante como Hitchcock consegue extrair o máximo de um lugar aproveitando de todos os recursos cenográficos: abajures,cortina, mesa, maçaneta da porta, chave, tesoura, meia, tapete, etc. Nada passa desapercebido e nada está gratuitamente colocado, assim, exercem uma função em cena. Mesmo com a concentração local e os característicos planos fechados, Hitchcock tem excepcional expertise em desenvolvimento e frescor narrativo. Suas sequências são arejadas com diálogos perspicazes e personagens muito críveis, bem selecionados e bem interpretados por esse fantástico elenco. O envolvimento com a trama é tão intensa que não há espaço para claustrofobia, somente para discar H, para mais um emblemático suspense de Hitchcock.


Avaliação MaDame Lumière










Título original: Dial M for Murder
Origem: EUA
Gênero: Suspense, Thriller, mistério, Crime
Duração: 105min
Diretor(a): Alfred Hitchcock
Roteirista(s): Frederick Knott, baseado na peça teatral Dial M for Murder
Elenco: Grace Kelly, Ray Millard, Robert Cummings, John Williams, Anthony Dawson

sábado, 21 de maio de 2011

Os Agentes do Destino (The Adjustment Bureau) - 2011



Quando se fala em destino, muitas questões surgem sem nenhuma resposta clara que ilumine o mistério que representa o futuro de cada um de nós. Todo destino está traçado desde o nascimento? Quem faz o destino? Somos nós mesmos que o traçamos a partir de nossas escolhas baseadas no livre arbítrio? Ou uma força superior? É melhor pensar que há um futuro predestinado ou acreditar que o livre arbítrio pode mudar cada dia da existência? E quando circunstâncias indesejadas nos levam a uma jornada distinta do que realmente queremos para nossas vidas, é possível recomeçar, lutar contra adversidades e encontrar um novo caminho? Nossos destinos nos farão pessoas mais amadas e felizes? Perguntas como estas são comuns ao assistir o híbrido romance-suspense-sci-fi Os Agentes do Destino, primeiro longa dirigido e roteirizado por George Nolfi e baseado no conto Adjustment Team de Phillip K. Dick, autor cujas obras inspiraram filmes sci-fi como Blade Runner e o Vingador do Futuro.






David Norris (Matt Damon) é um político promissor que concorre ao Senado Americano, porém um escandâlo de ruidosa repercussão midiática faz sua campanha naufragar assim como o seu favoritismo. Ele conhece a bela e atrativa bailarina Elise (Emily Blunt) em uma situação inesperada: no banheiro masculino e antes de uma coletiva sobre sua derrota. Imediatamente se sentem atraídos um pelo outro com uma irresistível química à primeira vista. Elise o inspira a realizar um discurso espontâneo que acaba por dar um frescor à carreira política de David. Em mais uma situação inesperada, eles se encontram novamente e o sentimento amoroso é inevitável, David está completamente apaixonado por Elise. Contudo, como nem tudo no amor são flores, o potencial relacionamento entre ambos está ameaçado pelos misteriosos Agentes do Destino, homens trajados com um estilo vintage como se pertencentes a uma época antiga mas dotados de um controle futurista, entre eles os bons atores John Slattery, Terence Stamp e Anthony Mackie, os dois primeiros com a função de chantagear, perseguir e fazer de tudo para impedir David e Elise de ficarem juntos; o último, mais sensível, com a função de ajudar o jovem político a buscar algumas respostas durante a difícil perseguição. Os Agentes do Destino acompanham os passos do casal e colocam David contra a parede, chegando a pressioná-lo se Elise será uma mulher realizada ao lado dele.








Ainda que a película cause um estranhamento ao misturar idéias bem interessantes sobre o livre arbítrio e a luta contra um destino aparentemente determinado em uma narrativa fincada no hibridismo da ação com suspense, romance e ficção científica, Os Agentes do Destino é construído como uma verdadeira história de amor, mesmo que isso pareça simplista demais. É um bonito conto amoroso e isso não diminui a qualidade do filme, pelo contrário, isso o torna mais esclarecedor pois não há melhor motivo de lutar por um destino melhor do que desejar viver a felicidade do amor. Nesse aspecto, a película é bem eficaz na abordagem porque amar é lidar com dificuldades, acreditar que o destino nos brindará com um relacionamento feliz. Basta crer e escolher lutar contra qualquer impossibilidade de realização amorosa. O longa tem uma premissa bem estruturada partindo do encontro repentino e envolvente entre Elise e David como se ele fosse algo mágico, um presente do destino. Logo mais, a narrativa se desenvolve com a insistente perseguição dos agentes, com os desencontros do casal e a determinação de David em encontrar Elise e viver esse grande amor. A escolha de Matt Damon e Emily Blunt é tão certeira no elenco que esbanja beleza, carisma e química na medida certa para fazer com que o público simpatize com o casal, se envolva com a história e torça para que eles fiquem juntos.







