segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O Menino do Pijama Listrado (The Boy in the Striped Pajamas) - 2008



Baseado no romance do irlândes John Boyne, O Menino do Pijama Listrado é uma comovente produção britânica sobre a perda da inocência e a amizade entre dois garotos de mundos opostos e inimigos que levará a uma verdadeira lição de moral e quebra de preconceitos de base histórica. Em plena época da Segunda Guerra Mundial, Bruno (Asa Butterfield) é filho de um comandante nazista, nomeado na película como simplesmente 'Pai' (David Tewlis) e da dona de casa Elsa (Vera Farmiga, em ótima atuação dramática). A família se muda para a região de Auschwitz após a transferência do comandante, fato que provoca uma reação questionadora em Bruno que, mesmo sendo um garoto de 8 anos, demonstra ter uma personalidade libertária e gosto literário por aventuras exploratórias, característica que faz o contaponto com o aprisionamento e a obediência dos pensamentos nazistas. Com a mudança de residência, Bruno se distancia dos amigos, tem uma vida bem restrita, melancólica e solitária para a sua idade. Sem amigos, sem brincadeiras da infância e com ordens expressas de se manter distante até mesmo do jardim da casa, Bruno desobece seus pais e explora a região próxima a uma fazenda, encontra Shmuel (Jack Scanlon), o menino do pijama listrado que vive atrás de uma cerca de arame farpado em um campo de concentração nazista.






Com uma projeção relativamente curta para o gênero e um desenvolvimento linear porém longe de ser raso, o longa-metragem tem um olhar diferenciado a partir da visão de uma criança. Acima de tudo, Bruno é um observador da realidade circundante. A forma como o personagem é construído é bem interessante porque é um garoto que transita entre a inocente ingenuidade de uma criança e o espírito libertário mais amadurecido de um potencial adulto que faria a diferença naquele universo hostil, de intolerância étnica e social. Bruno é atento para perceber que sua mãe está sofrendo ao saber que ali naquela fazenda há um campo de concentração e muita bárbarie, ainda que ele não saiba as atrocidades que são cometidas sob as ordens de seu próprio pai; assim como ele é esperto o suficiente para burlar a segurança de sua casa, questionar o autoritário professor nazista que denigre a imagem dos judeus e perceber que sua irmã Gretel (Amber Beattie) é uma jovem Alemã que já perdeu a inocência há muito tempo ao colar cartazes do Reich Hitleriano em seu quarto e flertar com o general Kotler (Rupert Friend) como se fosse uma mulher adulta. Para um filme que se localiza em um período sangrento como foi o Holocausto, a projeção em si não é exacerbadamente dramática no transcorrer da fita, e usa de efeito catártico em seu desfecho no qual toda a descarga emocional recae sobre o sensível expectador.






A amizade entre um garoto judeu e um filho de militar nazista rompe com a ordem histórica e, mesmo que traga desdobramentos devastadores e muito tristes, é uma amizade necessária para o contexto moral, tal que emocionem e tornem menos impessoal esse ' pai' que não tem nome na película e precisa sofrer da tragédia de sua própria posição sócio-política, desta forma, o homem 'de Hitler' torna-se o homem frágil que fragilizou e dizimou inúmeros judeus. O recurso de criar um personagem frio, mandatório e sem nome , o 'Pai/Vater' (em alemão), é muito coerente e esclarecedor já que era assim que Hitler era tratado, como pai de uma Nação, aquele que manda e desmanda, que é saudado, obedecido e temido, logo aqueles que vestiam uniformes militares, bravejavam o 'Heil Hitler' e assassinavam em seu nome eram como filhos a cumprir a vontade do pai, a manter-se como 'herdeiros e pais' de uma nação e dar continuidade a bárbarie gerada na insana mente de Hitler. Sob esse ponto de vista, O menino do pijama listrado é um belíssimo 'must-watch' que muito mais que brindar-nos com a comovente amizade e a sensível perda da inocência, possibilita ter uma visão dramática do Holocausto que se desdobra da esfera coletiva para a individual e traz a tragédia para o lado nazista. O 'pai' provou do próprio veneno de seus atos genocidas, provou da atrocidade de sua História.


Avaliação MaDame Lumière




Título Original: The boy in the Striped Pajamas
Origem: Inglaterra
Gênero(s): Drama
Duração: 93 min
Diretor(a): Mark Herman
Roteirista(s): John Boyne
Elenco: Asa Butterfield, Zac Mattoon O'Brien, Domonkos Németh, Henry Kingsmill, Vera Farmiga, Cara Horgan, Zsuzsa Holl, Amber Beattie, László Áron, David Thewlis, Richard Johnson, Sheila Hancock, Charles Baker, Iván Verebély, Béla Fesztbaum

domingo, 26 de setembro de 2010

MaDame Loves: 7 Filmes Impecáveis, 7 Citações Pecadoras, 7 Pecados Capitais



O MaDame Loves apresenta 7 ótimos filmes com 7 Citações relacionadas aos 7 pecados Capitais. Se você não assistí-los, cometerá um grave pecado. Se você assistí-los, assumirá que é um pecador.
Não tem saída, hoje o pecado impera aqui!



