sábado, 27 de fevereiro de 2010

O Visitante (The Visitor) - 2007



O Visitante, com roteiro e direção de Thomas McCarthy poderia ser uma história de todos nós, talvez mais de uns em detrimento a outros. É uma história de transformação de um homem solitário que, de tanto fingir que faz muitas atividades, ou seja, de tanto fingir que vive, não faz nada com sua vida. O drama, ambientado em Nova York, relata a história de Walter Vale (Richard Jenkis, indicado ao Oscar e em brilhante atuação), um professor universitário que vive em Connecticut e viaja a NY para uma conferência. Ao chegar na cidade, encontra um casal de imigrantes ilegais morando em seu apartamento, o percussionista Tarek Khalil (Haaz Sleiman) e a artesã de bijoux Zainab (Danai Gurira), ambos muçulmanos e com os sonhos de viver na terra do tio Sam. Ele acaba se sensibilizando com a situação do casal, compreendendo os desentendimentos ocorridos e oferecendo sua moradia, compartilhando juntos o mesmo apto. Durante essa convivência, Walter, que é um homem que está petrificado perante sua vida, levando-a com apatia, na mesmice e não se permitindo nenhuma diversão, começa a desenvolver uma bonita amizade com Tarek que o incentiva a tocar tambor. Ele toma gosto pela empolgante música de influências orientais e africanas, trocando o piano clássico pelo tambor sírio e, a partir daí, uma série de mudanças acontecem na vida de todos, inclusive na de Walter Vale, algumas mais tristes nas vidas dos imigrantes mas certamente necessárias para Vale passar por esse processo de transformação a partir da vida desse querido casal.





O que torna o visitante um belo filme, com uma mensagem positiva de mudança é que, de morador do apartamento Walter Vale se torna o visitante na vida desse casal a tal ponto que vivencia uma triste história que enfoca o tema da imigração ilegal e as mazelas de prisão e deportação de estrangeiros, tema que é a parte mais social da história (e também catalisante) que, em excelente combinação com o emocional transforma O Visitante em uma tocante história que visita o coração do cinéfilo. Walter Vale visita a vida de Tarek e Zainab e se transforma a partir dela. Por outro lado, Tarek é fundamental para despertar a vida de Vale, o incentivando no amor à música e à descoberta de um ótimo percussionista em Vale, logo Tarek também é como um visitante na vida do professor e, isso também se torna evidente, pois a visita chega à vida de Vale e também sai. A relação é recíproca, e por ser assim, há um laço forte que liga essas vidas que permea todo o enredo em nítidos comportamentos de ambos. Sendo Vale um homem solitário, viúvo e distante do único filho, a amizade com Tarek e o drama que os acompanha possibilita que Vale conheça a mãe de Tarek, Mouna Khalil (Hiam Abbass) e ambos tenham ótimos momentos de companheirismo, despertando Walter Vale até mesmo no plano afetivo com uma nova mulher. Ele renasce para a vida, se torna um homem mais vivaz, mais humano, mais Walter Vale.





Por que O Visitante deve visitar nossas vidas?
Acima de tudo, O Visitante é uma película americana que foge do convencional americano e é bem dirigida. Não é comercial e nem tem jeito de comercial. É um filme reflexivo que mais parece ter sido produzido como aqueles existenciais do cinema europeu. Walter Vale é o homem que alcançou um ótimo nível profissional mas não oxigena a própria vida; exemplos clássicos de tal comportamento é que ele leciona o mesmo conjunto de disciplinas há anos, além de desistir de praticar um hobby musical sem qualquer bom argumento, parando de fazê-lo pela metade. Como milhares de pessoas por aí na contemporaneidade da estressante vida, Walter Vale finge ser muito ocupado mas já não vê tanto sentido em viver a vida plenamente, por isso não faz nem o elementar. Ironicamente ele é ocupado de "mentirinha"; na verdade, ele caiu no ostracismo, no ócio que, em Vale, não é nada criativo, por isso, O Visitante abre uma perspectiva ao espectador para a reflexão a partir daquele ponto na vida que parece não fazer mais nenhum sentido, e mesmo assim, é empurrado pela barriga sem querer ser empurrado. Essa é a atualidade do longa-metragem de McCarthy que move o espectador à uma revisitação dos valores e, principalmente, o drama existencial daqueles que parecem não reagir à paralisia do cotidiano, a não ser que recebam uma ajuda externa que é o olhar de um outro que lhe desperte olhar a vida de forma diferente, de uma forma mais assertiva. Por isso, conhecer esse casal de imigrantes é como uma salvação para Vale. Há momentos que pessoas precisam salvar pessoas, precisam visitar suas vidas, precisam se conectar com elas.



Avaliação MaDame Lumière


Título original: The Visitor
Origem:
EUA
Gênero:
Drama
Duração:
103 min
Diretor(a):
Thomas McCarthy
Roteirista(s): Thomas McCarthy
Elenco: Richard Jenkins, Haaz Sleiman, Danai Gurira, Hiam Abbass, Marian Seldes, Maggie Moore, Michael Cumpsty, Bill McHenry, Richard Kind, Tzahi Moskovitz, Amir Arison, Neal Lerner, Ramon Fernandez, Frank Pando, Waleed Zuaiter

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Um Filme, uma canção: Pearl Harbor (2001), Tennessee de Hans Zimmer

Um filme, uma canção por Madame Lumière
a combinação inesquecível para uma nostálgica emoção




Se há um músico que me emociona intensamente com as trilhas sonoras é Hans Zimmer e, uma das músicas mais marcantes que se mistura ao clima de romance com as mazelas dos encontros e desencontros em meio a uma guerra é Tennessee, linda canção presente na trilha sonora de Pearl Harbor, filme produzido por Jerry Bruckheimer e dirigido por Michael Bay, os quais também apreciam uma trilha sonora romantizada em meio às explosões de uma batalha. Além de eu amar muito essa película, é uma música tão emotiva que chega a lacrimejar meu coração como se o mesmo pudesse derramar lágrimas ao pensar na história de amor de dois soldados que se apaixonam pela mesma mulher. Essa canção sempre me faz pensar no amor e na guerra e seus processos de perdas. E o que é o amor e a guerra se não também adaptar-se às perdas e aos ganhos como o que aconteceu com Danny Walker (Josh Hartnett), Rafe McCawley (Ben Affleck) e Evelyn Stewart (Kate Beckinsale)? Uma série de explosões apaixonantes que vão desde às exaltações intensas de paixão até corações partidos em pedaços. Amar também é estar em uma guerra de crescentes emoções.