Para seu primeiro longa, George Nolfi fez uma escolha boa e arriscada e, felizmente, bem sucedida. Sua direção soube conciliar um olhar apaixonante e, ao mesmo tempo, ativo, reflexivo e tenso à narrativa, principalmente em como a câmera se destaca nas cenas de perseguições com entradas e saídas por diferentes portas e na direçao de atores principais e coadjuvantes. O elenco é atrativo e dá conta da história, com destaque especial para Matt Damon e Emily Blunt, que tiveram uma responsabilidade e peso bem maior para transmitir a envolvente atração e verossímil ternura de verdadeiros apaixonados. Se eles não tivessem química, o filme seria um fiasco e perderia sua razão de ser. Matt Damon, versátil como sempre, harmoniza a determinação e a passionalidade de David. Emily Blunt, cada dia mais bela e em excelente boa forma, incorpora muito bem e esteticamente a encantadora bailarina Elise. Embora o argumento se sustente pelo amor, um tema universal, passional e funcional para ganhar o grande público, o risco maior tomado por Nolfi é que o roteiro tem a estranha complexidade da ficção científica que, nesse filme, não é nada crível porque tem mais efeito de ficção do que de comprovada ciência, contudo, ainda consegue despertar a curiosidade, manter a coerência e a tensão da película. Adicionalmente, a questão do livre arbítrio e da presença de um Presidente ( talvez uma força maior, um provável Deus) pode ganhar uma conotação religiosa, espiritualizada e desagradar os mais incrédulos.

Independente das conclusões particulares de cada espectador, o que cria mais efeito no filme é, sem dúvidas, a luta para vivenciar o amor que se deseja, mesmo que esse amor não esteja escrito nos planos do destino. O que é o destino, afinal? Um plano estático e determinado por uma força maior que a humana? Ou um plano dinâmico que é construído ativamente por nossas próprias escolhas? Uma resposta é certa: Ninguém precisa dos agentes do destino quando se é o agente e dono da própria vida. E não há melhor destino quando se tem a chance de amar e ser amado.



Avaliação MaDame Lumière





Título original: The Adjustment Bureau
Origem: EUA
Gênero: Romance, Sci-fi, Suspense
Duração: 106min
Diretor(a): George Nolfi
Roteirista(s): George Nolfi
Elenco: Matt Damon, Emily Blunt, Anthony Mackie, Terence Stramp, John Slattery

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Metalinguagem no Cinema: Depois do Vendaval (1952) e E.T. - O Extrarrestre (1982)

A Sétima Arte pela Sétima Arte





Trinta anos após Depois do Vendaval (The Quiet Man), épico romântico clássico de John Ford, o cineasta Steven Spielberg fez uma encantadora e bela homenagem metalinguística em seu E.T. ao incorporar e revisitar uma das mais apaixonantes cenas entre John Wayne e Maureen O' Hara. Na sequência da aula de laboratório na escola, Elliot (Henry Thomas) estabelece uma sensitiva conexão com o extraterrestre, enquanto o E.T. está em casa embriagado e assistindo à Depois do Vendaval. Quando E.T. assiste à emblemática cena de beijo entre Wayne e O'Hara, a sala de aula de Eliot está em completo alvoroço. O pequeno Eliot incorpora totalmente o espírito decidido e viril de John Wayne, puxa a colega de classe para si e lasca-lhe um beijo. Sequências adoráveis e inesquecíveis em um diálogo atemporal que somente o Cinema poderia criar. Sublime!

















domingo, 15 de maio de 2011

O Noivo da minha melhor amiga (Something Borrowed) - 2011





Não é de hoje que no universo feminino, algumas amigas já se interessaram pelo mesmo homem e, como consequência, uma delas se deu mal e ficou sem namorado, sem amiga ou sem ambos. Pelo menos, uma mulher na face da Terra já passou por essa desagradável situação. Não é também de hoje que uma mulher se calou perante um grande amor e deixou de declarar seus sentimentos e intenções amorosas, desta forma, perdeu a potencial oportunidade de viver essa relação afetiva, carregando consigo um amargo arrependimento. Essas são as premissas principais de O Noivo da minha melhor amiga, adaptado do romance de Emily Giffin, com direção de Luke Greensfield e roteiro de Jennie Snyder.












