segunda-feira, 25 de abril de 2011

Luzes da Cidade (City Lights) - 1931






Luzes da Cidade, escrito, dirigido e atuado pelo icônico Charles Chaplin é um clássico perfeito para se apaixonar pelo trabalho do cineasta e pelo seu adorável personagem, o adorável vagabundo, andarilho carismático, pobre na sua condição material, mas um refinado cavalheiro em seu coração, de imensurável valor comportamental. O filme tem vários elementos na narrativa e estética que trazem a excepcional assinatura cinematográfica de Charles Chaplin, além de ser um clássico inesquecível como comédia romântica, eternalizada na memória do Cinema como a história na qual o vagabundo se apaixonada pela bela, humilde e cega florista (Virginia Cherrill) e envolve-se em variadas aventuras para ajudá-la em diferentes momentos: durante uma enfermidade, uma dificuldade no pagamento do aluguel e na recuperação da visão. Luzes da Cidade é um clássico absoluto que faz rir e chorar porque se fundamenta no estilo único de Charles Chaplin: o de um gentleman com nobreza de coração, expressa através de suas mensagens e atitudes dentro, através e além da Tela Grande. Ele é a mente criativa e perfeccionista cujo talento diferenciado o fez transitar de uma infância miserável para o status de um dos principais cineastas e executivos do Cinema, calcando a posição de sócio da United Artists. Ele é m ator com singular senso de humor e vigor físico para o Slapstick - a comédia pastelão, sendo um artista completo, da elaboração e direção de seus próprios filmes aos trejeitos únicos e expressivo poder sobre a câmera para performar a comédia física muda. Definitivamente, Chaplin é inimitável e isso o torna um mito, uma força da natureza dentro da Sétima Arte.










Luzes da Cidade foi criado em 1931, quatro anos após o advento do Cinema Falado. Chaplin optou por se manter fiel à comédia pastelão que o consagrou e da qual ele se inspirava em seu ídolo, o comediante Francês Max Linder. Ainda que os personagens não falem uma só palavra no longa, ele tem características sonoras com utilização de música e sons incluídos em tomadas de tombos, perseguições e toda a bagunça feita pelo Vagabundo. Em sua maioria, o filme não se apóia somente na paixão do pobretão pela Florista e isso é um mérito de como Chaplin escrevia bem uma narrativa pastelã, mesclando o romance com a comédia de ação, acelerada e acrobática, na qual tudo se encaixa em cada sequência para levar a audiência à emoção do desfecho. Na história, o Vagabundo conhece a jovem cega e compra uma flor dela com o último centavo que lhe restava no bolso. Essa ação já sinaliza que não é só o encantamento que o move a essa atitude, mas o quão ele é um verdadeiro cavalheiro. O fato dela não enxergá-lo fisicamente faz parte do charme, da poesia e da intenção da fita porque, se ela o visse todo sujo e maltrapilho, talvez não o aceitaria como ele é, fixando-se somente em uma imagem externa de beleza e status social que a impediria de vê-lo além da casca. Mesmo assim, ela pensa que ele é um milionário e, por ser uma mulher solteira e solitária, sonha em encontrar um amor. Por uma coincidência, ele conhece um rico homem (Harry Myers) que, quando está bêbado, adora o Vagabundo e quando está sóbrio ignora-o. A inclusão do personagem de classe abastada não é gratuita e é muito interessante na história; além de colaborar para divertidas cenas, o rico homem é um suicida que tem sua vida salva pelo Vagabundo, que demonstra sua amizade e lealdade para o milionário. Dessa forma, Chaplin une um homem da alta sociedade, infeliz e mal humorado, que precisa estar bêbado para aceitar a amizade das pessoas e um sincero homem pobre, sem teto, que não desiste da amizade mesmo quando é ignorado e esquecido pelo ricaço.













Virginia Cherrill, no papel da cega Florista, tem uma intepretação coadjuvante exemplar. Delicadeza e fragilidade não a tornam uma mulher fraca, pelo contrário, bonita e simpática, ela vive com sua avó, não tem namorado, não tem a visão, mas tem um belo e nobre ofício: vende flores, e sustenta a casa. Ela esbanja um terno sorriso como se desabrochasse como uma flor iluminada a cada tomada, isso lhe dá uma força incrível como personagem. Chaplin é o carisma em pessoa, basta observar o emblemático sorriso no desfecho do filme, exatamente o da foto acima. Ele se consagra mais uma vez como um comediante acrobática e de excepcional multidisciplinaridade e autoria no Cinema. Ele entra e saí de várias confusões com naturalidade e otimismo, ele é o Vagabundo e a sintonia com esse antológico personagem de Chaplin é imediata, é como se o Cineasta estivesse vivo e diante dos olhos da plateia, reforçando o quanto Charles Chaplin é eterno, insubstituível. Da fuga da polícia e de ladrões a lutador de boxe por um dia, não há tempo ruim para o Vagabundo. O seu estilo cômico e carismático diverte e encanta, e no seu maior valor interpretativo, a atuação de Chaplin é uma aula sobre a grandeza de um personagem, de como ele cria vida própria no Cinema, permanece no tempo atemporal. Assim também, a cena do desfecho de Luzes da Cidade está entre os melhores finais da história da Sétima Arte porque tem o benefício de fazer com que o público se emocione com a magnitude cinematográfica do encontro da florista com o Vagabundo, a pergunta que ele fez e como ela o toca e olha. É um final que faz o público pensar: O que aconteceu após essa cena? Estão juntos ou separados? Casaram-se e tiveram filhos? Ou nunca mais se encontraram?. Um final que não precisa ser complementado por uma outra cena ou por um diálogo, apenas pela imaginação da plateia. Um belo e simples desfecho que não deveria se chamar de final porque ele tem essa magia de se perpetuar na mente e no coração do público, o de se eternalizar no Cinema.



Avaliação MaDame Lumiere





Título original: City Lights
Origem: EUA
Gênero: Comédia, Comédia Romântica
Duração: 87 min
Diretor(a): Charles Chaplin
Roteirista(s): Charles Chaplin
Elenco: Charles Chaplin, Virginia Cherrill, Florence Lee

Resultado da Promoção Filme Amor? Confira a frase vencedora



Saiu o resultado da promoção de Amor?


e a camiseta e cartaz autografado do filme goes to...






autor da frase abaixo selecionada pela equipe da promoção.


AMAR NÃO É...
guardar o amor pra si. Amar é compartilhar este amor!






Parabéns, Rodrigo!




Agradecemos aos que participaram dessa iniciativa.

Em breve mais promoções no MaDame Lumière



e para quem ainda não conferiu o novo longa de João Jardim,

renda-se a esse Amor?



domingo, 24 de abril de 2011

Aurora (Sunrise: A Song of Two Humans) - 1927






F.W. Murnau foi um dos grandes cineastas do Expressionismo Alemão, reconhecido por antológicos filmes como Nosferatu (1922) e Fausto (1926), em 1927 o diretor alcança o ápice da magnitude e beleza do Cinema Mudo com a obra prima poética Aurora, vencedor do Oscar de melhor filme e estrelado por George O'Brien, Janet Gaynor e Margaret Livingston. Baseado na obra Die Reise nach Tilsit, de Hermann Sudermann, Aurora conta a história de um fazendeiro casado (o homem, O'Brien) que é seduzido por uma mulher da Cidade (Livingston) em um tórrido affair. A amante quer que ele abandone a bondosa esposa (Gaynor) e o filho pequeno e vá embora com ela para a cidade, "meca" das possibilidades de uma nova vida. A sedutora amante influencia-o a matar a esposa, envenenando sua mente com um diabólico plano: ele tem que afogar a dócil mulher em um passeio de barco. O homem não resisti à tentação da mulher da Cidade e inicia o maquiavélico plano. O filme se desdobra em uma narrativa com um sublime ponto de virada, a reconciliação do amor, impregnada de lirismo cinematográfico, uma magnífica trilha sonora de Willy Schmidt-Gentner e fotografia de Charles Rosher e Karl Struss.









