quarta-feira, 30 de junho de 2010

O Pôster de Filme da Semana: Carrie, a Estranha (Carrie) - 1976

No MaDame Lumière,
um pôster de filme vale por mil roteiros

"You were warned never to push Carrie to the limits.
Now you must face the evil consequences"

(Tagline de Carrie, de Brian de Palma
baseado na obra de Stephen King)



terça-feira, 29 de junho de 2010

Beleza Americana (American Beauty) - 1999

Esta belezura pode conter alguns spoilers



Beleza Americana é um filme impecavelmente bem elaborado, merecidamente premiado e de argumento esplendidamente atual. O primeiro longa-metragem de Sam Mendes é um marco da sua estreia bem sucedida na direção, com direito à honra de ter sido convidado pelo cineasta Steven Spielberg para esta produção, e contar com um dos roteiros mais precisos, profundos e verdadeiros do Cinema assinado por Alan Ball e ganhador do Oscar e do Globo de Ouro de 2000. Além da excelente qualidade dos elementos intrísecos ao filme como elenco, fotografia, trilha sonora, direção e montagem, Beleza Americana tem sua perfeição em um atemporal roteiro 'dramático-cômico' existencialista, duplamente eficaz o qual transita primorosamente entre o drama individual que é também um drama coletivo e entrega à audiência uma crítica acirrada ao mundo das aparências que é a sociedade americana, uma sociedade que pode ser também a de todos nós, mergulhada em uma vida teatralizada na qual o ser humano é um solitário no vazio palco de sua existência.


Enfocando o cotidiano de uma família suburbana Americana, o longa-metragem apresenta o casal Lester e Carol Burnham (Kevin Spacey e Annette Bening) que convivem em um casamente entediante, de aparências. Lester perde o emprego, atravessa uma crise de meia idade e é abatido por uma depressão, além de ter que lidar com sua incompreensiva e estressada esposa, uma mulher fingida que trabalha como correta de imóveis e que se torna amante de outro corretor, o galanteador Buddy Kane (Peter Gallagher). Carol e Lester tem uma problemática filha adolescente Jane (Thora Birch), rebelde e complexada, que nutre um ódio mortal pelo pai e não tem diálogo com a negligente mãe. Seu estranho e misterioso vizinho, Ricky Fitts(Wes Bentley) admira Jane em secreto, se apaixona por ela e eles começam a namorar. Ricky é traficante de drogas, e ironicamente, vive sob o mesmo teto e mando militar de seu rígido pai, Coronel Frank Fitts(Chris Cooper), um homem bem grosseiro, machista, tradicional. Para completar o contexto, Lester vive um momento 'lobo côroa que gosta de jovens ovelhinhas' e se encanta pela amiga de Jane, Angela Hayes (Mena Suvari), uma loira que segue o insuportável padrão: gostosa, fútil e arrogante que se acha a mais bonita e desejada das garotas, superior a todos.




Sorria, sua vida pode ser uma mentira!



A evolução da projeção é muito inteligente; muito em função da forma como o elenco foi concebido e como suas lamentáveis estórias se cruzam nesta formidável direção, cooperando, então, para ressaltar o melancólico desta sociedade que parece fadada a fracassos, perdas e frustrações. A começar pelo comportamento do 'herói' Lester que, cansado de fingimentos e do nada que a vida lhe proveu, se rebela e decide viver a vida loucamente, apertando a tecla 'dane-se todos'. Muda seu comportamento: dá uma bela resposta ao ex-empregador, daquelas que grande parte das pessoas amargam até a goela por não poder dizer a um chefe, começa a malhar muito e ficar mais atrativo, aceita um trabalho aquém de sua qualificação pessoal, se interessa sexualmente por uma mulher mais jovem e fuma uns baseados. Ele é um autêntico homem maduro em crise, e tais mudanças o tornam mais feliz mesmo que seja com data e hora de expiração. Sua ambiciosa esposa que, aparentemente e tão superficialmente se esforça em ser uma profissional diferenciada, é um tragédia particular cujas escapadas conjugais são acompanhadas de uma boa dose de ingenuidade e fragilidade pessoais. Buddy Kane é o espertalhão, que transa com a mulher alheia, engana-a facilmente e se dá bem. Frank é machão violento e autoritário, que sufoca o filho e sufoca seus próprios desejos.


Por parte da juventude da película, Jane é a encarnação da adolescente alienada, imatura, insegura que tem devaneios homicidas e desejo de fugas que só complementam sua condição lamentável de não encarar a realidade dos fatos, propor um diálogo com os pais e ter autoestima. Ricky é um introspectivo jovem garoto cujo sistema de repressão paterna não funcionou(e nunca funciona), facilitando seu envolvimento com atividades ilegais, secretas e sua habilidade em mentir, ocultar. É um solitário, um ser esquisito, periférico para o mundo convencional e, com sua câmera na mão, Ricky filma o mundo como ele o enxerga, como ele o deseja, tanto que a beleza está em um saco plástico que palpita ao vento. Angela é um estereótipo da garota que a mídia valoriza: bonita e gostosa, porém desprovida de qualquer conteúdo inteligente, mergulhada na aparência de conquistadora e bem amada que oculta uma triste insegurança pessoal. Este é o retrato da família americana, esta é a irônica 'Beleza Americana', título original traduzido ao pé da letra e que é bem pertinente para dizer que esta é a sociedade que vive de aparências, que mostra uma 'pseudobeleza' por fora e seu interior é detonado, com isso, o brilhante tagline de Look Closer/Olhe mais de perto é uma mensagem clara à audiência para uma profunda e útil reflexão.



Está olhando o que?
Acredite...nem tudo é o que parece!




Sam Mendes é um ótimo diretor e ele parece destinado a filmar, em algum momento, alguma aparência do indivíduo que precisa ser revelada e um descontentamento com esta sociedade. Em Estrada da Perdição (Road to Perdition, 2002), um filho descobre que o pai não é um herói, mas um criminoso. Em Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road,2008), ele também coloca o 'sonho americano de família perfeita' em xeque e mate, enfocando momentos de aparências e crises famliares e existenciais nas quais o indivíduo que tenta se desprender destas amarras sociais acaba se dando mal, basta lembrar da Sra April Wheeler (interpretada por sua ex-esposa Kate Winslet), uma sonhadora da liberdade que teve um fim trágico. Sob a direção de Sam Mendes Beleza Americana tem uma orquestração inteligente, bem alinhada ao roteiro porque ele usa bons recursos para transmitir sua mensagem direta, sua 'voz visual': ele usa os personagens para denunciar tal realidade, colocando esta co-responsabilidade nas narrativas em off de Lester e na câmera de Ricky, desta forma aproximando o realismo e o intimismo do drama ao expectador para que ele 'olhe mais de perto' sob o ponto de vista destes personagens. Há um ótimo trabalho de edição nesta película, entrelaçando bem os planos narrativos com ação e reflexão, e toda a dramaticidade que cada um do elenco contribue, logo o trabalho de montagem cresce junto com a trama. A trilha sonora de Thomas Newman e fotografia de Conrad Hall são muito bem combinadas com a atmosfera do filme, inclusive a fotografia merece créditos por expressar este cotidiano suburbano, divididos entre cores neutras, vivas e escuras; basta lembrar daquela cena emblemática das pétalas de rosas vermelhas ao redor do corpo nu da ninfeta Angela com a qual Lester tem uma fantasia. Estando encantado pela jovem, aquele vermelho paixão dos sonhos eróticos de Lester é o oposto da vida real e cinza dele, um belíssimo e genial contraste visual e até mesmo emotivo na cena. Não é preciso tecer mais elogios à brilhante atuação de Kevin Spacey, que harmoniza perfeitamente bem os apelos sarcástico e trágico de Lester e a Annette Bening, que combina a caricatura de uma mulher dissimulada que, de tão fraca personalidade, merece a piedade do público. De maneira geral, todo o elenco absorve esta faceta do deprimente, frustrante 'American Way of Life', cada um trazendo um elemento doentio da sociedade com uma boa dose de humor negro.