Rachel (Ginnifer Goodwin) e Darcy (Kate Hudson) são duas amigas inseparáveis desde a infância. Rachel conheceu o bonitão Dex (Colin Egglesfield) na faculdade e perdeu a chance de declarar seu amor a ele. Após seis anos, o moço está prestes a se casar com sua melhor amiga Darcy. Sentimentos são vivenciados e postos à prova entre Rachel e Dex, e o triângulo amoroso coloca em risco a amizade entre Rachel e Darcy. Qualquer semelhança com o excelente O casamento do meu melhor amigo é meramente superficial porque o roteiro de Jennie Snyder é bastante irregular e peca na construção dos personagens, no desenvolvimento e timing da narrativa e na verossimilhança, essa última carente do mínimo de espontaneidade e realidade nos conflitos. Somente as previsíveis fórmulas para criar a atmosfera da comédia romântica tipicamente americana funcionam, com a revisitação das ruas, lojas, pubs e parques de Nova York, e da praia dos Hamptons, no estilo cenográfico deja vu de Sex and the City.










Rachel é uma advogada que chega aos 30 anos e está solteira. Seu perfil é de uma mulher não muito atrativa, boa moça, centrada nos estudos e no trabalho e mais recatada. Sua melhor amiga desde a infância, Darcy segue o estereotipo da loira 'máquina mortífera' sexual, egocêntrica, festeira, desprovida de qualquer conteúdo intelectual, somente a certeza de que ela é a mais gostosa e a mais interessante das mulheres. Com isso, Rachel e Darcy são amigas bem opostas em personalidade, o que não seria um mal e nem impossível na diversidade de relações entre as pessoas, porém não há uma química que evoca uma verdadeira amizade entre Ginnifer Goodwin e Kate Hudson, o que torna a relação fake aos olhos de um público. É bem perceptível que faltou uma boa construção de personagens, nem que seja básica para uma ligeira e palatável comédia romântica. Esse pecado na escolha e na direção de atores impacta a qualidade do filme porque, quando duas amigas estão apaixonadas pelo mesmo homem, a conexão de amizade precisa ser forte e transmitir isso vivazmente na tela. Não é o caso aqui, mesmo que Ginnifer Goodwin funcione melhor na película do que a já caricata Kate Hudson, que não muda nem o sorriso nem os gestos entre uma comédia e outra.







Rachel faz o que nenhuma mulher deveria fazer: Ela não percebe os sinais e as intenções de um homem por ela, e se cala diante de Dex, o amor de sua vida, entrega-o de bandeja para a melhor amiga, que é uma pegadora nata. Às vésperas do casório, ela e Dex se descobrem apaixonados, e nisso reside a péssima diferença do filme em relação a outros, uma diferença que ele não utilizou a seu favor. Em momento algum, Dex e Darcy são um casal apaixonado, ele se mostra bem desconfortável ao lado dela, enquanto seus olhos brilham de amores por Rachel. Assim, é natural olhar para o relógio durante a projeção e lançar a seguinte questão: Por que estou sentado(a) aqui na cadeira do Cinema? O que o roteiro propõe em termos de um básico conflito narrativo e cômico, que não seja colocar várias cenas que não agregam nem frescor, nem humor e muito menos o desenvolvimento da história? Se Dex não ama Darcy e não se vê dividido entre elas, a não ser o fato de agir como um idiota enrolador em boa parte do tempo, por que o filme precisa dar tantas voltas e durar 112 minutos? Além disso, as sequências de finais de semana e feriado em Hamptons, paraíso de verão dos bem nascidos americanos, são bem desnecessárias e desprovidas de um propósito a cada cena, logo só funcionam para prolongar o quão frustrante é para Rachel ver Dex nos braços da melhor amiga, e evidenciar que faltou criatividade ao roteirista para preencher as lacunas do triângulo amoroso, podendo ter antecipado a descoberta da traição e gerado algumas reviravoltas no enredo.