Aurora tem o seu início com o antagonismo das duas mulheres. Enquanto a esposa é a mulher do campo, cuidadora da família e da casa, amorosa mãe e esposa de delicada feição e vida bucólica, a mulher da Cidade é sensual e vaidosa, com um semblante vampírico e provocante, um fumante inveterada com as clássicas femme fatales. As imagens fílmicas habilmente representam esses opostos: A mulher da Cidade penteia o cabelo embelezando-se em frente ao espelho, troca de roupa deixando mostrar a sensual lingerie, aparece com fino vestido e sapatos de salto. A esposa do Campo traja vestimentas bucólicas, cozinha e leva a refeição à mesa, é abandonada no meio da noite pelo marido e chora sobre a cama próxima ao filho. Elas representam a oposição campo e cidade, o rústico e o moderno, a claridade e o obscuro, o amor e a paixão. A dualidade também é representada no homem que incorpora a figura dupla do expressionanista: dual e fantasmagórico. Quando ele se envolve com a mulher da Cidade, cede às suas paixões, transforma-se em um homem passional e ardente, violento e macabro. Quando está com a esposa, entregue à conciliação, à família e ao casamento, seu semblante se ilumina, seus olhos e sorriso se rendem à gentileza do amor.










Esses contrapontos são fundamentais para a expressividade da película e são convertidos em sequências belíssimas como a que o homem saí na calada da noite, deixando a esposa a chorar e se encontra com a amante na escuridão de um campo, iluminada pela lua ao fundo e as cenas são entrecortadas com os beijos e abraços apaixonantes nas quais ela o seduz e o enfeitiça com palavras como: Você é todo meu? Deixe a fazenda e venha para a cidade! Entre um beijo e um olhar fatal, acompanhados por uma sonoridade de assustador suspense, também surgem imagens da cidade e sua agitação em uma atmosfera onírica, assim o homem é encantado por essa mulher narcótica e retorna à casa como que possuído por uma alegórica manifestação de Nosferatu ou qualquer monstro expressionista, claramente evidente em sua deformada aparência soturna de esbugalhados olhos. Mais adiante, a fantástica caracterização e interpretação de George O'Brien ao atacar a esposa em um barco é aterrorizante. Curvado como um monstro corcunda com as mãos prestes a provocar uma violência, ele é a manifestação da deformação humana,; em mais elementos de referência das influências expressionistas de Murnau, além da distorção, há a oposição do escuro com o claro a partir do figurino do casal, do homem violento austero e em pé com a esposa fragilizada quase a cair do barco, até que o repicar dos sinos soa e o homem não consegue nem mesmo seguir adiante escondendo a própria face. Com Aurora, F. W. Murnau conseguiu superar a estética expressionista, criando um mundo de fábula cheio de emoções, um universo dual que é sonho e é realidade, que traduz a psicologia dos personagens em estados de insanidade e traição, mas que também evoca uma bela e atemporal história de amor.










Aurora é uma obra prima como Cinema, é uma linguagem universal assim como o é a própria Sétima Arte e o Amor. Em uma época clássica, de poucos recursos em comparação ao tecnicismo que a indústria de Cinema alcançaria, F. W. Murnau concebeu perfeitamente bem uma obra que inclue uma série de técnicas agregadas a uma miscelânea de emoções. Em um curto espaço de tempo, o da projeção, o público é guiado a se envolver afetivamente com esse casal de camponeses, vivenciar seus estados de tristeza, alegria, amor, decepção, loucura, etc e apaixonar-se pelo Amor que ali é vivido, com seus altos e baixos, com seus erros e acertos. A partir de uma história muito simples que faz uma triangulação não somente amorosa mas de ordem tempo/espaço: campo-cidade-campo, a junção harmônica de elementos cinematográficos como a música, a fotografia, a atuação do elenco, a iluminação artificial, entre outros, além de um roteiro que promove uma liberdade de emoções e pacífica coesão de gêneros: drama, romance, comédia, melodrama, suspense e terror, tudo é muito bem elaborado e dirigido por F. W. Murnau. Tudo coopera para contar ao público uma poesia em forma de película. Todo o elenco é fantástico, com destaque especial para George O'Brien que é um primor na dualidade como reage às suas paixões carnais e à transformação após arrependimento. Sua expressividade que transita entre o desejo feroz aos sentimentos de culpa e perda e de amorosidade é um espelho humano das mais profundas emoções. A música toca como uma canção, a do título: uma canção de duas pessoas, a do homem e de sua esposa, e a experiência cinematográfica se torna uma intersecção dos sentimentos de qualquer espectador sensível ao Cinema: a de que Aurora é uma sinfonia melódica na qual a musicalidade substitui as palavras e convive em dramática e cômica conexão com as expressões dos atores e suas vivências no filme. No mais, é um clássico obrigatório do Cinema Mudo, uma encantadora história, daquelas que não é necessário nenhum texto para se emocionar, daquelas que deixa o espectador sem palavras, tamanha a força narrativa através das imagens líricas, tamanha a emoção do que o Cinema é capaz de produzir.




Avaliação MaDame Lumière











Título original: Sunrise: A song of Two Humans
Origem: USA
Gênero: Romance
Duração: 94 min
Diretor(a): F.W. Murnau
Roteirista(s): Basedo conto Die Reise nach Tilsit.
Elenco: George O'Brien, Janet Gaynor e Margaret Livingston

sábado, 23 de abril de 2011

Cinema & Publicidade: Must-See Filmes Publicitários realizados por Grandes Cineastas



Na década de 90, Benício del Toro foi garoto propaganda paraCalvin Klein em filme dirigido por David Lynch.



Para quem pensa que um grande cineasta só filma para o Cinema, está muito enganado. Há anos David Lynch já cooperava com a marca Calvin Klein, em uma série de comerciais que misturavam seu estilo e talento cinematográfico à Literatura de grandes nomes como F. Fitzgerald e E. Hemingway. Nos últimos anos, diretores famosos têm colaborado para o mercado publicitários de grandes marcas internacionais do universo Fashion, entre elas Chanel, Yves Sain Laurent e Dior que costuma investir em grandes campanhas com filmes mais extensos e com estrelas Hollywoodianas como faces das propagandas. Os comerciais se tornaram muito sofisticados e com um status de uma pequena película publicitária e cinematográfica. Recentemente, o cineasta Darren Aronofksy com o ator Vicent Cassel e o músico Clint Mansell (todos do longa Cisne Negro), realizaram um thriller sedutor no comercial da YSL que mostra o charme do ator na conquista de duas mulheres. Também, Guy Ritchie, em parceria com Jude Law (ambos trabalharam juntos em Sherlock Holmes) realizaram um outro sedutor filme para a marca Dior, o qual é puro deslumbre estético. É o Cinema à serviço da Publicidade, o que a torna muito mais bonita com um toque de linguagem visual que só o Cinema poderia lhe proporcionar.






Confira a seleção especial de filmes publicitários de grandes cineastas.