E-S-P-E-T-A-C-U-L-A-R!



O início de Beleza Americana é ressaltado por um roteiro que faz o que a maioria dos roteiros deveriam fazer: Deixa o espectador curioso a respeito do resto do filme. Através da narrativa em off de Lester, deixa a seguinte incógnita: O que aconteceu ao pobre coitado do Lester, cuja vida parece um pesadelo? Ele está realmente morto? Com esta dúvida o espectador é guiado por uma série de situações muito cômicas, porém muito trágicas que só reforçam o quanto o ser humano finge ser o que não é, é alienado, é frustado e, imerso em seu triste e solitário drama, bastando a cada um rir de si mesmo e praticamente enlouquecer como Lester, aceitar sua autenticidade doa a quem doer e viver o que tem vontade de fazer. Mas qual é o preço disso tudo? Qual é o preço de ser autêntico? Qual é o preço de ser um Lester?



Avaliação MaDame Lumière



Título original: American Beauty
Origem: EUA
Gênero: Drama
Duração: 122 min
Diretor(a): Sam Mendes
Roteirista(s): Alan Ball
Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Thora Birch, Wes Bentley, Mena Suvari, Chris Cooper, Peter Gallagher, Allison Janney, Scott Bakula, Sam Robards, Barry Del Sherman, Ara Celi, John Cho, Fort Atkinson, Sue Casey

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sangue Negro (There will be blood) - 2007



O aclamado épico de Paul Thomas Anderson, baseado no livro Oil de Upton Sinclair jorra pela tela o negro poder ganancioso que o petróleo traz à sociedade capitalista, principalmente a Americana e, entrelaça no drama o embate monstruoso entre dois homens com o mesma sede de poder, porém em lados diferentes, separados pela violenta racionalidade x a oportunista religiosidade. Com roteiro adaptado pelo próprio cineasta, um dos mais promissores de sua geração e a consagrada atuação de Daniel Day-Lewis, vencedor do Oscar 2008 por esta atuação, Sangue Negro é um dos melhores trabalhos épicos desta década, magnífico do começo ao fim.


Ambientado no Texas entre os séculos XIX e XX, o filme retrata o emergente e voraz empresário do petróleo Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) que começou a extrair petróleo na Califórnia como um simples mineiro. Sua arrogante ambição, impetuosa persistência e esperto tino para os negócios o tornou um homem rico, e também inescrupuloso já que usa o próprio filho, o pequeno H.W (Dillon Freasier) como manobra propagandista para atrair e sensibilizar novos negociadores. Para explorar um transbordante poço de petróleo em Little Boston, Plainview é obrigado a conhecer e lidar com um líder religioso protestante, o fanático e igualmente ambicioso Eli Sunday (Paul Dano), começando aí um guerra de egos alicerçadas por interesses meramente individuais em uma arena de esplêndidas atuações. Sunday e Plainview, cada um deles medindo forças contra o outro e olhando para seus próprios umbigos, ressaltando a ganância pelo dinheiro, pelo poder influente sobre uma enriquecedora região petrolífera.





A deslumbrante atuação de Daniel Day-Lewis enaltece bastante o valor desta fita, tanto que, se houvesse outro ator neste papel, talvez o filme não teria o mesmo poder de cena, a pertubadora expressividade tão dilacerante como a desgraça existencial do protagonista. A começar porque Daniel Plainview é um homem de difícil e forte personalidade, mortificado pela solidão, embrutecido pela vida e um homem sem família, ele lida com os negócios como a vida lida com ele, impiedosamente. Não há esforço de sua parte em ser um homem mais dócil, logo ele combina muito bem com o aspecto árido da região, a ferocidade do negócio petrolífero. Para confrontá-lo, havia de agregar ao elenco um homem tão insuportável quanto a malvadez de Plainview, eis que surge Paul Dano, que encarna um ávido e fanático aproveitador cujas palavras 'benevolentes e carismáticas' são a verdadeira expressão vil de um pseudo-líder religioso; com a excelente interpretação de Paul Dano, a hipocrisia e ganância humanas tomam o altar de Deus e são desvirtudes bem recorrentes na História da Religião, a propósito, também bem contemporâneas na prática mercantilista de algumas denominações religiosas. Complementam esta dupla estupenda atuação, a fotografia vencedora de Robert Elswit, que é muito bem alinhada à câmera 'paisagista' da ótima direção de Anderson e à direção de Arte desta remota ambientação, que valoriza as nuances de um local seco, rude, brutal.


A estética, o roteiro, a direção e a duração de Sangue Negro podem não agradar a qualquer espectador ainda que sejam orquestrados por um dos cineastas mais promissores neste gênero. O início do filme demonstra exatamente o tipo de direção que permeia boa parte da obra e a projeção de seu contemplativo conjunto: são bem mais de cinco minutos sem nenhuma palavra, somente a força da imagem da região, do ímpeto comportamento de Daniel Day-Lewis como um determinado mineiro, do suspense dramático evocado pela tenebrosa música. O longa-metragem é um épico dirigido por quem tem forte inclinação a filmes pertubadores e projeções longas, basta lembrar de Magnólia (1999) e Paul Thomas Anderson utiliza alguns temas que integram pilares de seu estilo autoral como a religião e a família e a trilha sonora como personagem. Os longos planos, travellings de câmera e focos de rosto, assim como o uso da ótima música de Jonny Greenwood são ressaltados e fundamentais para compor o apelo épico no plano histórico e, dramático no plano individual. Os cenários combinam com a violência das personalidades de Plainview e Sunday. Minas de petróleo, incêndios com explosões, acidentes nos poços, acampamentos mineiros, casas e igreja rústicos pactuam com homens sujos, brutos e interesseiros e a solidão existencial daqueles que, esvaziados e/ou carentes de uma condição (ou personalidade) melhor(es), ora buscam a Deus em cultos impregnados de um fanatismo exorcizante, manipulador, ora buscam a chance de enriquecimento fácil.






Entregando à História do Cinema um dos personagens mais densos e pertubadores representado pela maestria do excepcional Daniel Day-Lewis e com um final emblemático, digno de arena épica, Sangue Negro é um excelente épico moderno e sua atemporalidade está no duelo de interesses egoístas, nos quais a verdadeira religião e o espírito de união familiar ficam em segundo plano em detrimento à avassaladora força destrutiva do dinheiro. Em diversas cenas, é possível aferir como o ego é preponderante e está acima de valores virtuosos, porém cabe analisar que tanto Plainview quanto Sunday são dois solitários, enfermos em seus caracteres logo, em meio à riqueza petrolífera, se afundam na escuridão de suas negras e pobres vidas.



