sábado, 29 de maio de 2010

Direito de Amar (A Single Man) - 2009



Direito de Amar
é o primeiro filme do bem sucedido fashion designer e empresário de moda e beleza, Tom Ford que marca sua estréia no Cinema com sua assinatura estilosa e uma sensível e perspicaz abordagem da sua identidade homossexual que permeia o roteiro sem o intuito de levantar bandeiras, o que confirma que Tom Ford é requintado em expôr suas idéias, um real gentleman em todos os seus estratégicos e ambiciosos empreendimentos. A Single Man é primorosamente estético, sofisticado. Da fotografia de Eduard Grau ao elenco formidável encabeçado por Colin Firth e Julianne Moore e o figurino de Arianne Phillips, o longa-metragem tem, em definitivo, o estilo TomFordiano e seu toque de Midas . Não ficaram de fora referências muito autorais do estilista como o luxo de figurinos que lembram seus ternos para a grife Ermenegildo Zegna, sua paixão por perfumes, sua opção sexual, sua afeição pelo Cinema Clássico, seu bom gosto fotográfico, sua fixação hedonista através de enfoques do corpo sensual como os olhos e o abdômen, sua crítica cortante e elegantemente bem colocada, seu conhecimento de moda revisitando detalhes vintage, entre outros. Para quem gosta e acompanha o trabalho de Tom Ford desde sua época de Gucci e Yves Saint Laurent, o longa respira a mente artística e a determinação pessoal do texano que tem comandado há anos o mercado de luxo e que não se cansa de inovar e se desafiar com seu multifacetado talento.





O enredo é sobre um professor universitário, George Falconer (Colin Firth, em estupenda performance) que passa por um processo de muito sofrimento após perder seu amante Jim (Matthew Goode) em um acidente de carro. Eles já tinham uma relação estável há 16 anos e George foi impedido de ir ao enterro, fato que sinaliza o preconceito da família de Jim. Em pleno ano de 1962 na Califórnia, o filme enfoca um dia da vida de George no qual ele está entregue a esta dor e tem planos de cometer suicídio, porém se esforça em manter as aparências perante todos, detalhe muito bem colocado inicialmente pelo roteiro para mostrar que a sociedade é hipócrita e o homem é movido a ser tão hipócrita quanto, escondendo até mesmo o quão dilacerante é a dor de uma perda. Para um homossexual acadêmico como George em plena década de 60, conviver com essa dor se torna mais dolorosa, embora o intuito do filme não seja explicitamente mostrar o preconceito, Tom Ford é sutilmente elegante até para expor dramas que são dramas de todos nós, independente de identidade sexual. Então, no transcorrer deste dia, George relembra momentos com Jim, e encontra algumas pessoas, conhecidos ou desconhecidos que o fazem pensar no passado, presente e futuro e, que aliviam seus momentos de tristeza e solidão perseguidos por esse desejo de tirar a própria vida. Entre elas, sua solitária amiga Charley (Julianne Moore, em concisa e deslumbrante atuação), com a qual ele teve um affair em londrinos tempos áureos, seu atrativo aluno Kenny (Nicholas Hoult) que apreende sua atenção com uma jovialidade cheia de dúvidas e reflexões e o belo espanhol Carlos (Jon Kortajarena), um estranho que George conhece ocasionalmente, que flerta com ele e que personifica um tipo de James Dean em um cenário que tem também o pôster de Psicose de Hitchcock que estabelece um tipo de "diálogo cinematográfico" com Pedro Almodóvar e uma cena de "Tudo sobre minha mãe" e o pôster de "Um bonde chamado desejo".




Direito de Amar é um filme belíssimo, cheio de contemplativas nuances na magnifica direção de arte, nas atuações, no figurino e na fotografia que chegam a ser poéticas. Tudo tem o bom gosto de Tom Ford e, também as entrelinhas de como ele pensa. Não à toa que ele é um dos estilistas mais polêmicos que existem, ele sabe provocar até por trás de uma bela estética, então tudo neste filme tem um propósito mesmo que seja o plástico para complementar o metafórico e demostrar o realismo dramático. Sob o ponto de vista estético, destaque especial para a direção de arte e a fenomenal fotografia que mesmo em seus enfoques de variante palheta de cores não deixa nenhum preciso detalhe passar desapercebido; os focos nos olhos dispensam palavras que seriam desnecessárias e Tom Ford dirige cada milímetro como se estivesse vestindo seus modelos, tão sublime como a celebração do belo; mas acima de tudo Direito de Amar é uma película melancólica, elegantemente melodramática por isso aceitá-la no início não é fácil porque é o tipo de filme que exige uma entrega sensível e lúcida por parte do expectador como contemplar uma obra de arte que requer uma momento de solidão, de introspectiva reflexão.





Muito da melancolia do filme está além da tragédia que impede a continuidade de uma relação amorosa, ela está em um drama universal , o da solidão, que é muito bem interpretado por Colin Firth em uma atuação crível, dilacerante, sofisticadíssima e muito bem combinada com o visual, e o melhor, em momento algum ele é melodramaticamente piegas. Colin é definitivamente "A single Man" em todas as caras e bocas, do óculos à residência. Este se torna um dos grandes diferenciais de ser "um homem só" na direção de Tom Ford e com o talento do ator britânico que se superou neste papel, deixando de ser o engomadinho inglês de comédias românticas e entregando um personagem que merecia ter ganhado a estatueta do Oscar assim como o Coração Louco Jeff Bridges a conquistou. Ser um homem só é o que interessa aqui, por isso a tradução do título do filme no Brasil foi muito mal feita e deixa de evocar que não está sendo reinvidicado nenhum direito de amar dos homossexuais porque este direito já existe, todos têm o direito de amar quem quiser; em resumo, o filme fala sobre solidão que é inerente a todos os indivíduos, esta é a triste beleza do filme e isso fica evidente através das outras personas : Charley vive sozinha, separada do marido, abandonada pelo filho, relembra os velhos momentos amorosos com George (que é gay confesso) e faz o tipo de mulher solitária e endinheirada que quase não saí da cama e para a qual uma bebida com cigarro e jantarzinho é uma grande celebração que a tira do tédio. Kenny é um jovem igualmente solitário que sugere a atração pelo professor além da admiração meramente intelectual, além disso nem sua beleza física o tira da solidão, por sinal, uma grande ironia que revela que pessoas bonitas são algumas das mais solitárias. Carlos é um belo modelo, imigrante e sozinho nos USA que deseja dar uma "esticadinha" com George sem ao menos conhecê-lo melhor, sugerindo a casualidade do sexo, da atração que pode sinalizar o desejo de fugir da solidão.