Chanel, Dirigido por Joe Wright, estrelando Keira Knightley








YSL, Dirigido por Darren Aronofsky, estrelando Vicent Cassel





Chanel, Dirigido por Jean-Pierre Jeunet, estrelando Audrey Tatou





Chanel, Dirigido por Martin Scorsese , estrelando Gaspar Ulliel





Dior, Dirigido por Wong Kar Wai, estrelando Eva Green





Chanel, Dirigido por Baz LuhrMann, estrelando Nicole Kidman e Rodrigo Santoro




Dior, Dirigido por Guy Ritchie, estrelando Jude Law





Dior, Dirigido por Olivier Dahan, estrelando Marion Cottillard




Dior, Dirigido por David Lynch, estrelando Marion Cottillard




YSL, Dirigido por David Lynch



Calvin Klein, Dirigido por David Lynch, estrelando Benício del Toro e Heather Graham

Rio (Rio) - 2011



Fazendo côro à música de Gilberto Gil, O Rio de Janeiro continua lindo, Rio é lindo. A nova animação de Carlos Saldanha que homenageia a Cidade Maravilhosa em sua singular beleza é uma divertida aventura e adorável história de amor entre duas araras azul de especie em extinção, Blu e Jade, respectivamente na voz de Jesse Eisenberg e Anne Hathaway . O longa, atual campeão de Bilheteria no país e que superou o box office de Pânico 4 nos Estados Unidos é muito bem elaborado, um deslumbre de cenários realistas, cores vivas e planos abertos e profundos, com personagens cativantes e uma trilha sonora empolgante com belas canções Telling the World do Taio Cruz e o hit Hot Wings (I wanna party) de Will. I. Am com participação do ator Jamie Foxx. A magnífica visão do Cristo Redentor e da Baía da Guanabara merece o status de emblemática entre as mais lindas imagens da História da Animação.





Blu é uma linda e simpática arara que foi tirada do Brasil, seu habitat natural, após ser capturada por traficantes de aves exóticas e levada ao exterior. Por uma sorte do destino, ao invés de ter maus tratos e ser morto em país estrangeiro, a gaiola de Blu foi encontrada por uma amável garotinha, Linda que prometeu cuidar dele. Ele foi criado como um pássaro doméstico em Minnesota, nos Estados Unidos. Companheiro de Linda (voz de Leslie Mann), Blu e ela desenvolvem uma bonita amizade, com muito amor e afeto. As cenas de sua convivência demonstram que, mesmo estando em um país frio, ele participou dos momentos mais importantes dela e é feliz. Porém, Blu nunca soube exatamente quem era, uma bela ave Brasileira e o último macho de sua especie. Um dia, ao ser avistado por um ornitólogo, especialista em aves, Túlio (voz de Rodrigo Santoro), Blu tem a chance de voltar ao Brasil. Túlio convence Linda a levá-lo ao Rio de Janeiro para encontrar a arara Jade, a última fêmea da especie e, assim, realizarem um acasalamento para evitar a extinção desse pássaro. A partir daí, começa a aventura de Blu em terras tupiniquins; ele conhece novos amigos, apaixona-se por Jade, escapa de contrabandistas, enfrenta um pássaro vilão feioso e decadente, aprende a voar e vira herói.



Rio não escapa aos clichês da visão estrangeira sobre o Rio de Janeiro como o samba, o Carnaval, o futebol, as belezas naturais, etc, no entanto a animação consegue o seu diferencial ao transpor para a tela a perfeição das imagens da cidade com uma Arte Visual tão bem desenhada que os olhos chegam a brilhar. Esse senso estético apurado permite um tour turístico que não se encerra somente na beleza da capital Fluminense, ele cria uma conexão de deslumbramento e de carisma com Rio e que se desdobra para um sentimento de entender melhor a mensagem da película, conectar-se com Blu e Jade e torcer pela felicidade deles. O roteiro relata o processo de aprendizado e transformação vivenciado por Blu, que saí de um ambiente "seguro, o do lar" e encontra um outro ambiente que é o seu verdadeiro lar, o da liberdade verde, azul e amarela. Nessa nova casa, há amor, há amigos, há o Brasil. Ao encontrar Jade, uma arara de forte personalidade, independente e com senso de liberdade, Blu encontra a sua alma gêmea que é muito diferente do que ele é, o seu contraponto; por isso, Rio é uma aventuresca História de Amor e não tem a intenção de entrar em aspectos de reflexão profunda sobre a realidade do Rio.





Quem prematuramente julgar mal o Rio levando em conta somente o argumento de que ele é mais um produto estereotipado, tipo exportação e que alimenta certos preconceitos, está fadado a levar a sério demais o "politicamente correto" e ter uma visão torta da homenagem da Animação ao país, que sim pode ser uma homenagem com o toque americanizado. Por que não? Carlos Saldanha é reconhecido nos Estados Unidos e fez carreira lá. Sergio Mendes compôs uma empolgante trilha sonora que inclue uma pegada do pop americano, é bem provável que isso não seria diferente; o que vale é a capacidade de uma animação se conectar emocionalmente com o público e ter imagens fílmicas de beleza excepcional e esse é o bel prazer de Rio, que ainda que tenha um enredo simplista, encanta com um dos protagonistas mais adoráveis dos últimos tempos, Blu, perfeitamente bem interpretado por Jesse Eisenberg. Além disso, Rio traz outros elementos interessantes no seu desenvolvimento narrativo como o comércio ilegal e contrabando de aves exóticas, a influência dos bandidos sobre os menores, a orfandade de crianças pobres, a extinção de especies da natureza, além de harmonizar a animação como algo não tão 'sério e profundo, mas também não tão superficial, afinal, lembremos que uma animação na contemporaneidade do gênero deve conciliar os interesses de adultos e de crianças e não adentrar somente a uma reflexão complexa como há em animações adultas como Max e Mary.


Avaliação MaDame Lumière











Título original: Rio
Origem: EUA
Gênero: Animação, Aventura
Duração: 100 min
Diretor(a): Carlos Saldanha

Roteirista(s): Don Rhymer, Joshua Sternin, Jeffrey Ventimilia, Sam Harper
Elenco: Jesse Eisenberg, Anne Hathaway, Leslie Mann, Rodrigo Santoro, Will Am I,Jamie Foxx.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Inverno da Alma (Winter's Bone) - 2010



Adaptação da obra homônima de Daniel Woodrell, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance 2010 e indicado ao Oscar 2011 em 4 categorias, melhor filme, melhor atriz (Jennifer Lawrence), melhor ator coadjuvante (John Hawkes) e melhor roteiro adaptado, Inverno da Alma é um tenso suspense que mostra a jornada dura, crua e cinza na vida de uma garota de 17 anos, Ree Dolly (Lawrence) nas montanhas de Ozark, sudoeste do Missouri. Abandonada pelo pai, Jessup, um traficante e ex-presidiário que desaparece em condições misteriosas e deixa como garantia de financiamento da condicional a casa da família, Ree se vê responsável pela mãe doente e os dois irmãos menores, para os quais falta comida e qualquer qualidade de vida. Se não encontrar o seu pai, Ree e sua família perdem o lar, ficam ainda mais sem eira e sem beira.