Ganância



Wall Street, 1987 Direção de Oliver Stone

Greed...is good

Ganância... é bom
Gordon Gekko (Michael Douglas)

"Com volta de Gordon Gekko no recém estreado "Wall Street - O dinheiro nunca dorme, a cotação de Wall Street no mercado cinematográfico alcançou maior lucratividade. As lições gananciosas e o tino financeiro do milionário Gordon Gekko continuam valendo. Quem disse que dinheiro não é bom, que atire o primeiro maço de dólares"


Orgulho



Pulp Fiction, 1994 Direção de Quentin Tarantino

That's pride fucking with you. Fuck pride. Pride only hurts, it never helps.

Este orgulho está fodendo com você. Foda-se o orgulho.
Orgulho só mata, nunca ajuda.
Butch (Bruce Willis)

"Butch é boca suja, violento e pavio curto mas tem a pura sabedoria nessas palavras de mais um ótimo roteiro de Quentin Tarantino. Orgulho não leva à nada, machuca os outros, e principalmente, machuca quem é orgulhoso. Como diz sabiamente o padre de Os infiltrados, de Martin Scorsese: 'antes da queda vem o orgulho', e Tarantino encerra o tema e manda o orgulho se ferrar. Ótimo!"


Ira



Batman Begins, 2005 Direção de Christopher Nolan

You fear your anger, the drive to do great or terrible things.

Você teme sua ira, o impulsionador para fazer feitos grandiosos e terríveis.

Henri Ducardi (Liam Neeson)



"Em um dos melhores e mais inteligentes diálogos de Batman Begins, Henri Ducardi discursa sobre como a raiva de Batman deveria ser potencializada para algo mais positivo, como Batman tem que enfrentá-la e canalizá-la tal que consiga superar os traumas da perda do pai. Não há dúvidas que a raiva pode elevar ou destruir um homem por completo, depende como ele lida com ela."


Luxúria



O Advogado do Diabo, 2005 Direção de Taylor Hackford

Vanity, definitely my favorite sin.

Vaidade, definitivamente meu pecado favorito.

John Milton (Al Pacino)


"O próprio Diabo, intepretado pelo supremo Al Pacino, assume seu favoritismo por um dos pecados mais populares na humanidade: a vaidade. Em um roteiro carregado de cenas luxuriantes e uma influência notória do lado negro da força, a vaidade é o próprio Anjo traidor."

Inveja



Se7en, 1995 Direção de David Fincher

It seems that Envy is my sin.

Parece que a inveja é o meu pecado.

John Doe (Kevin Spacey)


" Seven é um dos thrillers clássicos da década de 90. Tenso e provocativo do começo ao fim, coloca o psicopata John Doe em evidência ao elaborar uma trama de assassinatos baseados nos sete pecados capitais. Como não poderia deixar de fazê-lo, em um final pertubador, ele assume ironicamente "Parece que a inveja é meu pecado". Emblemático!"

Preguiça




Sangue Negro, 1995 Direção de Paul Thomas Anderson

You didn't do anything but sit down. You're lazy, and you're stupid. Do you think God
is going to save you for being stupid?He doesn't save stupid people.

Você não fez nada mas ficou sentado. Você é um preguiçoso, um idiota.
Você acha que Deus te salvará por ser idiota? Ele não salva os idiotas.

Eli Sunday (Paul Dano)



" O discurso acima é o de um líder religioso na zona petrolífera americana do épico Sangue Negro, mas bem que deveria ser um sermão a ele mesmo. Eli Sunday é um ganancioso pastor que está mais interessado em obter vantagens financeiras na riqueza construída pelo milionário do petróleo, Daniel Pleinview (Daniel Day-Lewis). No desfecho fica claro que quem é preguiçoso é Eli Sunday, candidato a arder no inferno dos "pseudolíderes" religiosos."


Gula




Mary e Max - uma amizade diferente, 2009 Direção de Adam Elliot

Dr Bernard Hazelhof told me you should never weigh more than your refrigerator and to never eat anything bigger than your head. I once ate a watermelon bigger than my head.

Dr Bernard Hazelhof falou-me que você nunca deveria pesar mais que seu refrigerador e nunca comer algo maior do que a sua cabeça. Uma vez eu comi uma melancia maior que minha cabeça.

Max (Voz de Philip Seymour Hoffman)



" Nessa melancólica e profunda animação para adultos sobre a linda amizade entre Mary e Max, há espaço para a gula, um dos dramas atuais da sociedade que tem engordado ano após ano. Max é um Senhor de Meia- Idade e solitário em plena Nova York. Frequentador dos compulsivos comedores anônimos, ele assume que está crescendo para os lados e que gosta de comer hot dogs de chocolate, além de uma extensa lista semanal de guloseimas. Uma prova de que a gula é o pecado mais gostoso!"



O luxo está nos pequenos prazeres,
Celebre o Cinema.
Vote no MaDame


Uma nova proposta de Blog
para quem quer ler sobre Cinema
de uma forma vívida e humanista
como a Vida é!




sábado, 25 de setembro de 2010

Atração Fatal (Fatal Attraction) - 1987

"Você achou que podia entrar na minha vida,
virá-la do avesso sem pensar nos outros?"

