sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

MaDame Retrospectiva - Top 5 Atores Principais - 2010




5 - Wagner Moura, Tropa de Elite 2 (Tropa de Elite 2)

" Wagner Moura é patrimônio do Cinema Nacional. Um dos melhores atores Brasileiros deu vida ao Capitão Nascimento do BOPE, a força de elite em Operações Especiais da Polícia Militar. Wagner esbanja personalidade,força, justiça, paixão, heroísmo. Tropa de Elite não seria o mesmo sem Wagner Moura. Ele é o Caveira."






4 - Colin Firth, Direito de Amar (A Single Man)

" Com perfeição, Colin interpreta um homem solitário após a morte do seu amado. Com uma elegante atuação compatível com o bom gosto do estreante diretor Tom Fort, Colin é o retrato puro da amargurante solidão assombrada pelos fantasmas da perda."






3 - Leonardo di Caprio, Ilha do Medo (The Shutter Island)

"Leonardo di Caprio é um excelente ator que concilia o carisma para fillmes comerciais e a competência artística. Ele sabe emplacar uma envolvente atuação. Em Ilha do Medo, ele protagoniza o detetive Teddy Daniels com o mesmo primor. Mais uma vez, ao lado de Martin Scorsese, cineasta que o teve como pupilo em O aviador e Os infiltrados, Leo é fascinante até no papel de louco."







2 - Jesse Eisenberg, A Rede Social (The Social Network)

"O jovem ator protagoniza Mark Zuckerberg, o criador do facebook, com uma precisão espetacular. Total controle sobre a atuação e com um comportamento diferenciado em cena, Eisenberg mimetiza o introspectivo nerd que levou um fora da namorada, criou um dos maiores sites de relacionamentos do mundo, rompeu a amizade com o melhor amigo e sócio e entrou em uma arena judicial. Brilhante!"






1 - Jeff Bridges, Coração Louco (Crazy Heart)

" O Oscar 2010 já o reconheceu como o melhor ator principal. Na verdade, Jeff Bridges mergulha no personagem como se ele fosse o próprio. O cantor country Bad Blake é mais um solitário e decadente da cena cinematográfica, porém com a atuação de Jeff, ele dá vida às canções de um poeta coração louco, ele dá vida a si mesmo."


MaDame Retrospectiva - Top 5 Atrizes Principais - 2010




5 - Carey Mulligan, Educação (An Education)

"Uma das melhores atrizes revelação, Carey está elegante e surpreendente como Jenny, jovem que passa por um rito de passagem da adolescência para a fase adulta e vivencia a amarga experiência da decepção amorosa. A metamorfose da atriz durante todo o transcorrer do roteiro tem solidez e maturidade, digna do hall das emergentes atrizes."





4 - Juliane Moore, Minhas mães e meu pai (The Kids are all right)

"Juliane Moore é uma camaleoa da Tela Grande, e ainda assim, tem o seu peculiar estilo de ser Moore: sensível, divertida, versátil e muito profissional. Nesse filme,ela não seria diferente. No papel de uma lésbica desgastada pelo casamento e às voltas com um flerte heterossexual, Juliane Moore esbanja carisma e protagoniza tragicômicas cenas."






3 - Giovanna Mezzogiornio, Vincere (Vincere)

"A belíssima atriz Italiana protagoniza Ida Dalser, uma mulher no ápice de uma paixão fulminante e arrebatadora pelo ditador Mussolini. A atuação é tão intensa, passional que transforma Ida em uma das mais recentes personagens trágicas do Cinema Europeu. Sublime!"






2 - Annette Bening, Minhas mães e meu pai (The Kids are all right)

"Annette Bening está de volta à cena e realiza uma performance divertidíssima como a lésbica mãe Nic. No auge dos seus 52 anos, a atriz entrega um trabalho realista e bem humorado, pautado em tirar toda a vaidade e glamour típicos de seus velhos tempos Hollywoodianos. Suas rugas aparecem e, com elas, mais maturidade e talento."






1 - Juliette Binoche, Cópia Fiel (Copie Conforme)

"Juliette Binoche dispensa elogios, a câmera simplesmente a venera a cada sequência, e sua experiência em retratar mulheres marcantes em bons roteiros cria uma conexão intimista com o público. Neste delicioso filme que se envereda em uma discussão de relação, ela atua com a mesma espontaneidade que a torna uma atriz nata."

MaDame Retrospectiva - Top 5 Atores Coadjuvantes - 2010




5 - Jeremy Renner, Atração Perigosa (The Town)

"Incorporou muito bem o drama do jovem violento e revoltado que vive no mundo criminal e encara todos com uma postura arrogante, porém se torna vulnerável perante a possibilidade de perder o amigo de infância ."






4 - Woody Harrelson, O Mensageiro (The Messenger)

"Tanto aqui como em Zumbilândia, Woody é um ator completo que supera o papel coadjuvante. Nesta ótima atuação, com senso de humor piadista, ele expressa as dolorosas sequelas do pós-guerra como a solidão e o alcoolismo."






3 - Justin Timberlake, A Rede Social (The Social Network)

"Timberlake entra em cena com todo o louvor que um coadjuvante merece: dar o tempero certo que altera o sabor do filme para um gosto bem melhor. Em uma bem dosada atuação, ele desestrutura os alicerces de uma relação de amizade, e dá o tom político, business e vigoroso a um tenso conflito.






2 - Mark Ruffalo, Minhas mães e meu pai (The Kids are all right)

"A simpatia de Mark Ruffalo com sua expressão de homem bonzinho em comédias já era um convite à parte. Aqui, ele é pai biológico e ingressa no cotidiano de um casal de lésbicas com divertido senso de humor. Muito da sua competente atuação é o match com as atrizes Juliane Moore e Annette Benning."





1 - Andrew Garfield, A Rede Social (The Social Network)

"A performance de Garfield tem a docilidade, a dramaticidade e a vulnerabilidade de estar em um conflito com o melhor amigo e ser deixado para trás. Combina perfeitamente com a atuação de Einseberg e é capaz de brilhar por si só, complementando a carga dramática do argumento.