"Oh Rafe, all I ever wanted was for us to have a home and grow old together, but life never asked me what I wanted. Now I'm going to give Danny my whole heart... but I don't think I'll ever look at another sunset without thinking of you... I'll love you my whole life. "(Evelyn's quote to Rafe)

"Oh Rafe, tudo que eu sempre quis para nós era ter uma casa e que envelhecéssemos juntos para sempre, mas a vida nunca me perguntou o que eu queria. Agora eu darei meu coração inteiro para o Danny... mas eu acho que eu nunca mais olharei um pôr do sol sem pensar em você... Eu te amarei por toda minha vida."(Citação de Evelyn para Rafe)






quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A Emblemática Citação da Semana: Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society) - 1989



"I went into the woods because I wanted to live deliberately. I wanted to live deep and suck out all the marrow of life... to put to rout out all that was not life; and not, when I came to die, discover that I had not lived."

"Eu fui à floresta porque queria viver deliberadamente. Eu queria viver profundamente e sugar toda a essência da vida. Eliminar tudo o que não era vida. E, não, ao morrer, descobrir que não vivi."



(Neil Perry interpretado por Robert Sean Leonard em citação poética
de Henry David Thoreau em
Sociedade dos Poetas Mortos, de Peter Weir)


MaDame Lumière deseja aproveitar cada dia intensamente,
sugar a essência da vida, a fonte do Carpe Diem

o bálsamo da extraordinária vida.


Créditos foto: Fan Pop

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Literatura no Cinema: Antígona de Sófocles em Antígona de Yiorgos Tzavellas (1961)



Adaptada em 1961 no cinema grego, a tragédia Antígona de Sófocles foi dirigida por Yiorgos Tzavellas e estrelada pela divina Irene Papas como Antígona e Manos Katrakis como Creonte. Uma sublime tragédia que através da história de uma contemporânea heroína faz uma crítica à decadência do Estado e louva o instinto da liberdade humana. Na tragédia, Antígona é uma mulher que infrige a ordem de seu irmão Creonte, rei de Tebas. Ela transcende o poder do soberano, simplesmente porque é proibida de enterrar o próprio irmão. Ela é presa e enterrada viva em uma caverna. Ela não sobreviveu em favor da liberdade, mas sua preciosidade está em reivindicar um valor universal - a liberdade. Liberdade é o maior e primeiro instinto, que transgride qualquer lei. Basta lembrar que ao nascer, todo homem sai da barriga da mãe, depois esse homem cresce e quer sair da casa dos pais. Antígona pode ter honrado o funeral de seu irmão(escolha individual), mas o fato de ter o direito a fazer isso a leva a um outro âmbito social (escolha coletiva), que é a representatividade da liberdade de todos.





A beleza de Antígona está em dramatizar o drama da condição humana, que é a luta pela liberdade. Liberdade que é podada pela tirania do Estado. A figura de Creonte como soberano e sua atitude só reforça que não há liberdade, mesmo que o discurso dos poderosos seja democrático. Não há liberdade na intolerância. Antígona expressa este inferno que aprisiona evocando antes de sua morte: "Sem que alguém cante o himeneu por mim, sem que na alcova nupcial me acolha um hino, caso-me com o negro inferno". Este foi seu clamor antes de ser enterrada viva em uma caverna. Infeliz Antígona, ainda que defendera a família, é enterrada injustamente sem gozar a vida, sem filhos, sem esposo e até sem as honras de um funeral. Esse era o negro e eterno inferno ao qual ela se referia, mas o mesmo negro inferno seria vivido em vida, com a tirania de Creonte e,consequentemente, a falta de liberdade. É interessante observar como os heróis trágicos não têm saída e devem viver a tragédia de seus destinos. Mais interessante é saber que os propósitos trágicos são alcançados tanto nos heróis quanto na audiência. O efeito catártico, de temor e piedade queima em nós como se não fossemos senhores de nossos destinos muito menos culpados pelas nossas desgraças. Assim sentimos piedade pelas Antígonas, Édipos e Medéias da vida. Assim sentimos piedade por todos nós.





(…) ANTÍGONA – Ai, túmulo! Ai, leito nupcial! Ai, subterrânea moradia que para sempre habitarei! Para ti me dirijo, ao encontro dos meus. Destes, colheu Perséfona já um avultado número, mortos todos de miserável morte. Faltava eu, e a minha morte será a mais horrível de todas. Vou, também, para debaixo da terra, sem que haja cumprido a vida que o destino me concedera. Mas alimento, ainda, a esperança de, ao chegar lá abaixo, ser bem recebida por meu pai e por minha mãe; e que tu me aceites, meu querido irmão! Com minhas próprias mãos lavei vossos cadáveres, preparei-os e sobre os vossos túmulos fiz as libações rituais. E eis que obtive, por querer observar o respeito devido ao teu corpo. Polinices … Os prudentes não hão-de censurar-me por isso; pois, nem que tivera filhos e meu marido estivesse moribundo, eu deixaria, contra a vontade do povo, de desempenhar este doloroso papel. Em virtude de que lei digo isto? É que, se um marido me morresse, podia encontrar outro; e até outro filho, se algum perdesse do anterior matrimónio. Mas, mortos meu pai e minha mãe, ambos já em Hades, nenhum outro irmão podia ter. Por isso, irmão, te honrei a ti, mais que a ninguém. Mas Creonte viu nisto uma acção má e um terrível atrevimento. E. agora, prendeu-me; estou nas suas mãos, arrasta-me para um sacrifício, sem boda, sem himeneu, sem esponsais, sem filhos para criar. Assim, sem amigos que me valham, vou – ó desgraçada: e viva, ainda! – para o túmulo. Por haver transgredido alguma lei divina? E qual? Servirá, agora, ai pobre de mim! Voltar-me para os deuses? A qual poderia, agora, implorar auxílio? Por ter piedade, sou chamada ímpia; e se os deuses me julgarem assim, reconhecerei o meu erro. Porém, se são outros os que erram, que todos os seus males sejam maiores do que os meus – estes que injustamente sofro. (…)




Continue acompanhando
Literatura no Cinema por MaDame Lumière,
periodicidade mensal

Saudações Cinéfilas e Literárias

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Dúvida (Doubt) - 2008


O poder da dúvida é um dos mais desgastantes que existem. Desgastante para quem duvida de alguém, desgastante para quem é posto em dúvida. De fato, tal processo pressiona o indivíduo com uma acusação que pode ser sentenciada ou não, mas não é a sentença em si que desgasta mais, o que desgasta é o processo da dúvida, o que está suspenso no ar e reforça mais ainda o conflito. Em Dúvida, filme baseado na peça Doubt, vencedor do Pulitzer e roteirizado e dirigido por John Patrick Shanley é a dúvida que persiste, e ironicamente, é retroalimentada por uma certeza muito cega evocada por uma freira contra um padre. No enredo Meryl Streep é Aloysius Beauvier, freira diretora de uma escola Católica Americana no Bronx, uma mulher tradicionalmente insuportável, opressora, autoritária, ou seja, exerce seu cargo de uma forma anti-carismática, ortodoxamente com vilania, o que evidencia, a olhos nus, que ela contraria até o bom exemplo da benevolência do Evangelho. Ao dar ouvidos a uma suspeita da irmã James (Amy Adams) de que o padre da diocese, Brendan Flynn (Philip Seymour Hoffman, perfeito como sempre) tem um relacionamento mais próximo com o único aluno negro da escola, o que sinaliza que pode haver uma relação de abuso sexual ao menor. Irmã Beauvier vira o próprio démon com tal suspeita e atormenta Padre Flynn passando por cima até do comportamento esperado de um subordinado já que ela se reporta hierarquicamente ao padre. A dúvida dela é tão cega e tão baseada em uma fé absoluta de que há algo errado com o liberal Flynn que é como se ela defendesse a própria religião com uma certeza convertida em fé.