Avaliação Madame Lumière







Título Original: There will be blood
Origem: Estados Unidos
Gênero(s): Drama
Duração: 158 min
Diretor(a): Paul Thomas Anderson
Roteirista(s): Paul Thomas Anderson, baseado no livro Oil de Upton Sinclair
Elenco: Daniel Day-Lewis, Martin Stringer, Kevin J. O'Connor, Jacob Stringer, Matthew Braden Stringer, Ciarán Hinds, Dillon Freasier, Joseph Mussey, Barry Del Sherman, Russell Harvard, Harrison Taylor, Stockton Taylor, Colleen Foy, Paul F. Tompkins, Kevin Breznahan

domingo, 27 de junho de 2010

A Bela da Tarde (Belle de Jour) - 1967



A década de 60 testemunhou o aflorar do Erotismo no Cinema com filmes que escandalizaram os mais pudicos, quebraram as barreiras da austera tradição, do hipócrita puritanismo e contribuíram para compor um legado expressivo da sexualidade e do desejo contado através das imagens. Fantasias e taras sexuais se tornaram mais controversas à medida que eram registradas com elementos do fetichismo, da emancipação sexual da mulher, da crítica à religião, da morte e da obsessão e da quebra de tabus sexuais, e havia o desejo de viver os impulsos sufocados em uma época de repressão, o desejo de satisfação emocional e sexual, logo, filmes como O último Tango em Paris (1972, de Bernardo Bertolucci), Império dos Sentidos (1976, de Nagisa Oshima) sofreram direta ou indiretamente a influência de cineastas como François Truffaut e Luis Buñuel que nos anos 60, respectivamente, já haviam entregado obras excepcionais (e sensuais) como Jules e Jim (1962) e a Bela da Tarde (1967). Este último baseado no romance de Joseph Kessel e estrelado pela diva Francesa de elegante beleza, Catherine Deneuve, foi um marco no erotismo feminino, obra genial de Buñuel e um clássico do Cinema Francês ao retratar a atriz no papel da burguesa Séverine Serizy, esposa frígida do médico Pierre(Jean Sorel) e prostituta de luxo no bordel da Madame Anais (Geniviève Page) pelas tardes. Com a Bela da Tarde, Buñuel revelou a vida dupla de uma mulher, suas fantasias sexuais secretas e reprimidas, seus desejos de ser uma lady para o marido e uma puta para estranhos homens, uma fantasia que faz parte do imaginário de muitas mulheres.







O cineasta Espanhol Luis Buñuel, o gênio por trás de obras primas como O cão Andaluz (1928) e O Anjo Exterminador (1962) sempre foi um homem das controvérsias, e foi com seu comportamento polêmico e cômico que ele se consagrou com uma filmografia única, subversiva, audaz; não a toa Buñuel é uma das inspirações do grandioso Pedro Almódovar. Exilado por um período no México após ter chocado Paris, curtiu a vida adoidado como se estivesse em um mundo surreal próprio, criado a partir de seus sonhos, tanto que ele era amigo pessoal do pai do Surrealismo, Salvador Dalí e há elementos psicanalíticos, surreais em seus filmes, o que o torna um diretor exato para conciliar estudos de Cinema com a Psicanálise, sua simbologia e a interpretação dos sonhos como uma manifestação dos desejos sexuais inconscientes, repreendidos. Em A Bela da Tarde, uma obra magistral, libidinosa e libertária, Séverine persegue a realização do seu tesão sufocado, transitando entre a realidade e a imaginação de primorosas e delirantes cenas by Buñuel. A bela esposa que tem uma vida entendiante e traumas da infância se permite viver o sexo desenfreadamente, não importa se aqueles eróticos prazeres fazem parte de seu mundo real ou surreal. Séverine rompe a barreira dos bons modos e costumes religiosos e burgueses, é amarrada, humilhada, chicoteada, beijada e desejada por vários homens dando vazão aos seus desejos masoquistas por trás da fina costura de suas impecáveis roupas.






Magnificamente,
Buñuel expõe elementos autorais que estão em linha com a forma como ele pensa e como ele é. Com sua postura antiburguesa, ele dirige uma mulher requintada que usa Pierre Cardin, grande estilista da época, e usa perfumes caros, que tem uma delicada e 'aparente' ingênua beleza, porém tem devaneios no qual está sendo humilhada sentindo prazer com lama na cara e sendo chamada de 'vagabunda' pelo marido, ou seja, esta é a burguesa segundo os olhos de Buñuel, colocada como uma prostituta de bordel, um corpo em libidinosa libertação, não para o mal de uma mulher ( e aí está a ironia) mas para não ter o seu feminino psíquico assolado por desejos amortecidos, proibitivos pela hipocrisia social. O bom e ridicularizado marido 'burguês' não tem a esposa burguesa em sua cama, nem para o sexo e nem como companhia já que dormem em camas separadas e, no desenvolvimento da película, ele sofrerá as consequências da traição, mas a infidelidade foi tão ruim para o marido traído? Foi ruim para a esposa adúltera? A cena final deixa em suspenso se a ' a vida dupla de Severine' foi bom para a família burguesa ou não. Depende da perspectiva do marido ou da esposa (e porque não da perspectiva do espectador), ou talvez, a película não passou de um sonho. Definitivamente, Buñuel brinca com a burguesia, a cutuca neste complexo e denso drama erótico, fetichista e deixa para o espectador a eterna dúvida que somente bons roteiros são capazes de imortalizar, este aqui escrito magistralmente por Jean-Claude Carrière.








Mas a rebelde crítica 'autoral' de Buñuel não pará somente nas cenas nas quais Sevérine está se divertindo no bordel de Anais ou libertando suas perversões recalcadas no surreal onde tudo é possível; há alguns planos que reforçam os desafetos de Buñuel, um deles com a igreja e a religião católica, posição contrária que ele também expôs em filmes como Viridiana (1961) e Tristana (1970) . A bela e jovem burguesa já não gostava nem de participar da Eucaristia quando criança e, em uma das cenas, Severine se recusa a aceitar a hóstia. Por que ela se recusa? Como ateu, Buñuel se vinga da religiosidade nesta cena que, aliás, se torna comicamente mordaz. É sabido que a religião poda a realização de desejos carnais, obscuros, pervertidos e, tomando como base que o sagrado sacramento do casamento tem que ser respeitado, Severine põe em prática tudo que a igreja condena. Ela é uma afronta aos bons costumes de uma esposa fiel mas ela não é qualquer mulher, ela é a bela de Buñuel, a heroína da tarde. Por outro lado, o amigo de seu marido, o galanteador Henri Huddson ( Michel Pìccoli) tem uma tara irresistível por Sèverine (enquanto ela finge ser uma boa moça). De maneira muito aberta e cafajeste, ele flerta com ela, mas ela não dá a mínima porque, por mais sem vergonha que ele seja, a premissa básica da libertação sexual de Severine é embrenhar-se no desconhecido, no inusitado, no mercado 'informal' da prostituição de luxo no qual ninguém pode reconhecê-la, controlá-la, repreendê-la. A prostituição se torna um campo livre, secreto, paralelo. Mais adiante, Buñuel agrega à película uma abordagem de ação e suspense embalados pelo perigo da vida dupla. Como alegria de 'bitch lady' dura pouco, Severine se envolve com Marcel (Pierre Clémenti), um dos seus clientes e um homem estranho, obsessivo, ligado à atividades ilegais que se apaixona por ela e começa a perseguí-la. É possível observar que Severine se encanta por este fora da lei, nitidamente um pertubado, o que sinaliza que ela gosta do perigo e da emoção do prazer com um homem atraente, temeroso e totalmente diferente do seu afetuoso e tolo marido. A característica 'bad boy' de Marcel é totalmente coerente com o perfil masoquista de Severine nas quais o homem é autoritário, destemido, quase nocivo.