(Alex Forrest)



O cineasta Britânico Adrian Lyne é mestre na arte de filmar o desejo, não a toa que seu background cinematográfico com filmes como Nove Semanas e 1/2 de amor, Proposta Indecente e Atração Fatal é digno de atiçar as mais loucas fantasias movidas a muita paixão e tesão, no qual a delícia é agir como um voyeur das cenas quentes e, ao mesmo tempo, dramáticas que se desdobram a partir do desejo incontrolável e a qualquer preço. Atração Fatal, o clássico e inesquecível thriller erótico dos anos 80 estrelado por Michael Douglas e Glenn Close, em papéis emblemáticos dentro do gênero, é uma prova de que muito mais do que filmar o desejo, o diretor acertou em cheio ao enfocar o passional desejo obsessivo, que culmina em rejeição, loucura e morte.







Em um dos mais realistas e melhores papéis de sua carreira, Glenn Close é Alex Forrest, uma mulher sedutora, misteriosa e psicologicamente instável que aparece na vida do advogado Dan Gallagher (Michael Douglas), casado com Beth (Anne Archer) e pai de Ellen (Ellen Hamilton Latzer). Seguindo o comportamento clichê e fantasia de alguns homens casados, Dan Gallagher conhece Alex em uma festa, puxa uma conversa flertante, e a partir desse momento, há uma atração irresistível entre eles que culmina em uma escapadinha conjugal de Dan durante a viagem de Beth. Com os amantes transando como coelhos, Adrian Lyne não perde a chance de seguir o gabarito do sexo casual, a incansável trepada com direito a cenas ardentes na pia, no elevador e uma esticadinha para movimentar os corpos com muita salsa e suor. Como o mundo das infidelidades conjugais não é perfeito, a traição de Dan não dá certo. Após o prazer, vem o desprazer: a vida dos Gallagher se torna em um inferninho básico em um enredo que transformou Glenn Close em uma mulher aterrorizante, desequilibrada e uma das melhores vilãs do Cinema; mas ao mesmo tempo, capaz de despertar no expectador a piedade pelos personagens trágicos, já que essa é a história de uma mulher rejeitada, mal amada, carente e bem vulnerável por trás de toda a pose de femme fatale.





Além de trazer temas como o desejo obsessivo, a violenta passionalidade, o erotismo, a infidelidade conjugal e a rejeição, há acertos relacionados como o roteiro foi desenvolvido por James Dearden e como Adrian Lyne dirige Atração Fatal, incluíndo aí o benefício do suspense e de um melhor apelo emocional e/ou sexual em cena, ou seja, são acertos que se estabelecem a partir dos detalhes em cena que fazem a diferença em como degustamos e sentimos o filme. Alguns exemplos: Sem pensar muito, os amantes tiram rapidamente suas próprias roupas íntimas, a torneira da pia é aberta quando Alex está transando com Dan. Enquanto a água caí, um close nos pratos e ela molha as mãos; a água faz o contraponto com o calor do coito, refresca o rosto de Dan e o corpo de Alex que umidifica seus seios logo mais beijados pelo amante em um misto de penumbra que oculta a transparência da camisa molhada de Alex; os closes no telefone que toca quando a amante persegue o homem casado e a esposa traída pode atendê-lo e descobrir a infidelidade repentinamente; o suspense em cena com uma chaleira que apita e a panela que ferve no fogão, e respectivamente, ocultam e revelam o perigo que coloca em risco a segurança familiar; a bela sequência na qual, ao som da ópera MaDame Butterfly, são alternadas cenas com Alex solitária em seu apartamento e Dan em estado de diversão com os amigos e a família; o contraponto entre uma família que está buscando uma nova casa para morar (construção da unidade familiar) e uma amante que está prestes a destruir tal harmonia (descontrução da unidade familiar); a violência passional em cenas como Alex chorando e se picando com uma faca, sendo agredida por Dan, enfim, são diversos detalhes no roteiro e como a câmera é dirigida que, embora acompanhados ou não de clichês, asseguram o status de um thriller psicológico que cumpre o que se propõe a dizer.





Embora Atração Fatal tenha conquistado milhares de fãs, que ora se horrorizaram com a psicopatia de Alex Forrester, ora se divertiram e se encantaram com suas insanas atitudes, ora se sensibilizaram com seu infortúnio afetivo, há um ponto de concordância com relação a essa película: Glenn Close é uma excelente atriz e transformou Alex Forrester em um papel memorável no gênero, colocando Atração Fatal como um filme obrigatório pelo argumento que apresenta. A forma como ela interage com a câmera é fascinante porque ela se move com a tragédia de seu personagem, definha junto com a sua obsessão e, como uma autêntica personagem trágica, alcança o ápice de uma tragédia em cena causando na platéia um sentimento de misericórdia por ela. Ela começa agindo de forma bem segura, sensual e liberal o suficiente para atrair Michael Douglas para a alcova, afinal são delas as palavras 'Somos adultos'. Aos poucos revela que é perigosa, descontrolada e intencionalmente capaz de provocar um estrago na família de Dan, porém mesmo com suas atitudes (auto)destrutivas, é uma mulher vulnerável, que enlouquece em sua paixão, obsessão e solidão; dá pena dela pois ela é uma mulher que chora como criança ao ver o seu ex-amante feliz com a família em uma nova casa. Como a própria semântica do vocábulo paixão, Alex sofre, e por sofrer com a rejeição, sua reação imediata é conseguir a todo o custo ter o homem que deseja, por bem ou por mal, seguindo à risca aquele ditado que diz: "se ele não ficar comigo, ele não fica com mais ninguém". Nesse processo, há bastante autenticidade emotiva pois os sentimentos são ambíguos, transitam entre o desejo e a raiva daquele que é jogado para escanteio, tanto que Alex age com comportamentos previsíveis: o desespero de pedir para que ele fique com ela mais uma noite, os palavrões que o xingam em uma fita cassette, o ciúme exacerbado, a perseguição à família do amante na qual Alex se serve de chantagens, sequestro, invasões a domicílio, etc.