Ainda que Ginnifer Goodwin seja uma atriz cômica interessante (basta lembrar-se de Ele não está tão afim de você), o único que mais se salva do naufrágio dessa comédia romântica é o ótimo John Krasinski, que interpreta Ethan, o melhor amigo de Darcy e Rachel. Além das tiradas bem humoradas que dão um frescor à película, sua colaboração é mais sensata e verossímil, em linha com o que seria esperado de um filme destes, porque ele interage com Rachel no sentido de fazê-la “acordar para a realidade” e viver o amor que ela tem que viver sem ceder as vitórias somente à convencida Darcy que, a propósito, nem parece ser tão amiga de Rachel como deveria parece-lo. O azar do personagem de John Krasinski é que, em um dado momento da fita no qual Ethan encontra Rachel em Londres, ele é destinado a ser vitimado pelo roteiro irregular com personagens mal construídos. Acaba soltando uma confissão que não o levará a lugar algum na composição da narrativa. O objeto do amor e do desejo, Colin Egglesfield, tem a pose de galã e filhinho de papai que segue o que a família deseja e não o que ele aspira, assim, não compromete tanto o filme porque o seu personagem é bem indeciso e posterga ao máximo qualquer decisão afetiva, personificando aqueles homens que não têm personalidade nem mesmo para enfrentar qualquer oposição ao amor e tomar uma atitude definitiva.



No geral, o filme é um entretenimento bem despretensioso que falha pelos aspectos acima e perde a chance de trabalhar melhor o conflito que une uma relação de amigas que gostam do mesmo homem, porém, ainda entretém aqueles que apreciam e são fiéis ao gênero. Se há uma lição de amor a tirar disso tudo é a de que não deixe para falar o que sente à pessoa amada o tão logo perceba que não é necessário adiar. Fazendo côro a um jargão amoroso: É melhor quebrar a cara e levar logo um fora do que perder a chance de viver um grande amor e quebrar a cara do mesmo jeito.








Avaliação MaDame Lumière












Título original: Something Borrowed
Origem: EUA
Gênero: Comédia Romântica, Romance
Duração: 112min
Diretor(a): Luke Greensfiedl

Roteirista(s): Jennie Snyder
Elenco: Kate Hudson, Ginnifer Goodwin, Colin Egglesfield, John Krasinski

15 de Maio - Dia Internacional da Compaixão - em pró do trabalho de Dr. Patch Adams






O BloggersUnite convida todos os blogueiros a se unir à ação 15 de Maio - Dia internacional da compaixão, em homenagem ao trabalho do Dr. Patch Adams, cuja missão na construção de um hospital diferenciado, pautado no amor, alegria, respeito, criatividade e compaixão pelo próximo foi base para o filme estrelado por Robin Williams em Patch Adams - o amor é contagioso (1998), dirigido por Tom Shadyac. Para nós, amantes do Cinema, é uma oportunidade de rever a história, os valores e os ideais do projeto de Patch Adams assim como assistir esse belo e inesquecível filme, capaz de inspirar tantas pessoas a refletir sobre sua ação humana e voluntária e a fazer a diferença no mundo, assim como atualmente fazem tantos projetos sociais como o Doutores da Alegria, Anjos da Enfermangem, etc.









Patch Adams é um líder excêntrico, vigoroso, divertido e amoroso que tem investido no crescimento do Gesudheit Institute, mas o projeto é mais do que um espaço institucional e físico, ele é muito mais do que mostrado em um filme Hollywoodiano, ele tem vída própria a partir de uma idéia básica: o amor pelo próximo. A missão é propriamente um valor humano, o de fazer o bem ao invés de não fazer nada ou fazer o mal, e muito mais, o de melhorar a qualidade de vida com a humanização da saúde. Além disso, a premissa importante é a de que a cura não é o único fim que justifica os meios, mas que os cuidados com uma pessoa enferma devem priorizar principalmente o bem estar emocional dela que, diretamente, melhorará o físico, assim, um dos pilares do projeto é a visitação em hospitais e o riso através do clowning. Para que isso ocorra, é preciso engajamento, encorajamento e preparação dos envolvidos, ou seja, o comprometimento genuíno das pessoas com o trabalho de Patch Adams. Ele atua constantemente como palestrante à serviço de espalhar essa palavra de amor. Nessa entrevista esclarecedora de Patch Adams, podemos conhecer mais sobre o verdadeiro e admirável homem por trás do filme e nos sensibilizarmos com a celebração do dia. Envolva-se, assista o filme e junte-se ao MaDame Lumière na divulgação dessa data tão especial.