Bela da tarde é um belo clássico porque não se trata somente da liberdade do Erotismo feminino, a presença consagrada de Catherine Deneuve em uma atuação memorável, a formidável combinação de elenco, fotografia, roteiro e direção, mas pela forma como Buñuel combina bem com seu próprio filme, reunindo um olhar fílmico que lhe é muito particular em um fluidez narrativa na qual até os cortes são magníficos. Ele é um provocador porém, em A Bela da Tarde, ele o faz de uma forma sublime que, ambiguamente, choca sem chocar afinal Severine não se torna odiosa, mesmo que haja uma crítica social que a acompanha. Ela traí e não se arrepende . Cinismo? Não; provavelmente ela está sendo autêntica como os tradicionalistas deveriam ser e, desta forma, mais uma vez um ponto positivo para Buñuel porque ele faz com que a infidelidade não tenha status de traição e sim de liberação dos desejos repreendidos. Para ajudar neste ponto, a estonteante Catherine Deneuve ganha a simpatia do público e suas escapadas conjugais são perdoadas porque, verdadeiramente, o público se deleita como voyeur desta vida dupla, e muito provavelmente a fantasia da Belle de Jour é uma das mais populares. Severine é dócil, educada, refinada que aparenta ser mais a mulher traída do que a esposa infiel e, por isso, A Bela da Tarde tem sua veia cômica, muito bem impregnada no conjunto geral da obra.








Como um livre pensador, um cineasta subversivo, um amante do Surrealismo, um confesso machista, um antiburguês e anticlero, Buñuel não tinha nada a perder a não ser comunicar a sua visão de uma mulher bonita, elegante e endinheirada que não era feliz sem ter sua vida dupla de esposa e prostituta. No decorrer do tempo que Severine faz os programas, ela se torna uma esposa mais sorridente, mais agradável e mais simpática com o marido e, bravo, o humor negro reside neste tipo de comportamento dela, a ironia de Buñuel tomando conta da família burguesa, dizendo ao espectador: 'Veja esta mulher. Ela está mais feliz, mais realizada e até o marido será favorecido com isso'. Severine é infiel por uma questão de sobrevivência já que ela não suporta nem dormir ao lado do marido, ela não é um ser sexual completo e, psicanaliticamente, repreender tais desejos poderá causar-lhe muito mal e afetar a continuidade de seu casamento. Louco, não? Sim. O gênio Luis Buñuel joga com esta reflexão das pulsões sexuais e a crítica severa à sociedade. Severine está feliz com a vida dupla e, provavelmente continuaria nela, ano após ano descobrindo prazeres diversos, e ainda sendo uma 'adorável e sofisticada' dama, cuidando atenciosamente do marido.



Avaliação MaDame Lumière






Título original: Belle de Jour
Origem: França, Itália
Gênero: Drama
Duração: 101 min
Diretor(a): Luis Buñuel
Roteirista(s): Jean-Claude Carrière baseado em romance de Joseph Kessel
Elenco: Catherine Deneuve, Jean Sorel, Michel Piccoli, Geneviève Page, Pierre Clémenti, Françoise Fabian, Macha Méril, Muni, Maria Latour, Claude Cerval, Michel Charrel, Iska Khan, Bernard Musson, Marcel Charvey, François Maistre








sábado, 26 de junho de 2010

Lembranças (Remember Me) - 2010




Em plena efervescência da saga O Crepúsculo, Robert Pattinson, o ídolo vampírico Edward Cullen volta à tela grande para entregar mais um papel 'humano'. Desta vez, ele é o rebelde adolescente Tyler em Lembranças, drama sobre perdas e ausências que permeiam a vida do jovem e de sua namorada Ally Craig (Emilie de Ravin) e que afetam suas famílias com dolorosas lembranças, mágoas silenciadas e intensos desabafos. Ambos foram acometidos por tragédias familiares: ela perdeu a mãe, vítima de um assassinato no mêtro. Ele perdeu o irmão que cometeu suicídio. Eles também têm problemas distintos com seus pais. Com um comportamento típico de adolescente pertubado e bem melancólico, Tyler tem confrontos coléricos com o pai ausente, o ocupado executivo Charles (Pierce Brosnan) e tem uma irmã mais nova, Caroline (Ruby Jerins), que já apresenta um comportamento solitário, introspectivo, sofrido e pela qual ele tem um grande amor. Por outro lado, Ally tem um pai policial bem durão e sufocante, Neil Craig (Chris Cooper) que a autoprotege bastante, até como forma de cuidar da filha sozinho e por se sentir culpado por não ter conseguido salvar a esposa.






Basicamente em termos de elenco, este roteiro tem como foco Robert Pattinson e a confusa obscuridade dos pensamentos de seu personagem Tyler, por isso, mesmo que ele se esquive do papel de um vampiro, ele ainda traz esta carga melancólica do papel que o consagrou no best-seller de Stephanie Meyer. Tyler é um jovem que "viaja" em seus pensamentos sobre a morte do irmão e sobre outras questões diversas que lhe vêm à mente aleatoriamente, critica intoleravelmente a ausência do seu pai porém não se esforça em entendê-lo e chegar a uma harmonia, envolve-se com uma garota motivado inicialmente por um tipo de brincadeira, transa com ela e depois leva um tempo para valorizá-la, tem atitudes pueris que o infantilizam mais e mais, tem sérias dificuldades de canalizar seus afetos e desafetos de uma forma mais coerente e positiva, enfim, ele é um jovem problemático. Percebe-se que ele é um garoto amoroso e paternal com a irmã, porém Tyler foi concebido para ser um personagem bem depressivo, que vaga entre as lembranças do passado e é assombrado por um presente no qual ele não consegue sair de uma profunda tristeza e um sentimento de inércia perante os dramas de sua vida. Mas, e a pergunta que não quer calar: Como se saí Pattinson nestas Lembranças? Ele atua como ele é: com aquele jeito de galã teen estiloso e rebelde, porém ainda inexperiente e sem boas oportunidades para entregar o seu melhor. Infelizmente, o papel de Tyler só reforça o estilo de comportamento do papel que o consagrou na Saga O Crepúsculo, então ainda não é desta vez que Robert Pattinson entrega uma atuação diferenciada, desafiadora.







De maneira geral, o filme não é ruim e Pattinson não é o problema principal dele, tanto que Lembranças se torna interessante porque sua roupagem deprimente combina bem com o obscuro estilo de Robert Pattinson e, considerando o argumento das perdas e ausências na vida de um adolescente pertubado, seguramente tinha que ter um viés de um jovem transviado que alinhasse bem a esquisite teen, bem dark com o charme de um 'James Dean' moderno mas não igualmente talentoso. O problema da película é a forma como o roteiro foi concebido, com uma narrativa bem confusa que patina bastante e, para as quase 2 horas de exibição, ela é exaustiva, nebulosa. É um filme que não fluí adequadamente e, por não fluir, principalmente reforçado por um texto revolto, não possibilita que os personagens sejam aprofundados, logo, Tyler se torna um personagem raso porém com todo um forte argumento de crise, morte e mágoas familiares que poderiam ter sido melhor desenvolvidas no transcorrer do longa. Emilie de Ravin atua de forma comum, sem nenhum diferencial e não faria qualquer diferença ao filme já que não teve uma boa química com Robert Pattinson que, nitidamente, parece destinado a fazer um par perfeito com Kristen Stewart. Pierce Brosnan veste a carapuça da elegância e da arrogância de um executivo que não tem tempo para a família, e entrega um papel pertinente, tanto que os melhores momentos do filme se reservam ao final envolvendo o pai e os filhos em um clímax de cólera, tragédia e redenção, entregando à audiência um dos finais mais inesperados em filmes desta década, um final surpreendente que nunca deve ser 'spoilerizado' a quem nunca o assistiu.