É sabido que a solidão é necessária e faz bem, mas também o mal para muitas pessoas reforçando atitudes autodestrutivas como o suicídio, a depressão, a loucura. Na verdade, George já deveria ser um homem só como a maioria dos indivíduos já o são e fingem não sê-lo porque fingir que não está mal não é fingir por mal, é fingir por uma necessidade social, logo atrás das camisas e ternos bem alinhados de George há muita dor, porque há uma aparência por trás da essência e este é uma das virtudes mais verdadeiras, memoráveis, atemporais e humanas do filme. A diferença é que quando se perde quem se ama, a solidão vem muito mais a tona e, a depender da força dilacerante da perda, respirar pode doer mais e mais, afinal superar a dor e seguir em frente com a mesma intensidade de sentimentos, com a mesma perspectiva de ser feliz é um ato de coragem. Sempre há um luto que tem a intenção de se perpetuar. A morte de Jim é uma analogia de outras perdas que não terminam em óbito mas que são tipos de mortes que trazem o sombrio sentimento da solidão. Quando um amigo é traído, quando um filho é abandonado, quando um casal é separado,etc, por isso, Direito de Amar é um filme de primorosa beleza além da lente e senso estético de Tom Ford, é um belo filme em abraçar a universalidade da solidão.



Avaliação MaDame Lumière



Título Original: Direito de Amar
Origem:
Estados Unidos
Gênero(s):
Drama
Duração: 101 min
Diretor(a): Tom Ford
Roteirista(s):
Tom Ford e David Scearse, com base no livro de Christopher Isherwood
Elenco:
Colin Firth, Julianne Moore, Nicholas Hoult, Matthew Goode, Jon Kortajarena, Paulette Lamori, Ryan Simpkins, Ginnifer Goodwin, Teddy Sears, Paul Butler, Aaron Sanders, Keri Lynn Pratt, Jenna Gavigan, Alicia Carr, Lee Pace

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Um Filme, uma canção: Uma Secretária de Futuro (Working Girl - 1988 ) , Let the river run, de Carly Simon

Um filme, uma canção por Madame Lumière
a combinação inesquecível para uma nostálgica emoção




Mike Nichols
, celebrado diretor por excelentes filmes como A primeira noite de um homem e Closer - Perto demais entregou-nos em seu legado cinematográfico um dos filmes mais adoráveis da década de 80 no que se refere a temas como à dedicação ao trabalho, o espírito de superação de desafios e o foco na carreira e, entrega uma adorável comédia, Uma Secretária de Futuro, com um elenco de peso: Sigourney Weaver, Harrison Ford, Melanie Griffith , Alec Baldwin e Joan Cusack. Para complementar a produção, a canção Let the river sun de Carly Simon ganhou o Oscar de melhor canção original em 1988 e virou hit inesquecível da cantora. Let the River run é mais um exemplo de uma canção tema que é imediatamente associada ao filme e compõe a alma musical do longa. É impossível não lembrar da secretária Tess McGill (Melanie Griffith), de como era o seu visual super pop cabelereia nos anos 80 e, pouco a pouco, ela foi se superando além da aparência física. Torna-se mais impetuosa, bonita, sofisticada, decidada, inteligente e segura em suas ações, então é como vê-la "deixando o rio correr" para desembocar sua vida em águas calmas, no alcance de um sucesso profissional sólido e bem merecido. Além disso, ela lida com a insuportável chefe Katherine Parker (a maravilhosa Sigourney Weaver, em um papel diferente de ficções científicas como Alien) que é namorada do charmoso Harrison Ford no papel de Jack Trainer o qual se apaixona por Tess. Uma comédia simples em seu enredo, porém cheia de momentos que se relacionam com grandes verdades do meio corporativo.





Embora a letra de Let the River Run tenha um texto mais espiritualizado, com trechos como "acorde a nação, deixe o rio correr a Nova Jerusalém e estão pedindo provação", esqueçamos a letra e pensemos no seu tom melódico, sua música. É muito empolgante, alegre, otimista, motivadora e é isso o que importa para ter se tornado um canção agregadora à proposta de Uma Secretária de Futuro pois ela ilustra essa energia de superação de Tess. Lembro-me que, quando assistia ao filme na minha adolescência, ouvir Let the River Run sempre me elevava para um estado de espírito de que eu poderia conseguir o que eu quisesse na minha vida contanto que eu trabalhasse com paixão, fé e honestidade, acreditando em meu potencial, deixando esse "rio fluir dentro de mim", aprendendo a ser mais profissional expondo minhas idéias e opiniões no meu ambiente de trabalho, não me rebaixando perante os desafios, agindo integralmente perante os conflitos. Mesmo que eu ainda fosse muito jovem e nunca havia trabalhado, Tess McGill me projetava uma imagem de que eu seria feliz na minha carreira, que eu não temeria ninguém que quisesse me prejudicar, que eu não me afundaria perante as dificuldades, que críticas destrutivas e "puxadas de tapete" viriam mas o mais importante era eu superar-me a cada dia sem ferir meus valores e minhas crenças e, principalmente, nunca desistir. Por isso, com momentos de águas rasas e profundas em minha vida, eu sigo acreditando em mim, em meus talentos, em meu potencial. Ouvir essa canção e lembrar do filme só validam que a gente nunca pode deixar ninguém dizer que a gente não é capaz de fazer algo e nunca será capaz de conseguir realizar nossos projetos. Todos têm futuro, basta nunca desistir de si mesmo.



quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Emblemática Citação da Semana: O Mágico de Oz (The Wizard of Oz) - 1939


''Não há lugar como o nosso lar!"

"There's no place like home!"

(Dorothy interpretada por Judy Garland no
filme O Mágico de Oz de Victor Flemming)




Madame Lumière diz: Convém eu contextualizar meus leitores porque eu selecionei esta citação para a semana. Eu já morei fora de São Paulo e, entendo o que é ficar sem família e amigos em uma cidade estranha. Nunca coloquei restrição alguma a buscar desafios profissionais fora da minha cidade mas agora avalio, com maturidade, se vale a pena, afinal já passei da fase das decisões intempestuosas. Eis que essa semana recebo o convite para participar de um processo seletivo em um lugar muito pacato e longíquo (muito mesmo). Teria que pensar com cuidado porque não poderia desistir em caso de aprovação e, após ficar seduzida com isso, avaliei se a oportunidade tinha a ver com meu momento e personalidade e concluí que não. Eu morreria de tédio especificamente nessa cidade e ficaria muito exclusa até para visitar minha família e amigos. Na mesma hora, pensei no filme... é bom estar perto de quem se ama, de nossa casa, não importa para onde vamos, temos que avaliar não só os impactos da mudança e o ganho de capital, mas se aquela cidade tem a ver com a gente e com o nosso momento e se vale a pena o sacrifício, afinal, there's no place like home.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O Preço da Traição (Chloe) - 2010



A jovem e exuberante loira Amanda Seyfried é Chloe, prostituta de luxo que dá título ao novo filme do cineasta Egípcio Atom Egoyan e que traz pesos pesado como Liam Nesson e Julianne Moore, respectivamente como David e Catherine, um casal de meia idade que está em crise matrimonial e é envolvido em um thriller de sedução, desejo e traição. O longa-metragem é uma refilmagem de Nathalie X, de Anne Fontaine (de Coco antes de Chanel) e se resume no drama da ginecologista Catherine que começa a ficar paranóica desconfiando que seu marido David a está traindo. Inicialmente elementos do filme indicam que ela deve desconfiar do esposo e lançam dúvidas em seus pensamentos, afinal ele é um charmoso professor de música, tem várias alunas jovens e se coloca à disposição delas, falta ao aniversário preparado por Catherine e a deixa com a pulga atrás da orelha, tem uma esposa que mal o beija e o acaricia e, vice e versa, ou seja, o casamento está frio, sem diálogo, sem tesão. Catherine acabou se tornando mais amiga do que amante. Seu comportamento estranhamente inseguro e mal resolvido sexualmente faz com que ela busque uma alternativa dramática para testar a fidelidade do marido: contratar uma bela prostituta para seduzí-lo, Chloe.