Inverno da Alma faz parte do Cinema independente Americano, não ganhou nenhuma estatueta do Academy Awards 2011 porque haviam filmes melhores para o tipo de celebração comercial que o Oscar se tornou, no entanto, o filme é muito bom como Cinema e não agrada qualquer pessoa porque é simplesmente frio e deprimente. O longa é difícil de assistir porque exige lidar com a tensão do mistério e com uma melancolia natural que surge ao contemplar aquela situação sem saída, pobre e brutal. A película não tem o glamour Hollywoodiano, nem pinta a imagem pseudoperfeita dos Estados Unidos, país de primeiro mundo e isso é um dos seus pontos fortes como Cinema, reflexo de uma realidade social. Aqui, o retrato da sociedade é hostil. A vida de Ree é marcada por um ambiente violento e solitário que se evidencia na paisagem fria do pobre interior Norte Americano, na forma como ela se veste e fala sem qualquer vaidade e feminilidade, na impetuosa coragem que ela tem para lidar com perigosos elementos, no grosseiro comportamento das pessoas da região. Ela é somente uma garota forte que teve que amadurecer prematuramente para poder sobreviver, e esse viés do argumento é muito nobre mas muito trágico para uma menina jovem que tinha um futuro melhor pela frente e está presa a uma delicada e misteriosa situação familiar. Ree não é bem vinda ao investigar onde está o seu pai e, por uma questão de sobrevivência, de responsabilidade e de cuidados com a família que depende dela, ela saí em busca para encontrar o seu desvirtuoso pai, o mistério principal do filme e que apreende a atenção da audiência.






Existem três pontos positivos principais para a qualidade de Inverno da Alma: o primeiro é a atuação de todo elenco, muito competente e visceral, em especial da talentosa Jennifer Lawrence que faz um papel maduro e muito difícil. Ela é a força interpretativa do longa. O drama em si volta os olhos para ela e depende dela porque Ree é a esperança para que a família não perca a casa, além disso tantos os irmãos quanto a mãe não sabem exatamente o que está acontencendo, a primeira por ser psicologicamente doente e os dois outros por serem crianças, logo Ree está sozinha e a resiliência e coragem dela são a base para que a investigação seja realizada. Jennifer Lawrence, merecidamente indicada ao Oscar, comprova para o público que é uma atriz jovem e de futuro. O segundo é a estética, da direção de Arte à fotografia e figurino, o filme é um primor ao compor aquele mundo bruto, desesperançoso, precário. A direção de Debra Granik colabora para enfocar o quanto a triste região é o último lugar que alguém gostaria de morar. Não há diversão, não há sorrisos, não há fartura, não há camaragem, não há absolutamente nada de interessante, é definitivamente um local no qual as pessoas respiram mas não vivem. O terceiro é o roteiro que mantém o suspense e deixa a audiência intrigada. Quem é Jessup? Por que as pessoas da região evitam comentar sobre ele? Ele é um sujeito tão perigoso? Por que aquelas pessoas são violentas e rudes com Ree? E Teartrop (Hawkes), o estranho tio de Ree, por que ele é tão ignorante com a própria sobrinha? A todo o momento, são perguntas que habitam a mente do expectador atento e curioso, e para o gênero suspense, Inverno da Alma tem sua própria crueza com o espectador porque ele lança um mistério que não traz todas as respostas no desfecho. Ao fim, o que menos importa é descobrir o mistério, e muito mais perceber o quanto aquela vida na região montanhosa do Missouri é dramática e só tem a trazer o inverno para a alma.




Avaliação MaDame Lumière



Título original: Winter's Bone
Origem: EUA
Gênero: Drama
Duração: 100 min
Diretor(a): Debra Granik
Roteirista(s): Debra Granik
Elenco: Jennifer Lawrence, John Hawkes, Garret DillaHunt, etc.

Especial Cinema Filme Amor? Bate Papo com atriz Julia Lemmertz


" A idéia não é atuar, é ser"



O elenco de Amor? é muito competente na veracidade e na emoção dos depoimentos que mergulham em histórias de amor e violência, principalmente considerando que a premissa não era realizar um laboratório prévio e sim vestir a pele da pessoa que viveu aquela passional e dolorosa história, vestir aquela verdade, aquela história. Formado por Lilia Cabral, Du Moscovis, Letícia Colin, Claudio Jaborandy, Silvia Lourenço, Fabiula Nascimento, Mariana Lima, Ângelo Antônio e Julia Lemmertz, o elenco merece o reconhecimento do público porque relatar a história de uma pessoa que sofreu e/ou provocou a violência na relação amorosa não é fácil assim como não o é realizar uma atuação dessas em um excepcional híbrido documentário e ficção, que tem que ter uma sinceridade com o público e com as reais pessoas que viveram aquelas histórias. Na entrevista abaixo selecionada para esse especial, contamos com uma das mais talentosas atrizes do Brasil, Julia Lemmertz, que fez um trabalho muito especial em Amor? como Alice, uma mulher apaixonada para a qual a violência no amor despertou-a para um novo recomeço. Sua história é comovente e inclue a mistura bombástica que é a paixão, a traição, o sexo, o alcool e as drogas.


Do ponto de vista do trabalho do ator, o que esta experiência trouxe de novo, de diferente das outras?

Julia Lemmertz - É uma experiência desconcertante, você se despe para vestir outra pele que não é sua, bem cruamente, sem construir muito, são histórias já construídas e vividas. Então, é entrar naquela corrente, se deixar conduzir por aquele depoimento. A história, a memória, as palavras têm a força. É real e não é ao mesmo tempo. Não sei precisar, mas é tudo muito diferente. A ideia é não atuar; é ser.

No processo de construção do personagem, que desafios se impuseram? O que foi mais difícil?

Julia Lemmertz - O mais difícil foi tornar aquele pensamento fluido meu, com idas e voltas, a mistura que a memória faz quando se conta o que passou há muito tempo, decorar o depoimento todo foi muito difícil e um pouco doloroso também.

Impossível, imagino, levar a cabo esse trabalho sem empreender uma reflexão sobre o tema. Feita a reflexão, ainda acredita que você e as pessoas da sua esfera de relacionamento estão livres de viver uma relação de amor que degringole para algum tipo de violência?


Julia Lemmertz - Acho que tudo na vida tende a degringolar em algum momento, por algum motivo, com diferentes intensidades. É da vida. Mas o que pode a cabeça das pessoas é que é assustador. O amor pode ser belo, harmonioso num momento e equivocado, violento, no seguinte. Em nome dele se faz loucuras. E tudo pode? Tudo de atroz que se faz em nome do amor é válido, tem direito de ser chamado de amor? Eu não sei o que acontece com os outros realmente, intimamente, cada um tem as suas loucuras e dá vazão a elas ou não. O negócio é escolher para onde você que ir. Permitir que o amor seja vivido plenamente onde ele realmente deveria estar, no prazer, no tesão, na construção de vidas bacanas, criativas, generosas. Pra mim, amor é isso. Mas é uma escolha.

Alice, a sua personagem no filme, vive durante muitos anos com um homem que, desde os primórdios do relacionamento, a expõe a situações de humilhação e apresenta rompantes severos de violência contra ela. A seu ver, o que faz com que uma pessoa se submeta por tanto tempo a esse tipo de dominação?


Julia Lemmertz - No depoimento, ela diz que é uma forma de dominação, de subjugar o outro, de acabar com a autoestima da pessoa, enfraquecê-la, torná-la dependente psicologicamente. Eu tentei não julgar e me colocar nessa situação, mas é aquela história: o sádico não existe sem o masoquista. Você permite que esse relacionamento se instaure, e fica refém dele. É muito doloroso e complicado, acho que só quem viveu coisa parecida pode falar.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Semiótica Visual no Cinema: Cartazes dos Filmes de Hitchcock - parte 1





Um cartaz bem elaborado de um filme torna-se muito mais do que um simples instrumento de divulgação de uma produção cinematográfica. Ele se torna um objeto de significação que expressa e valoriza a 'alma' do filme, a sua razão de existir, o seu diferencial de expressar o trabalho e a autoria do cineasta, a sua singularidade de despertar a curiosidade e o desejo do público em assistí-lo. Um excelente cartaz é a representação da película, um representar que, ainda que seja uma parte do filme, provê o tom certo que inicia a relação do público com aquele trabalho, por isso, a elaboração de um cartaz não pode ser negligenciada, há de ser bem planejada e realizada para antecipar visualmente a experiência cinematográfica que a audiência terá. O cartaz de Cinema não precisa sugerir tudo o que o filme aborda, mas ele tem que sugerir uma proposta visual materializada através de simples detalhes nos seus signos que fazem o público indagar: "Uau!Que grande sacada! Que magnífica concepção de arte visual! O que será que acontece nesse filme?Preciso assistí-lo o quanto antes"!