O roteiro de Shanley materializa a arena de dois titãs : Streep e Hoffman, em diálogos longos e inteligentes, magnificamente bem interpretados que coloca em pauta a dúvida. E a dúvida em si torna-se uma manifestação muito mais demoníaca na performance de Streep. Ela chega a fazê-lo de uma forma tão convicente, reforçada pelas expressões nos rostos do elenco principal que sugerem um ponto de interrogação e detalhes no ambiente que abrilhantam a atmosfera dramática que é impossível não se reunir ao time de Dúvida. O espectador é levado a esta arena e Hoffman rebate Streep com tanta sabedoria que não sabemos quem é o errado da história. O padre é um pedófilo ou não? Ele é inocente ou culpado? Qual a fronteira entre o pastoreio De um padre sobre uma criança carente que vê nesse padre um grande amigo? A maldade está na cabeça de Irmã Beauvier ou não? Dúvida é um filme complexo porque o ato de julgar e/ou sugerir uma culpa em outro alguém é uma faca de dois gumes, ou seja, o mesmo que julga pode enforcar o próprio pescoço e ser culpado por julgar, ou seja, a sua dúvida é uma dúvida, principalmente quando se está julgando um padre, o intermediário entre Deus e o povo na fé Católica, tal ação se torna controversa, por isso não há dúvidas de que Dúvida é um grande espetáculo polêmico que deixa o espectador com dúvidas do começo ao fim. Dado os escandâlos que já colocaram padres como réus em crimes de pedofilia, parece que sempre há uma suspeita natural sobre esse público, um pré-julgamento que, independente do filme, já permite previamente afirmar que Irmã Beauvier pode estar certa. Mas Irmã Beauvier é uma beata perigosa maledicente ou somente vítima de sua própria fé cega? Mais uma questão para reflexão, afinal, ela também evidencia um sofrimento ao expressar sua dúvida mesmo que mantenha o pulso firme em desconfiar do padre. Talvez ela não tenha tanta certeza, só não tem coragem de assumir sua incerteza. Por isso, Dúvida é uma película que coloca em pauta certezas e incertezas, bem e mal, e formidavelmente, a aproximação entre a dúvida e a certeza que são como imãs, como co-dependentes um do outro nesse processo de julgamentos e interpretações.





Dúvida tem outras grandes virtudes como filme, muito além de trabalhar estes limites delicados e ter as excelentes atuações de Streep, Hoffman, Adams e Davis (esta última em uma das mais curtas e vibrantes interpretações de uma atriz coadjuvante no cinema, como a mãe do aluno negro e merecidamente indicada ao Oscar). É um Filme que tem a veia teatral de emblemáticos embates de personagens como ocorrido com Streep e Hoffman, mas sem a cara completa de um teatro. Também é um filme que opõe uma freira tradicional e um padre modernizado, o que (in)diretamente, traz uma reflexão mais contemporânea como está a igreja atual. Em meio a dúvidas que incriminam, já em um discurso, a índole de uma autoridade eclesiástica mais “liberal” partindo de uma outra figura tradicional da instituição, tal fato põe em dúvida como os dogmas têm sido exercidos dentro da igreja. O interessante nesse aspecto dogmático é que dogmas já separam o certo do errado e são pregados como verdades inquestionáveis, mas será que Deus julgaria padre Flynn como irmã Beauvier o fez? Que tipo de fé absoluta é essa que é capaz de acusar um líder religioso sem ter provas? Independente se o padre infrigiu a lei ou não, isso será uma dúvida eterna em Dúvida, ele não está sendo defendido afincamente nem por ele próprio.A única certeza aqui é que a convicção da certeza talvez seja o maior erro de qualquer autoridade religiosa (e qualquer pessoa) que se predispõe a apontar o dedo, duvidar e/ou acusar outro alguém que segue uma fé ou conduta diferente, por isso, Dúvida traz outros questionamentos em um plano mais profundo e realista, em especial, como nossa fé e exercício da fé são colocados em dúvida.


Avaliação MaDame Lumière


Título original: Doubt
Origem:
EUA
Gênero:
Drama
Duração:
104 min
Diretor(a):
John Patrick Shanley
Roteirista(s): John Patrick Shanley
Elenco: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis, Alice Drummond, Audrie Neenan, Susan Blommaert, Carrie Preston, John Costelloe, Lloyd Clay Brown, Joseph Foster, Bridget Megan Clark, Michael Roukis, Haklar Dezso, Frank Shanley

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Um Homem Sério (A Serious Man) - 2009


Indicado Oscar 2010 - melhor filme
melhor roteiro original
Resenha integrante da Maratona Oscar 2010
por MaDame Lumière.
Glamourize-se antes da premiação
com MaDame.

Atenção à sugestão: Leia essa crítica somente se já tenha assistido o filme.


A vida tem lá os seus mistérios, não é mesmo? E eles se tornam mais inconvenientes quando impactam nossas vidas negativamente com uma série de problemas e perguntas sem respostas, por mais que você, homem ou mulher, tente ser uma pessoa séria, ter uma vida responsável com a família, com o trabalho, com os amigos e vizinhos, ser verdadeiramente temente ao seu credo e respectivas tradições, mesmo assim, o caos insiste em desabar na sua vida. Se você se esforça em ser um homem ou uma mulher séria, você se identificará com o novo filme dos sarcásticos irmãos Coen, um dos filmes indicados à categoria de melhor filme no Oscar 2010, merecidamente. O inteligente enredo, brilhantemente satírico com o toque único do humor negro a la Coen, toma como exemplo uma família judia na década de 60, em especial, através do protagonista Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg, formidável), professor universitário de física, o bom homem que mesmo mergulhado em problemas e dúvidas é passivo e comformista. Existirá lugar no mundo para homens como Larry? Larry vê uma série de acontecimentos azarados em sua vida e para dar a nuance perfeita de tal caos, a interpretação de Michael Stuhlbarg está suprema com caras e bocas desesperadas na medida certa para uma estética dos irmãos Coen, muito bem humorada na sua forma mais satírica e negra. Embora seja utilizado o judaísmo no texto, o novo trabalho dos irmãos Coen se adequa muito bem a vários credos, chegando a ser universal, mas se adere perfeitamente também ao Cristianismo através de Jó, o homem temente a Deus que recebe uma série de provações e, mesmo assim, mantém-se fiel ao seu Senhor.