Chloe tem um perfil adequado para uma garota de programa a seduzir propositalmente um homem casado a mando da esposa dele. Ela é jovem, discreta, bonita, envolvente, misteriosa, enigmática, no entanto há algo nela que dá espaço a uma desconfiança por parte do espectador. Qual é o drama por trás da vida dela? Qual é a procedência desta prostituta? Será que ela é confiável? O desejo nunca é confiável, ele pode fazer uma pessoa perder o controle e, este é um dos pilares de O Preço da Traição e que impacta diretamente a vida deste suposto triângulo amoroso, principalmente Catherine e Chloe que se envolvem em uma relação sexual lésbica no fervor do drama, fato que não é surpreendente porque a mídia publicou mais um beijo de Amanda Seyfried em uma garota, lembrando que ela também beijou Megan Fox em Garota Infernal. Esse parece ser o destino da "loira da vez" que tem sido muito solicitada em filmes e, recentemente, engloba o time de protagonistas de Querido John e Cartas para Julieta.






Dentre as virtudes de O Preço da Traição, estão as atuações de Juliane Moore e Amanda Seyfried, a ambientação sofisticada, de muito bom gosto até na sensualidade de pequenos gestos, figurinos e detalhes cenográficos e o interessante foco no desejo que surge a partir dos diálogos de Catherine e Chloe. Inclusive, até metade do roteiro, o desejo é um traço atordoante como a ginecologista lida com ele e como ela ouve as declarações íntimas de Chloe a qual relata a Catherine a traição do marido. É intrigante e perversamente sexy porque é como se ela quisesse sentir o prazer do marido através dos relatos da Chloe. Talvez esse tesão poderia ter sido mais explorado no psíquico do roteiro já que Catherine é, ironicamente, uma ginecologista que nem tem gozado ultimamente e precisaria relaxar um pouco mais, libertar seu feminino, seu desejo carnal. De forma ingênua, ela entrega o marido nos braços de uma estonteante loira e é uma esposa que travou a própria sexualidade, ou seja, ela deixou de se reconhecer como mulher casada, sedutora, detendora do poder de ser desejável, então, de uma forma irônica, incentivar a traição do marido a ajudou a dar valor a ele, cair na real e deixar de ser insegura. Tal atitude teve um preço? Sim. Ela poderia ter resolvido tal crise de uma maneira madura, acendendo o fogo de uma paixão entre os lençois. Só que ela foi parar na cama errada porque, certamente, essa é a intenção da intencional tragédia e da previsibilidade clicherizada do roteiro.



Já Chloe é uma mulher crível em seu papel. Ela é um tipo de sonho como toda prostituta também é (mas também pode ser um pesadelo), então ela pode realizar os desejos sexuais que alguém quer realizar e os que alguém quer somente ouvir através de fantasias, ora realizadas, ora não. Prostitutas fazem parte de um imaginário que já era das grandes cortesãs francesas, elas podem ser sofisticadas, podem ser vulgares, podem ser sinceras, podem ser mentirosas, elas podem ser qualquer coisa que elas desejam ser, então prostitutas têm uma certa loucura e impetuosidade para lidar com a própria profissão. Amanda Seyfried a interpreta bem por trás de seu misto de inocência que esconde uma sedutora nata com um toque de devassa; para melhorar a intenção, ela se mostra uma mulher obsessiva seguindo muito bem o estigma social de que uma mulher que se apaixona por uma mulher é capaz de ser tão persecutória e, insuportavelmente passional.








O roteiro de O Preço da Traição não é de todo mau e a premissa é atrativa, porém começa a pecar em um dado momento da película e deixa de alimentar o próprio suspense, a sensualidade e a complexa carga psíquica embutida na perigosa relação que se inicia entre Catherine e Chloe e, o final se torna desastroso para validar o argumento que foi colocado em pauta fazendo com que o filme se torne indesejável e desfaleça em sua medíocre finalização. Tal fato é lamentável porque seguindo algumas boas entregas de um dos mestres do desejo através das imagens do Cinema, Adrian Lyne, filmes desse time têm tudo para conquistar a platéia: têm o drama do proibido, do sensual, do desejo os quais podem libertar as tensões sexuais dos protagonistas a qualquer momento, e ainda colocam em evidência o difícil dilema do trair e do ser traído(a) e dos tristes desdobramentos de tal drama, mas pelo que se vê em algumas últimas tentativas, estes longas costumam pecar muito na finalização e o preço se torna alto, bem mais alto do que o preço do desejo argumentado.





Avaliação MaDame Lumière








Título Original: Chloe
Origem: EUA
Gênero(s): Drama
Duração: 96 min
Diretor(a): Atom Egoyan
Roteirista(s): Erin Cressida Wilson, baseado em roteiro de Anne Fontaine
Elenco: Julianne Moore, Liam Neeson, Amanda Seyfried, Max Thieriot, R.H. Thomson, Nina Dobrev, Julie Khaner, Laura DeCarteret, Natalie Lisinska, Tiffany Lyndall-Knight, Meghan Heffern, Rosalba Martinni.

O Pôster de Filme da Semana: Eros (2004)

No MaDame Lumière,
um pôster de filme vale por mil roteiros

"Um pôster que é erótico, fálico até nas entranhas de suas formas"









terça-feira, 25 de maio de 2010

Fúria de Titãs (Clash of the Titans) - 2010


As mitologias gregas e romanas sempre são um primoroso e fantasioso legado cultural à serviço das Artes. A Literatura, o Cinema e o Teatro costumam realizar um diálogo metalinguístico com a riqueza criativa das histórias de figuras míticas como deuses, semideuses e lendárias criaturas que habitam o imaginário dos homens os quais, oram os idolatram, ora os temem. Mitos antigos exercem um fascínio incontestável quando o contexto dramático é alimentado pela forte tensão entre seres humanos e deuses que reverberam ainda mais heróicas batalhas e trágicos conflitos entre eles. Em Fúria de Titãs, remake do clássico de Desmond Davis (1981), o drama épico gira em torno de um semideus, o herói mítico Perseu (Sam Worthington, de Avatar), filho de Zeus (Liam Neeson) com a mortal Dânae que, nessa adaptação, é esposa do rei Acrísio (Jason Flemying). Irado com a traição de Zeus que engravida Dânae fingindo ser seu marido, ela e seu filho são condenados à morte por Acrísio e jogados no mar. Um pescador encontra Perseu ainda bebê e o cria como um amado filho, no entanto, mais tarde, Perseu descobre que é metade homem, metade Deus, é filho de Zeus e tem como semideusa protetora, a imortal Io (Gemma Arterton); a partir daí, luta para vingar a morte de seus pais e entra na batalha como aliado dos humanos de Argos contra a tirania de Zeus o qual tem o apoio traiçoeiro de seu irmão Hades, o Deus do subterrâneo (Ralph Fiennes, uma das raras coisas boas do filme).