Se há um cineasta cujos filmes têm primorosos cartazes, esse cineasta é Alfred Hitchcock. Assim como ele fez pontas em alguns de seus filmes, ele exercitou seu conhecido ego ao participar de alguns cartazes, com senso de humor sádico que lhe era tão natural e, portanto, é um deleite contemplar o quão trágico-cômico era vê-lo com suas hilárias caras e bocas, como a expressa no pôster acima. De maneira geral, os cartazes dos filmes do Mestre do Suspense expressam tanto o trabalho do diretor e são tão bem elaborados que eles são um espetáculo à parte, um prazeiroso exercício de voyeurismo a la Hitchcock. Confira agora no MaDame Lumière um compilado com breves observações acerca de 20 Cartazes de filmes de Hitchcock, cuidadosamente e especialmente selecionados para celebrar o primor semiótico e estético que eles representam e que embelezam a Sétima Arte.




Intriga Internacional (North by Northwest, 1959)


Uma das melhores cenas de Intriga Internacional, um dos filmes mais americanos de Alfred Hitchcock é a que Cary Grant está em um inóspito campo de milharal e, de repente, se vê perseguido por um avião. A idéia de retratar perfeitamente essa cena nesse cartaz é primorosa porque antecipa o espetáculo desse filme: a texturização da cores que combinam com a roupa do ator, a reconstituição corporal de como ele corre na perseguição, o excelente design do avião que recupera o efeito da sua hélice e do pó que se levanta na sequência, e para finalizar com a marca do cineasta, o nome de Hitchcock no meio do cartaz.


Psicose (Psycho, 1960)


Nesse clássico cartaz, a expressão corporal de cada personagem e a atmosfera de mistério criam o suspense. Através de quatro visões diferentes expressões: uma mulher que grita com olhos esbugalhados, um homem que tem a boca fechada por uma mão e mostra abertamente a outra, uma mulher em trajes íntimos que olha para-não-sabemos-aonde e um homem sem camisa que também olha para-não-sabemos-aonde, o público é provocado a bisbilhotar mais um filme do mestre do suspense, exatamente como Hitchcock queria.




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The Paradine Case, 1947

Um cartaz muito interessante na medida que projeta um triângulo em cena e utiliza mãos que parecem pertencer a juízes ou advogados (percebam o detalhe da vestimenta alongada próxima às mãos), as quais apontam para esses personagens de forma acusatória. Além disso, o que chama a atenção são os olhares que, no Cinema de Hitchcock, são essenciais para traçar um perfil de cada persona. Serão esses os culpados? Qualquer um pode sê-lo.





O Homem Errado (The Wrong Man, 1956)

Um trabalho excelente na concepção desse cartaz que coloca em evidencia os objetos simples usados por Hitchcock que são detalhes que não podem passar desapercebidos . O retrovisor que mostra um casal é uma ótima sacada. Quem é esse casal? Porque esse homem misterioso do qual somente uma mão é mostrada os está observando? Além disso, o efeito urbano do cartaz com carro e os prédios altos deixam o rastro das inglesas referências das cidades do Cinema Hitchockiano.





Sabotador (Saboteur, 1942)

Um pôster bem realista como ver o filme diante dos olhos é o diferencial dessa Arte. A expressão desesperada da mulher, encurralada e calada por um homem com cara de mal enquanto um corpo caí de uma ponte. Dentre as primeiras perguntas ao contemplar a Arte estão: Tudo isso acontece ao mesmo tempo? Quem jogou o corpo do homem? O que acontecerá com essa mulher?






Ladrão de Casaca (To catch a thief, 1955)


Um dos mais bem elaborados cartazes Hitchcockianos, esse se diferencia pela fusão de elementos e cores, um amálgama estético. Perceba o cabelo louro de Grace Kelly e sua blusa azul forma a arquitetura do pôster em uma bela mescla das cores. A figura do casal se equilibra com a do homem misterioso, virado de costas, que parece assustado e/ou sem saída, como que prestes a pular de um teto.





Interludio (Notorious, 1946)

Um belo cartaz film-noir com a intensidade do vermelho e preto, a sensualidade de Ingrid Bergman e de Cary Grant em cena. O efeito passional e marcante do abraço é de uma beleza visual ímpar porque ela curva o rosto sobre a mão dele e fecha os olhos, enquanto ele faz o contrário: mantém um semblante facial misterioso, com o olho aberto e bem marcado.





Pavor nos Bastidores (Stage Fright, 1950)


Hitchcock sempre soube utilizar muito bem os closes, tanto que muitos deles se tornaram emblemáticos em sua filmografia como de Jane Wyman em Pavor nos Bastidores. O rosto assustado da atriz protagoniza a cena de suspense. O que será que a aterroriza? Ao mesmo tempo, o público é seduzido por outros elementos do cartaz: Marlene Dietrich reina misteriosa e sofisticada e a curiosidade é despertada pelo dual jogo de sombra e luz de um misterioso homem nos bastidores.



A Tortura do Silêncio (I Confess, 1953)

Esse cartaz sugere uma metalinguística abordagem entre a palavra escrita, o título do filme "Eu confesso" e a imagem visual, a mulher que se rasteja no chão e curva a cabeça. Será que ela confessou algo? Qual o segredo que está ocultado nessa imagem? É de uma magnífica dicotomia a austera e imóvel posição do homem enquanto a mulher se agarra à ponta de seu paletó, caída no chão, sem mostrar a face.





Sob o Signo de Capricórnio (Under Capricorn, 1949)

A forma como as mãos dela e as mãos dele aparecem no cartaz torna-o um deslumbre visual e trazem à tona a curiosidade de como é a relação deles no filme. Enquanto que as mãos dela o abraçam em uma posição de submissão e dependência, curvadas para baixo, as dele agarram o seu rosto e sugerem paixão, virilidade e violência. Será que ele esmagará a cabeça dela ou lhe dará um intenso cinematográfico beijo?



Não perca a parte 2 desse especial!

Um Filme, uma canção: Prelude, Bernard Herrmann (Intriga Internacional/North by Northwest) - 1959




Intriga Internacional é o clássico Hitchcockiano de maior renome nos Estados Unidos e traz um dos atores mais bonitos e carismáticos da História de Cinema, Cary Grant, o charme e o vigor físicos em pessoa no papel de Roger Thornbill, um executivo que é confudido com um agente do governo e passa a ser caçado. Sua vida é tranformada em uma montanha russa na qual a audiência participa com bastante tensão em um suspense eletrizante, uma trama de perseguição de tirar o fôlego. Mais uma vez e, principalmente nessa película, Hitchcock exerce o seu talento e sadismo apoiado por um excelente roteiro que não deixa a ação e o suspense desandarem em nenhum momento. Além de todos os aspectos positivos no roteiro, direção e elenco, Intriga Internacional conta com uma trilha sonora na medida exata para a película. Composta pelo magnífico Bernard Herrmann, conhecido pela parceria com Hitchcock em outros filmes como Um Corpo que caí e Psicose, Bernard concebeu o genial Prelúdio do filme que transmite bem a monumental tensão e ação do filme, em uma música que mais parece uma ode a Hitchcock e é a força motriz melódica que provoca a emoção: o que acontecerá com Roger? Morrerá ele na próxima sequência? Será pego e torturado? Como escapará dessa? Os acordes intensos e de forte suspense chegam a criar o pavor do que virá a acontecer, é como um abate musical que acompanha Roger Thornbill como o cordeiro a ser sacrificado, é como uma orquestração ritualística que prepara o público para o arrebatador clímax. Prelude de North by Northwest é um primoroso exemplo de que é a canção perfeita composta para o filme Hitchcockiano perfeito.








quarta-feira, 20 de abril de 2011

Promoção Cinema Filme Amor? - Concorra a camiseta e cartaz autografado



O novo longa-metagem de João Jardim é um híbrido entre documentário e ficção, partindo da premissa do que é, afinal, o Amor?. O argumento enfoca as relações amorosas que são pautadas pela violência, seja qual a forma em que ela se apresenta e, através de entrevistas entremeadas com a poesia das cenas e a veracidade dos depoimentos, João Jardim concebe um relato sincero de como as pessoas vivenciam situações que envolvem ciúmes, culpa, paixão e poder.