O judeu Larry começa sua saga tenebrosa quando seu casamento começa a afundar repentinamente. Sua esposa Judith (Sari Lennick, sinistra) o aborda friamente e diz que está com outro homem, Sy Ableman (Fred Melamed, ótimo e, ironicamente intitulado na película como "O homem sério"). Ela deseja o divórcio urgente e pede para que ele saía de casa. Ele se muda para um hotel levando seu problemático irmão, Arthur (Richard Kind) no seu encalço. Seu filho rebelde Danny (Aaron Wolff, hilário) gosta de fumar um baseado, ouvir música na sala de aula, roubar a grana da irmã e está às vésperas do seu Bar Mtizvá (que é um ritual religioso judaico de passagem do jovem para a maturidade). Sua filha Sarah (Jessica McManus) é um jovem estranha que pensa só em fazer uma plástica no nariz. Enfim, uma família complicada, sem diálogo e sem harmonia na qual cada um cuida da própria vida. Larry também está com problemas no trabalho com um aluno imigrante que tem péssimas notas e nitidamente deseja suborná-lo, ele se vê pressionado a colocar em risco sua ética profissional, além de estar sob avaliação da comissão da universidade que está aferindo se ele merece ou não sua estabilidade no cargo e que vem recebendo cartas anônimas que põem em risco a reputação de Larry. Ele está com múltiplos problemas que são formidavelmente colocados em cena com direito a umas gargalhadas obscuras na platéia, afinal, rir da desgraça alheia faz parte do entretenimento Coen(iano), e a todo momento, Larry parece caminhar à sua própria condenação, seja na relação familiar, comunitária e profissional, ele é sempre testado com uma nova incógnita.






O caos de Larry leva-o a tomar uma decisão: buscar ajuda pastoral dos rabinos. Nas tentativas, as mais engraçadas possíveis, ninguém tem uma resposta para Larry, embora haja diálogos que levam o espectador à reflexão, a de que não há uma resposta, nunca ninguém a teve, não seria diferente agora, confirmando a frase de abertura da película: "Receba com simplicidade tudo o que acontece com você. Por isso, Um Homem Sério é tão rico em suas pobres respostas porque, de fato, na tentativa de ser "um homem sério" somos assolados pelo caos como se a lei de Murphy fosse parte principal do processo de provação e acontecesse bem mais com pessoas íntegras. Vale a pena ser um homem sério? Eis a questão. Além disso é sabido que seguir um credo mesmo que seja o credo na própria vida é também sofrer, não ter controle sobre tudo e muito menos entender sobre tudo seja no campo terreno seja no campo espiritual, a verdade é nua e crua, assim com os personagens dos irmãos Coen, estamos entregues ao destino, seja ele divino ou não. Nesse aspecto, o filme é muito funcional porque não há um ser humano normal que não tenha vivenciado situações difíceis e incompreensíveis. É natural do ser humano questionar. Uns reclamam mais , outros menos, uns buscam ajuda espirtitual somente na solidão de suas orações, outros buscam ajuda espiritual com líderes e outras referências espirituais, mas no final de toda a jornada, a velha moral da história serve para todo mundo: provações são necessárias mesmo que pareçam injustiças desnecessárias. Larry se sente injustiçado e isso é intríseco ao ser humano, ninguém gosta de ter a sensação de estar sendo castigado pela vida, nesse ponto, Um Homem Sério é honesto com o espectador ainda que seja dirigido de uma forma cômica para extrair o riso sombrio, a película também consegue ser honesta porque não há superação na vida de Larry, não interessa tal superação nessa obra, o que vale é o aqui e o agora e qual o próximo tormento de Larry que, talvez um dia, encontre sua paz, nunca saberemos assim como nunca saberemos as respostas para muitas de nossas perguntas.





Além de uma clean e belíssima fotografia de Roger Deakins, há performances com grandes sacadas para essa reflexão como palavras do rabino Nachtner (George Wyner) : "estas suas pertubações talvez sejam como dor de dentes"(de fato, elas passam...), "não sabemos de tudo" (exato, inclusive os líderes religiosos), as palavras do grande e inacessível rabino Marshak (Alan Mandell, hilário) citando trecho de Jefferson Airplane (da música Somebody to love) em diálogo com Danny pós
Bar Mtizvá, cena que merece atenção no desfecho e é fabulosamente um tapa na cara dos mais caóticos por respostas; assim como a bandeira americana se movendo na aproximação de uma forte tempestade que se torna a metáfora ideal de que no caos da crise que assolou economia americana ninguém teve as respostas que desejava, nem os que não tiveram suas vidas tão impactadas e nem os que viveram o marasmo em sua própria sobrevivência pessoal e familiar, como o desemprego, por exemplo. Esse filme pode parecer inútil em não dar respostas claras e complexas e até apresentar uma visão negativa, no entanto, ocorre exatamente o contrário, Um Homem sério é revelador exatamente por não enganar-nos, logo a sátira funciona como deve funcionar: conta uma verdade simples porém de reflexão profunda. Homens sérios nunca conseguem ser levados a sério como deveriam ser, mas aqui na sublime ironia dos Coen, eles são. São levados a sério para que reflitam se vale a pena continuarem sérios.


Avaliação MaDame Lumière



Título original: A Serious Man
Origem:
EUA
Gênero:
Drama, Comédia Dramática
Duração:
106 min
Diretor(a):
Joen Coen, Ethan Coen
Roteirista(s): Joen Coen, Ethan Coen
Elenco: Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Fred Melamed, Sari Lennick, Aaron Wolff, Jessica McManus, Peter Breitmayer, Brent Braunschweig, David Kang, Benjy Portnoe, Jack Swiler, Andrew S. Lentz, Jon Kaminski Jr., Ari Hoptman, Alan Mandell

domingo, 21 de fevereiro de 2010

BAFTA 2010 - Os Vencedores do Oscar Britânico


A British Academy of Film and Television Arts (BAFTA), considerado o Oscar Britânico divulgou seus vencedores, aquecendo ainda mais o termômetro do Oscar de 7 de março. Dessa vez, Guerra ao Terror de Kathryn Bigelow (ex-mulher de James Cameron de Avatar) foi o grande vencedor com seis premiações confirmando que a Rainha Bigelow reinou sobre o "Rei do Mundo", autoproclamação de Cameron quando realizou o blockbuster Titanic. E o melhor de tudo, o BAFTA foi mais justo que o Globo de Ouro em algumas categorias, para a alegria geral dos cinéfilos inconformados pela politicagem do GGA.