Pensando um pouco mais no argumento de Lembranças, ele é muito útil se cada expectador souber avaliar que ausências familiares fazem muito mal, perdas idem, mas o maior aprendizado aqui, que não é tão ressaltado no fraco roteiro, mas cabe a cada um refletir a respeito é: como canalizar os sentimentos negativos advindos de lembranças que não conseguem ser superadas? Uma Lembrança só fará mal se o ser humano não consegue lidar com ela, ora assumindo uma postura enraivecida, ora culpando aos outros com suas lamúrias; contemplar Tyler é tão deprimente porque ele tem sérios problemas para lidar com estas dores que também são intrísecas a qualquer um, em diferentes e tristes momentos da vida. Apesar do filme só crescer nos minutos finais, o que é um fato tardio e lamentável, Lembranças vale a pena ser conferido de coração aberto por este argumento, e sem críticas destrutivas ao trabalho de Robert Pattinson e ao diretor, Allen Coulter que, nada mais fez do que aproveitar a oportunidade e colocar o ídolo teen no foco de sua câmera em um papel que não seja de uma criatura imortal. Aqui, Tyler sofre dos pêsames que são humanos. Finalmente, este longa-metragem tem Pattinson como produtor executivo, o que demonstra o vital interesse do ator em trabalhar em outros projetos que não tenham nada a ver com o blockbuster que o tem colocado no glamour mas que também escraviza a sua imagem. Ele não quer ser Edward Cullen para sempre, isso já é evidente em suas entrevistas nos tablóides. É claro que este ainda não é um projeto formidável que afasta o ator de estereótipos depreciativos e o desafia em uma atuação mais convincente e madura, porém, ele já merece respeito por tais esforços e também 'um boa sorte' já que não será nada fácil desvencilhar sua imagem do vampiro Cullen.



Avaliação MaDame Lumière



Título Original: Remember me
Origem: EUA
Gênero(s): Drama
Duração: 113 min
Diretor(a): Allen Coulter
Roteirista(s): Will Fetters
Elenco: Robert Pattinson, Emilie de Ravin, Pierce Brosnan, Caitlyn Paige Rund, Moisés Acevedo, Noel Rodriguez, Kevin P. McCarthy, Chris Cooper, Athena Currey, Lena Olin, Gregory Jbara, Ruby Jerins,Angela Pietropinto, Tate Ellington, David Deblinger

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Cartas para Julieta (Letters to Juliet) - 2010




Cartas para Julieta é mais um filme estrelado pela hype blondie girl do momento: Amanda Seyfried; porém desta vez, ela não é o principal atrativo desta comédia romântica ambientada em sublimes e bem fotografadas paisagens de Verona. O romance conta com a presença ilustre de Vanessa Redgrave que dá elegância, beleza, talento, peso e luz a um longa-metragem que poderia ser mais uma história de amor com início, meio e fim previsíveis. Com a Senhora Redgrave em busca de um antigo amor e uma cenografia iluminada, quase solar em uma Itália inspiradora, Cartas para Julieta se torna uma comédia romântica agradabilíssima a qual revisita uma das personagens mais clássicas do romantismo literário e cinematográfico Julieta Capuleto, a heroína Veronense de William Shakespeare. A película ainda conta com um formoso elenco com Gael García Bernal, Christopher Egan e Franco Nero e tem a direção de um cineasta com prévia experiência em comédias, Gary Winick (de De Repente 30 e Noivas em Guerra) e José Rivera, um roteirista que já escreveu textos com imagens 'on the road' e trabalhou com Bernal em Diários de Motocicleta. Juntamente com o brilho extra de Redgrave, a carismática presença de Seyfried, o roteiro gracioso sobre a força do Poder do Amor, a cativante e empolgante trilha sonora e belas paisagens de uma viagem pela Itália englobam as virtudes principais deste filme.






No enredo, Sophie (Amanda Seyfried) é uma jovem americana 'checadora de fatos' do mercado editorial e sonha em ser reconhecida como escritora, porém ainda não teve a chance para realizar tal desejo. Noiva de um 'fanático por culinária' chef de cozinha, Victor (Gael García Bernal), eles viajam para Verona para desfrutar uma pré lua de mel. Ao chegarem lá, Victor só se interessa em conhecer fornecedores de vinhos, alimentos e participar de atividades relacionadas à sua paixão por gastronomia. Sendo uma noiva bem tolerante, Sophie decide fazer passeios turísticos sozinha e, em um de seus passeios, encontra o muro da Casa da Julieta no qual apaixonadas do mundo inteiro visitam-o para escrever cartas e pedir conselhos à Julieta Shakespeariana. As cartas são respondidas pelas Secretárias de Julieta, um grupo de italianas as quais Sophie conhece. Em uma das ajudas prestadas às secretárias, Sophie encontra no muro uma carta antiga, escrita há 50 anos atrás na qual Claire Whyman(Vanessa Redgrave) fala de seu antigo amor por Lorenzo (Franco Nero). Sophie responde a carta e, Claire decide visitar Verona com seu neto, o jovem Charlie (Christopher Egan). Começa a jornada de busca por Lorenzo, na qual Claire, Charlie e Sophie se aproximam como amigos, embarcam em uma viagem pela Itália e têm suas vidas mudadas em nome do Amor.





Cartas para Julieta é uma comédia romântica na qual há duas histórias de amor paralelas, uma antiga entre Claire e Lorenzo e uma que renasce entre Charlie e Sophie. O que interessa aqui é aferir como as duas histórias de amor se complementam na qual os mais jovens se conhecem e se apaixonam a partir de um amor de outra época que nem o tempo destruiu, por isso elas se fundem e tornam o romance mais interessante, como se a audiência torcesse duplamente pelo sucesso do amor; porém há os percalços naturais desta jornada: Claire encontrará Lorenzo em quais condições? Estará ele casado? Estará ele morto? Estará ele distante da Itália? Lorenzo perdoará Claire?... Por outro lado, Charlie declarará seu amor a Sophie? Sophie ficará ao lado de Victor? Charlie e Sophie fugirão um do outro assim como Claire abandonou Lorenzo no passado? À medida que surgem algumas cenas esclarecedoras, há um ponto de intersecção entre estas histórias que é uma grande lição amorosa: ' Não deixe para trás o amor que tem que ser vivido porque talvez um dia você encontre este amor e seja feliz com ele, mas é bem provável que o destino seja mal com você e você não o encontre mais. Tudo pode acontecer, mas não deixe de acreditar no poder do Amor'. Embora o filme reforce este poder, a esperança neste sentimento grandioso que nem o efeito cronológico abate, este longa-metragem é sobre escolhas amorosas que nascem a partir do coração e que precisam de um pouco de razão para não deixar o amor se perder no tempo; em Cartas para Julieta, o amor é a prioridade, mesmo que seja para pedir perdão por um passado que tinha que acontecer e não pôde ser mudado, afinal tudo tem um propósito nesta vida.






Inspirado no livro 'Letters to Juliet: Celebrating Shakespeare's Greatest Heroine, the Magical City of Verona, and the Power of Love', a película tem a previsibilidade dos desfechos das comédias românticas, porém não deve ser criticada por seguir a cartilha do gênero. O componente da heroína Julieta é bem encarnado por Sophie porque foi a partir dela e de seu otimismo que Claire foi em busca do amor, teve suas 'preces' respondidas por Julieta. Em momento algum Sophie deixou de acreditar no reencontro de Claire e Lorenzo e contribuiu muito para que a jornada em busca do amor não se findasse a toa, por isso ela se torna um cupido Shakespeariano, uma Santa Capuleto para qual 'o amor não teme o tempo(1)'. E Sophie tem o seu Romeu, que não é Victor, o típico egoísta que não dá atenção à noiva a dispensando em uma lua de mel. Sophie tem Charlie que, no início do filme, faz jus ao "antes de te amar, eu te odiei", mas depois cede aos encantos da bela loira. Christopher Egan que ainda tem uma interpretação imatura e não teve a chance de diferenciados papéis, garante alguns bons momentos de riso à platéia com um humor britânico que parece imitar o de Hugh Grant, Amanda Seyfried encarna a delicada e gentil mocinha que foi abandonada pela mãe e acredita no romance, Franco Nero é o côroa bonitão que aparece como um italiano príncipe galopante em um belo cavalo, Gael García Bernal faz a ponta do simpático noivo que só pensa no próprio umbigo, então as atuações são medianas. Cabe a uma estrela de máxima grandeza, Vanessa Redgrave, o brilho maior. O primor do elenco é a veterana que brinda a audiência com seu magnífico poder de cena, um poder que ela exerce somente com a sua natural sofisticação e seus brilhantes olhos azuis que, a propósito, combinam muito bem com uma ensolarada Itália e com o céu azul da Dolce Vita que só o Amor pode trazer.