MaDame Retrospectiva - Top 5 Atrizes Coadjuvantes - 2010





5 - Marion Cotillard, A Origem (Inception)

"A atriz de exuberante beleza e elegância performa uma mulher insanamente apaixonada e magoada, (a)traída pelos seus lúdicos e obsessivos desejos."






4 - Anne-Marie Duff, O Garoto de Liverpool (Nowhere Boy)

"Ann entrega uma ótima performance como a suposta Jocasta do Édipo John Lennon, harmonizando a mãe jovial e liberal e a mãe culpada e deprimida do jovem astro."






3 - Olivia Williams, O Escritor Fantasma (The Ghost Writer)

"Em fascinante e dual interpretação, Olivia demonstra que a dissimulação de uma mulher só deve ser interpretada por competentes atrizes como ela."






2 - Kristin Scott Thomas, O Garoto de Liverpool (Nowhere Boy)

"Uma coadjuvante com magnífica e catártica atuação principal. Sustenta
o drama como uma tia austera, mas transborda amor pelo sobrinho John Lennon."






1 - Mo'Nique, Preciosa (Precious)

"Ganhou o Oscar 2010 performando uma das piores mulheres do Cinema atual: uma "mãe" violenta e sem escrupúlos, escrava da própria ignorância e hostilidade."

MaDame Retrospectiva - Cinema 2010


Retrospectiva é festa, é glam, é MaDame Lumière
apresentando o melhor do Cinema 2010 lançado no Brasil


Olá Prezados leitores,

Hoje é o último dia do ano e quero comemorar o Cinema em grande estilo, por isso você é meu convidado Vip para o MaDame Retrospectiva, com uma seleção especial do Cinema 2010, com os Top 5 Melhores em 8 categorias : Ator Coadjuvante, Atriz Coadjuvante, Ator Principal, Atriz Principal, Roteiro Adaptado, Roteiro Principal, Animação e Diretor e, os Top 10 em 3 categorias: melhor filme, pior filme e filme revelação; este último, é a categoria que intitulo 'grata surpresa do ano', que adorei descobrir e indico sem titubear.

Sabemos que, em época de blockbusters e tecnologias 3 D e Blu-Ray, nem tudo que é lançado na sétima Arte é ARTE cinematográfica, porém após um ano de muita cinefilia, conclui que foi maravilhoso assistir a tantos filmes e ter o desejo genuíno de fazê-lo cada vez mais, buscando sempre um horário para namorar o Cinema e construir meu íntimo relacionamento com ele. Apesar de ter sentido o impacto das demandas profisionais desde Agosto, o que fez com que eu escrevesse menos no MaDame Lumière, felizmente, eu pude ir às salas de exibição para ver os esperados lançamentos, alugar mais DVDS, assistir à Mostra de Cinema em SP, descobrir novos livros de Cinema e, o melhor de tudo, conhecer inesquecíveis clássicos que me fascinam e tem me ensinado bastante a desenvolver um olhar mais apurado. Hoje posso dizer-lhes que sou uma cinéfila, fazendo coro à uma preciosa frase do diretor francês Jean Carhles Tacchela que disse: "Uma pessoa se torna cinéfila não porque vê filmes, mas sim porque sente a necessidade imperiosa de ver os filmes que ainda não viu". Essa sou eu!


Ao decidir fechar o ano com chave de estúdio de Cinema, optei por um MaDame Retrospectiva bem coerente com quem tem acompanhado o blog, ou seja, apresento filmes que fizeram parte da minha trajetória de cinéfila durante 2010, e que foram lançados em território Brasileiro ainda nesse ano, seja fora ou dentro do circuito nacional. Alguns foram produzidos em 2009, outros em 2010. Alguns eu resenhei, outros não deu tempo de revisar e estão na fila de críticas, porém o mais importante é que são filmes que, pelo menos, algum leitor tenha assistido diretamente na sala de Cinema, no DVD ou Blu-Ray de casa. Embora as listas de cinéfilos costumem ser pessoais, eu tentei equilibrar a minha preferência pessoal com a imparcialidade crítica de um bom cinéfilo, afinal, estas seleções foram avaliadas tomando em conta a performance excepcional de cada categoria, o que significou um excelente exercício de avaliação cinematográfica. Espero que curtam o MaDame Retrospectiva e que tenham um excelente 2011 com uma adrenalítica cinefilia na veia, na alma e no coração.

Beijos,

MaDame Lumière

sábado, 25 de dezembro de 2010

Ao Entardecer (Evening) - 2007


"Pode me dizer para onde foi a minha vida?"
(Vanessa Redgrave)


Se há algo mais forte que o amor, estas são as suas lembranças. Como elas marcam a vida como cicatrizes profundas que, ao serem tocadas suavemente, despertam lembranças dos fatos que ocasionaram aquelas expressivas marcas. As memórias de um amor que resiste ao tempo nunca escapam aos pensamentos, e com elas, as suas escolhas. Ao Entardecer, drama sobre uma linda história de amor que volta à memória de uma senhora idosa é uma película sobre lembranças. São as memórias de um grande amor que aparecem nos delírios de Ann (Vanessa Redgrave) que está muito doente e à beira da morte. Quando jovem, Ann (Claire Danes) conhece o charmoso médico Harris (Patrick Wilson) ao visitar a casa de campo de seus amigos Buddy (Hugh Dancy) e Lila (Mamie Gummer, filha da diva Meryl Streep). Lila está às vésperas de seu casamento e convida sua amiga Ann para ser a madrinha de seu casamento. Com a ocasião, novas revelações advindas de velhas lembranças são ditas, escolhas são feitas, oportunidades são perdidas. As vidas destes jovens tomam distintas direções.