Clique aqui para a lista geral dos vencedores e
confira abaixo, resumidamente, o que
MaDame achou das principais categorias


Melhor Filme: Guerra ao Terror

"Meu favorito era Bastardos Inglórios que infelizmente não foi indicado nessa categoria. Amor sem Escalas era minha segunda opção, porém acho merecido o prêmio mais por causa do trabalho de Bigelow que o filme em si. De alguma forma, encarar a tensão da adrenalina da câmera de Bigelow e a de um militar viciado em guerra é raridade."





Melhor Diretor: Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror)

"Estava torcendo por Tarantino ou Bigelow. Assumo que, em um universo tomado por homens, Bigelow fez um excelente trabalho e merece ser a favorita ao Oscar, além do lobby ter funcionado bem. Confesso que é irresistível ver a coroa de Cameron caindo dessa vez. Ele ganhará em outras categorias com o seu Avatar, então é justo ceder um pouco do sucesso à sua ex esposa que, aliás, tem luz própria."





Melhor Ator: Colin Firth (Direito de Amar)

"Aconteceu o que eu tanto desejava, Colin Firth ganhar sobre o favorito Jeff Bridges(que também é formidável) . Firth precisou superar muito mais o estigma de engomadinho de comédias românticas, além de Direito de Amar ser o primeiro trabalho do empreendedor empresário e estilista Tom Ford e ter uma temática homossexual, tudo a la Tom Ford."





Melhor Atriz: Carey Mulligan (Educação)

"Sem Sandra Bullock no BAFTA, Carey Mulligan reina maravilhosa na sua Inglaterra. A única que poderia tirar-lhe o prêmio era a diva Meryl Streep por Julie & Julia, mas Mulligan entregou mais performance em sua Jenny do que caracterização. O seu papel a ajudou."


Melhor ator coadjuvante: Christoph Waltz (Bastardos Inglórios)

"Ich liebe Waltz", é tudo o que posso dizer sobre o invencível ator coadjuvante mais principal do momento. Inteligente atuação, sempre versátil e elegante como Hans. E que venha o Oscar!"


Melhor atriz coadjuvante: Mo'Nique (Preciosa)

"A interpretação mais visceral dentre os candidatos ao BAFTA e ao Oscar. Mo'Nique está tão maravilhosamente odiosa para ser amada pelas premiações. E que venha o Oscar também!"


Melhor filme estrangeiro: Um Profeta, França

"Um milagre que pode ser compreendido: Um Profeta batendo no favorito A fita branca, de Haneke. Não é superior ao filme alemão, mas é um excelente trabalho sobre as questões étnicas na Europa, com uma forte abordagem de um herói que cria suas próprias leis de sobrevivência. E esse herói é o mais anti herói no estigma social: um presidiário de origem árabe. Será que vai dar zebra no Oscar?


Melhor animação: Up Altas aventuras

"Sensível, adorável, supremo e com excelente trilha sonora
que também venceu merecidamente o BAFTA. Vai ganhar o Oscar com o selo da qualidade Pixar."



Melhor roteiro original : Guerra ao Terror

"Mil vezes o roteiro de Bastardos Inglórios, mas melhor ver
Guerra ao Terror ganhando do que Se Beber não case.
Seria capaz de me alcoolizar se isso ocorresse."



Melhor roteiro adaptado: Amor sem escalas

"Clap, clap, clap. Reitman realiza um roteiro conciso, totalmente preciso
e coerente com a modernidade do livro. Estou na torcida do Oscar por ele."

O Mensageiro (The Messenger) - 2009

Indicado Oscar 2010
melhor ator coadjuvante "Woody Harrelson"
melhor roteiro original
Resenha integrante da Maratona Oscar 2010
por MaDame Lumière.
Glamourize-se antes da premiação
com MaDame.


Este ano a Academia decidiu reconhecer alguns novatos nas indicações do Oscar 2010. Há dois destaques de diretores que assinam também roteiros. Além do bem sucedido diretor sulafricano Neill Blomkamp que rodou seu primeiro longa metragem Distrito 9, o americano Oren Moverman estreou na direção de O Mensageiro, o drama de guerra estrelado por Ben Foster e Woody Harrelson. Moverman não teve sua película indicada ao Oscar de melhor filme como Blomkamp, no entanto, conseguiu ser indicado como roteiro original ao lado de Alessandro Camon, que também foi batizado em roteiros e tem experiência como produtor de alguns filmes, dentre os quais: o breve lançamento Wall Street 2, o recém lançado Vício Frenético e o excelente Obrigado por Fumar, dirigido por Jason Reitman de Amor sem Escalas e Juno. O Mensageiro é um sensível drama sobre dois homens, Capitão Tony Stone (Woody Harrelson) e Sargento Will Montgomery (Ben Foster, estranhamente ótimo como seu estranho personagem deve ser) que desempenham uma das mais ingratas funções do Exército Americano: ser um mensageiro. O mensageiro tem a responsabilidade de informar às famílias americanas sobre os seus familiares militares que foram mortos em combate. É uma tarefa que exige um formal protocolo no qual não se deve haver qualquer tipo de envolvimento emocional com a família dos mortos, é simplesmente chegar em suas residências e avisar sobre a perda em nome do Secretário do Exército Americano, dando-lhes as informações sobre as próximas ações de caratér funerário e suporte psicológico. Basta imaginar o quanto é difícil dar os pêsames da morte de alguém para um ente querido ou um conhecido, já é complicado fazê-lo, imagine chegar de farda, dar a notícia como se fosse uma máquina humana e sair do recinto, as atitudes dos familiares são múltiplas e muito emocionantes.







Will é o militar que acabou de voltar da Guerra do Iraque e está se recuperando dos ferimentos de guerra que atacaram principalmente a sua visão. Inicialmente, Will é um homem muito isolado, estranho, endurecido pela guerra. Tendo escolhido a vida de militar, ele perdeu a namorada de adolescência Kelly (Jena Malone) que ficará noiva de outro homem. É um solitário e, estando de volta, recebeu um "prêmio", agora foi escalado pelo superior a desempenhar a função de mensageiro. Por outro lado, Tony é o militar que tem o expert de mensageiro e é responsável pelo treinamento de Will na nova função. Inicialmente, Tony é um homem durão, machão, com um senso de humor piadista (Harrelson, sempre ótimo) e nem parece ter feridas de guerra a não ser sua recuperação no Alcóolatras Anônimos dado que o alcoolismo é um dos dramas de ex veteranos de guerra.Will e Tony
começam a trabalhar juntos nessa triste ocupação e o Mensageiro expõe o drama das famílias cujas cenas são um dos melhores atrativos desse filme. As reações são diversas que vão desde a negação, passando pela agressão e a aceitação até a falta de ação e também muitas lágrimas e gritos de dor. Esses enquadramentos de cena são muito bem realizados porque não soam melodramáticos e apelativos mesmo que sejam dramáticos. As escolhas de cena conseguem variar os tipos de comportamentos familiares em uma situação in(esperada) e projeta o espectador na veracidade de tal forma que é possível imaginar como reagiríamos se estivéssemos no lugar de Will e Tony ou no lugar das famílias. Além disso, através dessas situações de mensageria, pouco a pouco, Will faz uma imersão nesse novo universo profissional mas é também catalisado por ele no nível pessoal. Quebra o protocolo em alguns momentos ainda que realize sua tarefa com aptidão e, seu maior rompimento com o protocolo ocorre quando ele se interessa pela viúva de um morto, Olivia Pitterson (Samantha Morton, em excelente atuação e responsável por uma das mais verdadeiras cenas sobre o quanto a guerra afetou o seu casamento e o seu ex marido).