Avaliação MaDame Lumière


De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor

Se quando encontra obstáculos se altera,

Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,

Que encara a tempestade com bravura;

É astro que norteia a vela errante,

Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora

Seu alfange não poupe a mocidade;

Amor não se transforma de hora em hora,

Antes se afirma para a eternidade.

Se isso é falso, e que é falso alguém provou,

Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou

(Shakespeare)1


Caro leitor,
você sabia que Franco Nero e Vanessa Redgrave se
conheceram na década de 60 e tiveram um filho juntos?
O diretor Carlo Gabriel Nero.
Será que o affair na vida real está de volta?
Eles já tiveram recaídas em alguns anos atrás.
Eles formam um lindo casal!
Torço pela felicidade de Redgrave porque ela já perdeu a filha, Natasha Richardson, a falecida atriz e esposa de Liam Neesom e também perdeu 2 irmãos , vítimas de câncer, os atores Lynn Redgrave e Corin Redgrave. Vê-la performando bem em Cartas para Julieta demonstra que ela é uma mulher maravilhosa, que tem superado estas perdas.

MaDame Lumière deseja muito amor à vida de Vanessa Redgrave.



Título original: Letters to Juliet
Origem: EUA
Gênero: Comédia Romântica, Romance, Comédia
Duração: 105 min
Diretor(a): Gary Winick
Roteirista: Jose Rivera, Tim Sullivan
Elenco: Amanda Seyfried, Marcia DeBonis, Gael García Bernal, Giordano Formenti, Paolo Arvedi, Dario Conti, Daniel Baldock, Ivana Lotito, Luisa Ranieri, Marina Massironi, Lidia Biondi, Milena Vukotic, Luisa De Santis, Christopher Egan, Vanessa Redgrave

A Emblemática Citação da Semana: Ran (1985)


"O homem nasce chorando. Quando ele chorou o suficiente, ele morre."

"Man is born crying. When he has cried enough, he dies."


(Kyomi, interpretado por Shinnosuke 'Peter' Ikehata no magnífico clássico japonês RAN, de Akira Kurosawa)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Flor do Deserto (WüstenBlume) - 2009






Flor do Deserto é a cinebiografia de uma verdadeira mulher flor cuja beleza está além do seu exterior. O título original do filme alemão 'WünstenBlume' é a essência da modelo e Embaixadora da ONU Africana Waris Dirie, cujo nome em Somali tem dignamente nome de flor, não qualquer uma mas a do deserto, aquela que supera todas as adversidades de uma vida seca, solitária, árdua, hostil, traumática e, de forma única na história de admiráveis mulheres, floresce para a vida, influencia tantas outras com a sua força, brilho e beleza. O longa-metragem dirigido por Sherry Horman, baseado na biografia "Desert Flower" e estrelado pela top model, atriz e Embaixadora da ONU etíope, Liya Kanebe, retrata a jornada de Waris, filha de uma família nômade de tradições somali-muçulmanas e vítima de mutilação genital aos 5 anos. Aos 13 anos, ela fugiu de casa para não se casar com um homem de 60 anos, atravessou o deserto sozinha rumo à capital da Somália, Mogadíscio, e depois seguiu para Londres com o tio diplomata trabalhando como doméstica. Tendo a oportunidade de sair de Londres e voltar à Somália, Waris fugiu do exílio político porque se recusara a voltar ao país que a circundara. De rara e exótica beleza, ela foi descoberta pelo famoso fotográfo Terry Donaldson (Timothy Spall) e se tornou uma modelo de sucesso. Cansada de discursos midiáticos e maniqueístas como 'a pobre modelo africana que atravessou o deserto com os pés descalços e conseguiu uma carreira meteórica subindo nos saltos altos das passarelas de moda', Waris decidiu denunciar ao mundo a atrocidade que foi cometida contra o seu corpo, seu feminino, sua sexualidade: a excisão de seu clitóris. Desta forma, chocou a opinião pública e se tornou uma mulher influente na agenda global de Direitos Humanos, lutando contra a prática de mutilação da genitália feminina, muito recorrente nos países Africanos.










O enfoque na cinebiografia de Waris é dirigido com idas e vindas de sua vida, entrelaçados com flashbacks de sua infância, sua fuga no deserto, seu triste e pobre começo em Londres, sua amizade com Marylin (Sally Hawkins, que faz o papel da londrina que a ajudou quando Waris andava pelas ruas como uma sem teto), seu casamento de fachada com Neil (Craig Parkinson) para obtenção do visto, seu flerte relâmpago com Harold Jackson (Anthony Mackie) e sentimentos como vergonha e timidez por sua condição circuncisada e as dificuldades iniciais para se estabelecer como top model, todos combinados com uma excelente fotografia de Ken Kelsch (principalmente as da paisagem Africana) e uma carismática atuação da bela Liya Kabede que não compromete a veracidade da biografia, principalmente considerando que ela é uma modelo assim como Waris, ainda está começando sua carreira de atriz e é o seu primeiro papel protagonista. Além disso, Liya é uma modelo advinda da Etiópia, um dos países que mais praticam a mutilação genital feminina e ela é atuante como líder Global no pilar 'Mulheres e Crianças' da Organização Mundial da Saúde, então ela consegue lidar bem com o papel, em um processo de entrega e conhecimento dos problemas de afligem as mulheres africanas. A jovem Waris é interpretada por Soraya Omar-Scego, em uma performance rápida, porém sensível e expressiva o suficiente para ganhar a empatia e a sensibilidade do público.











Embora o foco narrativo seja expor a biografia de Waris Dirie e o registro é realizado como a dar forma a toda a jornada da modelo, o tema da mutilação genital feminina é tratado com cuidado e não de forma tão agressiva, aberta e escandalosamente denunciatória. A denúncia está no filme, porém refletida em cada cena a partir de como a mutilação atingiu diretamente os dramas pessoais de Waris. Aqui, os desdobramentos de tal cruel prática ocorrem naturalmente na vida da modelo: ela tem que fugir do seio de sua família, se torna uma menina orfã de uma nação que mutila suas crianças, passa fome no deserto, vive como uma moradora de rua em Londres, tem dores e é hospitalizada por conta dos traumas desta uma mutilação, tem que suportar um casamento sem amor e a vergonha e o receio de se envolver amorosamente com um homem, etc; ou seja, a biografia de Waris é acompanhado pelo fantasma de seu passado e, em momento algum, ela é posta como vítima pelo filme com o intuito de manipular a emoção do expectador, pelo contrário, a direção é mais realista até na dolorosa e comovente cena da excisão feminina, por isso, reserva ao expectador se sensibilizar com o polêmico tema que traz consequências terríveis à vida de uma mulher: a perda da fonte de prazer feminino, problemas psicológicos e físicos, preconceito social, etc. Também, de uma forma bem 'smart', a cineasta soube pisar 'com cuidado no território das relações exteriores que esbarram em tradições cutlurais e religiosas', já que este é um filme que denuncia um traço cultural forte da África e, conta com 2 embaixadoras da ONU, uma organização que preza pela diplomacia entre nações, por isso, a cena final na sede da ONU dá ao filme uma legimitidade ainda maior como se ele mesmo fosse parte de uma campanha patrocinada pelas Nações Unidas em defesa dos Direitos Humanos ou estivesse dentro de um território neutro, imune que "protege" tal polêmica discussão.