Baseado no romance de Susan Minot, a história se desenvolve em dois planos temporais: passado e presente, flashbacks que conectam a Ann 'Redgrave' e a Ann 'Danes', deslumbrantes locações litorâneas, e um elenco feminino estelar que conta também com a presença de Meryl Streep, Toni Colette, Glenn Close e Natasha Richardson, Ao entardecer é um belo e triste filme para refletir como somos afetados por lembranças românticas, carregadas de interrogações quando perdemos algumas oportunidades: e se aquele inesquecível amor tivesse dado certo, estaria eu mais feliz? Estaria eu e ele casados e apaixonados ? Ou ele seria mais um erro impossível de esquecer? A película é produzida para emocionar a partir de alguns elementos: uma canção instrumental bem emotiva composta por Jan A.P. Kaczmarek, um ensolarado cenário com o azul do mar e o brilho das estrelas, uma atração irresistível entre dois estranhos que se apaixonam repentinamente como em uma paixão de verão, uma idosa doente em sua cama e em delírios que relembram um amor de mais de 40 anos atrás, uma tragédia familiar, duas filhas adultas de Ann, Nina (Toni Collette) e Connie (Natasha Richardson, filha falecida de Vanessa Redgrave) que têm que lidar com uma mãe doente e a desejam sã novamente, etc. O mais interessante neste roteiro é perceber que as lembranças de amor não são só as de Ann. Buddy e Lila são personagens que são impactados por lembranças afetivas e revelam sentimentos que os deixam bem vulneráveis.






Ao Entardecer tem uma inspiradora atmosfera romântica que faz par com a tragédia do amar e do perder. O frescor da paixão é apresentado com dois jovens que se apaixonam como a Allie e o Noah de Diário de uma paixão (2004). Na outra ponta, vemos um dos personagens em idade avançada, trazendo à memória as lembranças amorosas via flashback. Se Noah lê um diário lembrando de seu amor com a jovem Allie, Ann conversa delirante com sua enfermeira e suas filhas lembrando de seu Harry. Mais uma vez, as titãs Vanessa Redgrave e Meryl Streep têm atuações excelentes que, em poucas cenas, colocam o filme em um nível mais elevado. Claire Danes continua com a mesma interpretação cativante, que irradia a simpatia de seus belos olhos e sorriso e dá um show de talento em uma das cenas mais dramáticas do filme ao lado de Hugh Dancy. A revelação Mamie Gummer tem uma atuação bem centrada, discreta e sem as frescuras de ser filha de quem é, o que demonstra um senso de profissionalismo que segue os passos de sua mãe. Toni Collette e a saudosa Natasha Richardson nos brindam com sensíveis momentos mãe e filhas ao lado de Redgrave.


Com uma direção bem regular realizada por Lajos Koltai, o roteiro não é um espetáculo cinematográfico mas realmente não precisa sê-lo. Ele é sob medida para ter a previsibilidade dos dramas de amor, alicerçados em encontros e desencontros e assombrados por fantasmas do passado, porém tal lugar comum o torna um tocante filme, sobre o amor, a amizade e a família, singelo e verdadeiro, amoroso e doloroso. Além disso, de alguma forma, o segredo de Ann e sua frágil condição de saúde catalisa a vida de uma de suas filhas, Nina, como o presente de uma mãe para uma filha, logo um amor do passado volta ao presente por n motivos: para dar as respostas que precisam, cravar os momentos que anseiam, trazer as escolhas que tanto precisam. Tamanha sensibilidade faz do filme também um diálogo amigo sobre as oportunidades que são perdidas quando as temos. Ele tem este efeito de conversar com a gente, nos envolvendo com as emoções já vividas de tantos de nós.




Avaliação MaDame Lumière



Título original: Evening
Origem: USA, Germany
Gênero: Romance, Drama
Duração: 117 min
Diretor(a): Lajos Koltai
Roteirista(s): Michael Cunningham, Susan Minot
Elenco: Vanessa Redgrave, Claire Danes, Patrick Wilson, Toni Collette, Meryl Streep, Natasha Richardson




domingo, 19 de dezembro de 2010

O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus (The Imaginarium of Doctor Parnassus) - 2009



À parte dos predicativos visuais da formidável direção de arte de O Imaginário Mundo do Dr. Parnassus, uma narrativa fantástica ao mundo lúdico da trupe do imortal mágico Parnassus, a fita dirigida pelo ex-Monty Python Terry Gilliam sempre será lembrada como o último filme do saudoso Heath Ledger que faleceu durante suas filmagens. No auge de sua carreira após abrilhantar o Cinema com o inesquecível Vilão Coringa, de Batman - O Cavaleiro das Trevas , Ledger se tornou um jovem mito que continua habitando os sonhos de muitos cinéfilos. Sua morte foi um triste desafio à Gilliam que tinha uma ótima relação com o ator com o qual trabalhou em Os irmãos Grimm, além de ter sido um infórtunio que marcou a carreira de Gilliam com mais um lance de azar. Para concluir a produção e substituir Tony, o derradeiro papel de Heath Ledger, foram escalados Johnny Depp, Colin Farrell e Jude Law que prestaram uma homenagem ao falecido amigo, e tiveram a sorte de realizar uma transição intepretativa menos artificial a qual funcionou como um passe de mágica facilitado pelo surealismo do roteiro.






Ambientado em Londres, o filme narra a história Faustiana do Dr. Parnassus (Christopher Plummer, em excelente atuação), um velho que há milhares de anos atrás fez um acordo com o Diabo, Mr. Nick (Tom Waits) em troca da imortalidade. Como o Diabo não perde lucro em nenhum de seus astutos contratos, Dr. Parnassus tem que entregar-lhe a bela e sonhadora filha Valentina (Lily Cole) quando esta complete 16 anos. Com uma trupe formada pela filha, os assistentes Anton (Andrew Garfield) e Percy (Verne Troyer), Dr Parnassus tem uma vida eterna e fracassada, em nada se beneficia de sua imortalidade. Vive como um velho bêbado e sem vigor, não consegue atrair público em suas apresentações, oculta a verdade de sua filha, sofre com a morte da esposa. Resta a ele negociar novamente com o Diabo por novas almas, tal que impeça que perca a sua filha para sempre. Durante suas idas e vindas na sombria e suja Londres, a trupe encontra o misterioso Tony (Heath Ledger), sedutor, criativo e bom de lábia, que dá uma reviravolta na história. Ajuda a Cia nas apresentações e a conquistar novas almas. Entra no esplêndido mundo imaginário do Dr. Parnassus através de um espelho mágico, porta de entrada para a realização dos mais profundos e surreais desejos. Mas tudo tem um preço nesta fabulosa aventura e nem tudo é o que parece. O Diabo tem esperteza e está à espreita. Valentina corre perigo.