O uso da dramática música clássica de Madame Butterfly de Puccini, ópera que relata a história da gueixa Cio-Cio-San 'A Butterfly' que renuncia sua vida, sua nação, sua família, tudo para dedicar-se ao amor pelo tenente americano Pinkerton, o qual não quer nenhum compromisso sério com ela é um ótimo recurso metalinguístico e dramático para desenvolver a tragédia dessa relação casual. Assim como Pinkerton, Dan não tem intenção de manter Alex em sua vida. Como o final original que foi cortado, Alex se suicidou ao som da dramática ópera, assim como a desesperada gueixa o fez, porém aqui o desfecho foi alterado. O infortúnio de Alex Forrest, além de sua insanidade homicida-suicida, é saber que Dan não ficará com ela, e o pior, quanto mais ela o deseja e o persegue, mais ele a rechaza, a odeia. Alex Forrest não é somente uma psicopata, mas também é um exemplo legítimo das cotidianas amantes rejeitadas e vitimadas por momentos de intensa paixão, seguidos de humilhante rejeição e um inevitável descontrole psíquico que, juntos, fazem côro à 'paixão, ciúme, obsessão cegam'. Amantes que deveriam seguir a receita clássica pós coito casual com homens casados: 'Não se apaixonem', porque como o próprio Adrian Lyne fez em Infidelidade e faz aqui de novo: os amantes se dão mal, a harmonia familiar é restaurada.




Avaliação MaDame Lumière





Título Original: Fatal Attraction
Origem: EUA
Gênero(s): Thriller Erótico, Thriller psicológico, Drama
Duração: 119 min
Diretor(a): Adrian Lyne
Roteirista(s): James Dearden
Elenco: Glenn Close, Michael Douglas, Anne Archer, etc.



Já votou no MaDame no Top Blog 2010?

Celebre o Cinema
Vote no MaDame


Uma nova proposta de Blog de Cinema
para quem ama a sétima Arte
que reside na humana Arte de Viver!



segunda-feira, 20 de setembro de 2010

MaDame Cult: As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides) - 1999




Em As Virgens Suicidas, seu primeiro longa-metragem de beleza ímpar, a cineasta Sophia Coppola demonstra verdadeiramente que herdou o peso do sobrenome, o talento e o bom gosto de seu pai, Francis Ford Coppola. Embora ambos tenham estilos bem próprios. Ela, mais cult. Ele, mais clássico, há um ponto de convergência entre ambos que se apoia no DNA Coppola: a sofisticada câmera que nos conduz a sublimes e contemplativos planos e sequências que descartam palavras. Basta trazer à memória o casamento de Connie Corleone, filha de Don Vito Corleone em O Poderoso Chefão; como Francis Coppola move a câmera naquela festa familiar. Corleone recebe seus amigos e afilhados, os convidados dançam e conversam entre si, a imagem fílmica diz tudo, aquela ali é uma tradicional família Italiana em clima de celebração. Bem apoiada por excelente direção de arte, uso de uma elaborada palheta de cores, delicada fotografia e figurinho vintage romântico, Sophia Coppola dirige bem o cotidiano melancólico de uma família americana nos anos 70, igualmente tradicional e autoritária.



Baseado no romance homônimo de
Jeffrey Eugenides, As Virgens Suicidas é uma película tão melancólica e comovente que chega a ser maravilhosamente poética e impregnada de uma aura (sur)real mesmo em meio à sua real solidão. O pai Ronald Lisbon (James Woods) e a mãe Sra Lisbon (Kathleen Turner) têm cinco filhas lindas e loiras, as irmãs Lisbon, que vivem a prisão do isolamento em pleno frescor da juventude. Dramaticamente, essa entendiante vida as transforma em As Virgens Suicidas, tão belas e tão fadadas à precoce trágedia de suas mortes. No elenco virginal, estão Lux (Kirsten Dunst), Mary (A.J Cook), Cecília (Hanna Hall), Therese (Leslie Hayman) e Bonnie (Chelse Swain). Para interpretar o galã Trip Fontaine Josh Hartnett foi escalado para a fase adolescente, e Michael Paré para a fase adulta.