Embora o respeito ao militar morto é mantido, ou seja, Olivia e Will não se envolvem sexualmente (por sinal, muito inteligente porque o roteiro preferiu manter o respeito à instituição do Exército através da dor de uma viúva), eles sentem uma atração irresistível um pelo outro e se aproximam. Essa aproximação é tão contida que acaba se tornando sensual, tem um lado proibitivo que tensiona as cenas entre eles, que deixa a espectativa se o romance vingará ou não nas próximas cenas. O enredo não é baseado nessa nova relação, no entanto, foi a partir desse envolvimento emocional de Will com uma mulher é que ele começa a mudar seu comportamento. Algumas perdas passadas vêem à tona, ausências também e, então, as dores passadas começam a aflorar. Will lembra da ausência dos pais que não lhe deram o amor devido, do distanciamento com Kelly que não poderia esperá-lo para sempre após seu alistamento militar, da dedicação ao Exército que destruiu o seu corpo debilitando sua visão. No outro lado, Tony lembra do desejo de ter um filho, de sentir falta de uma mulher,de sentir-se solitário. De repente, os dois racionais mensageiros se tornam dois seres emotivos, então tal reviravolta valida que Will e Tony são dois homens que, em meio ao drama de ser mensageiro, tiram suas expressões duronas e mostram suas fragilidades. Olivia também representa um importante ponto de vista feminino, o da mulher de um militar. Aquela que vivia sob a demanda das mudanças locais do marido à serviço do exército, a que era deixada para trás quando o marido era chamado à um combate, a que já não reconhecia o próprio marido após a guerra, a que de repente se vê viúva mas já o era há muito tempo, a que agora terá que criar sozinha um filho orfão de pai militar morto em favor de uma Nação. Sem dúvidas, a participação coadjuvante de Samantha Morton em O mensageiro torna o filme muito mais atrativo.





O Mensageiro é mais um drama dos desdobramentos da guerra no homem, no entanto o que o torna um bom filme é exatamente as belas cenas das reações familiares quando elas são avisadas da morte de seus entes queridos e, em especial, como os mensageiros não escapam aos fantasmas da guerra,sejam os deles, sejam os novos fantasmas que os acompanham à medida que eles notificam o falecimento de militares. Não há como escapar da guerra ainda que seja como mensageiro e, por desempenharem um ofício tão ingrato, eles devem ser reconhecidos (o filme não esquece de tal gratidão através da cena com Steve Buscemi).
A tarefa de mensageiro é tão complexa quanto estar na linha de frente de um campo minado e exige razão e emoção. Apesar de15% do filme antes do desfecho começar a perder um pouco do foco em função das extensas sequências em que Will e Tony decidem curtir a vida um pouco mais adoidados (até mesmo para lidar com os fantasmas), em sua estreia na direção, Oren Moverman faz um competente trabalho à serviço da reflexão sobre os dramas de guerra exatamente por servir-se desse equilíbrio razão e emoção para entregar essa produção. A câmera tem o realismo necessário a uma contemplação da dor humana, estando ela na mão ou distanciada, ela ainda é a câmera da notícia fúnebre e dos fantasmas da guerra. A película também vale a pena ser vista pelas atuações e pela oportunidade de se colocar no lugar de mensageiros e famílias. Nenhum familiar precisa estar em uma guerra bélica para recebermos uma má notícia de luto. A guerra cotidiana está aí para todos e só nos resta rogar com fé para que nada de mal aconteça a nós e a nossos queridos.


Avaliação MaDame Lumière


Título original: The Messenger
Origem: EUA
Gênero:
Drama, Guerra
Duração:
105
min
Diretor(a):
Oren Moverman
Roteirista(s): Alessandro Camon, Oren Moverman
Elenco: Ben Foster, Jena Malone, Eamonn Walker, Woody Harrelson, Yaya DaCosta, Portia, Lisa Joyce, Steve Buscemi, Peter Francis James, Samantha Morton, Paul Diomede, Jahmir Duran-Abreau, Gaius Charles, Brendan Sexton III, Brian Adam DeJesus

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Educação (An Education) - 2009

Indicado Oscar 2010 - melhor filme
melhor atriz principal "Carey Mulligan"
melhor roteiro adaptado
Resenha integrante da Maratona Oscar 2010
por MaDame Lumière.
Glamourize-se antes da premiação
com MaDame.

O filme da dinamarquesa Lone Scherfig baseado nos escritos da jornalista Lynn Barber e adaptado por Nick Hornby é um rito de passagem com direito a um processo pedagógico que está além das fronteiras de um currículo tradicional escolar. Educação, um dos 10 filmes indicados ao Oscar 2010 de melhor longa-metragem é uma aula para a audiência, retomando a matéria eletiva que é aprendida fora dos muros de uma escola: a educação da vida. Nesse roteiro, em plena Londres dos anos 60, a inteligente jovem de 16 anos Jenny (Carey Mulligan, atriz britânica indicada ao Oscar de melhor atriz por tal trabalho) se dedica aos estudos religiosamente em uma tradicional escola com o propósito prioritário de ser aprovada no curso de Inglês da Universidade de Oxford. De família modesta, o pai Jack (Alfred Molina, em excelente atuação ) acompanha com afinco a preparação da filha e, sendo um homem machista, não está predisposto a dar nenhum fôlego para Jenny, ou seja, ela tem que ser bem sucedida nos estudos. Por outro lado, Jenny é emancipada como uma lolita aprisionada no tradicionalismo da época. Ela adora música francesa de Juliette Greco, fala francês com fluência, aprecia fumar um cigarrinho às escondidas, planeja visitar Paris e já sabe até a idade que deseja perder a virgindade. Jenny é moderna demais para a época, no entanto, é uma garota comprometida com a família e os estudos e preserva-se obediente perante a sua conservadora vida.