A primeira sublime sensação de
O Imaginário Mundo do Dr. Parnassus é a presença de Heath Ledger. Hipnotizante. Surreal. Nostálgica. É impossível tirar os olhos dele. Como se fosse um ato profético, ele escapa da morte em um triunfal início que chega a ser emblemático; logo mais, em outro momento, está gesticulando como um talento circense a encantar as platéias com seu irresistível charme. Com Ledger em um conto fantástico, o surreal se torna realidade e somos imediatamente impactados pela sua arte interpretativa, saudosa ao extremo, capaz de tocar nossos corações com a dor de sua ausência. Mesmo com as transformações de Ledger em Depp, Farell e Law, é notório como o falecido ator preenchia a tela com uma carismática e única atuação. Além dele, muito do encanto da película é a direção de arte apoiada pela experiência de Gilliam que tem o background de animador, de Monty Python, de cineasta 'que pensa fora da caixa'. Ele cria uma atmosfera pelicular e lúdica, um mundo de milhares de possibilidades imaginativas com desvairados cenários típicos de sua genial criatividade. O cineasta delira na sua inovadora insanidade cinematográfica e isso lhe possibilita um poder de criação ilimitado, alicerçado por uma liberdade artística de quem entrou no set de filmagens para fazer o que gosta e o que acredita. A beleza deste mundo atraí a partir da cenografia e dos figurinos e o desejo mais iminente é usar a tela do Cinema como se fosse o nosso espelho; fato que aproxima o Cinema como espelho dos nossos mágicos sonhos cinematográficos, aproxima de sua função de que, ao entrarmos através uma tela grande, somos projetados a ser parte de um novo mundo de infinitas experiências com a sétima Arte.





Mas nem tudo é parte da imaginação de quem entra através do espelho do Dr. Parnassus, há um senso de tornar palpável a suja e escura Londres que, claramente, faz o contraponto com o colorido mundo do imortal mágico. Enquanto Londres demonstra ser um local frio e úmido no qual as pessoas não se interessam pelo trabalho da trupe, o mundo do Dr. Parnassus é um escape àquele ambiente sem vida, um escape como os sonhos são. Com o espelho, enxergamos o que queremos ver , sentir, vivenciar. Ele é a passagem à imaginação, a fuga do ordinário cotidiano. Igualmente, a direção do elenco é primordial para a qualidade da fita, dado que a seleção deste corpo de atores faz mágica no filme. Todos têm caricaturas verossíméis com os integrantes de uma divertida trupe itinerante: o leal e mandão anão Percy, o jovem Anton apaixonado pela filha do patrão e os vários Tonys e suas espalhafatosas peripécias, todos realizam um trabalho compatível com este universo fantasioso. Ao atar as pontas do lúdico com a realidade dos conflitos morais
, a película evidencia que haverá sempre a luta do bem contra o mal na dualidade de cada caráter. Também não estamos lidando com uma trupe mambembe em um contexto non sense, pelo contrário, como tão próprio dos velhos palhaços, a loucura cômica é mais sana do que imaginamos. Mais adiante, há o livre arbítrio das escolhas, e são os mais íntimos sonhos que, verdadeiramente, se tornam realidade.




Avaliação MaDame Lumière








Título original:
The Imaginarium of Doctor Parnassus
Origem: UK, Canadá, França
Gênero: Aventura, Fantasia
Duração: 123 min
Diretor(a): Terry Gilliam
Roteirista(s): Terry Gilliam, Charles McKeown
Elenco: Andrew Garfield, Christopher Plummer, Colin Farrell, Heath Ledger, Johnny Depp, Jude Law, Lily Cole, Peter Stormare

sábado, 18 de dezembro de 2010

O Pôster de Filme da Semana: Watchmen - 2009



Por que este é o pôster da semana?

Watchmen, célebre HQ da DC Comics foi adaptada para os Cinemas em 2009 pelo diretor Zack Snyder em uma pop e sombria película dramática criminal que fez jus ao caratér duvidoso dos super heróis com suas falhas de personalidade e seus conflitos morais por trás de suas vulneráveis máscaras. Tudo começa com o assassinato misterioso de um deles, o Comediante, interpretado por Jeffrey Dean Morgan (Edward Blake), em uma excelente aparição que, por si só, ilustra a ambiguidade dos vigilantes mascarados. A morte do Comediante é o estopim para o que virá nos intrigantes desdobramentos do roteiro, por isso, nada mais coerente do que uma morte visualmente triunfal como a do incrível pôster da semana.

Enquanto as luzes iluminam a noite e os carros percorrem velozmente a avenida, eis que um corpo trajado em hobby de banho caí com estilhaços de vidros. Como em um emblemático adeus do comediante, lá está o seu símbolo smiley, sorrindo com a mancha de uma gota de sangue. O realismo do pôster com um visual HQ urbano e noturno que não perde a luminosidade da cidade é fascinante. É como se as luzes fossem os holofotes para enfocar a letal queda do Comediante. Estes pedacinhos de vidro são um deslumbre visual ao cartaz os quais, de tão transparentes, esvoaçantes e fragmentados, dão a verdadeira sensação de que a janela acabou de ser quebrada emitindo um ruído chocante; e que logo mais, estes mesmos estilhaços de vidro cairão no chão ao lado do corpo quebrado e ensanguentado do Comediante. Um corpo que mais parece uma sombra que caí surpreendentemente com pernas e braços abertos e desajeitados, um corpo que se perde na escuridão de sua morte... com um riso nos lábios.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Prêmio Globo de Ouro 2011 - Os indicados

Congratulations, my dear! You are the King!
7 nominations


Listas de indicados e vencedores das melhores categorias do Cinema estão sendo divulgadas: AFI, Associação dos críticos de Boston, de Nova York, Critic's Choice Awards, Globo de Ouro, etc. Cinema está em uma temporada quente pré Oscar Season, um momento muito prazeroso e divertido para curtir a Sétima Arte, ver, rever e analisar os filmes que se destacaram em 2010. Nós, cinéfilos, apreciamos este calor que irradia uma energia inigualável rumo à descoberta de quais são as grandes produções e estrelas a serem reconhecidos por seus trabalhos cinematográficos. No balanço da semana, destaque especial para os indicados ao Globo de Ouro 2011, uma das premiações mais tradicionais para Cinema e TV que está em sua 68ª edição e acontecerá em 16 de Janeiro em Los Angeles.