Dirigido com o ponto de vista de um grupo de garotos vizinhos que as idolatram, sob a narração em off do ator
Giovani Ribisi e os diálogos do cotidiano das Lisbon na família e na escola, As Virgens Suicidas tem o seu trágico inicio bem marcado pela tentativa de suicidio da irmã mais jovem, Cecília. Assim como a transparência do título, a tentativa de suicídio de Cecília evidencia que Sophia Coppola não dará voltas para falar sobre o contexto familiar que estamos adentrando. Somos conduzidos a compartilhar da tristeza dessas jovens que têm suas vidas punidas pelo tradicionalismo hipócrita da sociedade suburbana Americana, e tem suas juventudes desperdiçadas pela ignorância de seus pais. Com a revelação do psiquiatra de Cecília, Dr Hornker (Danny de Vito), fica mais claro a verdade que nunca se cala, a de que o suicídio é um grito de socorro e, ainda que muito jovem, através das palavras de seu diário, Cecília conhecia o mundo e não queria viver nele, simplesmente não se enquadrava nele e queria optar por não viver. É a partir do suicídio de Cecília, que o filme abre espaço para uma reflexão muito controversa: O suicídio é uma escolha coerente? Com o trágico acontecimento, os pais das virgens ficam mais atentos ao chamado para uma relativa liberdade de suas filhas e fazem alguns esforços, porém o autoritarismo do casal Lisbon é bem perigoso para as filhas, torna-se punitivo e silencioso. Nesse cenário familiar sufocante, o mal de Cecília passa do individual para o coletivo, pelo menos, no círculo formado pelas cinco irmãs adolescentes.





O ponto de vista dos garotos que não se aproximam facilmente delas nos dirige a ser qualquer um deles, afinal quem são as
virgens suicidas? O que elas sentem? O que elas fazem? O que motivou seus suicídios? Como poderíamos ajudá-las? O ponto de vista dos garotos é distanciado porque há uma aura de idealização como se elas fossem verdadeiras virgens em pedestais mas também capazes de despertar o desejo terreno, principalmente através do personagem de Lux (Kirsten Dunst em sensual performance, a sexualmente emancipada). As cenas nas quais as irmãs se comunicam com os garotos através de músicas tocadas ao telefone estão entre as imagens mais poeticamente melancólicas e bonitas, impregnadas pela triste e aprisonante condenação, sem saída; além do filme resgatar temas recorrentes no feminino adolescente como a decepção amorosa, o primeiro baile de formatura, o primeiro encontro com garotos, a entrega ao sexo desmedido, a experimentação de drogas, o apego aos discos de vinil de rock, o abandono pós relação sexual, etc. Todos esses elementos são dirigidos com sensibilidade, sem as obviedades do universo fílmico adolescente, sem deixar de lado a estética adotada pela direção.







Embalado por uma trilha sonora fascinante com destaque para a musicalidade cool e introspectiva da dupla Francesa Air, As Virgens Suicidas é um filme cult belíssimo porque ele ressalta delicadamente a melancolia dos suicidas que não necessariamente sabem que são suicidas, e como em um plano que mistura a dicotomia do sonho e do real, somos movidos a concluir que não saberemos nunca quem são as irmãs Lisbon e o que elas sentiram ao lidar com tanta proibição. É provável que ninguém suportaria uma vida tão apática que anulava a própria existência humana, a capacidade de ser livre, de se fazer presente no dia a dia. As irmãs Lisbon não são garotas autodestrutivas, enlouquecidas por transtornos psíquicos que tentam se matar frequentemente e vivem em um ambiente obscuro, decadente, sangrento; pelo contrário, elas são carismáticas, simpáticas e belas musas de um cotidiano ordinário, o qual é filmado pela cineasta de uma maneira sutil e delicada que ressalta ainda mais a beleza das virgens. As irmãs Lisbon são um mistério assim como a decisão pelo suicídio coletivo. Elas são como incógnitas e o estranhamento de quem elas são é tão interessante que, mesmo com a possibilidade de curtirem a vida adoidado na primeira chance que tiveram, elas ainda se enquadram em uma travada normalidade, uma não adaptação àquela sociedade comum. Aí reside a provocação do filme da jovem Coppola, a de que qualquer um é capaz de se suicidar em uma sociedade sufocante como essa. O fato de ser um filme honesto que não esconde a tragédia diária de suas vidas, mas deixa uma ambígua brecha de quem elas realmente eram torna-o uma intrigante película, uma poesia fílmica sobre um tempo e tema tão dolorosos como o são a adolescência e o suicídio.




Avaliação MaDame Lumière





Título Original: The Virgin Suicides
Origem: EUA
Gênero(s): Ação
Duração: 97 min
Diretor(a): Sophia Coppola
Roteirista(s): Sophia Coppola, baseado no romance homônimo de Jeffrey Eugenides
Elenco: James Woods, Kathleen Turner, Kirsten Dunst, Josh Hartnett, Michael Paré, Scott Glenn, Danny DeVito, A.J. Cook, Hanna Hall, Leslie Hayman, Chelse Swain, Anthony DeSimone, Lee Kagan, Robert Schwartzman, Noah Shebib

domingo, 19 de setembro de 2010

MaDame Teen: Ruas de Fogo (Streets of Fire) - 1984

MaDame Teen:
Coletânea de filmes dos anos 80
que marcaram minha (pré)adolescência





Ruas de Fogo, uma fábula de Rock and Roll é um daqueles filmes que prometiam incendiar as bilheterias com o seu estilo rebelde rock regrado com ação, romance, música, e apresentando Michael Paré, um ator galã transviado como um James Dean dos anos 80, uma rixa entre gangues com Willem Dafoe bad boy e uma Diane Lane super rock star apaixonada e capaz de tirar o fôlego dos fãs com sua cabelereira volumosa, seu batom vermelho e sua energia musical no palco. A crítica incendiou o filme com o fogo da maledicência, no entanto isso não impediu Ruas de Fogo de se tornar uma produção cult para a década com uma imperdível trilha sonora composta por Ry Cooder e que consagrou hits memoráveis como Nowhere Fast e Tonight is what it means to be young, do Fire Inc.