O filme é dirigido de forma bem convencional, então não há grandiosas interpretações e nem ações que impulsionam grandiosas reviravoltas, no entanto, o fato dele ser realista e de ser uma cinebiografia possibilita que Flor do Deserto seja contemplativo, inspiracional, reflexivo e capaz de mostrar à audiência como há tradições mortais em alguns países que impactam no bem estar físico, emocional, social e futuro de qualquer indivíduo, tradições que podem até matá-lo. De maneira geral, o filme tem uma história triste porém de bonita superação e isso já é naturalmente um modelo de que é possível dizer 'NÃO' a estas práticas abomináveis. Waris, a exemplo de outras africanas como a modelo Somali Ayaan Hirsi, foi hostilizada por seu próprio povo ao decidir denunciar que havia sido submetida a uma mutilação genital, inclusive despertando a fúria de radicais religiosos, que as queriam mais mortas que vivas, então ao final do filme, é perceptível avaliar que esta é a história particular de Waris Dirie e o momento dela dizer que ama o seu povo Africano e continua amando ser mulher mesmo que não aprove tal prática. Além disso, Flor do Deserto é uma película que remete à audiência uma mensagem chave: esta é a vida de uma mulher que sobreviveu em meio a tantas outras que já morreram, porém ela passou por um processo de circuncisão feminina na Somália e sofreu as consequências de uma atrocidade que tenta buscar motivações no Islamismo, porém não há citações no Alcorão que digam: abusem sexualmente de uma mulher, amputando seu clitóris, cortando seus grandes e pequenos lábios, retalhando sua genitália sem anestesia e com imundos instrumentos, e deixando sequelas irreparáveis em sua vida. Esta é mais uma prática resultante da ignorante interpretação de homens que usam a religião e as tradições de um país para subjugar vidas de pessoas inocentes, principalmente, agredir mulheres e crianças, as escravizando em uma situação sem saída, as matando instantaneamente ou pouco a pouco na traumatizante vida que lhes resta Atualmente, estima-se que mais de 150 milhões de mulheres já sofreram e sofrem esta violência física e tortura psicológica. Os números já tiveram um decréscimo, inclusive após a luta de Waris à frente deste tema, porém, ainda há muito a ser feito. Esta vil ignorância não pode continuar contra a mulher e nem contra nenhum ser humano que tem livre direito sobre o seu corpo, seu prazer, sua vida.



Avaliação MaDame Lumière




Título original: WünstenBlume
Origem: Inglaterra, Alemanha, Áustria
Gênero: Drama, Biografia
Duração: 120 min
Diretor(a): Sherry Horman
Roteirista: Smita Bhide, Waris Dirie, Sherry Horman
Elenco: Liya Kebede, Sally Hawkins, Craig Parkinson, Meera Syal, Anthony Mackie, Juliet Stevenson, Timothy Spall, Soraya Omar-Scego, Teresa Churcher, Eckart Friz, Anna Hilgedieck, Matt Kaufman, Emma Kay, Eliezer Meyer, Prashant Prabhakar

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Pôster de Filme da Semana: E.T. - O Extraterrestre (E.T. - The Extra-Terrestrial) - 1982


No MaDame Lumière,
um pôster de filme vale por mil roteiros

"E.T. Phone Home"
(ET, em ET - O Extraterrestre, de Steven Spielberg)


terça-feira, 22 de junho de 2010

MaDame na Pré-Estréia de 'Flor do Deserto', com Marie Claire e a Top Liya Kebede

Mimos da MaDame, lembranças da pré-estreia de 21/06 de 'Flor do Deserto'



Quando a gente ama Cinema, o universo cinematográfico conspira a favor de nós. Foi o que aconteceu comigo quando ganhei um convite vip da Revista Marie Claire Brasil para a pré-estreia do novo filme de Sherry Horman, Flor do Deserto (Desert Flower, 2009), baseado na biografia "Desert Flower: The Extraordinary Journey Of A Desert Nomad" da modelo e atual Embaixadora da ONU, a Somaliana Waris Dirie que sofreu mutilação genital quando criança, uma prática atroz, tirânica que ainda atinge mais de 6.000 meninas na África. O filme, que é estrelado pela top model etíope, atriz e embaixadora da World Health Organization Liya Kebede, tem a distribuição da Imovision está previsto para exibição oficial em 25/06 em São Paulo e Rio de Janeiro.


A pré-estreia foi ontem, no Reserva Cultural em São Paulo e contou com a presença ao vivo da bela top model Liya. A simpática equipe da Marie Claire recepcionou muito bem os convidados com chocolates e abriu o evento apresentando a atriz que, antes da sessão, presenteou os convidados com as genuínas e simples palavras: "Este trabalho é muito importante para mim... espero que gostem de Flor do Deserto assim como nós também gostamos de fazê-lo". Ao fim da sessão, foi inevitável não se emocionar com a árdua jornada de vida de Waris Dirie, a triste brutalidade contra a intimidade de uma mulher e o dedicado trabalho de Liya Kebede. Como cinéfila e mulher, gostei deste evento porque é a junção de 3 parcerias que sempre lutaram pela voz da mulher. A Marie Claire sempre foi uma revista de luxo, porém militante no que se refere a denunciar as atrocidades contra o sexo feminino, a nível global e em áreas de forte opressão contra a mulher. Em 1997 e, no auge do sucesso na moda, Waris Dirie expôs sua dor e confessou que teve sua genitália mutilada e ela é atualmente uma das mulheres influentes no combate à erradiçação desta violência e, Liya Kebede é uma modelo que mostra que tem beleza e conteúdo; com 'Flor do Deserto' atua em
seu primeiro papel de protagonista, após participação em Bom Pastor e O Senhor das Armas, está em uma posição chave da Organização de Saúde das Nações Unidas no que se refere às melhores condições para mulheres grávidas, recém nascidos e crianças e foi selecionada como uma das líderes jovens globais pelo ranking de influentes da Revista Time.





Liya e Waris, juntas


Em algumas palavras ditas à dócil atriz que, a propósito, é muito gentil, delicada e de exótica beleza, fazendo jus às palavras de Tom Ford "ela projeta uma aura de bondade e calma que chega a brilhar mais do que sua extraordinária beleza física", eu falei para ela que faria questão de divulgar este lindo trabalho, e principalmente, escrever para os leitores do Madame Lumière sobre esta experiência cinematográfica para quem, tiver a chance, conferir este filme. Este meu desejo está além do cinema em si, porque eu tenho uma relação afetiva com a cultura afroamericana, com o tema de defesa da mulher e a emergência de líderes globais como Waris e Liya que façam a diferença em temas como este, pois sou voluntária da Onu nesta área também, então para mim 'Flor do Deserto' é uma inspiração, espero que seja uma inspiração para você também.



MaDame Lumière agradece toda a equipe da Marie Claire por esta noite especial
e deseja muito sucesso às estas grandiosas
mulheres embaixadoras da ONU
que trabalham na agenda por um mundo melhor para todas as mulheres.