Com um elenco de primeira linha que inclui Lilia Cabral, Eduardo Moscovis, Julia Lemmertz, entre outros, Amor? estreou no circuito em 15 de Abril e você não pode perder mais esse trabalho de um dos melhores realizadores do Cinema Brasileiro na atualidade, reconhecido por excelentes trabalhos como Janela da Alma,Pro Dia Nascer Feliz e Lixo Extraordinário.



Participe da promoção Amor? no Blog MaDame Lumiere e
concorra ao kit do filme contendo cartaz autografado e camiseta.



Basta seguir as regras abaixo

1. Seja residente do território Nacional
2. Siga o twitter do @madamelumiere e @AMORofilme
3. Responda à seguinte pegunta na área de comentários do blog MaDame Lumière:




Amar não é...





O vencedor da melhor resposta ganhará o kit do filme

Respostas válidas até 24 de Abril



Resultado será divulgado em 25 de Abril

no Blog e twitter do @MaDameLumière
e no twitter @AmorOFilme
e Facebook do filme http://www.facebook.com/AMORofilme




O vencedor da promoção deverá enviar o endereço completo para madamelumiere@gmail.com

Especial Cinema: Filme Amor? e sua música - Entrevista: Lenine



"Eu sempre tive uma relação muito especial com a música em suas mais variadas manifestações, principalmente a música em sintonia com o Cinema, nesse apoteótico diálogo entre duas Artes que se encontram, se abraçam e se amam...mas se há uma música que se conecta muito comigo é a canção Beatriz, composição de Edu Lobo e Chico Buarque. Ela já era uma das minhas canções, mesmo sem se chamar meu nome. Ao escutá-la em uma comovente versão instrumental durante o filme Amor?, meu coração apertou forte e eu pensei: Até na canção, o novo filme do João Jardim conversa comigo...isso não seria diferente, a música de Amor? está em bons corações, os de poetas. A trilha sonora composta por Lenine e seu filho Bruno Giorgi é sublime... e só evidencia o quanto Lenine é um músico singular e um dos melhores do país. A escolha divinamente bem acertada de Beatriz aflora mais e mais minha comoção por Amor? porque, na minha sentimental interpretação, eu fiquei pensando nesse mistério das Beatrizes, que "choram em um quarto de hotel". Será que as Beatrizes não poderiam ser as mulheres que sofrem violência nas relações amorosas, tristes ou fragéis como louças, que escondem a sua tristeza, paixão e ciùmes como uma atriz?"


(Madame Lumière, em sensíveis e musicais pensamentos ao som de Beatriz)



Por quê o caminho escolhido para a trilha sonora de recriar clássicos da musica brasileira como Carinhoso e Beatriz ?

A impressão que eu tenho é que foi o filme que pediu. Quando o João mostrou um primeiro tratamento do filme, a gente conversou e eu achei que a música não deveria solar. A segunda coisa que eu pensei foi que deveria ser um ‘onde está Wally’: transformar as canções de uma maneira bem simples, sem muitos elementos sonoros, de
forma que a melodia, que está tão impregnada no inconsciente das pessoas, pudesse ser reconhecida a partir da quinta nota.

Como o filme é duro, no sentido de apresentar sempre os depoimentos, e de conteúdo pesado, sofrido, eu sempre achei, desde a primeira impressão, que a música deveria fazer esse contraponto de leveza, de doçura. E quis trabalhar sempre com o mínimo.

Eu sou muito movido, não pela primeira impressão porque essa em geral a gente descarta. Aí tem uma segunda, e descarta de novo. Tem a terceira, e descarta. Aí tem uma quarta e é aquela que vale. Às vezes, essa quarta é a primeira que você teve. E quando isso se confirma é muito bacana porque você teve aquele insight naquele
primeiro momento. E isso aconteceu realmente. Na primeira vez que eu encontrei com o João, eu falei que a gente deveria pinçar algumas canções que fossem bem pontuais e pudessem não gritar, mas ter uma delicadeza que funcionasse como um respiro sonoro. E que fossem identificáveis, canções que estivessem no inconsciente. E esse foi o grande estímulo.


Peguei grandes solistas para interpretar as canções. E aí mexi um pouquinho nelas, pra transformá-las, não entregar de primeira. Teve só um problema: escolher dentro do cancioneiro brasileiro canções pontuais como essas que pudessem transmitir o que a gente queria: uma delicadeza, uma leveza.

Algum critério para escolha das músicas ?

Procurar a beleza, mas dizer isso, não é dizer muito. Ou é dizer tudo.



Para assistir ao vídeo de Lenine falando sobre a trilha sonora, clique aqui.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Especial Cinema: Filme Amor? Conversa com Heloisa Passos, Diretora de Fotografia




Ator Angelo Antonio em fotografia de Heloisa Passos




"Após assistir Amor?, além de todos os processos de identificação que tive com aqueles sentimentos diversos e intensamente verdadeiros expostos pelos depoimentos, uma das maiores intimidades que tive com o filme foi a fotografia de Heloisa Passos. É um trabalho belíssimo em sintonia com a proposta do argumento e da revigorante linguagem cinematográfica desse híbrido filme. Uma fotografia palpável e visceral e, ao memso tempo, de um lirismo cotidiano, a qual combina com a poesia da câmera de João Jardim e com a veracidade daquelas marcantes e passionais histórias. A fotografia de Amor? tem um poder que lhe é tão próprio, o de atuar como um espelho, um reflexo íntimo das minhas emoções durante a projeção. Ela reflete as emoções que aquelas histórias encontraram em mim."


(MaDame Lumière, confissões após a experiência com a fotografia de Amor?)



Amor? é um filme que foge de qualquer padrão. É e não é uma ficção. Do ponto de vista da direção de fotografia, em que medida esta diferença influenciou a sua narrativa fotográfica?

Heloísa Passos - Eu e João começamos fazendo testes para descobrir que câmera usaríamos no filme. Buscávamos algo capaz de imprimir com fidelidade a pele – afinal é um filme onde o movimento está na respiração de cada palavra. Depois de testarmos as câmeras digitais do mercado, não conseguimos pensar em outra coisa a não ser o suporte do negativo 16mm.



A minha narrativa fotográfica neste filme entra quando consigo junto com o diretor/ produtor propor entrelaçamento da porosidade da pele com o grão do negativo. Decidi, então, pelo negativo asa 500, e batalhei muito para um jogo de lentes com ótica, que alia uma belíssima definição a uma impressão suave.