Na história, Ellen Aim (Diane Lane) é uma cantora emergente de rock que teve um intenso relacionamento amoroso com Tom Cody (Michael Paré) no passado e ambos se separaram por divergências de objetivos. Ela, uma mulher focada na carreira artística. Ele, um homem de espírito livre e rebelde. Durante um dos seus concertos, Ellen é sequestrada por um líder de gangue de motoqueiros, Raven Shaddock(Willem Dafoe), que nutre uma passional obsessão por ela. Reva Cody (Deborah Van Valkenburgh) avisa o seu irmão do sequestro de Ellen e Tom Cody chega à cidade para salvar a bela rock star. Com a combatente ajuda de McCoy (Amy Madigan), uma ex-soldado que pede moradia e emprego a ele, e com a financeira do empresário e namorado de Ellen, Billy Fish (Rick Moranis), eles partem para resgatar Ellen. A partir do reeencontro dela com Tom, os hormônios entrarm em ebulição transitando entre a atração física, o orgulho e a negação do sentimento do amor e as diferenças que os separam e são irreconciliáveis.









Como um filme inspirado em rock and roll e com um argumento bem simples, a trilha sonora ganha uma importância maior dialogando com as cenas, estrelando outras presenças musicais fascinantes como Countdown to love ( intepretada pelo The Sorels e cantada maravilhosamente em Acapella) e I can dream about you (o memorável hit romântico de Dan Hartman). É devido à musicalidade da trilha sonora que Ruas de Fogo se faz presente nas lembranças cinéfilas de muitos que o consideram um filme para toda a eterna e passional juventude rebelde. A direção de arte é fundamental para transformar o filme em uma fábula, uma fantasia em cena e recria uma ambientação dark, uma Gothan City da juventude transviada com incendiárias brigas e explosões, e muitas motos de homens bardeneiros com topetes e gel no cabelo. No elenco, Diane Lane, ainda em fase bem inicial de carreira, é diva com o frescor de sua jovialidade, vestida de rouge e noir com o status de rock star, e já demonstra personalidade ao pegar no microfone e entregar-se emocionalmente à contagiante canção tema, Tonight is what it means to be young. Michael Paré é sex symbol 80's nesse filme e, embora seu charme não o tenha ajudado a deslanchar na carreira Hollywoodiana, ele cumpre o papel do bom homem valente que, por trás da violenta rebeldia, esconde um coração apaixonado e justiceiro. Quem rouba a cena no elenco é Amy Madigan com ótimas tiradas humorísticas, como a emblemática citação "everywhere I go, there's always an asshole" o que proporciona ao filme momentos de riso descontraído em meio à ação explosiva das gangues.









Lembrar de Ruas de Fogo é lembrar daquela atmosfera cenográfica decadente, obscura, rock n' roll de gangues de motoqueiros e de uma musa rocker de forte personalidade e vulnerável coração que é salva pelo bonitão rebelde e sem futuro na vida pelo qual ela é apaixonada. Lembrar de Ruas de Fogo é lembrar de Tom Cody e Ellen Aim , o casal da fábula de Rock and Roll com deliciosa química que se eternalizou na memória do Cinema ao se beijarem loucamente na chuva. Lembrar de Ruas de Fogo é lembrar da maquiagem esbranquiçada do maquiavélico Raven Shaddock e se deliciar como vilões merecem apanhar. Lembrar de Ruas de Fogo é lembrar da masculinizada e corajosa McCoy, parceira de briga de Tom Cody e seu irônico humor. Lembrar de Ruas de Fogo é lembrar do baixinho e arrogante Billy Fish que mesmo namorando a super star é um completo idiota endinheirado. Lembrar de Ruas de Fogo é dançar, pular e se descabelar ao ouvir Tonight is what it means to be young, é lembrar de ser anos 80, de ser MaDame Teen, de ser jovem para sempre.





Avaliação MaDame Lumière



Título Original: Streets of Fire
Origem: EUA
Gênero(s): Ação
Duração: 93 min
Diretor(a): Walter Hill
Roteirista(s):
Larry Gross, Walter Hill
Elenco: Michael Paré, Diane Lane, Rick Moranis, Amy Madigan, Willem Dafoe, Deborah Van Valkenburgh, Richard Lawson, Rick Rossovich, Bill Paxton, Lee Ving, Stoney Jackson.



Alinhar ao centro



Ouça a trilha sonora de Ruas de Fogo no Cinema Musique da MaDame Lumière e se apaixone por ela!