Na lista divulgada pela HFPA - Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood não poderiam faltar coerências e incoerências, ou seja, leões e zebras. Dentre os leões da premiação com maior número de indicações estão O Discurso do Rei, sobre a história do rei George VI (Colin Firth) "o rei gago", A Rede Social, sobre a criação do Facebook e seu fundador Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), e Cisne Negro, sobre a rivalidade entre duas bailarinas interpretadas por Natalie Portman e Mila Kunis. Estas produções têm sido bem avaliadas pela crítica, reconhecidas nas principais listas, e cotadas como fortes competidores à estatueta do Oscar. Dentre as zebrinhas da lista e, na falta do que ter o que indicar, optaram por reconhecer filmes muito aquém da qualidade de uma premiação deste nível: Red - Aposentados e Perigosos e Burlesque, assim como atuações muito mínimas e pouco potencializadas nas próprias produções como foram os casos de Johnny Depp e seu chapeleiro Maluco em Alice no país das maravilhas e Michael Douglas em Wall Street - O Dinheiro nunca morre.



Melhor Filme Drama:

Cisne Negro
O Vencedor
A Origem
O Discurso do Rei
A Rede Social


Melhor Diretor:
Darren Aronofsky (Cisne Negro)
David Fincher (A Rede Social)
Tom Hooper (O Discurso do Rei)
Christopher Nolan (A Origem)
David O. Russell (O Vencedor)


Melhor Roteiro:
Danny Boyle e Simon Beaufoy (127 Horas)
Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg (Minhas Mães e Meu Pai)
Christopher Nolan (A Origem)
David Seidler (O Discurso do Rei)
Aaron Sorkin (A Rede Social)


Melhor Atriz em Filme Drama:
Halle Berry (Frankie and Alice)
Nicole Kidman (Rabbit Hole)
Jennifer Lawrence (Inverno da Alma)
Natalie Portman (Cisne Negro)
Michelle Williams (Blue Valentine)



Melhor Ator em Filme Drama:
Jesse Eisenberg (A Rede Social)
Colin Firth (O Discurso do Rei)
James Franco (127 Horas)
Ryan Gosling (Blue Valentine)
Mark Wahlberg (O Vencedor)



Melhor Filme – Comédia ou Musical:

Alice no País das Maravilhas
Burlesque
Minhas Mães e Meu Pai
Red – Aposentados e Perigosos
O Turista


Melhor Atriz em Comédia ou Musical:
Anette Benning (Minhas Mães e Meu Pai)
Anne Hathaway (Amor e Outras Drogas)
Angelina Jolie (O Turista)
Julianne Moore (Minhas Mães e Meu Pai)
Emma Stone (A Mentira)



Melhor Ator em Comédia ou Musical:
Johnny Depp (Alice no País das Maravilhas)
Johnny Depp (O Turista)
Paul Giamatti (Barney’s Version)
Jake Gyllenhaal (Amor e Outras Drogas)
Kevin Spacey (Casino Jack)

Melhor Filme Estrangeiro:
Biutiful (México)
The Concert (França)
The Edge (Rússia)
I Am Love (Itália)
In a Better World (Dinamarca)


Melhor Atriz Coadjuvante:
Amy Adams (O Vencedor)
Helena Bonham Carter (O Discurso do Rei)
Mila Kunis (Cisne Negro)
Melissa Leo (O Vencedor)
Jackie Weaver (Animal Kingdom)



Melhor Ator Coadjuvante:
Christian Bale (O Vencedor)
Michael Douglas (Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme)
Andrew Garfield (A Rede Social)
Jeremy Renner (Atração Perigosa)
Geoffrey Rush (O Discurso do Rei)



Melhor Animação:
Meu Malvado Favorito
Como Treinar o Seu Dragão
The Illusionist
Enrolados
Toy Story 3

Melhor Canção:
“Bound To You” (Burlesque)
“Coming Home” (Country Strong)
“I See The Light” (Enrolados)
“There’s a Place For Us” (As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada)
“You Haven’t Seen The Last of Me” (Burlesque)



Melhor Trilha Sonora:
Alexandre Desplat (O Discurso do Rei)
Danny Elfman (Alice no País das Maravilhas)
A.R. Rahman (127 Horas)
Trent Reznor e Atticus Ross (A Rede Social)
Hans Zimmer (A Origem)



Confira também os seriados indicados:

Televisão
Série dramática
Boardwalk Empire (HBO)
Dexter (Showtime)
House (Fox)
Mad Men (AMC)
The Good Wife (CBS)
The Walking Dead


Série de comédia/musical
30 Rock (NBC)
Glee (Fox)
Modern Family (ABC)
The Big Bang Theory (CBS)
The Big C (Showtime)
Nurse Jackie (Showtime)


Melhor ator de drama
Steve Buscemi (Boardwalk Empire)
Jon Hamm (Mad Men)
Michael C. Hall (Dexter)
Hugh Laurie (House)
Bryan Cranston (Breaking Bad)


Melhor atriz de drama
Katey Sagal (Sons of Anarchy)
Elizabeth Moss (Mad Men)
Julianna Margulies (The Good Wife)
Piper Perabo (Covert Affairs)
Kyra Sedgwick (The Closer)