" You treat a disease, you win, you loose.

You treat a person, I guarantee you, you'll win, no matter what the outcome."

(Patch Adam)

sábado, 14 de maio de 2011

Thor (2011)




A combinação da direção de Kenneth Branagh e da narrativa sobre Thor, super herói da Marvel, originado da mitologia Nórdica e filho do Grande Odin, rei de Asgard funcionou bem no novo longa Thor, que apresenta um bom ritmo e concilia a jornada do herói em exílio na Terra, seus desafios na proteção de Asgard contra os Gigantes do Gelo, o amor pela astrofísica Jane Foster, a contenda familiar com o irmão invejoso Loki e a mudança positiva no comportamento do impulsivo e convencido herói. Assim, Thor é uma aventura épica que traz ficção científica, romance, humor, mitologia e um elenco interessante com Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Natalie Portman, Anthony Hopkins, Rene Russo, Ray Stevenson, etc.






O cineasta aceitou o projeto não somente pela força de dirigir mais uma aventura de super herói do seleto time da Marvel, mas principalmente porque Thor é uma história mitológica e de ficção científica, na qual há dois mundos paralelos: o fantasioso, Asgard, e o real, a Terra, o passado e o futuro e, portanto, deuses extraordinários e homens comuns, unindo à aventura, a união de um Deus e uma humana, materializado no amor à primeira de Thor (Chris Hemsworth) e Jane Foster (Natalie Portman).Outro ponto favorável ao longa-metragem é que Thor é um herói que se humaniza em sua personalidade e, com isso, ele se conecta com as mesmas vulnerabilidades de quem o admira, seus fãs. Ele é incrivelmente bonito, inteligente, forte, autoconfiante, destemido, teimoso, egôcentrico e metido, no entanto, em nenhum momento é um herói antipático e insuportavelmente chato, mesmo que precise de algumas lições de humildade. Filmar a jornada desse arrogante herói que é enviado à Terra para ganhar alguma humanidade possibilitou ao diretor mais material humano e universal do que propriamente se limitar ao mundo planetário de Asgard.





A narrativa começa quando Thor é enviado à Terra pelo pai Odin, o rei dos deuses Asgardianos (Anthony Hopkins) que toma uma dolorosa e furiosa decisão: a que Thor não está preparado para sucedê-lo com esse comportamento tão orgulhoso e cabeça-dura. Além disso, o invejoso e traiçoeiro irmão feiticeiro de Thor, Loki (Tom Hiddleston) arma uma cilada para ver Thor bem longe do trono. O poderoso martelo encantado Mjolnir criado a partir da excepcional energia da Força-Odin é tirado do super herói e ele se torna mais um homem comum, perdido e solitário na Terra. Ao encontrar com Jane Foster, uma empenhada pesquisadora da Astrofísica e muito curiosa a respeito das origens de Thor; além da terna e bem humorada conexão entre eles, se apaixonam e Jane se torna uma importante mortal para ajudar o herói na Terra e despertar nele um senso de humanidade. Ao mesmo tempo, Thor tem o desafio de recuperar os poderes e ser digno de levantar novamente o Mjolnir, voltar à Asgard e obter o perdão do Pai e enfrentar o seu irmão que lidera diabólicos planos com os Gigantes do Gelo, colocando em risco a paz Asgardiana.









Chris Hemworsth não compromete a qualidade intepretativa da fita porque incorpora a loirice, o corpo escultural e a beleza nórdica de um Deus Thor. À medida que o super heroi se humaniza, o ator consegue impor uma ternura apaixonada em sua face, em uma ótima química com Natalie Portman. A atriz que foi recentemente oscarizada pelo magnífico Cisne Negro retorna à essa realidade sci-fi paralela (como fez em Star Wars), se aventura em Thor e se saí bem. Ela continua conquistando pela beleza, carisma e leveza na atuação, o que ilumina a Tela Grande com sua presença. A narrativa se resume bem no seu tempo de duração, sem ser enfadonha e com bons efeitos especiais, afinal, todos querem ver a força do Mjolnir, todos esperam ver, na prática, o herói dos quadrinhos mostrando a força incrível de um legendário martelo. Mesmo sem ser um Cinema Marvel melhor elaborado e pensante como O Homem de Ferro, a adaptação de Thor sofreu poucas mudanças e se mantém fiel ao comics book: ele continua o Deus do Trovão, amigo leal dos Três Guerreiros de Asgard e da Guerreira Sif, apaixona-se por uma mortal (que não é enfermeira, como no comics), tem um irmão que deseja destruí-lo, tem uma pátria que é protegida pelo guardião da ponte do arco-iris, Heimdall. A conexão do Arco-íris conecta Asgard à Terra, com uma brecha interplanetária. Todos esses elementos contribuém para transportar o público para uma visita à Asgard.