Viva os anos 80 , viva aos anos 80
com Fire inc.
, com Street of Fire!









sábado, 18 de setembro de 2010

Bullying (Bullying) - 2009





Assim com a escola é uma instituição chave para a aquisição e o compartilhamento do conhecimento, a criação de valor educativo para a cidadania e o aprendizado e experiência das relações humanas, ela também é um local cruel, principalmente na conjuntura atual do Bullying, uma prática comum nas instituições de ensino na qual se pratica a violência física e psicológica em um grupo de alunos - que são humilhados nas mais diversas formas de agressão, intimidadas e ridicularizadas pelos bullies, os agressores que tentam chamar a atenção, criar um espaço de comando dentro da escola através da intimidação de suas ações, e encobertam transtornos psíquicos sérios de se divertirem com a humilhação alheia. Tal prática tem sido amplamente denunciada na mídia nos últimos anos, porém ainda é um problema comportamental e social que é silenciado e/ou desconhecido, seja pelas crianças e jovens que são agredidos, seja pelos professores, coordenadores e diretores de escola assim como pelos pais dos alunos. Para expor esse tema perverso de uma maneira prática e realista, o cineasta Josexto San Mateo dirigiou o longa-metragem Espanhol Bullying, um triste retrato da violência de desdobramentos traumáticos e irreversíveis para os agredidos e, para a sociedade que culmina em vergonha, culpa, depressão, baixoautoestima, suicídio, etc.












Bullying é construído a partir de uma câmera que projeta o expectador como testemunha e um roteiro que cria um contexto de adaptação e de crescentes humilhações para o agredido, apresentando Jordi (Albert Carbó, em uma madura atuação), um adolescente mais tímido, inteligente, que joga bem basquete e que acabou de se mudar com a mãe para Barcelona, Estela (Nadeska Abreo) uma mulher que acabara de perder o marido, faz tratamento psiquiátrico e trabalha como enfermeira em distintos turnos, o que evidencia que ela tem uma vida ocupada, está vulnerável psicologicamente e já tem problemas suficientes para lidar com mais um. Jordi é novo na escola, o que demonstra que ele precisa ser aceito e construir relacionamentos com os jovens daquela instituição, esse cenário no qual Jordi precisa se adaptar à uma nova realidade escolar faz com que ele seja tolerante com algumas brincadeiras que já evidenciam que são práticas sérias de bullying. Jordi é obrigado a fazer desde lições de casa para o agredido até desistir do basquete e ser ameaçado com armas de fogo. À medida que ele é cada vez mais agredido pello bully Nacho (Joan Carles Suau, insuportavelmente perverso, pueril, covarde e desequilibrado) e sua trupe, as violências se tornam mais grosseiras com chantagens que envolvem disponibilizar um vídeo de humilhação na internet, atingir o bem estar da família de Jordi e controlar até mesmo seu celular,entre outras. Não faltam crescentes humilhações que revoltam o expectador mais esclarecido levando ao desejo mais imediato de denunciar esses bullies, mentes doentias e muito perigosas.











Albert Carbó é um ator jovem bem talentoso e que demonstra bastante segurança na atuação sem torná-la demasiadamente e piegamente dramática, por isso o filme em si não se envereda a dramatizar ao extremo o psicológico de Jordi em boa parte da fita; há um certo controle comportamental nele como se, no silêncio, houvesse um fio de esperança de que tudo se resolveria com o tempo, tanto que ele continua levando a sua vida e até se apaixona por uma garota, Ania (Yohana Cobo, de Volver de Pedro Almodóvar). Mas essa falta de atitude no comportamento de Jordi não é gratuita. Ela tem uma intenção na película e é coerente com o Bullying. Na verdade, há vítimas que se comportam como se aquilo não estivesse seriamente acontecendo com eles. No entanto tal detalhe é como uma máscara, ou seja, muitas vezes o silêncio da vítima acumula-se 'silenciosamente' no sofrimento emocional e é desencadeado em uma irreversível tragédia final. O Bullying pode causar as mais diferentes atitudes em quem é vítima, e ainda que as agressões a Jordi são bem dirigidas e protagonizam a fita, Jordi é um garoto que silencia a violência não só por medo, culpa e/ou vergonha mas porque quer preservar também a vida de sua mãe, livrá-la de preocupações já que a família é só ele e ela apoiando um ao outro. Com isso, Carbó transmite bem a vulnerabilidade de seu sensível personagem mas ao mesmo tempo performa Jordi como um garoto que tem mais personalidade, mais maturidade, ainda que esteja sofrendo e permaneça em silêncio aceitando as diversas violências. O silêncio é um importante personagem no filme, não só em Jordi, mas nas atitudes dos colegas que não denunciam os bullies assim como a negação da escola que afirma que 'ali não há práticas de Bullying' , e os minutos finais de fita demonstram que Jordi precisou sentir a dor de quem ama para tomar uma dramática atitude. No geral, são os elementos atitudinais do roteiro e elenco que fazem a diferença no longa-metragem e transformam Bullying em um filme básico e de boa referência cinematográfica para educar a sociedade nesse tema, principalmente educar os jovens na escola, projetando a fita em sessões educativas, dessa forma, incentivando-os a não aceitar tal perversidade e denunciar mais esse câncer social.





Avaliação MaDame Lumière




Título Original: Bullying
Origem: Espanha
Gênero(s): Drama
Duração: 95 min
Diretor(a): Josexto San Mateo
Roteirista(s):
Ángel García Roldán
Elenco: Albert Carbó, Yohana Cobo,
Nadeska Abreo, Marcos Aguilera, Osvaldo Ayre, etc.