A batalha contra Zeus não é somente uma batalha coletiva, de humanos revoltados contra um Deus que só deseja as orações de homens, afinal de contas, deuses se alimentam da devoção de homens que acreditam que eles têm ação direta em seus destinos, mas é uma batalha da ascensão de um novo herói, necessária para que o mito de Perseu fosse legitimado. Para obter sua vingança contra Hades matando o temeroso e gigantesco monstro Kraken, Perseu tem que aceitar a sua dádiva de semideus com poderes além da vulnerabilidade de um simples mortal. Nesse contexto mitológico, ele luta para que a princesa de Argos, Andrômeda (Alexa Davalos) não seja morta em sacríficio pelo desejo de Hades, conta com um trupe de guerreiros sob a liderança de Draco (Mads Mikkelsen), tem a conselheira proteção de Io e encontra várias criaturas em seu caminho como a medusa, bruxas, guerreiros Djin, entre outros, que colaboram para criar a atmosfera mitológica dessa clássica história.






Letterier e roteiristas entregam um trabalho nada profundo com relação ao desenvolvimento do próprio mito de Perseu e dos personagens, dando a nítida impressão de que o longa é uma colcha de retalhos das referências da mitologia grega com erros bizarros de roteiro o qual não entrega também o bravo heroísmo das batalhas e o inestimável valor do conflito dos homens com os deuses. Nenhum dos grandes atores que se incluem nas figuras divinas, como Liam Neeson e Ralph Fiennes, são incentivados pelo texto a entregar o melhor de si, então se tornam pouco aproveitados. Sam Worthington que se saiu bem no papel heróico do N'avi Jake Sully de Avatar, é usado em Fúria de Titãs como um mito mais caricato fazendo a lição de casa de liderar uma batalha com nenhuma expressidade de liderança. Não há nada da alma heróica do carismático Jake Sully no Sam Worthington de Clash of the Titans e, se a intenção foi colocá-lo em um papel heróico semelhante ao personagem criado por James Cameron, deveriam ter entregado um roteiro melhor para que Sam pudesse atuar melhor. O enredo também não se envereda em um pouco de genuíno romance e bem vinda sedução, perdendo a oportunidade de despertar o interesse da audiência e cativá-la. Perseu não se envolve nem com Andrômeda e nem com Io, embora haja uma sugestão de flerte com essa última. Gemma Arterton, a atriz "mítica hype do momento" que está também no novo épico da Disney, Príncipe da Pérsia, as areias do tempo tem uma delicada beleza e poderia render uma boa parceria romântica com Perseu. Resta agora a esperança de vê-la em cenas de amor com o belo Jake Gyllenhaal.





Por outro lado, fãs de épicos e de mitologia grega que tenham amor suficiente por tais temas independente da qualidade cinematográfica serão capazes de apreciar as criaturas míticas criadas para o longa e os medianos efeitos visuais, afinal sempre é um bom entretenimento entrar no clima da fantasia heróica e reconhecer também esforços em retratar um legado greco-romano que, por algumas horas, levam o espectador para um mundo lúdico. Vale perceber que o longa, que foi adaptado para a tecnologia 3 D somente após ser feito em 2 D, sofre a consequência de sua própria ambição, ou seja, o 3 D aqui é empregado de uma forma muito mal feita sem explorar as nuances estéticas da cenografia. Inclusive, adaptar uma película em 3D por um mero objetivo comercial do mercado é um grande erro e, no caso de Fúria de Titãs, só serviu para ressaltar o fiasco de um roteiro mal elaborado já que os recursos lendários dos mitos foram usados como uma necessidade pontual de incluí-los em um filme sobre o tema e não como elementos bem engedrados na trama. Lamentavelmente, Fúria de Titãs de Louis Leterrier tem sérios problemas que o tornam um filme frustrante para os que aguardavam um grande clássico épico e, quando observado o riquíssimo conteúdo mítico que poderia ter sido potencializado e o melhor emprego da tecnologia 3D que poderia ter criado uma série de inesquecíveis momentos visuais épicos , o filme é capaz de despertar a fúria dos cinéfilos.



Avaliação MaDame Lumière






Título Original: Clash of the Titans
Origem: EUA
Gênero(s): Épico, Aventura
Duração: 118 min
Diretor(a): Louis Leterrier
Roteirista(s): Travis Beacham, Phil Hay, Matt Manfredi, Beverley Cross
Elenco:
Sam Worthington, Liam Neeson, Ralph Fiennes, Jason Flemyng, Gemma Arterton, Alexa Davalos, Tine Stapelfeldt, Mads Mikkelsen, Luke Evans, Izabella Miko, Liam Cunningham, Hans Matheson, Ashraf Barhom, Mouloud Achour, Ian Whyte

segunda-feira, 24 de maio de 2010

MaDame Teen : Peggy Sue - Seu Passado a Espera (Peggy Sue got married) - 1986

MaDame Teen:
Coletânea de filmes dos anos 80
que marcaram minha (pré)adolescência




Durante as últimas semanas tenho sentido um saudosismo fora do comum, não o proposital que se empenha em vir à tona, mas aquele que surge a partir de pequenos detalhes: uma fotografia que reaparece quando menos se espera, um ídolo que remonta ao romântico imaginário adolescente, etc. Tais lembranças surgem como se quisessem encontrar-se com meus pensamentos, formando um elo nostálgico cada vez mais crescente. Embora não seja bom viver como um museu, ou seja, viver de passado; há memórias que são positivas e só mostram que, se eu pudesse, eu voltaria a um passado e, certamente, nada mudaria nele; mesmo com todos os amores e dissabores de uma intensa jornada humana, o passado tem alguma delícia que sempre me espera.