Com exceção da direção de Arte de gosto muito duvidoso, nada refinada e que tem uma estranha mistura de mitologia Nórdica com Sci-fi, Thor é uma boa diversão muito em função de como o roteiro dá conta de contar uma história sem aprofundá-la ao máximo, porém unindo elementos de aventura mais coletiva com um conflito individual, a de que Thor tem que mudar para ser um rei digno do trono. Essa mudança só acontece a partir de um exílio, em um novo contexto planetário, a Terra, no qual os indivíduos são pobres mortais, limitados em suas forças. Assim como um alter-ego humano de um super herói sem poderes, o mesmo ocorre aqui com um tempero a mais: o de que é preciso mudar para ser o verdadeiro líder, um sábio Rei! Se na Terra, os humanos não têm a força mágica e física de um Deus, é possível desenvolver a força de caráter, a mudança comportamental que demonstra o quão humanos somos e o quão humano um invencível super heroi pode ser.






Avaliação MaDame Lumière





Título original: Thor
Origem: EUA
Gênero: Aventura
Duração: 114 min
Diretor(a): Kenneth Branagh
Roteirista(s): Ashley Miller, Zack Stentz
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Tom Hiddleston, Anthony Hopkins, Rene Russo, etc.

domingo, 8 de maio de 2011

Um Filme, Uma Canção: You and me, Penny & the Quarters em Blue Valentine (2010)




Queridinho do Festival do Sundance de 2010, Blue Valentine é uma realista e poderosa história de amor, em todas as suas mais dolorosas e afetuosas contradições. Estrelado por Ryan Gosling e Michelle Williams, que interpretam um casal em crise no casamento, o filme é um belo e raro exemplar cinematográfico de que o matrimônio desgastado é impregnado de complexidades afetivas que, no mais louvável antagonismo, são mais simples do que se imagina: assim, cotidianas verdades que vêem à tona após e durante conjugais silêncios ou a qualquer momento que traz a carga dramática de problemas mal resolvidos ou simplesmente problemas, afinal o bem da verdade é que relacionamentos não são feitos para serem estáveis e muito menos perfeitos. Na seara da diversidade dos relacionamentos amorosos e seus mais variados conflitos , Blue Valentine tem uma bela verdade que permeia toda a película: essa é uma história de nós dois, de Dean e de Cindy; em uma relação, não importam os outros e sim, o 'nós', o 'você e eu', como bem dito pela música do casal, You and Me do Penny & The Quarters.



Essa canção é uma perfeita escolha para representar o casal Dean and Cindy; porque é uma música exclusiva que já começa pelo seu título: Você e eu, e de como ela é apresentada no filme. You and me não é uma música qualquer, é a "nossa música" segundo Dean ao levar o CD para Cindy, no dia em que ele conhece os pais dela. Também em uma trilha sonora, na maioria, com músicas de Grizzly Bear, essa é uma das poucas pertencentes a outra banda, o que já dá um tom especial, único. A letra e a melodia de balada nostálgica combinam com a atmosfera e a narrativa do filme, que intercala cenas do passado e do presente, e representa algo bem mais forte que os une desde o passado: essa conexão do você e eu que começou no passado e, mesmo que ofuscada pelos problemas conjugais, ainda permanece no presente! Se o amor é real, ele estará evidente com todas as suas imperfeições, não importa se Dean não tem fama, nem dinheiro, nem ambição, não importa se Cindy o trata com indiferença e não tem o mesmo desejo de fazer amor com ele. No final das contas, o que importa é o Você e Eu!