MaDame Lumière apoia a Campanha
Altas Horas Contra o Bullying

Divulgue a campanha. Denuncie o Bullying!



Alinhar ao centro

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Diário Proibido (Diario de una Ninfómana) - 2008



A PlayArte, distribuição Brasileira do filme Diário Proibido foi púdica ao optar pela breguice desse título ao invés de irem direto ao ponto e dizer literalmente que é Diário de uma Ninfomaníaca. Há algum mal em falar aos quatro cantos do mundo que alguém é viciado em sexo? Não, principalmente nesse longa-metragem baseado na história verídica de Valérie Tasso, uma francesa ninfomaníaca para a qual o prazer sexual não tem limites, o sexo não tem hora de descanso. Ela gosta de comunicar-se com o seu corpo, de atingir o cosmos; segundo ela, o nome universal, cósmico do orgasmo feminino. Para interpretar Val, como é chamada gentilmente na película, escalaram a bela atriz Belén Fabra, talentosa o suficiente para harmonizar a elegância, a luxúria e a vulnerabilidade de seu personagem. No decorrer da projeção, Belén faz papel de amante, de namorada, de esposa, de amiga e de prostituta, e consegue sustentar a delicadeza e a sofisticação de sua beleza nas mais diversas, clicherizadas e libidinosas encenações. Parece ter nascido para interpretar uma puta chique e sensível.





No enredo, Val é uma mulher solteira, bem sucedida que vive sozinha em Barcelona e costuma visitar a avó na França (
Geraldine Chaplin, em uma rápida e ótima aparição). No flashback fica evidente que, desde a primeira relação sexual na adolescência, Val percebeu sua insaciabilidade pelo sexo. Ela queria transar mais e mais, e os primeiros minutos de fita demonstram isso através de uma atrativa miscelânea de cenas eróticas bem realistas e excitantes que vão da cozinha até o banheiro, do evidente sexo oral ao aparente sexo anal. Com a perda de sua avó, que era também sua melhor amiga e a única capaz de compreendê-la, Val se envereda a buscar a felicidade amorosa pois ela tem aquele sentimento feminino comum pós-coitos casuais : a solidão, o vazio de ter sido só mais um corpinho dando prazer a um homem. O destino lhe presenteia com um empresário charmoso, apaixonado e endinheirado, Jaime (Leonardo Sbaraglia) que lhe provê uma nova casa, a possibilidade de ser feliz no amor e de ser a mulher de um homem só, no entanto a vida de Val mudará para sempre, para o pior e para o melhor, até um desfecho que se encaixa tão bem como um pênis e uma vagina. O filme é realista e narrado de forma prática dado o peso erótico da protagonista, combinando a fotografia do cotidiano de Val, entre suas narrativas em off no diário, suas investidas sexuais, seu sofrimento amoroso, seus momentos em casa e no trabalho, etc. O sexo não é de mal gosto, pelo contrário, é bem realista sem tomar o caminho do pornô escancarado, muito em função de que Belén Fabra encarna muito bem o papel com seu nu esguio e elegante e transa com espanhóis calientes que combinam muito bem com essa ambientação Andaluz.





A princípio, o título do filme não agrada; afinal se o diário é proibido porque ele teria que ser revelado? No entanto, traduções Brasileiras à parte, o diário não é o mais importante aqui, mesmo que Val o use para descrever sua própria jornada de redenção e comunicar seus sentimentos intimistas ao expectador. O mais relevante é perceber que Val gosta de sexo, mas o sexo em si não a define por completo, ela não é uma tarada sexual qualquer, ela tem alma e coração. Val tem uma vida solitária e não é diferente de tantas mulheres que transam muito ou não. Ela é carente e fantasia o homem amado. Ela deseja ser amada como qualquer mulher, mas não está dispensada de causar males a si mesma, buscando o prazer como forma de calar a própria dor do vazio existencial. Todos buscam a felicidade do amor, mas acima de tudo buscam a felicidade de estarem bem consigo mesmas, de se aceitarem como são. Nessa jornada, a busca pela felicidade é uma sucessão de erros e acertos, muitas vezes mais de erros do que de acertos, muito mais de desvirtudes do que virtudes, por isso, é perceptível que, seja no casamento seja na prostituição, Val obtém aprendizados fundamentais que são catárticos em um dado momento da película. Essa é a mensagem primordial de 'Diário Proibido', a da autoaceitação de uma mulher ninfomaníaca, afinal a busca de prazer sexual não deveria ser uma séria patologia, pelo menos, a busca do prazer sexual sadio e que preserva o amor próprio não é um mal patológico.



Avaliação MaDame Lumière





Título Original: Diario de una Ninfómana
Origem: Espanha
Gênero(s): Drama
Duração: 90 min
Diretor(a):
Christina Molina

Roteirista(s): Cuca Canals, Valérie Tasso
Elenco:
Belén Fabra, Leonardo Sbaraglia, Llum Barrera, Geraldine Chaplin, Ángela Molina, Pedro Gutiérrez, José Chaves, Jorge Yaman, Antonio Garrido, Jaume García Arija¹, David Vert, Xavi Corominas, Judith Diakhate, Natasha Yarovenko, Laura De Pedro