Com direção do renomado Francis Ford Coppola, Peggy Sue, seu passado a espera é um destes filmes "máquinas do tempo" que dão ao protagonista o privilégio de vivenciar momentos incríveis de uma época que não volta mais. Se por um lado há a magia desse retrocesso temporal, por outro lado, voltar ao passado coloca em pauta mudanças que poderiam ser feitas nele para que o presente fosse menos doloroso; nesse contexto, voltar a este tempo é uma oportunidade de corrigir as falhas que se manifestaram na atual realidade ou reafirmar que em nada esse presente deveria ser mudado. Peggy Sue (Kathleen Turner) é uma mulher de 43 anos, mãe de Beth (Helen Hunt) e está atravessando uma crise matrimonial que já beira o divórcio com Charlie (Nicolas Cage). Em plena década de 80, ela desmaia em uma festa de confraternização e retorna à década de 60, exatamente na época adolescente quando namorava Charlie e andava com as amigas Carol (Catherine Hicks) e Maddy (Joan Allen). No elenco de colegas da escola também se destacam o nerd Richard (Barry Miller), amigo de Peggy Sue, Walter Getz (Jim Carrey) e Leon (Harry Basil), amigos de Charlie, Michael (Kevin J. O'Connor), o intrigante affair de Peggy Sue e a rápida aparição da filha de Coppola, a diretora Sofia Coppola que faz o papel de Nancy Kelcher, irmã de Peggy Sue.





Embora o longa-metragem não tenha tanta popularidade, e muito da crítica negativa que recae sobre ele é devido ao final aquém da qualidade do resto do roteiro, e de ser um filme muito desvalorizado de Coppola pois ele já havia feito a obra prima O poderoso Chefão I, Peggy Sue tem seu charme. Primeiramente, há um elenco bem atrativo porque é possível ver como Joan Allen, Helen Hunt, Nicolas Cage e Jim Carrey eram quando muito jovens. Só o fato de contemplar o visual deles já é um grande entretenimento, principalmente a cabelereira e os óculos de Joan Allen e a cara hilária de Nicolas Cage, logo não há a necessidade de exigir demais dos personagens, e muito menos, a pretensão de exigir um filme do diretor no mesmo nível que The Godfther. Outra virtude do longa é poder viajar até os anos 60 e ver o reflexo da época na trilha sonora, no figurino e na fotografia, inclusive estas duas últimas categorias foram indicadas ao Oscar. A música de Buddy Holly e aquele clima adolescente de curtir as festinhas e as idas à lanchonete e namorar à luz do luar é tão poderoso que eu me transfiro na personagem de Peggy Sue como se eu quisesse ouvir Charlie cantando para mim "I wonder why" do Dion and the Belmonts enquanto o calor subisse pelo meu corpo, eu gritasse pelo seu nome e assanhasse todas as minhas madeixas. Finalmente, a característica de ser um filme "máquina do tempo" permite uma reflexão pessoal de que nem sempre os problemas do presente podem ser corrigidos com um ajuste do passado, afinal quando nos apaixonamos e constituimos uma família, por exemplo, há sempre o risco de ter as crises que fazem parte da própria natureza da instituição familiar ( e da humana); o fato de Peggy Sue vivenciar um divórcio nos anos 80 e ter a possibilidade de repensar se quer ou não casar com Charlie é uma reação natural que talvez muitos de nós teríamos, no entanto, o que mais importa é pensar nas coisas boas das nossas escolhas, independente dos fracassos e, com isso, não remoer o "se eu voltasse ao passado, mudaria isso".

Tenho certeza de que um desmaio como o de Peggy Sue costuma fazer muito mais o bem do que o mal, por isso eu surrealisticamente desmaio quando assisto Peggy Sue. O filme me faz um bem danado, é sempre bom ter a nostalgia me esperando.


Avaliação MaDame Lumière





Título original: Peggy Sue got married
Origem: EUA
Gênero: Romance
Duração:104 min
Diretor(a): Francis Ford Coppola
Roteirista(s): Jerry Leichtling, Arlene Sarner
Elenco: Kathleen Turner, Nicolas Cage, Barry Miller, Catherine Hicks, Joan Allen, Kevin J. O'Connor, Jim Carrey, Lisa Jane Persky, Lucinda Jenney, Wil Shriner, Barbara Harris, Don Murray, Sofia Coppola, Maureen O'Sullivan, Leon Ames

Cine Família: Estão todos bem (Everybody's Fine) - 2009



Refilmagem do longa-metragem italiano "Stanno tutti bene(Estados todos bem)" do aclamado cineasta Giuseppe Tornatore (de Malena e Cinema Paradiso), Estão todos bem traz Robert de Niro em mais uma comédia, desta vez, com uma abordagem familiar e um pouco dramática. Ele é Frank, aposentado, viúvo e pai de quatro filhos, a dançarina Rosie (Drew Barrymore), a publicitária Amy (Kate Beckinsale), o músico Robert (Sam Rockwell) e o artista David (Austin Lysy). Frank é o espelho daquele tipo de pai que se encontra solitário após a morte da mulher e que criou os filhos a vida inteira e exigiu o melhor deles, até que um dia todos se casam e/ou decidem morar sozinhos e ficam espalhados em vários cantos do país. Frank vê na possibilidade de rever os filhos um grande momento, mas nem tudo são flores quando os filhos saem da aba dos pais.





Impossibilitados de vir visitar o pai em um final de semana combinado, os filhos de Frank cancelam o compromisso familiar. Frank decide desobedecer as ordens médicas e parte em uma jornada de um pai em busca de visitar os saudosos filhos, e se conectar com os mesmos já que, quem era mais próxima ao diálogo com os filhos era sua falecida esposa. A cada encontro com os filhos, como um bom pai, Frank deseja saber se "Estão todos bem", um mote que, aliás, é básico quando os filhos saem de casa. Qualquer pai ou mãe que se preze deseja saber se os filhos estão bem e, na verdade, nem sempre tudo está tão bem quanto as aparências por isso, à medida que Frank visita os filhos, ele também se autodescobre como um pai que exigiu demais deles e que acabou sendo poupado dos problemas reais, afinal, a própria esposa de Frank era uma mãe conciliadora e canalizava os problemas dos filhos.





Sob o ponto de vista familiar, "Estão todos bem" é uma película bem agradável porque se torna um retrato do que realmente acontece às famílias, principalmente porque um pai e/ou uma mãe cria os filhos para o mundo, não para eles. Muitas vezes, as expectativas de sucesso colocadas nas costas dos filhos, mesmo que duras, não é em si uma cobrança devastadora, mas somente o desejo de que todos estejam realmente bem e tenham uma vida digna. Muitas vezes, os filhos também querem poupar os pais de problemas, afinal os pais já batalharam bastante na vida, já estão em idade avançada, logo, mesmo que "Estão todos bem" não é um filmaço, é um filme genuinamente nobre em seu argumento, tem uma bela canção composta por Paul McCartney e um elenco bem atrativo que faz o que lhe é proposto, então, por si só, o longa já vale um Cine Família. Após assistir o filme, você pensará muito mais nos seus pais e em seus(suas) irmãos(irmãs) e como, apesar das contendas naturais à qualquer família e das diferenças entre seus membros, todos nós queremos que todos estejam bem, enfim, é bom saber que estão todos bem.