Feliz Dia das Mães: Amor e desespero materno em O Encouraçado Potemkin (1925)





Uma das sequências mais impactantes e clássicas da História do Cinema está na obra prima O Encouraçado Potemkin (Battlership Potemkin, 1925), de Sergei Eiseinstein, na qual ocorre o massacre na escadaria de Odessa, uma marco dramático da cinematografia mundial. Com a direção brihante e avant-garde do cineasta russo utilizando em sua linguagem a montagem estrutural e dialética, a multidão é dizimada por soldados soviéticos, com magnífico uso de trilha sonora e extensão do tempo cinematográfico combinados com cortes bruscos e rápidos e alternância entre planos de close-ups e mais abertos. A cena é um primor técnico, emocionalmente trágica, principalmente em virtude da figura de uma mãe que, desesperada ao ver o filho ferido no chão, pega-o no côlo e, corajosamente em uma ação de enfrentamento e em sentido contrário ao avance das tropas do Czar e à correria da multidão aflita, ela anda em direção aos soldados, pedindo clamor pela criança com as seguintes palavras "Meu filho está mal". As cenas do massacre de Odessa estão entre as mais belas do Cinema que enfocam a figura materna em desespero, mais uma vítima da violência e da repressão do poder sócio-político e bélico. Além da mãe com o jovem garoto, há a mãe com o carrinho de bebê, o qual descarrilha nas escadas, para a agonia geral da platéia.



Embora essa seja uma trágica exemplificação cinematográfica considerando a dramaticidade dessa clássica sequência de Eisenstein, essa cena é genial, é de uma beleza ímpar, é sublime, principalmente pela atitude da mãe do garoto ferido e como ela foi filmada, por isso essa é a homenagem do MaDame Lumière a todas as mães do mundo. Mães que geram, educam, amam e defendem seus (suas) filhos(as), na alegria e na tristeza, na vida e na morte, mães que são mães em todos os momentos.




Feliz Dia das Mães!











segunda-feira, 2 de maio de 2011

Flamenco, Flamenco (2010)



Carlos Saura é o cineasta Espanhol mundialmente renomado por expressar sua póetica e metalinguística direção ao filmar grandes películas com a esplêndida Cultura Espanhola, principalmente enfocando a Dança e a Arte Flamenca. Dele são belos filmes flamencos como Bodas de Sangue, Carmen, El Amor Brujo, Ibéria e Flamenco, nos quais as estrelas da Tela Grande são famosos bailarinos e músicos do Flamenco como Manolo Sanlucar, Paco de Lucía, José Mercé, Manuela Carrasco, Antonio Gades, Cristina Hoyos, Sara Barras, Eva Yerbabuena, entre outros. Pode-se claramente afirmar que Carlos Saura é o cineasta do Flamenco, orgulho cinematográfico para aqueles que amam essa apaixonante Arte. Ele é um dos realizadores que mais expressam o seu amor ao seu país, um poeta da câmera que expressa sua ode à inimitável força do duende, a verdadeira paixão Flamenca.


Ele é um voyeur Flamenco e uma alma sensível que une nos planos e sequências de seus filmes, uma miscelânea de diálogos metalinguísticos entre as mais variadas manifestações artísticas. Ele abraça a Pintura, a Literatura, a Dança, a Música, a Fotografia e o Cinema em seus filmes e, com um olhar poético e magnificamente estético, sua câmera viaja pelas expressões e emoções de verdadeiros artistas Flamencos. Desde seu premiado Carmen (1983), inspirado na trágica ópera de Bizet, o cineasta sabe como deixar aflorar o encontro das Artes e a paixão Flamenca que emana diante de tanta beleza. Na premiada película com o BAFTA de melhor filme estrangeiro, Antonio Gades, um das lendas do Flamenco, se apaixona devastadoramente por Laura Del Sol em um passional e dançante jogo dos amantes movido a um insano ciúmes, ao som da magistral guitarra do mestre Paco de Lucía, o espetáculo é flamejante. Com Salomé (2002), outra tragédia, Carlos Saura conduziu uma direção de Arte e elenco arrebatadores que expressaram divinamente o jogo de paixão, ciúmes e vingança da história. Doze anos após Carmen, Carlos Saura lançou Flamenco, uma homenagem de maestria à Dança e Música Flamenca, no qual a câmera é conduzida entre belos cenários e apresentações das estrelas do Flamenco, exaltando a beleza artística de cada músico, cantor e bailarino, evocando o DNA Flamenco de grandes nomes como Joaquín Cortés, Maria Pagés, Enrique Morente, Jose Merce, etc.