Melhor atriz de comédia/musical
Tina Fey (30 Rock)
Edie Falco (Nurse Jackie)
Toni Collette (The United States of Tara)
Lea Michele (Glee)
Laura Linney (The Big C)


Melhor ator de comédia/musical
Alec Baldwin (30 Rock)
Steve Carell (The Office)
Jim Parsons (The Big Bang Theory)
Matthew Morrison (Glee)
Thomas Jane (Hung)


Melhor ator coadjuvante
Scott Caan (Hawaii Five-0)
Chris Noth (The Good Wife)
Eric Stonestreet (Modern Family)
Chris Colfer (Glee)
David Strathairn (Temple Gradin)



Melhor atriz coadjuvante
Jane Lynch (Glee)
Sofia Vergara (Modern Family)
Julia Stiles (Dexter)
Kelly Macdonald (Boardwalk Empire)
Hope Davis (The Speical Relationship)

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Atração Perigosa (The Town) - 2010


"I'm thinking about making a change"



Desde que Ben Affleck assinou o roteiro adaptado e a direção de Medo da Verdade (Gone Baby Gone, 2007), thriller dramático baseado em mais uma obra do formidável escritor Dennis Lehane (de Sobre meninos e lobos e Ilha do Medo), ficou evidente que ele é mais promissor como diretor que como ator. Com o recém lançado Atração Perigosa, Ben Affleck confirma, de uma vez por todas, o seu talento para ser os nossos olhos. Seu olhar directivo tem frescor fílmico e competência de quem sabe o que faz para materializar roteiros em imagens de impacto, realistas e contemplativas. As rítmicas cenas de ação se alternam com as de diálogos dramáticos, de existencial reflexão. Para encerrar com câmera de ouro, desta vez, ele foi impecável ao registrar um dos seus personagens preferidos: sua Boston, cidade que dá o título original à película.






Adaptado do romance O Príncipe dos Ladrões (The Prince of Thieves, de Chuck Hogan), Atração Perigosa é ambientado no bairro de Charlestown, reduto dos criminosos da região. Somos apresentados à capital americana dos assaltos a banco, com a inclusão de uma cidade no cast que diz muito sobre os moradores que ali vivem envolvidos em contravenções como sequestros, tráfico de drogas, assaltos, etc; com vidas traumatizadas por perdas e ausências. Doug MacRay (Affleck) é um assaltante líder de banco, orfão de mãe e filho do presidiário Stephen MacRay (Chris Cooper). Doug cresceu no mundo do crime e perdeu a única chance de desenvolver outra carreira, a de esportista. Ao lado do seu grupo de amigos que ali nasceram, incluíndo o seu melhor amigo, o rebelde e violento Jem Coughlin (Jeremy Renner), Doug vive o dilema de quem tem como família criminosos, e tem que lidar com a 'herança' de ser filho de um famoso bandido mas ele não quer mais saber de uma vida bandida. Essa vida não o satisfaz mais, há um sentimento de inadequação nele. Doug expressa a contradição de todo bandido durão com jeito de mocinho. Ele é fiel aos amigos, respeitado pela vizinhança, solitário, apaixonado e carrega consigo o peso da necessidade de redenção. Essa vida criminal que não combina mais com ele está prestes a chegar ao fim, o desafio é conseguir se livrar dela.






Durante um assalto a banco, Doug e seu grupo fazem como refém a gerente Claire Reesey (Rebecca Hall, ótima) a qual acaba por exercer uma forte atração em Doug. Por uma ironia do destino, o ladrão se aproxima da mocinha e rouba-lhe o coração. Conflitos vêem à tona, verdades ocultas e difíceis escolhas também. Doug se divide entre sua família (de amigos), seu romance com Claire, a perseguição do agente FBI Adam Frawley (Jon Hamm) e as cobranças do crime organizado. Cada personagem exerce uma cobrança de ordem pessoal sob Doug tal que propicie à narrativa um conflito maior ao seu dilema : Jem e sua decadente irmã Krista, ex-affair de Doug (Blake Lively) são os problemáticos pavios curtos que esperam lealdade, um não distanciamento de Doug. Claire é a mulher que simboliza a perspectiva de uma nova vida com amor; mesmo que ela não saiba de seu histórico criminal. Ela é a mulher que significa a aceitação do outro, ou seja, aquela capaz de perdoá-lo dos erros passados e amá-lo. Adam é o calcanhar de Aquiles que o confronta com o que Doug se tornou e não deseja mais sê-lo: um implacável procurado pela polícia. Fergie (Pete Postlethwaite) é o poderoso criminoso que demanda os serviços sujos de Doug e o chantageia.






O elenco realiza um excelente trabalho dentro da importância de cada personagem neste contexto de inadequação de Doug. Com segura expressividade, Rebecca Hall atua com o mesmo estilo de boa moça, com uma natural beleza que enche a tela com espontaneidade, além de ter boa química com Affleck. Por sua vez, ele se esforça e não compromete a ação protagonista de Doug. Harmoniza a violência das cenas de ação com os momentos de bom moço em busca de redenção. Jeremy Renner faz bem o que já lhe foi natural em Guerra ao Terror: um homem impetuoso e agressivo, de personalidade forte. Ainda com méritos, o melhor personagem é Boston e como o olhar sobre ela é conduzido pela câmera. Das vistas áereas às ruas e moradores bem apoiadas pela primorosa fotografia de Robert Elswit, Boston rouba a cena juntamente com as cenas de ação. Estes são os grandes diferenciais da película que invariavelmente exercem uma irresistível atração.