Confira a entrevista de Liya Kebede para
Marie Claire Brasil sobre o filme "Flor do Deserto"

Em breve a resenha do filme no
MaDame Lumière. Imperdível!



Caro(a) leitor(a)
Cada dia mais, vemos na TV uma série de atrocidades
contra mulheres e crianças no Brasil. Isso não pode continuar!
Diga não à violência contra a mulher e a criança.
Não tenha medo. Denuncie esta covardia!

Quer ser um voluntário da ONU? Acesse as oportunidades em
United Nations Volunteer e United Nations Onlinevolunteering


segunda-feira, 21 de junho de 2010

O Golpista do Ano (I love you Phillip Morris) - 2009



O Golpista do Ano, primeira direção de Glenn Ficarra e John Requa, é baseado na história real de Steven Jay Russell, um ex-policial e impostor que realizou vários crimes de fraudes, assumiu sua homossexualidade, conheceu e se apaixonou por Phillip Morris na cadeia e tentou diversas vezes fugir da prisão do Texas para reencontrá-lo. Russell ficou conhecido por suas peripécias criativas, sempre impregnadas de muita mentira e engenhosidade para arranjar diferentes ofícios, burlar a lei e enganar, sem querer, aqueles que ele amou. Neste longa-metragem, Jim Carrey volta à cena cinematográfica para encarnar Steven Russell que, após um acidente de carro, tem um momento de epifania e decide viver a vida da forma dele, ou seja, reconhecendo-se como "gay,gay,gay". Jim Carrey adiciona a este papel a excelente interpretação tragicômica que lhe é tão intríseca e a caricatura de um homossexual romântico que é capaz de fazer de tudo para manter o padrão de vida e prover tudo a seu amado. Leslie Mann interpreta Debbie, a religiosa (ex)esposa de Steven, da qual ele se separa assim que assume sua orientação sexual. Rodrigo Santoro faz o papel de Jimmy, o primeiro namorado de Steven, para o qual o impostor começa a dar presentes caros e, para manter estes "amorosos" gastos, começa a atuar em fraudes de seguros.







O bem da verdade é que O Golpista do Ano abre espaço para diferentes percepções e, a depender de cada expectador, elas podem ser positivas e/ou negativas, por isso é necessário dar o mínimo de crédito a este filme , deixando a fita rodar os 40 minutos iniciais e, tomar a precaução de não julgá-lo prematuramente, principalmente o acusando de homofóbico. Inicialmente, a forma "afetada" de interpretar os homossexuais, tanto por parte de Jim Carrey como por parte de Ewan McGregor e Rodrigo Santoro causa um certo incômodo porque é bem caricata, estereotipada, ou seja, a mensagem subliminar é que o jeito gay de ser é este, o que é um grande equívoco. Para aqueles que sabem que o homossexual não é obrigatoriamente uma pessoa afeminada e têm amigos gays, podem vir a achar que o filme se inclina a uma atuação preconceituosa do universo homossexual, isso porque O Golpista do Ano abre espaço para lacunas interpretativas, evidentes em algumas cenas como: quando relaciona que o gay tem um alto padrão de gastos para ser gay, e logo Steven Russell começa a entrar no mundo do crime fácil; quando Jimmy está morrendo de AIDS (como se o gay só morresse disso); quando Steven e Phillip parecem ser mais felizes só na cadeia, um local periférico onde todos tendem a ser iguais e só obtêm benefícios mediante dinheiro(se opondo ao fato do destino deles fora da cadeia ser um pesadelo); e quando Steven não " saí do armário" perante uma festa corporativa na qual ele fala para os convidados que tem uma noiva, mentindo para Phillip Morris e deixando o amado em casa; ao incluir no discurso de Debbie um fervoroso sentimento de beata que é o oposto do discurso anti-religioso de Steven, fato que retoma a questão do conflito de algums denominações religiosas com a homossexualidade.


Apesar destes detalhes que ressaltam a homofobia e podem dar brecha para polêmica, a questão central do filme é muito mais complexa sob o ponto de vista da existência humana e dos malabarismos para manter as aparências, por isso à medida que o filme evolúe, ele toma mais forma e conteúdo e se torna universal, independente de credo, raça e orientação sexual. Steven tem a engenhosidade para mentir e omitir sobre tudo o que faz, e tem uma necessidade de prover todo o bem material que traga o bem estar para aqueles que ele ama, mesmo que ele precise ocultar suas reais intenções, mas Qual é a identidade de Steven Russell? Esta é a complexidade do filme porque ele mesmo não o sabe, o que significa que talvez ele nunca saberá e viva eternamente ocultado pela sua incontrolável mentira. Esta problemática torna O Golpista do Ano um filme muito mais substancial na qualidade do roteiro e na incógnita que os roteiristas colocam nas mentes da audiência mais reflexiva: O ser humano tende a ser mais um tipo de Steven Russell, capaz de ser engenhoso em diversas máscaras sociais e tramóias? O ser humano é inevitavelmente um ser sem identidade, até que se prove o contrário, perdido no teatro trágicômico da vida, atuando frequentemente na dissimulação social que lhe foge ao controle? Pois é isso! Glenn Ficarra e John Requa deixam o território livre para interpretações diversas, mas uma interpretação é fundamental: existem pessoas que mentem, tramoiam e desempenham diversos papéis que as favoreçam na sociedade e, muitas vezes, por incrível que pareça, elas são mais vítimas do que aqueles(as) que elas enganaram, afinal, impostores sofrem com seu desvirtuoso traço de caráter e se dão mal mesmo quando pensam que estão se dando bem. Temos vários exemplos de Stevens em nosso país, um bando de coitados infelizes.






O imperdível da atuação de Jim Carrey e do papel que lhe é proposto é que Steven é um apaixonado, dependente de amor, ele definitivamente "AMA Phillip Morris da forma que ele sabe amar", então o protagonista ganha a sensibilidade do expectador que acha engraçado um criminoso deste estilo e que tem um vazio de identidade, além de contar com a empatia do público para com o humor único de Jim Carrey. Com isso, há também um inevitável sentimento de pena catalisado pela triste existência de Steven, logo, O Golpista do Ano é um longa-metragem que se adequa bem ao estilo comédia dramática, é como rir da desgraça alheia mas chorar pelo infeliz destino do protagonista. Ewan McGregor tem uma boa atuação como um gay bem romântico e afeminado. Apesar de estar muito caricato e classificado por alguns expectadores como um "exemplar de bichice total", combinando um estereótipo de homossexual com cabelos bem artificiais e oxigenados, lentes de contato, coração hiper sensível e a mulher da relação, McGregor cumpre o seu papel e faz ótimas cenas de amor com Jim Carrey. O ator Brasileiro mais internacional que existe, Rodrigo Santoro, cumpre o que lhe é reservado e, apesar de ser um papel menor, na cena na qual Jimmy está doente, ele demonstra bastante maturidade na atuação dramática com Jim Carrey e é responsável por uma das falas mais catárticas do filme; sem dúvidas, uma fala movida por amor e um pouco de lição de moral para o golpista.



Avaliação MaDame Lumière



Título original: I love you Phillip Morris
Origem: EUA
Gênero: Comédia dramática, Comédia, Drama, Biografia
Duração:
102 min

Diretor(a): Glenn Ficarra, John Requa
Roteirista: Glenn Ficarra, John Requa, Steve McVicker
Elenco: Jim Carrey, Ewan McGregor, Leslie Mann, Rodrigo Santoro, Ted Alderman, Nicholas Alexander, Michael Beasley, Tony Bentley, Allen Boudreaux, Sean Boyd, Brennan Brown, Marcus Lyle Brown, Marylouise Burke, Beth Burvant, Trey Burvant