Rocío Molina


Após 15 anos do lançamento do primeiro longa Flamenco (1995), muita coisa mudou na cena Flamenca. Embora a base da Dança e da Música se mantenha dentro da estrutura única e criativa da Arte, como o uso de palmas e batidas dos tacones (saltos dos sapatos), em harmonia sonora com os palos Flamencos (Ritmos variados como Bulerías, Soleá por Bulérias, Alegrias, etc) e a expressividade e sonoridade do Cante (o canto Flamenco), o Flamenco é uma Arte em crescente evolução e internacionalização. Atualmente, há do Flamenco Tradicional às Fusões com o Clássico, com o Pop, o Jazz, Soul, o Latino e com o World Music, passando por manifestações de artistas que mesclam outras linguagens como a do Teatro e a da Literatura. O Flamenco é essa inexplicável criadora força individual de sentir e expressar o Flamenco, mas acima de tudo, ela é conciliadora através do exímio talento desses artistas, capazes de expressarem emoções em um nível profundo de coletividade. Tendo essa premissa como material de trabalho e com a intenção de evocar o Flamenco contemporâneo aos mais jovens e às pessoas que ainda não o conhecem, Carlos Saura lança Flamenco, Flamenco, uma nova película que segue os moldes do de 1995, ou seja, um retorno à jornada de sublimes apresentações de dança em cenários deslumbrantes, montados com grandes painéis de fundo, com jogo de luzes, que mudam como estações de ano e estados de espírito, com o deslumbre da primorosa fotografia de Vittorio Storaro, um dos mais leais parceiros de Cinema de Carlos Saura, e a metalinguagem Sauraniana em momentos únicos como a do cantaor Miguel Poveda, que canta em um círculo formado por outros 2 homens que o acompanham sonoramente com batidas flamencas sobre uma mesa, enquanto que cartazes vintage da flamencologia os cercam.




Sara Baras


O cineasta uniu a nata do Flamenco atual, artistas de grande notoriedade técnica e estilos diferenciados que ganharam prestígio internacional como os bailarinos Sara Baras, Israel Gálvan, La Carpeta, Eva Yerbabuena, os cantores Miguel Poveda, Arcángel, Niña Pastori, Estrella Morente. Por outro lado, uniu também a velha guarda do Flamenco como os guitarristas Tomatito, Paco de Lucía, Manolo Sanlúcar, os cantores Jose Mercé e o bailaor Farruquito, entre outros. Sob o prisma do Cinema, Flamenco, Flamenco é muito mais do que um mero documentário sobre uma Arte do berço Andaluz, ele é pura linguagem cinematográfica universal, a de várias Artes que causam emoção e fascinação. Gravado em um set montado no pavilhão de Sevilha, logo no início, a câmera se aproxima e passeia por entre pinturas Flamencas, das mais clássicas a desenhos de mulheres bailaoras, a atmosfera é de bom gosto, já provoca uma emoção por adentrar esse universo rítmico no qual artistas de estilos e experiências tão diferentes tem o Flamenco como a paixão que os une. Há uma diversidade de atuações como a de Sara Baras, uma bailarina de porte mais clássico em uma apresentação de perfeição técnica, a de Eva Yerbabuena, a diva maestra do Flamenco em uma apresentação que absorve toda a dor emotiva da dança, expressa em sua face e no detalhismo de sentir o Flamenco por todo o seu corpo; a performática exibição de Israel Galván, um dos mais contemporâneos bailaores, de expressão diferenciada ao dançar sem trilha musical, somente a sonoridade de seus gestos de incrível criatividade em "Silêncio", a de Rocío Molina, com seu estilo sensualmente irreverente fumando um cigarro a cada tacón. Na vertente mais tradicional, em uma das cenas, a beleza da união da Família Flamenca, um clima gitano como em uma roda de diversas gerações, com a garota mais jovem, as senhoras de terceira idade e homens que cantam, dançam e exultam o Flamenco atemporal.






Miguel Poveda com Eva Yerbabuena e Israel Galvan



Em todos eles, não há uma história qualquer e sim a História do Flamenco, o como ele se faz história em cada indíviduo durante a projeção e que alcança o coletivo, o internacional, expresso através do enquadramento realizado da cena final, fora do estúdio. A forma como o cineasta atua é com o voyeurismo de uma câmera documental que não escapa às referências de seus trabalhos anteriores, mas ainda assim, há a poesia de cada película, de cada dança, de cada voz, de cada gesto, criando um clima lúdico de viajar por uma Espanha que se faz presente ali; um clima intimista e contemplativo, também igualmente sublime ao expressar a universalidade do Flamenco.






4 estrelas




Direção e roteiro de Carlos Saura/ Fotografia de Vittorio Storaro