Avaliação MaDame Lumière



Título original: Todos estão bem
Origem: EUA, Itália
Gênero: Drama
Duração:
99 min

Diretor(a): Kirk Jones
Roteirista: Kirk Jones, Massimo De Rita, Tonino Guerra, Giuseppe Tornatore
Elenco: Robert De Niro, Drew Barrymore, Kate Beckinsale, Sam Rockwell, Lucian Maisel, Damian Young, James Frain, Melissa Leo, Katherine Moennig, Brendan Sexton III, James Murtaugh, Austin Lysy, Chandler Frantz, Lily Mo Sheen, Seamus Davey-Fitzpatrick

domingo, 23 de maio de 2010

Sonhos Roubados - 2010



Baseado no livro "As meninas da Esquina" de Eliane Trindade, a diretora Sandra Werneck, conhecida por trabalhos como Cazuza - O tempo não pára e Amores Possíveis decidiu seguir o fio condutor de muitos filmes brasileiros como "Cidade de Deus" de Fernando Meirelles, ou seja, abordar o drama de jovens em comunidades carentes cariocas. A diferença é que agora o drama enfoca a vida de mulheres e seus Sonhos Roubados em uma adolescência lamentavelmente triste vitimadas por uma vida sem qualquer perspectiva otimista, entregues à prostituição para obter o próprio sustento e convivendo com temas traumáticos como a gravidez precoce e indesejada, o abuso sexual, a orfandade e/ou abandono dos pais, a pobreza, a falta de dinheiro e de educação.


Sandra Werneck, que já tem no currículo um documentário com foco no feminino da questão "Meninas" de 2006, dessa vez, toma como base do enredo o cotidiano de 3 jovens pobres, Jessica (Nanda Costa, da novela Viver a Vida e em excelente performance), Sabrina (Kika Farias) e Daiane (Amanda Diniz) cujos dramas são divididos nas vidas delas. Jéssica perdeu a mãe quando bem jovem, uma ex-prostituta com Aids e foi criada pelo avô Horácio(Nelson Xavier). Ela já é mãe, se prostitui com frequência e não vive com o pai da criança, além de ter uma rixa com a ex-sogra Dona Jandira ( Zezeh Barbosa), uma evangélica fervorosa com a qual ela tem problemas sérios de relacionamento que podem colocar em risco a guarda de sua filha. Jessica se tornar a pseudo esposa do presidiário Ricardo (o rapper MV Bill em seu primeiro papel) e se prostitui nas visitas íntimas. Sabrina mora sozinha, tem desafetos com a mãe, trabalha em uma lanchonete e também se prostitui. Ela acaba se apaixonando por um bandido canalhão, Wesley (Guilherme Duarte) e é sustentada por ele, em troca de um selvagem sexo. Daiane é criada pelos tios e ignorada pelo pai Germano (Ângelo Antonio). Ela é vítima de abuso sexual pelo safado do seu tio Pery (Daniel Dantas) e encontra uma amiga na figura de uma cabelereira, a gentil Dolores (Marieta Severo).
Como toda garota de sua idade, Daiane sonha com objetos de consumo como um MP3 e um celular e deseja ter uma festa de 15 anos dançando valsa com o pai ausente.





Sonhos Roubados
é um filme bem interessante considerando a forma como foi colocado o universo dessas jovens. Os dramas não são explorados ao máximo e nem é essa a intenção, mas eles dão conta de uma visão geral dessa adolescência com forte problemática social, assim como o filme As melhores coisas do mundo de
Laís Bodanzky dá conta de uma visão geral de um tipo de adolescente que é o de classe média. Sonhos roubados é como um filme denúncia a partir de algumas sutilezas que enriquecem a película sem ter o intuito de moralizar a situação e muito menos os comportamentos; é simplesmente um retrato genuíno e triste de meninas que se prostituem facilmente, não têm qualquer orientação educacional, não têm pais e ainda são ignoradas de várias formas, seja por um pai , seja por um namorado, seja por uma sogra. Jéssica exerce o papel da irmã mais velha e mais madura que se prostitui com facilidade e já se esqueceu que o amor é possível, tende a racionalizar mais suas relações. Ela não é de ninguém e, ao mesmo tempo, é de quem paga bem. Sabrina é mais desencanada, mora sozinha, saí do emprego voluntariamente se está de "saco cheio", mas ela expõe o lado romântico das mulheres do tráfico, ou seja, se apaixonou por um criminoso e acredita nas promessas dele até o dia que "quebra a cara" e tem que lidar sozinha com uma gravidez. Daiane, a mais jovenzinha, expõe aquela que tem o desejo do consumo que pode ser uma festa de 15 anos ou um celular e, se necessário, realiza pequenos furtos e se prostitui para pagar a manicure ou arrumar o cabelo para o baile funk. Ela é a expressão de uma jovem carente do que a sociedade é carente: sente falta do pai e da mãe edípicas que não exerceram seus papeís sobre os filhos, como se fosse a representante de uma adolescência orfã; não é a toa que ela vê em Dolores a figura de uma mãe. Apesar dos pesares, no final de qualquer situação, a prostituição é uma forma de subsistência e parece um fardo necessário às meninas em boa parte do filme.





Jéssica, Sabrina e Daiane dão conta dos principais dramas de uma adolescente carente, porém é importante não seguir os estereótipos que se colocam sobre jovens que moram em favelas e generalizar tal forma de documentar uma realidade que também é variante; afinal nem todo mundo sofreu o que elas sofreram, mesmo que tenham testemunhado tais lamentáveis fatos e que morem em comunidades carentes. De maneira geral, o filme de Sandra Werneck não deixa de se basear em um estudo verídico dos dramas dessas mulheres, por isso, enquanto longa-metragem brasileiro, a diretora agregou bastante com esse trabalho porque deu voz cinematográfica ao drama feminino, até então, só havíamos visto personagens masculinos como Zé Pequeno, Cabelereira, Sandro Nascimento e tantos outros jovens perdidos na criminalidade. Além disso, basta ouvir os noticiários/ documentários para ver que existem adolescentes que ficam grávidas e são abandonadas pelos pais das crianças, adolescentes que são vítimas de abusos sexuais (que, na maioria das vezes, ocorrem dentro de casa e com familiares próximos), adolescentes que se envolvem com bandidos porque mulher de bandido, em um contexto social frágil, dá um status à essas meninas além do sentimento de se sentirem amadas e protegidas, adolescentes que se prostituem e roubam para poder se alimentar e sustentar seus filhos. Abarcando todos os elementos desse triste cenário, a verdade é uma só: só sabe a verdade dos sonhos roubados quem os têm roubados, então nunca saberemos o que essas jovens sofrem em seus psíquicos detonados por tantas tragédias individuais em um ambiente coletivo que parece não oferecer nenhuma saída.