Um belo dia ela encontra um homem muito mais velho que ela, na faixa dos mais de 30 anos, o judeu americano David (Peter Sarsgaard, ótimo), charmoso, carismático, influente e muito experiente a ponto de seduzí-la na medida certa, com toda a gentileza e fascinação que os homens mais maduros exercem. David circula com um casal de amigos muito sedutores: Danny (Dominic Cooper) e Helen (Rosamund Pike) que conhecem o glamouroso prazer da vida noturna e das viagens. Com isso, Jenny é seduzida por essa "alternativa educação do mundo", à propósito, muito mais interessante do que sua vida sem graça. Ele a leva a concerto de música clássica, leilão, restaurante, viagens, enfim, David é o cara (quase) perfeito que, pelo menos, uma vez na vida (ou sempre) toda mulher, jovem ou madura, desejou. Sedutor, impetuosamente um libertário. Além disso, a presença de David ajuda o espectador a entender o relativisimo de algumas condutas machistas advindas de pais como Jack, ou seja, partindo das mentiras boas de lábia de David, Jack começa a soltar a filha pouco a pouco de suas rédeas, afinal David apresenta ser um homem mais velho, bem sucedido e que ganha a confiança de Jack, por que não permití-lo ser tão próximo à filha e levá-la para viajar mesmo que ela perca algumas horas de estudos de latim ? Mais um exemplo de que o que menos importa é o que Jenny acha, Jack, como todo pai , também tem que achar algo. Nesse aspecto, embora filmes com enfoques distintos, Educação revisita a educadora faceta feminista em uma sociedade machista como O Sorriso de Monalisa. Jenny também é a aluna inteligente de notas excepcionais e futuro brilhante, a diferença entre estes filmes é que ela não sonha em ser dona de casa e nem casar com um homem rico, ainda que essa opção venha a surgir-lhe.






"Sob o céu de Paris...
A felicidade se constrói
sob um céu feito para eles"
(Soul le ciel de Paris)


A partir desse contexto, Jenny se apaixona pelo playboy David, ele a inicia sexualmente e ela amadurece o suficiente para questionar mais ainda se o que ela deseja é seguir o caminho de Oxford ou levar um estilo de vida que não priorize escolhas tradicionais e previamente planejadas. Essa educação mais complexa e os seus desdobramentos no ritual de passagem de Jenny é o mote do longa metragem e, por ser uma educação tão essencial a qualquer jovem, ou seja, "vivenciar a vida fora da escola e sofrer os sabores e dissabores dessa experiência" é que Educação consegue ser um filme com um atemporal e contemporâneo apelo, em especial, porque não se prende a carregar levianamente o envolvimento de Jenny e David com taras sexuais entre um homem mais velho e uma jovem garota (com exceção de duas cenas ridículas nos quais David a chama de um personagem infantil e ainda coloca uma banana no meio de um diálogo. Confesso que odiei essas cenas de mau gosto, a primeira mais parecia uma insinuação pedófila que, provavelmente, causará controvérsias nos mais tradicionais). Ainda assim, Educação consegue equilibrar iniciação, paixão, ilusão, desilusão e amadurecimento até mesmo nos assuntos do coração e, no transcorrer do filme, vemos que existem vários Davids por aí (que algumas mulheres já tiveram o prazer e o desprazer de conhecê-los, por isso o filme também não deixa de ser um alerta às ingênuas garotas). Jenny tem alguns embates clássicos com o seu pai, a professora Stubbs (Olivia Williams) e a diretora da escola (Emma Thompson, em curta mas ótima performance) e, de alguma forma, este choque não é nada diferente daqueles momentos questionadores que todo jovem tem(e até mesmo adulto) que deseja uma vida mais independente. Jenny quer viver a vida dela da forma mais sincera possível. É um direito dela. Logo por mais que terceiros opinem contra ou a favor, o processo de amadurecimento em Educação a partir do envolvimento com David será fundamental para que ela reveja o paralelismo entre a educação escolar e familiar e a educação vivida fora da escola e da porta de casa, e assim, tome as decisões que melhor lhe pareçam.








Educação é um filme muito bem concebido para ser um reflexo da educação que recebemos em diversos momentos da nossa vida fora do currículo escolar. Todos os dias, à medida que amadurecemos, percebemos que determinado contexto já não se encaixa mais nos nossos anseios e muito menos em nossos revisitados perfis. De alguma forma, Jenny representa esse embate. Valorizar as escolhas mais tradicionais e cômodas, e ao mesmo tempo, ousar ter uma vida intensamente vivida, ser como uma borboleta ou uma águia e fugir das convenções que aprisionam. Esse processo nunca foi fácil, mas Educação torna-o tão belo que é impossível não apreciar a película. Nesse aspecto, Caren Mulligan está excepcionalmente luminosa na sua interpretação e, apesar da sua falta de experiência no Cinema, está bem melhor que Sandra Bullock, a favorita atriz ao Oscar por Um Sonho Possível. Mulligan ficou melhor ainda com o figurino belíssimo de uma Audrey Hepburn moderna e embalada por uma trilha sonora de canções maravilhosas (quando Juliette Greco canta Sous le ciel de Paris, o momento é tão precioso lembrando até mesmo minha querida Piaf e, a charmosa You've got me wrapped around your little finger com Beth Rowley, tão apaixonante que até eu me jogaria nos braços do bonitão David). Pois é, Mulligan consegue evoluir visualmente e interpretativamente na personagem e dar-lhe vida própria no processo educativo com um misto de dócil fragilidade com inteligência e madurez. É tipicamente aquela jovem garota responsável que sempre foi brilhante nos estudos, mas tem um senso de liberdade, de escapismo que é ressonante na vida de muitas pessoas, principalmente na vida das mulheres, por isso o filme tem uma abordagem feminista. Eu mesma sou uma delas, por isso, o filme me foi eficaz porque é tentando viver a vida apaixonadamente que se vive mesmo com o risco de quebrar a cara. Confesso que, desde o trailer até a exibição da película, eu me vi em Jenny não por ter passado pela situação dela, mas porque tive outros ritos de passagem inesquecíveis nos quais havia um embate clássico entre a tradição e a inovação, entre ser presa ao chão e ter asas para voar em um céu infinito de novas possibilidades. Com a maturidade, percebi que esse processo é enriquecedor e nunca será fácil porque exige coragem e é doloroso. Há sempre que encontrar um equilíbrio sensato em nossas escolhas. É bom ser libertário(a) mas também é bom sentir-se abraçado(a) pelo cálido calor de uma zona de conforto. Educar-se nesse processo é preciso... para encontrar a nós mesmos, nossos sonhos e conquistas.