Atriz Julia Lemmertz em fotografia de Heloisa Passos




Como foi a experiência de trabalhar com atores e ter os movimentos de câmera “tolhidos” pela estética econômica do documentário? Dentro desse contexto, que critérios você adotou para “tirar leite de pedra” e chegar aonde queria?

Heloisa Passos - Amor? é um filme palavra/sentimento, onde o movimento está na respiração de cada ator. O quadro estático e a proximidade dos atores com a câmera frontal me levou a entender, de imediato, que eu estava trabalhando com intérpretes de uma presença intensa e única. Não posso deixar de registrar aqui que foi um privilégio trabalhar com os atores com que trabalhei.

Nos depoimentos, trabalhamos com duas câmeras super 16mm – a frontal que citei acima e uma segunda câmera que fazia o perfil dos atores sem preocupação com o eixo, em tomadas que chamávamos de ‘esfinge’. A câmera frontal rodava o tempo todo e a do perfil rodava partes fundamentais para a montagem do filme. A Kika operou de forma magistral esta segunda câmera, que trabalhava com uma zoom onde os quadros variavam de fechados para super fechados. E é claro que o João tinha o comando de rodar e cortar esta câmera. A câmera frontal, que eu operava fazendo movimentos quase imperceptíveis, funcionou como o que eu chamo de “câmera de composição”. Escolher uma lente grande angular e estar a 90cm da Julia Lemmertz foi uma experiência inesquecível. Ou melhor, uma experiência cinematográfica para sempre. Quando fui marcar a luz do filme, pude entender a coragem dos atores e a nossa própria coragem de respirar tão visceralmente o filme com eles.




Fonte: Entrevista via PressBook - Amor O Filme?
Créditos Fotos: Heloísa Passos



Acompanhe o especial Amor? com informações sobre esse excelente trabalho de João Jardim.


Em breve, resenha do filme por MaDame Lumière

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Especial Cinema: Filme Amor? Entrevista do Diretor João Jardim

O mais irritante no amor é que se trata do tipo de crime que exige um cúmplice. (Charles Baudelaire)






Amor? Novo longa metragem de João Jardim, realizador de Janela da Alma, Pro Dia nascer feliz e Lixo Extraordinário, é um híbrido entre documentário e ficção que traz um elenco de primeira, dentre os quais, Lilian Cabral, Eduardo Moscovis, Julia Lemmertz. É um filme, como bem define o diretor, “sobre eu você e todos nós.” O tema, e foco, de Amor? são as relações amorosas que são pautadas pela violência, seja qual a forma em que ela se apresenta. Entremeado por cenas poéticas de um mergulho no mar, um banho despretensioso, corpos que se procuram e se tocam, o filme traz relatos verdadeiros e surpreendentes quem já viveu relacionamentos em que a violência era parte de um cotidiano muitas vezes doentio e outras vezes foi a pedra de toque para o despertar de uma nova fase. No entanto, devido à delicadeza do tema, em vez de revelar as identidades de seus entrevistados, Amor? traz atores e atrizes interpretando estes depoimentos. “São relatos muito sinceros de pessoas que viveram situações que envolvem ciúmes, culpa, paixão e poder". Nessa entrevista especial, temos o bel prazer de conferir a palavra de João Jardim, um dos melhores realizadores do Cinema na atualidade, e também refletir através da Sétima Arte sobre esse tema tão intenso e delicado. Amor? é imperdível, assim como essa entrevista.









O que o levou a eleger como tema do seu filme relações amorosas que se degeneram e evoluem para algum tipo de violência?






João Jardim - Eu estou o tempo todo procurando assuntos que possam render bons filmes. Temáticas ricas de pesquisar, e que tenham, ao mesmo tempo, um aspecto cinematográfico interessante. E esse projeto nasceu disso: lendo sobre esse assunto, o que me chamou atenção é sempre as pessoas envolvidas relatam que se amavam muito. Quando a violência acontece dentro da relação sempre é por amor. Pelo menos do ponto de vista delas. Então o que me interessou foi procurar entender e lidar com esses aspectos subjetivos da relação amorosa. Em que momento a violência começa a entrar no meio e em nome do quê? Que ingredientes são esses que vão fazendo com que a coisa evolua pra algum tipo de opressão ou violência? Eu percebia que essa era uma lacuna na discussão do tema, tratado sempre do ponto de vista político, da violência contra a mulher, sem levar em conta o aspecto subjetivo. E procurei abordar o lado transcendente da questão. Fazer um trabalho de construção e questionamento em torno do tema, capaz de lançar um novo olhar sobre ele.




O filme é quase uma instalação pra mim. Pensei o tempo todo na interatividade. No que ele provoca. A provocação já está no título. Eu queria provocar a reflexão.






Definido como “uma mistura poética de documentário com ficção”, Amor? é um mosaico de depoimentos verídicos, interpretados por atores. O que o levou a fazer essa escolha?






João Jardim - Eu queria fazer um documentário sobre o tema. Mas logo no início do processo, eu percebi que, quando eu conseguia, conversando com as pessoas, tirar delas coisas muito interessantes, eticamente talvez não fosse justo usar aquilo. Porque eu poderia de alguma forma prejudicá-las; a elas ou ao parceiro delas. Mesmo se dispondo a falar, podia ser que, seis meses depois, com o filme pronto, que elas se arrependessem. E parceiro, filhos, outras pessoas implicadas no depoimento poderiam também não permitir. E eu teria que respeitar. É muita arrogância você achar que pode fazer o que quiser com a vida das pessoas. Eu não penso assim. E tem aí uma questão jurídica também. Então, logo ficou claro pra mim que não podia ser um documentário. Tinha que ser um filme com atores, mesmo que fosse um filme de depoimentos.




A escalação do elenco, com a participação inclusive de nomes conhecidos do público, foi intencional. Era uma forma de garantir que a atenção ficasse voltada para o tema e, ao mesmo tempo, de tornar aquelas histórias universais. Os atores famosos vieram para criar esse distanciamento. Para que não sobrasse espaço para dúvida de que o que está sendo visto é um ator interpretando uma história. E que essa história pode ser minha, sua ou de quem for.










O processo de pesquisa envolveu a coleta de mais de 60 depoimentos de homens e mulheres que viveram relações amorosas envolvendo algum tipo de violência. Que critérios determinaram a escolha dos oito que figuram no filme?




João Jardim - O filme foge intencionalmente das classes sociais mais baixas, procura mostrar que isso é uma coisa que atinge todas as classes sociais. Não me interessava o caso mais estranho do mundo ou o caso mais estapafúrdio. O que interessava era o sentimento que havia por trás daquelas histórias, e que fazia com que elas se tornassem próximas de mim, de você, de qualquer um. Eu costumo dizer que é um filme sobre mim, você e todos nós. O que guiou muito a gente o tempo todo foi o desejo de universalizar essas histórias.






Há uma tendência a fazer uma leitura simplista da opressão nas relações amorosas e taxar de doentes as pessoas que se envolvem nesse tipo de situação. Mas há um outro aspecto, relevante, que não é levado em conta: é que elas viveram coisas muito intensas com os seus parceiros, mesmo que já tivesse alguma violência lá, desde o princípio.




E eu queria que o filme remetesse ao aspecto lúdico, prazeroso, carinhoso do amor. Porque é isso que faz com que as pessoas não consigam se desligar.




Como foi o processo de trabalho com o elenco?






João Jardim - Eu procurei, antes de mais nada, escalar um elenco de pessoas que eu considerava inteligentes, e capazes de fazer uma leitura interessante e rica daqueles textos. Basicamente o que eu queria é que os atores incorporassem os depoimentos como sendo deles e não que criassem um personagem fora deles.