Embora tenha uma excelente fotografia de Walter Carvalho, uma competente interpretação de Nanda Costa, uma maravilhosa canção tema homônima interpretada pela revelação da MPB, Maria Gadú, e tenha sido premiado pelo júri popular do Festival do Rio, Sonhos Roubados é passível de não agradar alguns brasileiros que estão cansados de ver esse tipo de filmes com comunidades cariocas em pauta e acham ridículo termos somente filmes premiados desse tipo como Tropa de Elite, Cidade de Deus, Carandiri e Parada 174 como se eles fossem o retrato fiel do que é o só o Brasil, porém estigmas regionais e nacionais à parte, Sandra Werneck faz um filme que testemunha uma realidade, queiramos nós aceitá-la ou não, esse é o drama de muitas meninas e a essência do título de filme está além do que o filme expõe, ou seja, cada dia jovens têm sonhos roubados, não importa em qual estrato da sociedade, e o que fazer quando um sonho é roubado? Viver o pesadelo após o sonho roubado ou acordar para a realidade e tentar lutar por uma vida mais digna? Embora o filme de Werneck perca um pouco o ritmo e termine com um final comum, bem longe de propor uma solução ou um desfecho mais comovente, ainda assim é um filme muito honesto que não toma partido de ninguém e essa é uma ótica bem válida porque o que faria cada um de nós no lugar delas? Talvez a mesma coisa, então por que julgá-las? O preconceito não cabe nesse filme. O
bem da verdade é que a solução ainda é um tema complexo e cada um sabe a dor de ter um sonho roubado.



Avaliação MaDame Lumière



Título original: Sonhos Roubados
Origem: Brasil
Gênero: Drama
Duração: 85 min
Diretor(a): Sandra Werneck
Roteirista: Paulo Halm, baseado no livro "As meninas da Esquina" de Eliana Trindade
Elenco: Nanda Costa, Amanda Diniz, Kika de Farias, M.V. Bill, Nelson Xavier, Marieta Severo, Zezeh Barbosa, Daniel Dantas, Ângelo Antônio, Guilherme Duarte

sábado, 22 de maio de 2010

Um Filme, uma canção: O Clã das Adagas Voadoras (House of Flying Daggers - 2004), Lovers, de Kathleen Battle

Um filme, uma canção por Madame Lumière
a combinação inesquecível para uma nostálgica emoção




O cinema chinês de Zhang Yimou (de Lanternas Vermelhas e Héroi) sempre me encantou, não só por ter se tornado uma referência mais "acessível" do Cinema oriental trazendo grandes atores como Zhang Ziyi, Jet Li, Takeshi Kaneshiro, Andy Lau e Tony Leung , mas também porque ele consegue absorver em seus filmes o sublime aspecto afetivo dos orientais divididos entre o emotivo e o racional de suas escolhas e, dessa forma, rendendo algumas boas histórias de amor e de heroísmo que se tornam também histórias trágicas; uma das mais belas tragédias do Cinema chinês é o Clã das Adagas Voadoras (Shi mian mai fu), um filme belíssimo no qual eu tenho inestimável apreço.





O filme absorve o caratér épico da China de 859 que vivencia um momento dinástico decadente no qual insurgem grupos heróicos que lutam contra o governo corrupto, um deles o Clã das Adagas Voadoras que tem como uma das melhores rebeldes, a bela e cega Mei (Zhang Ziyi) que está na mira de dois soldados Leo (Andy Lau) e Jin (Takeshi Kaneshiro). O longa une ao épico o romance conflituoso de um triângulo amoroso formado por Mei, Leo e Jin que lutam não só em prol de suas responsabilidades sociais mas lutam contra seus sentimentos amorosos já que Mei e Jin se apaixonam perdidamente e pertencem a lados opostos, além de Leo ser obsessivamente apaixonado por Mei. Jin e Mei são os Lovers, os amantes da magnífica canção de Kathleen Battle que a interpreta de uma forma poeticamente sublime com sua suave voz soprano. Um primor clássico!







Lovers
é um música que, em seu embrião melódico, amoroso e trágico, é uma bela canção que declara o amor de Mei e Jin, é praticamente a confissão de um amor eterno entre eles, a ver pela letra: "Então eu sonho repetidamente, que você está me abraçando sob as estrelas, e eu fiz uma promessa para o meu querido senhor, eu o amarei para sempre". Mei fez uma escolha. Jin fez uma escolha. Ambos escolheram o amor acima de seus ofícios e, muitas vezes, escolher o amor é como morrer na tragédia e viver esse amor na eternidade de doloridas emoções; por isso ouvir
"Sua voz ainda ecoa no meu coração, você é o meu verdadeiro amor" encontra ressonância direta nas emoções com relação ao filme. Na impossibilidade deles viverem esse amor, é a canção que resta a ser ouvida e sentida no contexto do filme como uma promessa de fidelidade de amor eterno entre os amantes. Definitivamente, Lovers é como uma adaga, que não só belamente perfura os ouvidos com uma melancólica canção de amor, mas perfura os corações românticos que sempre lembrarão de Mei e Jin.


sexta-feira, 21 de maio de 2010

Vírus (Carriers) - 2009



Em época de vacinação contra a Influenza, o longa-metragemVírus, roteirizado e dirigido pela dupla espanhola de irmãos, os Pastor, venho a calhar para refletir sobre os fenômenos de uma pandemia, inclusive o medo, a intolerância, a luta pela sobrevivência e as regras criadas em um plano individual quando o coletivo é assombrado por um risco mortal de contrair um vírus e morrer. Com um roteiro que mescla o road movie com um cenário pós-apocalíptico de infectados e mortos e uma razoável dose de suspense, sua trama se limita a uma película em movimento na qual um grupo de amigos escapa da pandemia viral e tem o intuito de chegar a um destino no final da jornada que, nesse filme, é uma praia na qual os irmãos Brian (Chris Pine, de Star Trek) e Danny (Lou Taylor Pucci) se divertiam e encontravam agradável refúgio quando mais jovens. Nessa jornada junto aos irmãos estão Bobby (Piper Perabo), namorada de Brian, e Kate (Emily VanCamp), aparentemente uma paquera de Danny. Para fins de analogia, o final da viagem é encontrar um certo conforto assim como o parque de diversões de Zumbilândia e o filme segue alguns clichês típicos desse tipo de filme como um cara mais durão e que lidera a viagem (Brian) e um cara mais bondoso (Danny).





Vírus está mais para um drama mediano do que um filme de terror infestado de zumbis porque, para sobreviver, é necessário fazer escolhas e esquecer a conexão que os protagonistas têm com as pessoas e entre eles, logo o mais perigoso não é o vírus em si mas como o ser humano reage em um contexto como este. Mesmo sendo um filme sem grandes ações e efeitos aterrorizantes, além da fotografia da viagem, uma das suas melhores virtudes está em aproveitar esse cenário terminal em que a humanidade parece ter sucumbido e desconfia de todo mundo e, com isso, refletir como nós agimos perante riscos de pandemia como a ocorrida há pouco tempo atrás em nosso país, e como nós agimos com pessoas que estão doentes e infectadas por um vírus ou qualquer doença contagiosa. Nos tornamos pessoas mais intolerantes e mais egoístas seguindo à risca a decisão do "salve-se quem puder, de um doente eu não quero saber"? Afinal, quais são as regras que criamos para lidar com situações que amedontram e/ou criam um comportamento preconceituoso? De fato, existe intolerância e preconceito, independente do enfoque dado para tal tema em Vírus, além disso, seguindo o tom catástrofe de filmes como esse, a humanidade tem muito medo de contrair qualquer doença, e cada um pensa no próprio umbigo quando o veneno está no ar ou mora ao lado. Tem que haver muito amor para não abandonar quem amamos, um amor como o de genuínos pais que nunca abandonariam seus filhos.