Avaliação MaDame Lumière




"You got me wrapped around your little finger
if this is Love, it's everything I hoped it would be
You got me wrapped arond your little finger
You will see, by my words just how much you mean to be"
(You got me wrapped around your little finger, Beth Rowley)

Ouça algumas músicas da
linda trilha sonora
de Educação



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Título original:
An Education
Origem: Inglaterra
Gênero:
Drama
Duração:
95
min
Diretor(a):
Lone Scherfig
Roteirista(s): Lynn Barber, Nick Hornby
Elenco: Carey Mulligan, Olivia Williams, Alfred Molina, Cara Seymour, William Melling, Connor Catchpole, Matthew Beard, Peter Sarsgaard, Amanda Fairbank-Hynes, Ellie Kendrick, Dominic Cooper, Rosamund Pike, Nick Sampson, Kate Duchêne, Bel Parker

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O Lobisomem (The Wolfman) - 2010



Os lobisomens estão de volta, para competir ou não com a moda febril dos vampiros, eles estão aí para aterrorizar as telas de cinema, e para o delírio dos míticos românticos, eles se apaixonam também. Jakob (Taylor Lautner), o lobisomem da Saga Crepúsculo conquistou fãs em todo o mundo e entrou no triângulo amoroso entre ele, a humana Bella Swan (Kristen Stewart) e o vampiro Edward Cullen (Robert Pattinson). Dessa vez, o diretor Joe Johnston (de Jurassic Park III e IV) coloca o seu talento como diretor e experiência em efeitos visuais na nova sensação do momento, Wolfman, o Lobisomen encarnado na pele do misterioso e viril Lawrence Talbot (Benício del Toro, excelente) que, para tornar o drama mais interessante, se apaixona pela sua ex-cunhada a bela Gwen Conliffe (Emily Blunt, elegantemente dócil). Do contrário do apelo romântico e adolescente do lobisomen protagonista de Lua Nova, Wolfman só usa essa paixão como um complemento do drama sem, infelizmente, explorá-lo a fundo.







Ambientado na Inglaterra Vitoriana, esse remake do clássico de 1941, aborda a história de Lawrence Talbot, um ator de teatro que mora na América e retorna à sua terra natal após receber uma carta de Gwen informando-lhe que o seu irmão Ben Talbot foi assassinato brutalmente por uma misteriosa criatura. Ao chegar à casa, reencontra o seu pai Sir John Talbot (Anthony Hopkins, sempre ótimo) com o qual teve problemas antes de sair de casa e também conhece pessoalmente a gentil e bela Gwen, pela qual sente uma ainda discreta atração. O assassinato de Ben causa uma repercussão na cidade amendontrada que especula que essa criatura seja um homem amaldiçoado ou uma besta das trevas. Mediante esse cenário, Lawrence busca investigar quem matou o irmão, no entanto durante um letal ataque a um acampamento cigano, acaba sendo ferido pela fera, a partir de então, vê as transformações ocorrendo em seus sentidos e corpo. Toda lua cheia ele vira Lobisomen, tornando-se a presa principal da cidade que tem como detetive, Aberline interpretado pelo brilhante Hugo Weaving (de Matrix).







O roteiro em si não faz nada diferente de propor o horror e o poder mortal da fera, logo na sombria e misteriosa Inglaterra dos casarões, tabernas e florestas escuras, o lobisomem faz a festa arracando as carnes humanas sem qualquer requinte. É um ser brutal e infeliz por natureza que não pode mudar o seu destino e nem controlar a sua sede por uma coletiva carnificina, por isso a história de Lawrence Talbot traz uma dramaticidade muito mais triste porque ele não pode ter uma história de vida futura e nem desenvolver a sua relação afetiva com Gwen, além disso ele passará por provações que atingem sua sanidade e sua relação com o pai. Nisso reside a limitação da película, a limitação dada pela própria maldição de Lawrence. Benício del Toro o interpreta muito bem e, de imediato, tem uma empatia com esse papel porque é naturalmente misterioso e rústico e de uma masculinidade que expressa força de caráter. Vê-lo se transmutando em Lobisomem é bem mais verossímil do que se fosse com outros atores, por isso é tão loucamente sedutor ver essa aberração cinematográfica. Já Anthony Hopkins interpreta a ele mesmo, com excelência. Um Senhor de fala marcante, madura e, em alguns momentos do filme, insana e sem nenhum tipo de arrependimento, consequentemente, ele e Benício del Toro fazem de O Lobisomem um filme bem mais apreciável e, somente é lamentável que esses diálogos não sejam mais ímpares e alavancados pelo formidável talento desses atores negligenciados por conta de um texto deficiente. Emily Blunt está educadíssima, de terna doçura e beleza em cada cena, então seu papel é muito mais útil na representação da mulher porque ela desempenha um papel não preconceituoso com relação a Lawrence, ela o apoia em um momento de fuga e solidão, ela o ama de alguma forma e, melhor, em um dado momento, ela é uma corajosa mulher que faz uma difícil escolha.








O Lobisomem tem polarizado muitas opiniões e tal situação é compreensível. Para os fanáticos por Lobisomens este filme poderá causar muito afeto ou desafeto porque, ao mesmo tempo, que os mais tolerantes podem se satisfazer com alguns sustos, ruivos e tripas humanas, outros poderão sentir falta de um horror mais aterrorizante, mais realista em um roteiro mais inteligente e complexo. Na minha opinião, a
pesar de não aterrorizar ao extremo, não pelas mortes sanguinárias em si mas pela atmosfera do filme ainda precária em termos de terror e suspense, O Lobisomem ainda merece ser visto pelo elenco e pelo cenário, em termos técnicos, e pela situação sem saída desta figura lendária. É evidente que não há um enredo ultra elaborado que desenvolva profundamente as personagens a nível mais psíquico e também o relacionamento entre eles porque uma parte do filme é exatamente compreender a maldição dos Talbot em sua superficialidade, logo o mote da maldição é mais reflexivo fora da película e exige uma lição de casa por parte do espectador sobre o conflito de um homem lobo, sobre seu infeliz fardo. Basta lembrar de amaldiçoados como Dr. Jekyll e Mr. Hyde (O médico e o monstro) que também podem ser encarados como um mito de lobisomem, e pensar na problemática de quem é o homem por trás da fera, quem domina mais quem, quem determina quem é quem... o homem ou o monstro? Aguarde a próxima lua cheia para descobrir...


Avaliação MaDame Lumière


Título original: The Wolfman
Origem: Inglaterra, EUA
Gênero:
Horror, Terror, Suspense
Duração:
102
min
Diretor(a):
Joe Johnston
Roteirista(s): Andrew Kevin Walker, David Self, Curt Siodmak
Elenco: Emily Blunt, Benicio Del Toro, Anthony Hopkins, Hugo Weaving, Geraldine Chaplin, Elizabeth Croft, Art Malik, David Schofield, Branko Tomovic, David Sterne, Sam Hazeldine, Olga Fedori, Emily Parr, Michael Cronin, Richard James