O primeiro passo era decorar o texto. Depois, a gente ia ensaiando e trabalhando. Sempre a partir do que eles traziam. Não tinha uma visão pré concebida. Como é esse personagem, onde ele mora, de onde ele vem, nada disso importava. O que importava era contar cada uma daquelas histórias como se elas pudessem de fato ter acontecido com eles. Se alguma coisa no texto perdia o sentido quando era falada, ou não funcionava, aquilo era cortado. Foi um trabalho de repetição, a partir das coisas que eles iam fazendo, meu trabalho era provocar as escolhas deles, indicar um caminho.






A grande diferença do trabalho de ator nesse filme, na minha opinião, é que, num filme normal, ele tem que compor um personagem que atua hoje, aí passam-se três dias na vida dele e ele atua mais um pouco, e passam-se mais quatro dias e ele atua mais um pouco. O personagem tem que ter uma continuidade. Em Amor?, os atores tinham que dizer o texto daquela maneira uma única vez, ou fazer diferente todas as vezes, se preferisse, mas ele precisava incorporar o texto de uma tal maneira que parecesse que aquilo está sendo dito pela primeira vez. O mais importante para o trabalho era justamente o frescor. Se fosse uma interpretação cristalizada, pra ser repetida, não funcionava.






Então a gente ensaiava até ficar “quase muito bom”, de forma que quando ficasse muito bom já fosse diante da câmera. Tanto que, na hora de filmar, não tinha ensaio. Rodava a primeira, direto; rodava várias vezes se fosse necessário, mas não tinha ensaio.










Fonte: Entrevista via PressBook - Amor O Filme?


Créditos Fotos: Heloísa Passos




Acompanhe o especial Amor? com informações sobre esse excelente trabalho de João Jardim.


Em breve, resenha do filme por MaDame Lumière

domingo, 17 de abril de 2011

Quando Partimos (Die Fremde/ When we leave) - 2010



No Cinema Alemão, a atriz Sibel Kekili (de Contra a Parede,de Faith Akin) parece predestinada a atuar em papéis de mulheres que, pertencentes à uma estrutura familiar Turca, têm a ânsia de romper com o aprisonamento dos costumes e mentalidade tradicionais da família e aproveitar a vida ao máximo, sendo protagonista das próprias escolhas e destino. Após interpretar Sibel, uma filha de turcos, suicida e louca para curtir a vida adoidado na visceral história de amor dirigida por Akin, em Quando Partimos, o primeiro filme da diretora Feo Aladag, ela é Umay, uma mulher que sofre violência doméstica no casamento e decide abandonar o marido e tomar um novo rumo ao lado do filho Cem (Nizam Schiller) partindo para Berlin. Ao tomar essa decisão, ela dá início a uma jornada de rejeição e humilhação provenientes de sua convencional e opressora família.





Nessa realista e comovente história, tomar a decisão de não sofrer maus tratos e de não viver um casamento de aparências com um homem autoritário e violento é uma afronta para a família de Umay. Por mais que as culturas do mundo sejam diferentes e que devam ser respeitadas pelas suas peculiaridades, a premissa dos "bons" costumes alicerçados muito mais na ignorância coletiva do que no bem estar de cada individuo é a de que Umay não tem o direito a questionar a sua própria felicidade conjugal e muito menos o de envergonhar a família por conta de seus desejos de liberdade. Ela não encontra nem no pai, nem na mãe e muito menos nos irmãos o apoio que precisa e, nesse contexto, sofrerá de violência psicológica a física. É interessante observar na película que alguns padrões se repetem como a mãe submissa que se cala perante o sofrimento da filha mas também se vê dividida pelo sentimento de mãe cuidadora e pelo de mulher das tradições, o pai machista, orgulhoso e preocupado com a opinião alheia, que tem vergonha de que amigos, parentes e conhecidos, os ditos conterrâneos, testemunhem que a filha dele se rebela contra a autoridade dele e os costumes turcos, o que acaba colocando em questionamento se a educação dada por ele foi eficaz, o irmão violento que não respeita a irmã, não cede ao diálogo e prefere usar de brutalidade física, de ameaças aterrorizantes.



A sensação para quem contempla esse triste retrato da vida de Umay é a de que ela está destinada ao sofrimento e não sabe exatamente como lidar com ele porque o olhar diretivo enfoca mais as constantes humilhações do que necessariamente uma reação mais construtiva de Umay a tanta ignorância, além disso leva à reflexão de que, sair de um lar e abandonar um marido violento, não é um escape ao sofrimento, pelo contrário, tal iniciativa de Umay em um contexto familiar tão tradicional traz a ela mais sofrimento. Rejeição e solidão são constantes, ela é uma rebelde e uma incompreendida. O que se vê é que cada povo tem a sua tradição e os seus costumes, e a família de Umay se originou a partir de uma tradição que é como um beco sem saída, ou no mínimo, um beco com uma saída trágica. O bem da verdade é que nem mesmo a família dela sabe como lidar com a situação porque foram aculturados a serem como são, assim como tantas outras culturas que maltratam mulheres e crianças e colocam a família como a instituição a ser a primeira a subjugá-las.





É evidente que, na seara dos direitos humanos, o argumento não é novo. A própria cineasta é uma mulher engajada na defesa das mulheres, porém Quando Partimos é muito mais contemplativo, documental e menos militante, ou seja, o espectador toma contato com uma das realidades dessa população feminina, na qual o que importa é a temática de mulheres que sofrem com a negação de suas liberdades e violentadas em sua intimidade, sem direito ao livre arbítrio. Embora a comunidade Turca não tem como escapar à péssima pintura que é mostrada sobre os seus costumes orientais na Alemanha ao retratar a família de Umay, o filme não tem o tom de condená-la mesmo que corra o risco de ser mal interpretado. O fato é que existem famílias assim e elas estão em várias regiões do mundo, fazendo o bem e fazendo o mal, basta mencionar que a violência contra a mulher é uma das que mais crescem no mundo e, por diversas razões, sejam elas culturais, religiosas, afetivas, etc, mulheres são intimidadas. A direção e roteiro da estreante de Feo Aladag são muito mais pautados em expor essa jornada de violência contra Umay. Os tapas, olhares, silêncios a tornam mais angustiante, poderosamente tocante. O ótimo trabalho de fotografia com focos e desfocos de lente tornam essa história mais realista, mais cotidiana. A excelente atuação de Sibel colabora para o realismo da condição de Umay: sozinha e humilhada mas sem deixar de lado a necessária resiliência para suportar tanta intolerância.



Lembrando de um fato verídico, o da Hatun Sürücü, de 23 anos que foi morta em 2003 após mando da família, Quando Partimos toma umas proporções dramáticas que, de tão inaceitáveis, levam à uma angustiante reflexão: Porque alguns costumes tão enraizados que jazem na ignorância e na violência parecem estar acima do amor de uma família por seus filhos? Que tipo de cultura é essa que reduz suas mulheres a uma condição de que elas perdem o valor à medida que buscam valorizar quem são e o que desejam na vida? A postura da família de Umay é tão mais violenta do que a própria violência que ela provoca, afinal, virar as costas para ela e Cem em plena moderna Alemanha demonstra que há uma distância clara entre a mentalidade de algumas famílias imigrantes orientais e a constante busca de liberdade e vívidas vivências que existem nas grandes metrópoles.





Avaliação MaDame Lumière



Título original: Die Fremde Origem: Alemanha Gênero(s): Drama Duração: 119 min Diretor: Feo Aladag Roteirista: Feo Aladag Elenco: Sibel Kekili, Nizam Schiller, Florian Lukas, etc.