Avaliação MaDame Lumière





Título original:
The Town
Origem: USA
Gênero: Drama, Crime, Policial
Duração: 125 min
Diretor(a): Ben Affleck
Roteirista(s): Ben Affleck. Peter Craig, Aaron Stockard
Elenco: Ben Affleck, Jeremy Renner, Jon Hamm, Rebecca Hall

sábado, 11 de dezembro de 2010

Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (You will meet a tall dark stranger) - 2010

"When you wish upon a star/ Makes no difference who you are/ Anything your heart desire will come to you/ It will come to you"



Woody Allen completou 75 anos em 01 de Dezembro. Parabéns para o mestre! Ele continua um exímio comediante das relações humanas e seus des(encontros) amorosos. Seus filmes carregam a sua marca autoral, a de um veterano cineasta e roteirista, cético, agnóstico, neurótico e sarcástico, um excelente observador de homens e mulheres em andanças com suas inseguranças amorosas. Suas comédias dramáticas românticas têm o realismo dos sentimentos contraditórios dos casais, nas quais Woody Allen usa uma voz narrativa em off e um roteiro recheado de diálogos engraçados para estabelecer uma prosinha inteligente e bem humorada. Com o seu recente longa-metragem, Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, que conta com atrativo elenco composto por Naomi Watts, Josh Broslin, Antonio Banderas, Gemma Jones e Anthony Hopkins, o cineasta comprova que, por trás de seu patológico pessimismo, ele usou uma pontinha de mítica esperança mesclada com razão, ironia e uma boa dose de ilusão: Você NÃO vai conhecer o homem (ou a mulher) dos seus sonhos, mas se ele(a) surgir, você vai conhecer o homem(ou a mulher) da sua realidade, mesmo que ele(a) não seja tão perfeito(a) como você o (a) imaginou.





Ambientada em Londres, a comédia de relacionamentos gira em torno de uma família que está passando por separações e traições, buscam o romance e a realização pessoal. A partir deste argumento, Woody Allen volta à tradicional fórmula, aqui menos elaborada, de se aproximar de dramas que, pelo menos uma vez na vida, alguém tenha vivenciado ou presenciado. Para tal, ele compõe personagens variados que criam um processo de identificação com a realidade dos fatos: o idoso metido à garotão sarado que nega o envelhecimento e se casa com uma mulher mais jovem, a idosa abandonada pelo marido que perdeu o rumo, fica emocionalmente dependente de uma charlatã vidente, a esposa que deixou a carreira em segundo plano para ter uma família e não engravida, o marido fracassado que não alavancou na carreira e nem mantém as despesas da casa. Esses tipos são clichês que, de alguma forma, empobrecem a velha guarda dos filmes do cineasta, porém a vida é feita de clichês e a comédia não se torna totalmente vazia porque este é um roteiro de Woody Allen, marcado por boas situações cotidianas cômico-dramáticas entre os casais. Helena (Gemma Jones) está separada de seu ex, Alfie (Anthony Hopkins) que, por sua vez, se casa com uma mulher mais jovem, Charmaine (Lucy Punch). A filha de Alfie e Helena, Sally (Naomi Watts) tem um péssimo casamento com o escritor Roy (Josh Broslin) que, por sua vez, se envolve com a ingênua vizinha Dia (Freida Pinto) que traí o noivo. Sally se apaixona pelo chefe Greg (Antonio Banderas) que tem um casamento de aparências e também aprecia pular a cerca. O ciclo de encontros e desencontros está feito, e com ele, muitas decepções que não são para o mal, pelo contrário, decepcionar-se faz parte do processo amoroso, ser traído e trocado por outro (a).





Embora seja um trabalho bem menor em sua extensa cinematografia, e que deixou bastante a desejar para os excepcionais parâmetros dos clássicos do cineasta, ainda assim, Woody Allen entrega um filme simples e prático que dialoga verdadeiramente conosco sem dar muitos rodeios. Basta saber tirar proveito dos diálogos, relacioná-lo com as frustrações amorosas. A fita é agradável, tem uma trilha sonora adorável com a musicalidade de bandinha de Tom Sharpsteen & his Orlandos, e uma prosinha básica com o cineasta que, a propósito, não é tão sádico; ele é um expert em dissecar as contradições do amor, assim, conhecendo um pouco mais dele, menos masoquismo nos relacionamentos para todos nós porque essenciais verdades são reveladas. A direção de elenco e o texto em uma bonita e intimista Londres cooperam para sustentar a qualidade do filme. No lugar de Nova York, são as casas, galerias, parques e restaurantes londrinos que embelezam a cenografia. Josh Broslin, Anthony Hopkins, Antonio Banderas entregam boas atuações, porém são as mulheres de Woody Allen que fazem a diferença.



Naomi Watts colabora muito para o drama de seu papel, como uma mulher talentosa que permaneceu à margem de um marido fracassado, canastrão e mulherengo e é dela uma das melhores cenas de desilusão amorosa. Lucy Punch está bem vulgar como exigido pelo seu papel: uma ex-prostituta, loira fútil, infiel, interesseira o suficiente para ridicularizar Alfie e evidenciar o grande erro que foi casar com ela. Gemma Jones é a estrela. Está perfeitamente hilária e dá à película o peso do tom cômico; são as suas palavras que desmascaram as vulnerabilidades dos homens, e é ela que demonstra a vulnerabilidade de sua solidão ao buscar uma cartomante e usá-la como uma muleta emocional. Ironicamente, a personagem de Jones é a mais forte porque ela não deixa de sonhar acerca do amor, é mais expansiva, mais autêntica em suas insatisfações e decepções, e genuinamente apelou para o misticismo enquanto todos os outros se iludiram das piores formas possíveis e projetaram imagens de perfeição; o humor de Allen é tão proposital que até a seleção da clássica canção do mundo encantado da Disney When you wish upon a star, na voz de Leon Redbone é perfeita para Jones (Sonhos se tornam realidade, o destino é gentil, ele traz para aqueles que amam a doce realização)
, letra que, apesar de ser muito bonita, mais parece um mantra espiritual para Jones. Na imperfeição de um viúvo, que não é alto, nem moreno e muito menos sedutor, ela encontra a possibilidade de se apaixonar e ser feliz; uma mensagem que é útil e ressonante nos romances cotidianos. Precisamos de alguma ilusão para viver um dia após o outro em busca do amor. Não precisamos encontrar o homem ou a mulher dos sonhos, precisamos encontrar pessoas reais, imperfeitas como a nossa natureza humana.