Brian estipula algumas regras simples de sobrevivência que segue à risca e, a todo o momento, impõe tais regras ao grupo com sua forte personalidade. Ainda que seja mais racional em comparação aos outros colegas e pense na integridade no grupo, ele não deve ser julgado, afinal, será que não teríamos o mesmo comportamento dele e de tantos outros no filme? Será que não mudaríamos o nosso comportamento à medida que nossas vidas corressem risco? Será que não daríamos às costas a quem amamos? Durante a viagem, escolhas devem ser feitas, inclusive as que esbarram em um impasse afetivo e terminam em desapego e, refletindo sobre tal questão no plano real, há muita dor e solidão nessas escolhas e a certeza de que no final todo mundo fica sozinho; quem abandona e quem é abandonado, quem ama e quem aprende a desamar, quem morre e quem continua vivendo. Muitas vezes não é o vírus que mata, o que mata é como o ser humano é tratado quando está infectado e até mesmo quando não tem nada; nessas circunstâncias, como dito sabiamente no filme, "escolher viver pode ser a mais dolorosa forma de morrer"; finalmente Vírus é uma película que indiretamente deixa a seguinte pergunta: "Qual é o pior vírus?O vírus em si ou o ser humano que pensa somente em si mesmo?"



Avaliação MaDame Lumière



Título Original: Carriers
Origem: EUA
Gênero(s): Drama, Suspense
Duração: 84 min
Diretor(a): Àlex Pastor, David Pastor

Roteirista(s): Àlex Pastor, David Pastor
Elenco:Lou Taylor Pucci, Chris Pine, Piper Perabo, Emily VanCamp, Christopher Meloni, Kiernan Shipka, Ron McClary, Mark Moses, Josh Berry, Tim Janis, Dale Malley, Dylan Kenin, LeAnne Lynch, Jan Cunningham, Mary Peterson

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Dupla Implacável (From Paris with Love) - 2010



Luc Besson, produtor e roteirista Francês é um dos europeus mais americanos que existem. Ele gosta de muita adrenalina com direito à bastante pancadaria e tiroteiro e também aprecia um figurino com ternos bacanas e carros caros e velozes, logo isso tudo é um prato cheio para ele ser um dos grandes nomes como argumentista em filmes de ação. Seus filmes costumam ter um diferencial de elegância, ou seja, ele mantém o bom gosto visual do Cinema Europeu e costumam misturar a ação com sofisticação que dá até gosto ver tiros, porradas e explosões que, em poucos minutos, tem um poder letal de destruição. Sua parceria com o direitor Pierre Morel costuma ser muito boa, basta lembrar de Busca Implacável com Liam Neeson, raivoso o suficiente para livrar sua filha das mãos sujas de traficantes de mulheres.





Dessa vez, a dupla quis repetir o sucesso usando outra dupla de atores: John Travolta e Jonathan Rhys Meyers que interpretam, respectivamente, Charlie Wax e James Reece, dois agentes secretos que têm uma missão em plena bela Paris: combater terroristas que ameaçam realizar um atentado em uma reunião de líderes globais na embaixada Americana.Wax é um americano prático e experiente com relação ao seu ofício e tem métodos excêntricos de realizar as tarefas de agente; tem foco na missão, mata com facilidade, analisa todos os cenários e é um piadista com um estilo barra pesada, bem "porra louca" até na forma de se vestir e se comunicar. Reece é o oposto e está em início de carreira trabalhando como agente infiltrado na embaixada americana pois preza muito pela sua carreira e promoção. Elegante, poliglota, sensível, Reece mais parece um candidato à diplomata ou filhinho de papai do que um agente secreto para trabalhar ao lado de Wax. Eles acabam sendo parceiros nessa missão e têm que trabalhar juntos lidando com as diferenças entre eles. O que deveria ser uma dupla bem implacável, com uma sinérgica atuação na ação, torna-se uma dupla sem coesão, presa a um roteiro fraco cujas ações não tornam a película tão boa quanto Busca Implacável e outros trabalhos de criação de Besson como por exemplo a série Carga Explosiva.






John Travolta se esforça em entregar um agente bem humorado com métodos um tanto controversos de atuação como se estivesse unindo trabalho e diversão em Paris e, sem dúvidas, mesmo com o humor arrastado da dupla, o ator tem o melhor papel e a melhor atuação em compensação ao seu perdido parceiro Jonathan Rhys Meyers. Travolta e seu espírito impiedoso de fazer o serviço secreto, atira para matar, explode carros e locais, desconfia de tudo e todos e ainda tem que lidar com um agente inexperiente que mal pode sujar a própria cara e o terno. Meyers transmite que está perdido no papel ingrato que lhe deram, logo nem assumiu o fato de ser um protagonista (afinal o filme se chama "dupla" implacável na repetitiva tradução tupiniquim). Ele também não faz bonito nem como coadjuvante, basta verificar o mico que ele paga em uma longa sequência ao carregar um vaso cheio de cocaína para Wax, e ainda, tem que aceitar as ordens do agente mais experiente e muito mais esperto. Meyers só é usado e tem uma certa importância na trama porque, mais adiante, é necessário relacioná-lo com os desdobramentos para o desfecho, logo esse papel pouco agregou à sua carreira para torná-lo um talento diferenciado. Além disso, as locações parisienses também deixam a desejar e poderiam ser melhor exploradas assim como o fizeram com a bela fotografia dos créditos iniciais ao som de uma música Francesa e da perseguição de carros na Autobahn Parisiense. Alguns elementos próprios da Europa que aparecem no filme como, por exemplo, a presença de vários imigrantes estrangeiros fora da lei também poderiam ter maior destaque para dinamizar a problemática social; eles acabam sendo meros coadjuvantes com nenhum grande vilão na ação; logo, de maneira geral, Dupla Implacável só vale a pena para contemplar algumas cenas de ação que detonam homens e lugares em poucos minutos e ver Travolta bancando o palhaço para entreter o espectador e salvar o filme. O Miami Vice de Besson não deu certo nem na dupla e nem no implacável.




Avaliação MaDame Lumière






Título Original: From Paris with Love
Origem: França
Gênero(s): Ação, Crime, Policial
Duração: 92 min
Diretor(a): Pierre Morel
Roteirista(s): Luc Besson e Adi Hasak
Elenco: John Travolta, Jonathan Rhys Meyers, Kasia Smutniak, Richard Durden, Yin Bing, Amber Rose Revah, Eric Gordon, François Bredon, Chems Dahmani, Sami Darr, Julien Hagnery, Mostéfa Stiti, Rebecca Dayan, Michaël Vander-Meiren, Didier Constant