Avaliação MaDame Lumière



Título original: You will meet a tall dark stranger
Origem: EUA, Espanha
Gênero: Comédia dramática, comédia romântica
Duração: 98 min
Diretor(a): Woody Allen
Roteirista(s): Woody Allen
Elenco: Naomi Watts, Josh Broslin, Anthony Hopkins, Gemma Jones, Pauline Collins, Antonio Banderas, Lucy Punch

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O Garoto de Liverpool (Nowhere Boy) - 2009



O Garoto de Liverpool
narra a vida adolescente do Beatle boy John Lennon (Aaron Johnson) em uma cinebiografa que prima por uma ótima direção de arte, nostálgica trilha sonora de Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e Screamin' Jay Hawkins e primorosas atuações coadjuvantes de Anne Marie Duff e Kristin Scott Thomas, respectivamente nos papéis de Julia e Mimi, mãe e tia do saudoso astro. À primeira vista, nem a beleza juvenil do estiloso Aaron Johnson sustenta a qualidade biográfica da película, embora é evidente o seu esforço em expor a rebeldia teen e a experiência desajustada e mal resolvida que John Lennon teve com a mãe, que o abandonou quando ele era criança. John acabou sendo educado pela tia Mimi, uma mulher austera que também o amou e soube incentivá-lo no início da carreira ao comprar sua primeira guitarra.






Ao assistir o longa
, somos mais projetados a vivenciar a emoção do drama adolescente de John Lennon. Ele é um garoto talentoso, porém é um jovem de carências maternas e sem as respostas que a juventude requer quando o cerne familiar é desestruturado. Ao ser criado por uma tia que tem dificuldades de expressar sentimentos, John Lennon encontra na confusa mãe uma oportunidade de recuperar o tempo perdido. Julia tem uma alegria de viver que encontra ressonância em momentos silenciosos, deprimentes, e ela tem outra família. O filme projeta valiosas cenas que John e Julia interagem como se tivessem um relacionamento de amigos e de amantes, e muito pouco de mãe e filho exatamente para enfatizar que há um estranhamento na relação que dá abertura à uma interpretação incestuosa, fazendo côro aos boatos de que John tinha uma atração sexual por sua mãe. No entanto, ao transcorrer do roteiro, fica claro que com ou sem Complexo de Édipo, John Lennon foi um mito que sofreu como um homem comum. Sob este aspecto o filme é um humanista entretenimento pois o 'garoto de lugar algum' pode ser um garoto qualquer com traumas familiares que demonstram que até os deuses do Rock N'roll são vulneráveis como infelizes mortais.







Muito do êxito da película é a atuação de
Anne Marie Duff que ganhou várias premiações por este trabalho, incluíndo o embate imperdível entre ela e Kristin Scott Thomas que interpretam irmãs com mágoas que não foram perdoadas. Ambas estão muito bem, mas a atuação de Anne Marie é magnífica porque ela incorpora uma mãe culpada e uma mulher flertante. Há uma voluptuosidade bem marcante em seu comportamento como se ela fosse a qualquer momento seduzir John e levá-lo para a cama, porém há uma instabilidade na qual ela se fecha para o mundo, saí de si mesma para ancorar-se no silêncio de sua casa. Sem dúvidas, é um papel bem peculiar que colabora para as demais atuações do elenco, inclusive do próprio Aaron Johnson que, ao lado de Anne Marie, é desafiado a expor o seu drama de filho, entre a atração por uma mãe ausente que insiste em escapar-lhe nos momentos que ele mais precisa dela. A película também conta com Thomas Brodie Sangster como o jovem Paul McCartney em aparições curtas porém com ótima presença musical em cena, demonstrando que Paul já era um Beatles boy prodígio, grande compositor e canhoto.





Como amplamente divulgado pela mídia, a diretora
Sam Taylor Wood no auge da sua idade de loba adotou o novilho Aaron Johnson como seu marido. Independente da relação do casal, Sam Taylor soube aproveitar muito bem o visual do ator como se estivesse fazendo uma ode à beleza de seu amor; de belos close-ups a inspiradores topetes e figurinos, Aaron tem estilo britânico e transpira a Liverpool pré-aquecida pelo rock n' roll. Em um das mais poéticas cenas, Aaron tem seu rosto enfocado por uma idílica fotografia enquanto a fumaça do cigarro flutua no ar, em outra cena mais quente, ele transa com a urgência adolescente cheia de tesão, por conta de exemplos visuais como estes e como eles são filmados, o background da cineasta que, antes de estrear na direção, já trabalhava como artista plástica foi de grande valia. Ela homenageou a atmosfera da cool Liverpool e tirou proveito da direção de arte, elenco, fotografia , e principalmente da trilha sonora que nos presenteia com cenas imperdíveis como I put a spell on you, clássico sedutor de Screamin' Jay Hawkins e In Spite of all the danger, do Quarrymen, banda fundada nos anos 50 por Lennon durante seu período no colégio . Para os mais exigentes e que esperam uma super cinebiografia de John Lennon, este não é o filme. O Garoto de Liverpool é uma narrativa da adolescência de John, é pura e simplesmente um recorte contemplativo de sua biografia. Em uma primeira impressão, é possível concluir que John Lennon merecia um filme melhor, porém ao analisar um pouco mais profundamente a proposta argumentativa, a película descontrói o forte mito musical, aproxima-o de sua frágil essência de adolescente, a de um garoto com todo o potencial para o sucesso, amado por gerações e gerações e que sofreu afetivamente com prematuras ausências e perdas.


Para ouvir a trilha sonora de Nowhere Boy,
visite o Cinema Musique




Avaliação MaDame Lumière





Título original:
Nowhere Boy
Origem: UK, Canada
Gênero: Drama, Cinebiografia
Duração: 98 min
Diretor(a): Sam Taylor Wood
Roteirista(s): Matt Greenhalgh
Elenco: Aaron Johnson, Kristin Scott Thomas, Anne Marie Duff